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Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer."
J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo





Happy Birthday, James Joyce

O aniversário é de Joyce. O dia, de Iemanjá. O presente, pouco modesto, vai pra vocês, e é de coração: um trecho de O Gozo de Ulysses:

35. A bênção, padrinho
:BURGESS:COLETOR DE INJUSTIÇAS:SEREIAS:

Quem ouve desde menino/ Aprende a acreditar/ Que o vento sopra o destino/ Pelos caminhos do mar.
Dorival Caymmi

Com seu canto e encanto, canta e encanta a sereia ao longe. Ou seria melhor: canta com encanto a sereia e, ao longe, seu canto encanta. Eu é que não sou besta de parar pra escutar. Ops. De não parar. De não escutar: o canto (des)encantado de Bloom, em forma canônica de fuga – “As Sereias”, décimo primeiro episódio de Ulisses.
“Começo a escrever este livro em 13 de janeiro, aniversário de morte de Joyce em 1941” – nos conta Anthony Burgess em Homem Comum Enfim [Here Comes Everybody], seu livro sobre o escritor irlandês, publicado no Brasil em 1994 pela Companhia das Letras e já fora de catálogo – “e espero terminá-lo no Bloomsday, em 16 de junho”. Não chego a tanto. Comecei a escrever este livro sobre o Ulisses de James Joyce – mais um entre tantos que já existem, é isso mesmo – no início do ano, e a sereia me pegou de jeito: de tão fascinada me afundo cada vez mais no assunto e não vejo a saída, nem faço questão de ver; não quero me limitar com datas. E nem fugir do que não dá pra negar, desde o primeiro instante da leitura, sei lá por que mania de magia (ou de numerologia).
Procurei, sem sucesso, alguma coincidência que conectasse a imponente vida inteira de Joyce a este breve momento meu: o centenário do Bloomsday já havia passado e os cem anos de Joyce, também. Mesmo a marca judaica sagrada dos 120 anos ficou para trás, enquanto o sesquicentenário ou o centenário da morte ainda estão bem longe, não dá pra esperar. Mas o que eu não sabia, e fico sabendo por Burgess, é que “a solenização de datas era natural em Joyce e contagia seus admiradores”, ah, bom (incluídos seus editores, que escolheram o aniversário dele para publicar Ulisses e Finnegans Wake). Finalmente, encontro alguma coisa: o encontro amoroso entre Alan e eu – retratado em meu romance Hierosgamos – acontece em 2004, justamente no centenário do primeiro e ardoroso contato sexual de James Joyce e Nora Barnacle, em Dublin, no Bloomsday original – 16 de junho de 1904 –, data que Joyce eternizou em Ulisses.

***

Dia 2 de fevereiro de 2008: dia de festa no mar, eu quero ser a primeira a saudar Iemanjá. E ao celebrar a obra oceânica de Joyce, vamos combinar: cai bem melhor esse encanto marítimo de deusa do que a esquisitíssima tradição nortista, isto é, de certos países no hemisfério norte – uma marmota preguiçosa saindo do buraco em busca da própria sombra (de acordo com Burgess: um consolo bem joyciano para os rigores do inverno).
Dia 2 de fevereiro de 1882: nesse dia, há exatos 126 anos, encarnava na terra – mais precisamente: no subúrbio dublinense de Rathgar, três quilômetros ao sul do centro da cidade, província de Leinster, Irlanda – o futuro escritor James Augustine Aloysius Joyce, pai, mãe e espírito santo da literatura moderna. Agora. O que eu já não sei bem é se, como inspiração literária, Joyce é pai ou é padrasto, taí uma grande verdade: se comparar, quem há de? Difícil mesmo é ficar indiferente ao nosso universal James Joyce, possante Poseidon, possuído de literatura.

***

Num mesmo Joyce convivem muitos Joyces: há o Joyce enigmático; há o Joyce político, o Joyce obsceno; há o Joyce cômico, o Joyce linguista, o Joyce erudito; mas há, acima de tudo, um Joyce que retrata o homem comum e seu fluxo contínuo de consciência.
Joyce foi pioneiro em tudo, rompeu com todas as regras. E, como uma matrix de estilo, se encontra de tal maneira ancorado no inconsciente cultural coletivo, que, mesmo sendo raramente lido, espalha seus tentáculos pela literatura contemporânea.
É “uma espécie de poeta-prosista e, por isso, um impostor”, como afirma Burgess. Foge ao senso comum, corrompendo a noção generalizada de que é um erro pretender, num romance, fazer literatura: em sua linguagem direta, e sempre transparente, o manjado romance popular – do tipo que engorda hoje em dia a prateleira de best-sellers – consagra o culto do enredo e do personagem.
Em Joyce, não: escrita é música, a língua feita de ritmo, símbolo e ironia. Sua trama é de tal forma rica que se estende por várias camadas superpostas de texto, surpreendendo até hoje seus leitores e intérpretes com intermináveis significados ocultos. Vejam, por exemplo, o que disse o Joyce de Finnegans Wake a um amigo enquanto escrevia o livro, ao referir-se à produção de um único dia, sim, havia alcançado muito: completara duas frases – de tal forma carregadas de significado e cuja ordem exata das palavras era de tal importância, que haviam consumido um dia inteiro de trabalho.
Leio James Joyce como uma espécie de remédio, amargo-porém-eficaz na formação de qualquer escritor, mas, gente, o que é que estou dizendo? Não é nada disso! Seu Ulisses é, isso sim, uma revelação, um deslumbramento, diversão incomparável e um mundo inteiramente novo desde a primeira página. Pra você que não me acredita: nada melhor para homenageá-lo, neste dia de aniversário, do que tomar hoje mesmo a (tardia) decisão de lê-lo.

Saravá, meu pai.

*** 

Agora eu: compre o meu Ulysses, vai. Joyce vai gostar. Garanto.

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Sem medo de ser feliz

Pra vocês pode até parecer uma chatice, mas que foi um instigante começo passar o ano novo na cama, bebendo uma misteriosamente boa champanhe nacional — ops, espumante — de pretensioso rótulo em francês que atende pelo nome "Club de Sommeliers" (só para referências futuras, aniversários e demais celebrações, e que descubro na internet: é produção exclusiva do Pão de Açucar), comendo as cerejas mais suculentas e mais baratas dos últimos anos, com uma ou outra chuva de prata ocasional — ops, redundância — explodindo num silvo agudo lá fora, ao alcance de nossa vista distraída sobre os travesseiros, ufa, e assistindo no Telecine Cult* a um canastríssimo Tom Cruise de perucas variadas mudando gradual e radicalmente, ao longo de sua dolorosa vida de veterano inválido do Vietnã, suas opiniões políticas, ah, isso foi, melhor mudar de frase agora, de frase e de parágrafo, claro, que esta já foi longe demais, não é mesmo? Ufa. Sem danos esta noite.

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Ainda um diário de leitura

I


Joyce escreveu assim: "He fingered shreds of hair, her maidenhair, her mermaid’s, into the bowl. Chips. Shreds. Musing. Mute."

Eu traduzi assim: "Com os dedos ele tocou fiapos de fumo, fios de avenca, cabelos de donzela, dela, sereia, dentro da taça. Lascas. Fiapos. Ensimesmado. Mudo."

E Bernardina Pinheiro assim: "Ele colocou com os dedos dentro da tigela fiapos de cabelo, do cabelodemoça dela, de sereia dela. Lascas. Fiapos. Refletindo. Mudo."

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Fita amarela

(ainda Zé Rodrix)

"The time of lying together will come and the wildering of the nicht till cockeedoodle aubens Aurore."
James Joyce, Finnegans Wake, 2:8 244.33



de Zé Rodrix, em seu autonecrológio escrito em junho de 2004: "Morrer num Sabado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguém: eis a perfeição que desejo na minha morte."

