"Aprendera a falar num mundo que acreditava no
New York Times: Peritos Discordam da Fluorização, Diplomata Ataca o Texto do Conselho, Autonomia para a Província de Bantu, Chanceler Explica Objetivos das Conversações, Nôvo Movimento de Assistência à Saúde para a Velhice. E perdera toda a minha fé, agora", leio logo nas primeiras páginas do célebre romance de Norman Mailer que herdei de papai e mamãe e que eu nunca tinha lido (mais um buraco imperdoável na lamentável cultura terceiromundista desta cronista, como diria Alan, com a intenção de ferir minhas vãs pretensões de autora brasileira), tão velho como este "nôvo" com acento e, no entanto, surpreendentemente tão novo, para além de acentuadas mudanças na ortografia.
Não sei se prosseguirei. É violência e desconforto demais para o meu momento, tudo do que venho tentando fugir. E eu ainda acredito no
New York Times, mas já não consigo falar sobre isso, aqui em casa, pelo menos.
Se eu tivesse lido Mailer há mais tempo certamente hoje não me iludiria. Já nos primeiros tempos de meu caso de amor em St Augustine, lá se vão quase cinco anos de encanto e sofrimento, eu desconfiara intuitivamente de que há algo de podre no Sonho Americano: por onde eu olhasse era gente obesa e lesa, com o olhar perdido, pra não mencionar os desabrigados no parque, coisa espantosa para um país onde os "pobres dirigem carros e compram steak com cupons de comida" e, mesmo sem ter onde morar ou no que trabalhar, ainda assim vivem muito melhor do que a vasta maioria, quem quiser que acredite.
Não lerei Norman Mailer, no entanto, porque eu não suportaria o intenso realismo de seu briguento personagem favorito, um egresso frustrado de Harvard que teve no front seu brilhantismo destruído por um par de granadas enganosas: pensava matar alemães, mas era a si mesmo que matava, apesar das medalhas recebidas. E seguiu assim mesmo, frustrado, amargo, perdido, um assassino compulsivo do que mais amava na vida. Não suportaria o realismo, a atualidade (apesar dos mais de 40 anos decorridos), e a semelhança com Alan, é claro, um desses americanos típicos com sonhos de grandeza esvaídos. E com tantos violentos protagonistas do novo jornalismo, como Bill O'Reilly, por exemplo, aos berros na tela ontem à noite com o sereno Richard Dawkins, "pare por favor de gritar comigo", "mas este é meu tom de voz normal, meu amigo". É o que aliás também diz Alan, quando grita comigo: eis no que deu a América de hoje, em Deus já não confio, e no dólar menos ainda.
Não lerei Norman Mailer neste momento crítico por não ser capaz de escutar, com todas as letras, que, como todos os Sonhos Americanos típicos, o meu já não existe. Foi-se o amor, o lirismo, o prazer do companheirismo. Foi-se embora o perene desejo de toque, de troca, a delícia de ter, finalmente, escapado da toca: minha jaula liberada pelo amor dele se transformou, sem que o meu amor percebesse, na jaula dele. Trocamos de alma e o corpo acabou seco, agora me digam, será que consigo aceitar isso? Que depois do deleite prolongado, tenho me deitado ultimamente com o inimigo?
Há algo de podre no sucesso americano, e os próprios americanos são os primeiros da fila a saber disso, podem acreditar. Será por este motivo que se debatem tanto publicamente? Se recusam a aceitar que Obama poderia, um dia, começar talvez a mudar isso?
Ou representaria Obama uma saudade enorme, uma nostalgia que não passa de algo em que já ninguém acredita, como, por exemplo, a eterna superioridade americana? A evoluída sociedade pós-guerra puxando pra frente os valores humanos? (Eu, pelo menos, cresci com este mito: na minha família o governo americano foi sempre o grande herói, o imbatível salvador do mundo. Dos judeus, pelo menos. E nunca me ocorreu discutir isso.)
Pois todo esse orgulho besta e inútil, essa ingênua e disfarçada eugenia — que mantém nas teimosas mãos americanas a liderança da terra — têm sido ameaçados de morte pelo franco globalismo apregoado por Barack Obama, lá vou eu confundindo de novo as misérias globais com minhas crises domésticas banais, mas o que é que vocês queriam? Se fui dormir com o doce príncipe e acordei com veneno no ouvido?
Só mesmo o fantasma enganado do pai literário encarnado poderia me redimir deste doloroso compromisso. Mas não acredito mais em fantasmas, nem em Deus, e nem muito menos no valor preciso da literatura. Restaria o amor? Duvido.
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