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Porcos voadores

ou... nem só de Joyce vive o intraduzível

Swine flu when pigs had wings.
Alan Sklar


Está no Los Angeles Times, num — bastante inadequado ao fatalismo vigente — rasgo otimista: "especialistas parecem estar chegando à conclusão de que, em sua forma corrente, o vírus H1N1..." — cumpre esclarecer, responsável virótico pela gripe suína, assim oficial e eufemisticamente renomeado para preservar o florescente comércio da magra carne branca dos criadores de porcos, após tanto e tão caro sacrifício finalmente libertos do estigma kosher, reflitam, estúpidos: será que é mesmo a economia? Vai que Deus castiga.

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O ovo e a serpente

Quem ama o feio bonito lhe parece, ou... a beleza está nos olhos de quem, etc., etc.
Provérbio popular, mais ou menos isso


Meu marido Alan, um sujeito muito inteligente que fala e pesquisa bem mais do que faz e acontece — o que para mim, vamos combinar, é mais do que conveniente: não faz sombra ao meu brilho incipiente e ainda contribui com uns temas a mais —, vive me dizendo que o que ele diz (ui!) já está publicado, prova de quê eu nem sei, por que é que eu haveria de querer que o que escrevo fosse publicado antes mesmo que eu mesma o publicasse?

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Heureca!

Curioso que lendo finalmente aquele longo perfil de Ian MacEwan na New Yorker que linkei aqui faz tempo, casa de ferreiro, eu sei, mas vamos combinar: ler online é incômodo à beça, é não é? Por que outro motivo eu daria de graça meus livros a tapa? Hein? Finalmente imprimi pra ler. É isso aí. Passei o dia pra cima e pra baixo com McEwan ao alcance da vista, na esteira, na sala, na cama, em formato de livro bem aí por volta de umas 30 páginas interessantíssimas.

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Primeira mão

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(ainda há correções de texto, mas bem, hum, me antecipei: ansiosa desde criancinha.)

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Uma luz em agosto

James Joyce foi um dos homens mais importantes do meu tempo. Ele foi eletrocutado pelo fogo divino.
William Faulkner


...imaginem, ainda estamos em março, mas é o verão daqui enquanto agosto é o verão de lá: aqui como lá a luz arrebenta, choca-se firme ao irradiar a insensatez humana, mas bem, não é desta luz exatamente que estou falando.
Hoje, aliás, é meu dia de arquiteta, não de cronista, e por isso me limito a um parágrafo curto. Vai ser colocado o teto na minha obra (ops, casa) e estou preocupada e tenho que estar lá cedo para documentar e fiscalizar o serviço.
Mas não poderia deixar de mencionar que li ontem à noite o capítulo sobre a infância de Joe Christmas em Luz em Agosto: descontando Joyce — cuja influência sobre Faulkner, aliás, é explícita neste livro, um herdeiro moral de Joyce, digamos, que logo de cara teve o seu caminho aberto pela ousadia do outro, deu muito certo e se levou muito a sério —, é das melhores coisas que já li na vida, não conseguia parar.
Sobre James Joyce, aliás, Faulkner declarou que nunca o tinha lido, será? Pode ser: "às vezes eu penso que existe uma espécie de pólen de ideias flutuando no ar, que fertiliza similarmente as mentes aqui e lá que não tiveram contato direto", mesmo em minha ignorância do que vem a ser a grande literatura eu entendo isso. Entendo bem, "Há certamente um caldo de cultura que nos engolfa e alimenta, um líquido amniótico do fato artístico onde quem faz arte flutua, eu, pelo menos, e enquanto escrevo: fluo no fluxo da consciência de Joyce, do feito falado de Ulysses", ah, tudo bem, eu também nunca tinha lido Faulkner até agora, vocês sabem, eu nem fazia ideia.
É desta luz. Faça-se. Nos ilumine.

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Sylvia Plath: glossário de palavras ausentes

Sylvia PlathTendo mergulhado com vontade no realismo sessentista de The Bell Jar, confesso que me decepcionei ao final: acho que faltou a Sylvia Plath a coragem de dar os devidos nomes a certos vilipendiados bois, e isso, imaginem, 40 anos depois de ter sido publicado o espantoso Ulysses de James Joyce.
Explico: tendo enfim identificado, sem sombra de dúvida, a fonte de seus neuróticos tormentos na obrigação de encontrar marido, e mais, de se manter virgem até o (único?) casamento, no descompasso gritante entre a liberdade sexual dos rapazes e o confinamento moral das moças, e, mais ainda, mas não ao menos, na incipiente cultura pós-familiar vigente que, timida e disfarçadamente, começa a incluir no cotidiano da gente a maior liberdade amorosa proporcionada pelo controle da natalidade, ufa, tell me about it, enlouquece entre nós qualquer uma — e às mais sensíveis, tá certo, restava somente o aprisionamento: físico e mental —, Sylvia Plath se retira covardemente ao pântano literário dos males ficcionais maldefinidos, entre outros: um doloroso e mal explicado defloramento forçado (por ela própria, fique bem entendido) e uma eufêmica visita médica que resulta, imaginem, num prosaico e nem assim nomeado diafragma. Nada, nadinha, sobre a ultrajante vagina latejante.

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Father Sam*


"It's not about helping banks. It's about helping people."
Barack Obama em seu primeiro discurso no Congresso


Traz um approach diferente mas que eu entendo muito bem o artigo de Thomas Friedman "Paging Uncle Sam": o que seria do mundo se a liderança americana enfraquecesse? Ou, pior, desaparecesse? Em tour pela Ásia, Friedman escuta o medo e a perplexidade na voz de seus entrevistados quando o tema da conversa é a grave crise econômica que atravessamos: "Será que os americanos não sabem o que estão fazendo? Ou, se sabem, não está resultando?"
Pois é. Enquanto os poderosos Estados Unidos da América mantém a família humana caminhando, todo o resto do mundo, vamos combinar, parece estar na adolescência: refugiam-se por trás de um "Não Perturbe" em seus fones de ouvido, revoltam-se contra os pais, não querem saber de conselho ou disciplina, mas quando falta a mesada... ou aquele tênis novo... e pior: quando aquele oficial de justiça bate na porta pra cobrar o penhor da casa... Já viu (ih: papai se ferrou).
De um jeito ou de outro quando abre a boca, apesar da aparente juventude, Barack Obama soa sempre como um pai generoso, magnânimo e dono da verdade, calma, gente, dono da verdade no bom sentido, claro: se ele sabe das coisas não sei, mas que sempre consegue dizê-las certas e ainda por cima enumerá-las todas na ordem e peso corretos, sem dourar nem demais nem de menos o amargor da pílula... é fato. Um salomão, esse cara.

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Pronomite

Nada é igual a ele e eu.
apud Caetano Veloso, in "Ela e eu"


Alan vive tentando arranjar um jeito de me explicar como dominar a fera indomada do idioma inglês, esse vasto amontoado de línguas antigas misturadas modernizado na marra, na tentativa e erro, no violento ringue popular das trocas verbais diárias. Não consegue. O inglês abomina os estrangeiros, vocês sabem, há que aprendê-lo desde os cueiros pra poder engolir no susto aquelas regras todas que confirmam as exceções, francamente. Até o chinês, com seus quarenta e sete mil e cacetadas caracteres elaborados, perde, põe babelfish nisso.

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Breve nota sobre Lobo Antunes

Os aficionados que me perdoem, sim, devo insistir: ainda estou na página 30/246. Mas já deu pra perceber que o preciosista António Lobo Antunes, "o romancista português mais importante depois de Eça de Queirós", ah, tudo bem, nunca li Eça também, e mais, um favorito do meu querido Sérgio Rodrigues, abusa da sua cota de comparações e figuras de linguagem.

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Yankees e yahoos: a última melhor esperança da terra

do alto de seu trono de mármore, 200 anos de Abraham Lincoln nos contemplam
And the tragedy of it is, says the citizen, they believe it. The unfortunate yahoos believe it.
James Joyce, Ulysses

Gente. Agora que moro no mato e não leio mais O Globo estou tão por fora dos acontecimentos diários que nem reparei que o horário de verão tinha terminado ontem. Rápido, não?
Bem. De um jeito ou de outro, continua funcionando aquele desconhecido e raramente reconhecido mecanismo intuitivo que prova, até prova em contrário, que tudo que a gente precisa saber de verdade cai no colo da gente, mais cedo ou mais tarde. A questão do horário, por exemplo, descobri num email de TC, minha supereditora.
Mas há outras (coisas) — detalhes pequenos de nós todos que definem o mundo — que é preciso cuidar pra não deixar passar, que é preciso tecer entranhadas na trama intricada que cria o futuro. Como, por exemplo, o discurso de Obama no aniversário de Lincoln que quase perdi, mas acabei de conferir no santo youtube, aqui e aqui, imagem pra toda memória. Valeu a pena. Sutilmente inserido lá pelo meio do texto bem-humorado, idealista, apenas levemente (auto?)laudatório (ele bem que merece) de Abraham Barack (do hebraico: pai do povo abençoado), repousava a ainda não descoberta, ainda não propagada chave mestra da novidade, o código genético da mudança prometida pela Era Obama:

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JJ 127, Ulysses 87

"Noga, o aniversário não é seu, mas é como se fosse. Estou comemorando como seu, mandando um email às 2h02m22s", escreveu amorosa a madrugadora TC, minha supereditora e companheira fragorosa de obsessões. Faltou acrescentar: segunda, 2/02 (são sete vezes o número "dois", pode conferir aí).
JJ 127, Ulysses 87, tudo somado dá 7: número Mestre, ou melhor: do Mistério.

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Aleluia, irmão



Para Jefferson, na Declaração de Independência, mudando as palavras "vida, liberdade e a busca da propriedade" para "a busca da felicidade". Felicidade!
E para os sapatos do homem no papel de Jefferson, no Museu da História Americana, que falou tão confiante. Confiança.

Hum. Gostei disso. Tem até uma sutil referência a Joyce, vai lá e vê se você encontra, afinal, James Joyce não poderia faltar num mundo onde se tenta recuperar a alegre emoção de viver, a busca da felicidade como opção consciente à busca da propriedade. Ai. Alívio. Isso, pra nem mencionar a confiança, um capital essencial e muito em falta ultimamente. Confere , no blog ilustrado de Maira Kalman, legal mesmo.

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Marido de escritora sofre

"Pô: sempre esqueço o maldito caderninho e quando lembro, esqueço a caneta, 'engoliu lábios vagos de ar', engolfou. Melhor assim, decorado o decoro da mente, shsh, discreto e quieto, descaradamente, pois se deparar-se com quem, babau: reverte rápido o rumo da rima."
Noga Lubicz Sklar em Língua (os múltiplos gozos de Ulysses)


Difícil agradar escritora que tem tudo, e para o que não tem — jóias caras, vestido chique, sapato, bolsa de grife — nem liga... É, gente. Marido dedicado rala pra encontrar presente. Mas o pobre do Alan este ano até se saiu muito bem (e ainda por cima manteve o segredo!), confiram:

Minha caneta de aniversário
Pra autografar em breve muitas "Línguas" pra vocês, com a bênção do paizinho Joyce. Amém.

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Diálogo (uma prévia de futuro post)

From (and to): Noga Lubicz Sklar
To (and from): TC
Sent (and received): Monday, January 19, 2009
Subject: Condolênscias

Noga diz: "ô, TC, essa não deu pra segurar, vc pensou que eu ia soletrar errado assim, c-o-n-d-o-l-ê-n-s-c-i-a-s???!!!!????? essa nem bêbada nem drogada nem hipnotizada, bem, aí talvez... o título errado é uma ironia à ignorância de Molly Bloom, que ecoa mais tarde no texto, viu? rsrs."

réplica de TC: "Mas que tava errado, tava. Eu não estou adivinhando que o erro é proposital. Abs."

tréplica de Noga: "eu sei, eu sei, vc não tem culpa. foi por isso que agora botei o "condolênscias" entre aspas no corpo do texto, rsrs. (eu ri muito explicando pro Alan que vc bem que tem razão, pq os livros aqui no Brasil são tão mal revisados, mas tão mal revisados, que arrisca todo mundo achar que o erro passou, mesmo, rsrs: pegava mal pra vc.)"

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No apagar das luzes

"...Agora. Não se espantem mais com nada porque eu? Não me espanto mais.

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O sonho e o sonho de Leopold Bloom
(crônica de uma despedida sentida)

"Outro dia subi a serra e fui a Petrópolis, fui fazer uma coisa de que sempre gostei: ver a cidade de cima, o Rio todo através daquela bruma bonita..."
Dorival Caymmi - 1914/2008


No carnaval passado, quando tudo isso ainda não passava de um vago desejo, pleno plano mirabolante de futuro, eu disse em silêncio pra mim mesma, num franco e meio medroso tom de profético delírio: este é meu último verão aqui no Rio.

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Happy Bloomsday



"... ela deslizou a mão para dentro das calças dele sem que ele pedisse, agarrou na mão dela o aparato sexual dele e muito lentamente, sem dúvida prazerosamente, o masturbou até o orgasmo, sem desviar dos dele seus olhos calmos, de quase-santa", escreve o jornalista irlandês Stan Gebler Davies em "James Joyce - retrato do artista"'. E Paddy McGuiness, respeitável editor australiano conservador (não confundir com o homônimo e crasso comediante inglês), o cita de passagem em artigo de 2004, publicado na véspera do centenário do "dia de Bloom": "A história real foi escrita por Joyce em uma de suas cartas, e foi isso que J.J. celebrou em seu livro incrível, e é isso que vem sendo celebrado há vários anos pelo estranho conjunto de acadêmicos, literatos e produtores de literatura que organiza o Bloomsday. Em uma palavra: celebram uma punheta. E o mesmo termo pode ser aplicado à maioria das atividades que acontecerão amanhã" [hoje].

das Crônicas Irônicas de Ulysses

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O fazer literário

Gente. Parece incrível. São mais de quatro meses texto adentro nessa aventura da língua, e ainda acordo no meio da noite lembrando de algo que pode, precisa ser melhorado, aí, a noite passada dormindo acordada, entre um sonho e outro, buscando a solução ideal num contexto que assume, num único assomo, ritmo, rima, rumo, ramo e arrimo. Coisa mais fora de moda.

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Condolênscias

Judeu não faz velório mas também não enterra morto em pé, como muita gente pensa. Levaram o morto numa kombi guardado numa caixa. Passou a noite sozinho, num quarto escuro do cemitério depois de lavado, vestido e enrolado em seu xaile de orações, aguardando o funeral do dia seguinte. Morreu domingo, às nove da manhã, para não incomodar ninguém. Nem foi preciso acordar mais cedo.

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Mestres x discípulo(a)

Bem que eu queria intitular esta crônica ou, vá lá, post, bem assim: "o dia em que eu tive a certeza de que sou lida por Mestre Joaquim". Mas parei a tempo. Afinal, além de longo e de ir contras as regras da boa literatura existe o sério risco de tal título não passar de uma grande mentira, quem garante, não é mesmo?

Hoje, nas Crônicas de Ulysses: Tudo dá certo no final. No final de Circe, pelo menos, deu. E mais: Nas entrelinhas, Pais & filhos

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Uichiquibeijmaijpuunapuuhuc!

Este episódio Circe do Ulysses é tão complexo que dá pra ver nele como Joyce se enrolou. É muito interessante: a dimensão do impacto criativo do artista retém o seu frescor nas loucuras do texto.
Tenho aqui em casa, vocês sabem, quatro versões principais do livro (fora capítulos esparsos na web e milhares de anotações): duas em inglês (uma impressa e uma em pdf) e duas em português, sendo a do Houaiss impressa e em pdf, o que facilita as idas e vindas, a busca de palavras através do texto, ocorrências repetidas e, agora em Circe, discrepâncias entre elas, ou vocês pensavam que eu guardava tudo isso na cuca? Ho ho ho, gente, assim nem Joyce.

Ainda hoje, nas Crônicas: 98 beijos, Maçonaria

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O fim do mundo segundo Arnaldo Jabor



"Daqui a uns dez anos", afirma no Megazine a jovem atriz argentina Inés Efron, "me imagino vivendo no campo, apaixonada." Eu também, Inés, isto é, vivendo no campo, porque apaixonada na minha idade eu já não sei, bem, nunca se sabe. E muito menos se o nosso mundo insano resistirá a mais dez anos.

Hoje, nas Crônicas de Ulysses: Alimentando o Cérbero

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Sabedoria de robô

Das Crônicas de Ulysses: "... Jorn Barger, um barbudo maluco de Ohio da geração de 1950 e, acreditem, inventor do termo "weblog" que, todo mundo sabe, resultou no moderno "blog".

E mais, nas Crônicas hoje, imperdível, vai lá: Terra de leite e aluguel

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A arte ingrata da medicina

"...inseminação artificial por meio de seringas, involução do útero como conseqüência da menopausa, o problema da perpretação das espécies no caso de fêmeas impregnadas por estupro delinqüente, a perturbadora técnica de parto intitulada Sturzgeburt* pelos Brandemburgos, os eventos registrados de nascituros monstruosos multiseminais geminados concebidos durante o perído catamênico ou de pais consangüíneos — numa palavra todos os casos de natividade humana que Aristóteles classificou em sua obra-prima com ilustrações cromolitográficas."
O Gado do Sol - Ulysses, de James Joyce



Eu entendo a tensão permanente no exercício de uma profissão crucial, que oscila entre o conhecimento tecnológico e a ignorância do que realmente move a máquina humana, desafiada todo dia por novas descobertas e pela derrubada de arraigadas certezas antigas.

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Literatura líquida

"Amar um escritor é amar que ele escreva. Não importa o quê, importa que não pare."
Dorine Gorz


Viver anda muito complicado. Verdade. Deve ser por isso que decidi me refugiar na literatura. Lá, mesmo o real, o francamente autobiográfico, é claramente inventado, ou não seríamos nós nada mais que a invenção cotidiana de nós mesmos, o amor incluído: reinventados a cada dia que amanhece.

Nas Crônicas de Ulysses: Glossário III: plump

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Filho atentado

Pois é, gente. Chegamos finalmente à tão esperada falta de assunto aqui no Noga Bloga, ao momento síndrome-do-ninho-vazio da vez. Imaginem que eu, hoje de manhã, soltei o verbo todo nas Crônicas de Ulysses e pra nós aqui pobres mortais não sobrou nadinha, um caso típico de filho que supera o pai, coisas normais da vida. Confere lá: Evoé.

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Vergonha de quê?

"Jim, how beautiful you are!"
de Nora Barnacle a James Joyce, morto, pelo visor do esquife


Que por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, todo mundo sabe. Mas por trás de uma grande mulher, existe o quê? Um homem pequeno? Um ego masculino domado? Amansado, sim, mas a pão-de-ló, cama, cozinha e roupa lavada, café da manhã na cama. Pequeno? Talvez. Mas, certamente, raro. Nem sempre paciente.

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Bloom e eu

Ufa. Depois da batalha cívico-religiosa na taverna do Barney Kiernan, Bloom não consegue continuar — de Burgess: "o confronto com a violência abalou esse homem pacífico" — sem um breve intervalo. Também preciso de um. Aproveito pra colocar as idéias em ordem, registrar os pensamentos, dar nome aos bois, isto é, aos capítulos. Tudo em prol de um livro quem sabe um dia publicado, ou, pelo menos, publicável.
Stephen medita na praia: Proteu. Bloom descansa e medita na praia: Nausicaa. Ambos nas areias de Sandymount. Eu, porém, perdida do outro lado do Atlântico, perambulo em busca de outra praia muito minha.
O tesão, no entanto, é o mesmo. Contido, o deles dois. Incontido, o meu. Incontido e radical, esse meu.

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Obituário

Era um homem de bem, este Geraldo Jordão Pereira: um sujeito totalmente do bem. Morreu ontem, de um avc, aos 69 anos. Deixa esposa, quatro filhos e 11 netos. Será cremado.
Nunca escrevi um obituário antes. E se escrevo este, não é por estar envolvida, ultimamente, em lides penosas pessoais com a morte. Não. Nunca escrevi um obituário antes porque imagino que, para escrever um, é preciso um certo grau de envolvimento com o morto, uma admiração, um algo a mais pouco além do interesse acadêmico, do conhecimento enciclopédico de um Google.

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No divã de Jung

(brincando com fogo, ou melhor, com um possível piromaníaco)


"James e Lucia estão indo para o fundo do rio. Onde James mergulha, porém, Lucia se afoga."
do divã de Carl Gustav Jung, analista de Lucia Joyce


Joyce era esquizofrênico, bem, pelo menos foi a esta conclusão que chegou Dr. Carlos Gustavo depois de ler o Ulisses, fala sério, Carlinhos. E coprófago, e pedófilo, e um fã confesso de sexo anal, além de comedor serial de criancinhas, claro. Verdade?

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Bloom, Flower, Flor

Caramba. O cara fez de novo. Se superou de novo embora desta vez, nos Cíclopes, o desafio traga toques sutis de desconfio. Ou de desconforto. A gente vai com tudo pra cima daquela ladainha pomposa, pensando que a liturgia apostólica, pelo menos, é coisa séria: não sabe da missa a metade, pois ao longo da longa lista de santos evocados — São Nunca, São Pedro, São Brás — acaba esbarrando com um Santo Anônimo, um São Pseudonymous e um São Homonymous, pra não esquecer de São Sinonymus, não, isso nunca.

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Otelo, o deusdemônio

James Joyce não gostava de cachorros. Nem eu. Não foi por mal. Foi por trauma, mesmo. De infância, ele. De infância, eu.
O grande, desmedido Otelo, era preto mas não era mouro: era um dog alemão, isso mesmo. Com seu pulo animado pra cima de mim não pretendeu jamais me ferir, isto é, nunca me disse que pretendia. Tudo não passou de desmedida demonstração de amor, à altura de seu também desmedido corpanzil canino, o focinho rosnante e arreganhado, na curva macia de meu pescocinho medroso de menina.

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Minha tia octogenária

Minha tia octogenária... ah. Tá bom. Tem uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tem uma pedra. Titia está no hospital vítima de um derrame, e depois dos oitenta, vocês sabem: há motivo de preocupação. Mas é domingo à noite e eu não sei de nada, meu tio não me disse nada e nem quer que ninguém saiba de nada.

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Ah, se eu soubesse

Frase enigmática que por muito tempo intrigou os intérpretes do Ulisses de Joyce, "Women won’t pick up pins. Say it cuts lo." — Mulher não apanha alfinete. Diz que corta o am. (ou em outra opção de tradução, espanta o aman) — esse espanta o aman, ou corta o am, não passa de uma boa mandinga: mulher não apanha alfinete no chão porque espanta o amor, cuts lo(ve), deu pra entender? Bom. Desculpe aí se o mistério acabou de perder a graça.

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Nunc et in hora

Não sei não. Faz tempo que tenho sentido o maior medo de prazos e falsas esperanças do tipo "agora vai". Já vi muita gente boa sucumbir por causa disso. Mas lendo a revista do Globo neste domingo, fica difícil evitar um vigoroso "agora vai" rugindo de dentro do velho peito, gerado na mágica década de 1950 e já paralá de caído. Quando o mundo já esperava que a gente de vez desistisse, ou se aposentasse, desse vez a quem de direito, não sei não: olha nóis ai ôtra veiz. Ficou difícil.

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Joyce no cotidiano XI: planos superiores

de James Joyce, no "Cíclopes":

"...a aparição do duplo-etérico sendo de particular similitude com a vida devido à descarga dos raios jívicos vindos da coroa da cabeça e do rosto. A comunicação se dava através do corpo pituitário e também por meio de igneolaranjas e rubros raios emanados da região do sacro e do plexo solar."

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Bloom, o filme

"O sonho é uma arte poética involuntária"
Kant by Mario Benedetti by José Castello


Acho que foi Joyce quem disse certa vez não acreditar na possibilidade de tornar seu Ulisses uma obra universal através de traduções. O cinema, afirmava ele, seria um meio melhor, e isso nos anos 1920, quando a arte filmada carecia dos múltiplos recursos que tem hoje. Joyce era fã de cinema, e abriu o primeiro deles em Dublin em 1909. E leio en passant, no google, que chegou a discutir a filmagem de Ulisses com Eisenstein, isso sim, teria dado samba. Ops. Odisséia. Mas a verdade é que, apesar da riqueza de possibilidades, a posteridade ainda fica nos devendo, como no caso das traduções, um filme decente sobre o Ulisses.

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Joyce no meu cotidiano IV: lendas e listas

Ah, se arrependimento matasse. Esse Joyce tinha muito peito, vou te contar: é por isso que ele é James Joyce e o restinho de nós um bandinho brega de barnabés covardes. Eu, pelo menos. Você pensa que a coisa é séria mas se depara com um texto exagerado hiperadjetivado enfatizando um gigantismo zarolho em listas e mais listas e mais listas numa mistura hilária à altura de um legítimo samba do crioulo doido: Cíclopes.

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Cordões astrais

Se o Ulisses fosse um polvo, teria até hoje tentáculos muito vivos conectando-o a exemplos contemporâneos da literatura. Mas como já disse, prefiro encarar a obra-prima de Joyce como uma matrix firmemente ancorada no inconsciente coletivo cultural, cujos cordões astrais alimentam um bocado de autores na literatura contemporânea. Alguns exemplos:

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Xixicocô
(tem quem ache normal)*

Não é de hoje que eu desconfio, sem arcar com o ânus da prova (ai. desculpem.), que a culpa do aumento exponencial no nível de coliformes canifecais que assola o Alto Leblon recai sobre esse serviço profissional de passeadores de cães. Porque, francamente, e me corrijam que eu devo estar errada, não acredito — nunc et in hora — que a responsabilidade disso possa ser dos moradores tipicamente classemedialta daqui do bairro.

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Hora do intervalo

"Você não precisa provar sua inteligência, seu valor e sua competência para ninguém. Você sabe do que é capaz. Saia do transe, relaxe e siga em frente."
Horóscopo de jornal by R.A. em 08 fev 08


É, gente. Já deu pra ver que estou hoje num momento mais pra MMC (Meu Mundo Caiu) depois de ter me segurado por dias numa fase bem West Side Story (I feel pretty and witty and gay, gay, no caso, em seu significado original. ah. esquece.).
Aconteceu que eu puxei tanto pela mente naquela história de encanto, deslumbramento e profundo entendimento que me pegou em cheio no Ulisses, na altura do episódio das Sereias, que acordei esta manhã com uma ressaca mental tão profunda quanto, duvidando de tudo a começar por duvidar de mim mesma a um ponto tal, que até me voltei para horóscopo de jornal. Vê se pode.

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Joyce no cotidiano X

(no caso, no de mamãe, não no meu)

A esta altura já deu pra sacar a obsessão de Joyce em contar tostões, do preço das jardas de cetim negro barato cobrindo os seios das garçonetes a — Espera. Cinco Dig. Perto de dois aqui. Um vintém para as gaivotas. Elias está cheg. Sete no Davy Birne. São cerca de oito. Digamos meia coroa. Meu pobre presen: P.R. dois e seis. —, transferida no Ulisses para os bolsos mal ajambrados de Bloom e Stephen, ou Stoom e Blephen. Daí pra frente a coisa piora, e não admira: imagino que reflita a agonia contábil do próprio Joyce, se agravando na vida cotidiana à medida em que avançava no livro, até chegar a...

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Tritões

(para ler e escutar)


Chega um momento no Ulisses em que é preciso esquecer tudo o que você leu, pesquisou, aprendeu, em que você precisa decidir-se a abrir a mente, se desarmar completamente, deixar o espírito de Joyce baixar, entrar, comungar com você. E o espírito de Joyce pode ser um obá, um orixá, um erê.

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Glossário II

E o miguxês, hein? Quem foi que inventou? Uma dz de engraçadinhos preguissosu ignoranti p falah na net? Vc ke sabe qm: foi Joyce. Sim. O James. Me diz se não:

Yrfmstbyes: you are off must say bye's (de saída dizendo tchau, ou: Dsizntchau)
Blmstup: Bloom stood up (Bloom se levantou: Blsevtou)
Tisntdall: this is not all (isso não é tudo: Isntudo)
Rrr.
Rrrrrsss.
Hm.

Mrvlhs! Vlw.

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Isso se chama vivência

(da série: Joyce no cotidiano)

Ando muito boba, gente. Choro por nada, até lendo jornal. Mas não é por nada disso que vocês estão pensando, ah, quem me dera saber no que é que vocês estão pensando.
Pois no Globo de hoje, em meio a bombásticas fotos de carnaval que nem sequer olhei — é mais do mesmo — o mesmo blablablá de sempre apregoando a destruição da terra e duas ou três páginas de concorridas e globalizadas eleições americanas, além, é claro, de mais alguns sinais explícitos da corrupção que corrói o governo Lula, dei de chorar com um frase curtinha enfiada no meio de um artigo do Ali Kamel.

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Carruagem de fogo

A história começa:

Episódio 8, Os Lestrigões
* Um sombrio jovem da A.C.M. ... pôs um volante nas mãos do Sr. Bloom ... Elias está chegando.
* ... girando entre as desoladas amuradas do cais, gaivotas ... Atirou para elas uma bola de papel amassada. Elias trintaedois pés por segundo está chegan.

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Joyce no meu cotidiano III

"... uma mesinha junto à janela, em frente a um homem de cara sombria cuja barba e olhar pendiam atentamente sobre um tabuleiro de xadrez.
— Aquele é ele? Haines perguntou, girando na cadeira.
— É, disse Mulligan. É o John Howard, irmão dele, nosso magistrado municipal.

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Joyce no cotidiano IX

Se alguém lesse no futuro algum dos meus posts deste início de ano [A.D. 2008], poderia erroneamente, ou presumidamente, ou apressada e academicamente concluir que o codinome "Cesar", atribuído a um antigo prefeito da comarca do Rio de Janeiro, o associasse remotamente a um certo imperador romano. Até tu.

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Glossário I

throb. pulsar. latejar. throbbing. latejando. latejante.

ela meneia as ancas suínas e seus quadris, no oco do ventre um ovo de rubi {tantra. enlevo oriental} lateja você fora o latejar sempre dentro {latejante} seu coração comemora. os pesos-pesados com a tanga na virilha. latejam: um coração de heróis. segredo de todos os segredos, selo do Rei Davi: feminilidade abençoada: como conquistar uma mulher {vagina latejante}

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Joyce no meu cotidiano II

(sem mais revisões, por favor)


"Tantas revelações neste fim de semana, eu andava insegura... (Te procu-rando frenética no US.Search.com: esse tal de Alan Isaac não existe) Tudo se encaixou, tranqüila agora... (Alan E. Sklar, 60, 1 address in Los Angeles, Ca.; 2 addresses in St Augustine, Fl.; 2 addresses in Honolulu, Hi.; 3 addresses in Guilford, In.; 3 addresses in North Bend, Oh.)"
do Hierosgamos


Lendo a carta de Martha Clifford para Bloom (para Henry Flower, florescendo) a gente percebe que essa coisa de usar pseudônimo na internet não tem nada de novo, ah, tá bom: também começou com Joyce.

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Joyce no meu cotidiano


Ufa. Finalmente alguém me explica o que significa Bleibtreustrasse, eu já estava desistindo: seja fiel. Bloom não foi, um exilado de Jerusalém, filho de convertido que acabou casado com uma meia-judia que não se enxerga.

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O poeta é um fingidor

(da série: Joyce no meu cotidiano)

Desalentada, tomada de dúvida, de volta ao protelado Proteu, conferi B.P., A.H., L.G.A., A.B. (por J.A.A.), todos pretendentes no solilóquio, irlandeses, os pretendentes da história, falsos filhos de reis: i-m-p-o-s-t-o-r-e-s? Vivendo a vida deles, um paraíso de fingidores, falsos pretendentes. Eu num inglês estropiado (compromise ou compromisso?) e ele, sem português de estrangeiro: poetas. O poeta é um fingidor, finge a dor de um álvaro de campos, sendo ele ou não.

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Datas, concílios, centenários

Coisa estranha, a intuição. E é só para ela que posso apelar escrevendo hoje, no vácuo criado pela desconexão.
Antes que algum crítico pretensioso num improvável futuro se debruce sobre estas linhas enigmáticas, já vou logo esclarecendo: escrevo este texto num dois de fevereiro de carnaval com a internet desconectada. Me sinto cega. Surda. Mas muda nunca.

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Saravá, meu pai

"Quem ouve desde menino/ Aprende a acreditar/ Que o vento sopra o destino/ Pelos caminhos do mar"
Dorival Caymmi


Canta ao longe, e encanta, com seu canto e encanto a sereia. Ou seria melhor: canta a sereia ao longe e encanta com seu canto o encanto. Eu é que não sou besta de parar pra escutar. Ops. De não parar. De não escutar: o canto (des)encantado em forma de fuga das Sereias, décimo primeiro episódio de Ulisses.

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Pratique o eu

(da série: nem só de Joyce vive uma obsessão, publicado originalmente em 10/10/07)

para Millôr

oolhos-de-pinter, d'àpres Steven Forrest/ The New York Times


"Não sou nada. /Nunca serei nada. /Não posso querer ser nada. /À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.", diz Fernando Pessoa, quero dizer, Álvaro de Campos, em seu poema "Tabacaria". Fernando Pessoa é pessoísta à beça. Enquanto escreve seus poemas magistrais, descreve a si mesmo como o mais vil dos homens, abjeto, um fracasso completo se comparado aos demais, como reforça este outro poema dele — Poema em linha reta — que eu sei quase de cor e no qual me reconheço. Fala sério: é muito pessoismo.

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O que há num nome?

Há coisas que eu vejo em Ulisses que ninguém mais vê, e isso, com tanto acadêmico por aí especializado nos trinques e truques de Joyce. Não é que eu seja mais brilhante. Não. Acredito até que devo creditar o fato à inocência, à ignorância com que leio o livro. Ou não. Ou não passa de arroubo de leitora apaixonada, daquelas que vê no amado um encanto escondido que ele na verdade nem tem, fala sério. Nunca senti isso a respeito de um livro.

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Assunto relevante

(A respeito do artigo de Miguel Conde e André Miranda, publicado em primeira página do Segundo Caderno de hoje, sim, gente: é assunto de primeira página)

----- Original Message -----
From: Noga Lubicz Sklar
To: Miguel Conde
Sent: Wednesday, January 30, 2008 10:33 AM
Subject: assunto relevante!

Oi, Miguel

Você, como sempre, levantando briga boa em seus artigos. É real e interessante o perverso círculo vicioso best-seller x marketing. Pouco leio autores brasileiros, pra não escapar à regra.

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Um passo à frente, um passo atrás

Marcha assim, hesitante, a força motriz da matriz emocional humana. O poema tumular se esvaiu na poeira do tempo, mas a dor, não. A dor, aparentemente, não se esvai nunca. A dor da mente, não a do coração, é que me faz estancar silente, às portas deste novo desafio em forma caprichosa de labirinto. Para a busca do Graal é exigido um coração inocente, e o meu não é. Penso mal de muita gente. De quase todo mundo.
São questões pendentes, pedantes ou mal-compreendidas que deixei para trás, como um mau leitor de Joyce, um leitor apressado e desatento de Ulisses. Preciso voltar no trecho perdido da história antes de prosseguir.

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Matriosca

Que o Ulisses de Joyce é um instigante e amedrontador jogo mental de armar acredito que todo mundo — ou quem curte literatura — já está sabendo. O que não tenho tanta certeza assim de que seja de domínio público é a existência, dentro do livro, de um mini-labirinto de dezoito cenas curtas que se passam nas ruas de Dublin, onde aparecem quase todos os personagens —"descritos isoladamente em seus afazeres (B.P.), dentro do contexto da comunidade dublinense a que pertencem" —, e que correspondem, de certa forma, aos dezoito episódios do grande (literalmente) romance: um livro dentro do livro como uma matriosca.

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Citações

(da série: Joyce no meu cotidiano)

Fui acusada esta manhã de, através do excesso de referências e citações, ter tornado meu romance Hierosgamos arrastado, pedante, irritante: pesado até no nome.
Eis aí uma diferença importante entre mestre e discípulo: o que em mim é pecado mortal, é no Ulisses o mais intrigante e atraente dos aspectos do livro. Chego a afirmar que J.J. antecipou em sua obra o enriquecedor estilo em camadas do hipertexto: cada citação é um link, desdobrando em si mesmo um sutil subtexto do subtexto do subtexto.

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Joyce no cotidiano VIII

Instada por um amigo, deixo-me levar contra a vontade a preencher um currículo na TV Globo. Em determinado momento do formulário, sou inquirida: conhece alguém na empresa? Eu não. Vocês sabem: hoje em dia, é tudo uma questão de QI: quem indica. Ops. Hoje em dia?

No Ulisses (e até bem antes): Amplius. In societate humana hac est maxime necessarium ut sit amicitia inter multos. (tradução e comentário de LGA: "Além disso, na sociedade humana a amizade entre os muitos é uma necessidade vital". Tomás de Aquino, Summa contra Gentiles)
Em bom português: pra vencer na vida é preciso ser bem relacionado. Ih. Dancei nessa.

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Intelectual, eu?

"sim. é de paixão que falo, e de mente. morar no Rio não, não moro: é aí que bate o ponto."
Alan Sklar no Hierosgamos


Pois vejam vocês: a noite inteira naquele pesadelo infame, vigiada de perto pelo cinzento bibliotecário quacre embora eu tenha dormido bem, cabeça largada na mesa sobre os braços exaustos, acompanhando atenta a discussão. Sem entender (quase) nada, claro. Acordei com a cena do Alan na ponta da língua, nu no quarto sob o sarongue improvisado de toalha preta, a voz troante encarando sem medo um Shakespeare de frente:

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Joyce no cotidiano VII

Eu que não sou besta de entrar na discussão do Todoprosa, ótimo blog do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, pra dar uma de esnobe e dizer que livro levaria para a tal da ilha deserta. Muita gente reclamou, personagem inclusive. Só um? Unzinho só? Me mato antes. Prefiro nenhum.
Mas cá entre nós, na encolha e sem muita escolha, confesso: eu levaria o Ulisses. No original, é claro — com rima, lirismo e riso, charada e ritmo — que não estou pra texto intragável. Ou mastigado demais. E ficaria muito bem, anos e anos relendo a mesmíssima e nunca a mesma coisa e gargalhando sozinha:
— Gente! Descobri! (gritando para o nada. para o nada e para ninguém, feliz da vida) Ó! Olha só o que Joyce quis dizer aqui! Já leio este livro há uns vinte anos e só agora é que entendi, pode?
Bum. Morri.

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Paradigmas

"A arte" — afirma A.E., o poeta George Russell, no nono episódio (dialética) de "Ulisses" — "deve nos revelar idéias, essências espirituais informes. A questão suprema sobre uma obra de arte é a profundidade da vida que brota dela."
"O resto" — conclui — "é especulação de um colegial para outros."

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Joyce no cotidiano VI

Saiu no Gente Boa:
D. João VI tinha tanto medo da maçonaria quanto o diabo da cruz. Quando descobriu que seu ajudante de ordens, o Conde de Paraty, era maçom, obrigou-o a se vestir de padre franciscano por duas semanas até abandonar a crença.

Está no Ulisses:
── Ah, é uma linda confraria, disse Nosey Flynn. Agarram-se a ti quando estás por baixo. Sei de um sujeito que queria entrar nela, mas são fechados como os diabos. Por Deus, acertaram em deixar as mulheres de fora.
Davy Byrne nutibocejissorriu tudo de uma vez:
── Uuuuuhaaaiaaii!
── Houve uma mulher, disse Nosey Flynn, se escondeu num relógio para descobrir o que faziam. Mas com os diabos sentiram o cheiro dela e a juramentaram no ato como Mestre Maçom.

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Bernardina

" — J.J.? lerdo lúbrico lingüista... ou métrica ou rima, a palavra e seu tom... mas desta vez em portugês, para que eu ouça o ritmo original da mente.
— pois pra isso é preciso melodia, meu amor, como em lingüista lúbrico e lerdo, entende?"

do Hierosgamos, de Noga Lubicz Sklar


Conversando comigo na cama o Alan confessa porque desistiu: deparado com a exigência de escrever um ensaio analisando as vírgulas, ordem das palavras e intenções veladas de determinado clássico da literatura, abandonou de vez a pretensão acadêmica.

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Ulisses: o retorno

Antes que eu percebesse, já estava no fundo do poço. Havia perdido completamente o gozo da leitura. O que era riso fácil virou crise de doutorado, meu travesseiro macio trocado pela cadeira dura, o espaldar ripado machucando as costas sem nenhuma esperança de tesão: como distribuir na cama todos os livros, teses, links, o notebook, o telefone sem fio que preciso consultar a todo momento simplesmente pra engolir o texto? O que era viagem virou voragem e o vôo livre, balcão de repartição pública.

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Joyce no cotidiano V

Ainda a questão do buraco.
Na reunião em família, por falta absoluta de outro assunto no qual eu não fosse direta e publicamente desacreditada, decidi contar o capítulo "sucesso do buraco" na emocionante novela Noga x Prefeito-do-Rio. Pra quê. Ninguém quis saber da minha vitória, qualificada por todos como "ilusão". Sou acusada de estar mais feliz com minha própria "brilhante atuação" do que com o efetivo fechamento do buraco na rua. Estão todos convencidos de que nada adianta nada, embora, é claro, nenhum deles nunca tenha tentado nada.
"Em Ulisses", leio nas Notas de Cliff, "Stephen precisa desembaraçar a realidade do seu passado de memórias ofuscantes; precisa descobrir quem realmente é, confrontado com a pessoa que outros, como Buck Mulligan, pensam que ele é.
É, gente. Um Joyce bem interpretado dispensa qualquer Freud.

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Nefelibata

"Do Aurélio: nefelibata
[Var. pros. de nefelíbata.]
Adjetivo de dois gêneros.
Substantivo de dois gêneros.
1.Que ou quem anda ou vive nas nuvens.
2.Fig. Diz-se de, ou literato alambicado que despreza os processos simples, fáceis.

The dreamy cloudy gull
Waves o'er the water dull

Joyce faz o poema e discute a rima: "Assim escrevem os poetas, os sons similares. Mas aí Shakespeare não tem rimas: verso branco. O fluir da linguagem é o que é. Os pensamentos. Solene."

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Cartas de amor para adultos

Ok. Título repetido não vale, parece mesmo falta de imaginação. Mas vale a boa intenção, isso sim. Discutindo com o Alan ontem à noite as cartas eróticas de Joyce para Nora: o cara não é normal (risos nervosos). E alguém duvidava? Escrever pornografia assim não é pra qualquer um. Ler também não. O que é que eu penso vendo o meu ídolo se mostrar assim, de pica-ao-vento (foram publicadas), com tais tão estranhos gostos de alcova?

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Campanhas de domingo
(da série Joyce no cotidiano. No caso, no meu)

Mangabeira x Gabeira? Sou mais Gabeira. Gabeira para presidente.

***

Estava eu quase dormindo, quando ouvi vinda do além, ops, da tevê, a voz troante: "vamos construir a cerca..." o quêêê??

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Joyce no cotidiano IV

A César o que é de César:
"O movimento para adiar o pagamento do IPTU, a fim de evitar que o dinheiro seja usado com fins eleitorais, foi recebido com deboche por César Maia, prefeito da cidade do Rio de Janeiro. Ele disse que o boicote levará a uma vitória de Pirro (general grego que derrotou o exército romano numa batalha que lhe custou severas baixas)."

A Joyce o que é de Joyce:
"— Pirro, senhor? Pirro, um píer.
Todos riram. Lúgubre riso altamente malicioso. Armstrong olhou em volta para os colegas com seu perfil de bobo alegre. Num instante todos rirão mais alto, cientes de minha falta de ascendência e da mensalidade que o papai paga.
— Me explique agora, disse Stephen, tocando com o livro o ombro do garoto, o que é um píer?
— Um píer, senhor, disse Armstrong. Uma coisa que avança pela água. Uma espécie de ponte. O píer de Kingstown, senhor.
...
— O píer de Kingstown, disse Stephen. Sim, uma ponte decepcionada. "

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Joyce no cotidiano III

"Dezesseis de junho de dois mil e cinco. Do primeiro Bloomsday a gente nunca esquece. Existirão outros? Duvido, só mesmo as asas de um simpósio Joyce/Lacan para aqui me transportarem: que maravilha o Dublin Castle onde ele se realiza! Percorro, passo a passo, os lugares mencionados nas andanças de Bloom naquele distante 1904, retratadas no Ulisses."
Ana Guimarães


Não é sutiã mas sustenta o peito. Se engana quem pensa que vou pagar o mico de escrever sobre o Bloomsday agora. Só posso adiantar que se trata de um espécie de delírio coletivo que toma conta da tribo dos adoradores de Joyce em todo dezesseis de junho: o dia em que se passa "Ulisses" o mágico dia em que James-encontra-Nora over and over again. Isso, dizem, muda tudo. Mas só conto depois do meu primeiro.

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Noga se lê Nora

"É um dom de Deus uma mulher sensata e silenciosa, e nada se compara a uma mulher bem-educada. A mulher santa e honesta é uma graça inestimável; não há peso para pesar o valor de uma alma casta."
Eclesiástico 26:18



LGA pergunta:

Noga:

Você sabe quem foi Nora Barnacle? Bloom é o alter-ego de Joyce? Qual foi a real influência de Nora Barnacle na escrita/estilo/densidade/lirismo/e quase tudo literário de Joyce? O que aconteceu em 16 de junho, na vida de Joyce?

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Um livro que ninguém lê

"não se preocupe, não sou tão intelectual quanto pareço. nunca li Nietzsche nem Hegel, e o Ulisses de Joyce dorme há anos na minha cabeceira, esperando eu ter coragem de atacar. no entanto, já vi muita coisa... os filmes velhos todos, de Aurora a Caligari. e Fred Astaire e Boggie... depois Fellini, Almodóvar..."
Noga Lubicz Sklar em "Hierosgamos"


"Eu nunca li 'Ulisses' de Joyce e provavelmente nunca o lerei", afirma com uma espécie besta de orgulho o francês Pierre Bayard, autor de um volume fininho e baratinho intitulado "Como falar de livros que não lemos?". Mesmo assim ele se considera apto a fazer referência a Joyce em suas aulas, já que está por dentro do assunto e da "situação" do épico romance. Azar o dele.

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Legal sim, e daí?

(da série: Joyce no cotidiano)

Todo mundo nessa cidade critica a teimosia do prefeito malcriado, metido a moderno, que só atende o cidadão por email. Dá pra entender, mas às vezes eu acho que é má vontade pura. Tem coisa mais antiga que preconceito contra internet?
Se não fosse a internet, eu não teria conhecido o Alan. Se não fosse a internet, eu não teria publicado um romance. Se não fosse a internet, eu não publicaria uma crônica por dia, todo santo dia. Se não fosse a internet, bem, hum: meu Projeto Ulisses jamais escaparia de um cavalo-de-tróia. O resultado taí, ó.
E pra não dizer que eu não tento, do jeito que posso, fazer justiça: palmas incondicionais para o Mestre Houaiss, herói intelectual de um tempo onde nem se sonhava a internet. E nem o google. Imaginem.

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Intimidade

O testemunho mais tocante, mais apaixonante que já ouvi um dia sobre a intimidade num relacionamento amoroso não foi escrito por nenhum poeta. Eu bem que tento:

Nem bem começou o dia e o Alan já está sentado nu, rangendo a poltrona barulhenta dele em frente à tela com seus óculos de leitura de aro grosso, que nem Sartre. As pernas pra cima apoiadas na mesa deixam entrever no meio delas a ponta circuncidada do pênis :
"Uau, querido. Você está sexy." Ele vem com tudo pra cima de mim. Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três.
"Orgasmo múltiplo?", ele pergunta.
"Não estou bem certa, amor. Vou olhar no dicionário pra ver se é."

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Joyce no cotidiano II

Disparou em janeiro o consumo de ostras no Rio de Janeiro. Nessa altura do calendário, elas estão mais gostosas e carnudas por conta da temperatura de verão na água.

Gente, isso é Joyce:
"E ostras então. Feias de ver como um coágulo de meleca. Conchas imundas. Um inferno para abri-las. Quem foi que as inventou? Lixo, esgoto, é o que elas comem. Espumante e ostras do banco Vermelho. Afetam o sexo. Afrodis. Ele esteve no banco Vermelho esta manhã. Se fosse ostra o peixe velho na mesa quem sabe a carne jovem na cama não junho sem erre nada de ostra."

Pois é. Amor de verão na Irlanda não tem essa de ajudinha de ostra não. Tadinhos.

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Joyce no cotidiano

Saiu no Ancelmo:
Em reunião de associação de funcionários, diretora da Eletrobrás acusa o governo de Sérgio Cabral de "matar, matar, matar".

Gente, isso é Joyce:
"Cada qual com seu cada um, dente e unha. Gulp. Grub. Gulp. Engole ele.
Saiu para o ar mais fresco e se voltou para a rua Grafton. Matar! Matar!"

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Correspondências mágicas das ervas

Não, gente. Não errei de assunto. Não sei de onde vem essa triste mania que impôs a Joyce uma carga pesada e impositiva de absoluta necessidade interpretativa. Mas desconfio. No fundo no fundo eu desconfio que foi jogo sujo mesmo, e tudo pra justificar a (na época) inaceitável flatulência pop de JJ, ops, eu disse flatulência? Flatulência não: ventosidades. Como demonstra a versão do Projeto Gutenberg (melhor que qualquer análise numerológica de Rashi), que traz o texto analisado alfanumericamente de acordo com a freqüência de palavras e vai do zero ao trinta e dois mil e cacetada: YES! Mais uma vez apelei pro Alan.

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Cara ou coroa

— agora me diz, Alan: cunt é uma palavra suja? vagina sendo tão solenemente feio...
— não... na literatura erótica, a palavra cunt não tem substituto, todas as demais opções por demais cafonas... quer dizer, literalmente, o sulco do arado, uma palavra saxã... a imagem de cunt & cock (cona e pau) é certamente shakesperiana. no linguajar americano contemporâneo, chamar uma mulher de cunt é o que há de pior... na Inglaterra quer dizer babaca, uma mulher que só dá problema. mas em literatura, pra expressar a natureza fundamental do relacionamento conjugal, não existe opção melhor: arar, semear a terra... uma imagem rural, ancestral... não exatamente básica, mas idílica... vinda dos bosques, do campo... inocente... palavra poderosa, não corrompida pelo predeterminismo mecanicista.

Hierosgamos, de Noga Lubicz Sklar



"A linguagem dele é simples, com gírias da época e até palavrões."
Eduardo Tolentino justifica assim a opção pelo coloquialismo ao apresentar sua nova versão para a "Mandrágora" de Maquiavel. "Num momento o personagem solta 'Pela cona de São Púcio' e as traduções deixavam desse jeito. Mas cona significa "xota", e foi o que colocamos", completa.

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Sanduba do bom

"Misto quente, sanduíche de gente."
Rita Lee


Sabe aquela sensação boa que você tem ao ler um livro, ai gente, que nojo, como é que pode, mas não é assim mesmo? O autor descreve exatamente o que eu sinto, duvidando de tudo, pode parecer incrível: de um lado uma mulher madura, careta, zona sul, classe média remediada do Rio, metida a escrever mas sem qualquer pretensão de pertencer a uma elite intelectual; de outro, um gênio irlandês do século passado, sujeito sabidamente hermético, incompreensível, charadista de alto nível, um desafio até para a melhor das mentes: ninguém consegue ler o que o cara escreve, fala sério. Nem tenta.

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Joyce sem bife

Let me get that straight: só consigo ler Ulisses no inglês original porque tenho em casa um professor de inglês (e a versão do Houaiss para o português). Sem ele(s), até dou conta do recado, mas francamente, perco um bocado. Reconheço a absoluta necessidade (e impossibilidade) da tradução e não tenho intenção de ofender, principalmente a quem já nem pode se defender, como é o caso de Mestre Houaiss.

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A arte é que interessa

Passei o fim de tarde assistindo a um filme que já não é novo, e que por isso aluguei de graça no dvdclube: Feliz Natal, filme francês de 2005 indicado ao Oscar. O filme é legal: um documento surpreendente provando que a guerra vai contra os mais básicos instintos humanos e usando a música como arma para neutralizá-la. Impressionante mesmo foi essa ária maravilhosa que ficou na minha cabeça, confiram:



O vídeo do YouTube é ruim mas, no caso, é a música, Bist du bei mir, que interessa.

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Na lata

Em 1974 — ou quem sabe em 75, não me lembro mais —, trabalhando como estagiária numa empresa de design que pertencia ao Paulo Éboli (linko o Paulo aqui, mas vocês me entendem: não sei se é o mesmo Éboli, o tempo... vocês sabem: engana), colaborei com um projeto de lata de lixo urbana bem semelhante a este que hoje em dia está materializado em cada esquina do Rio. Dezessete anos depois, desta vez como diretora de arte assistente na antiga Oficina de Marketing de Nádia Rebouças, participei pela madrugada adentro de um brainstorming pra decidir o slogan de uma campanha pra ensinar o povo a usar... as latas de lixo urbanas. Meu palpite: "o lixo na lata".

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A América contra a caretice


"Não existe uma América negra. Não existe uma América branca. Não existe uma América latina ou uma América asiática. O que existe são os Estados Unidos da América", prega o mantra comunitário de Barack Obama a favor de um mundo civilizado.
"Maravilhoso, não?", comenta Ali Kamel em seu artigo de hoje no Globo.

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Lá como cá

"Meus quatro novos pop-roqueiros favoritos transmitem melancolia até quando celebram o mero fato de estarem vivos, antes que a peste negra, a bomba atômica ou outro barato estranho lhes dê xeque-mate."
Arthur Dapieve no Globo hoje


Eu ia até postar o vídeo deles pra vocês, afinal de contas, Peter, Bjorn and John são os novos queridinhos do Dapi, o que não é pouca coisa. Mas não gostei nem um pouco da música, hum, imaginem se os fãs dessa turma resolvem me crucificar. Ainda bem que estão do outro lado do mundo, na Suécia, onde segundo o Dapi a vida é boa. Hum. Quanto a mim, continuo mais Mozart, e mais Mozart ainda depois que (re)descobri a ária do Don Giovanni que atravessa o Ulisses de Joyce de cabo a rabo, essa sim vale o link, ó:



Ufa. Difícil escolher entre tantas opções de uma bela canção que já dura séculos: sirvam-se à vontade e desculpem, sou careta mesmo. Pelo menos em termos de música sim, conservadora à beça. Mas não em tudo o mais.

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