Noga Sklar é escritora, editora e arquiteta. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004, se dedica exclusivamente à literatura.
Como editora da KBR, é pioneira na publicação de livros digitais em português. Tem 7 livros publicados.
Vozes da Flip
"A razão disso ser interessante é que é verdade."
Shalman Rushdie, sobre o livro que está escrevendo, descrevendo seus tempos de fatwa.
"Tudo bem querer dizer as coisas da melhor maneira possível, mas a verdade é que na maioria das vezes uma escolha funciona tanto quanto a outra. O mais importante é pôr o trabalho na rua."
Lionel Shriver, autora de Kevin.
"Passou perto de dizer que seria melhor a organização do evento ter homenageado Sérgio Buarque de Hollanda."
Sérgio Rodrigues sobre FHC no nosso Todoprosa (como enviado especial de Veja, chique)
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Não há mesmo por que banir a subjetividade da escrita, já que a terceira pessoa e sua pretensão à neutralidade e à acuidade não são, em si,
garantia de absolutamente nada."
Paulo Roberto Pires, para a Folha de São Paulo
"Quando o autor é casado, o ensaio brilha de contentamento."
David Brooks, para o NY Times
"Um bom judeu não pode estar satisfeito. Se ele estiver satisfeito é porque não é um bom judeu.
O judeu está sempre querendo aperfeiçoar-se."
Simon Peres, presidente de Israel
"Os humanos são seres simbólicos."
Lídia Aratangy, na Revista da Cultura
"A palavra cantada deixa sulcos muito profundos na memória de quem a escuta."
José Miguel Wisnik, em sua coluna n'O Globo
"Bolsas despencam, Londres arde, mas chega uma hora em que é preciso tocar a vida: ler, escrever, amar."
Sérgio Rodrigues, Todoprosa
"A ideia é usar os recursos digitais como chamariz, criando uma aura cool e jovem em torno da boa e velha literatura. Aquela feita exclusivamente de palavras, uma depois da outra. "
Scott Lindenbaum sobre sua revista Electric Literature, via
Todoprosa
"Este pequeno país que inspira as maiores coisas, seus melhores dias ainda estão por vir. "
Barack O'Bama na Irlanda, e não é que é mesmo? (Quanto à segunda parte da frase, hummm...)
"Os formatos e canais de distribuição de livros continuam a evoluir, mas a publicação criativa começa com o relacionamento entre autor e editor."
Gina Centrello, presidente da Random House, no
NY Times
Como os demais ditadores, ele estava ocupado demais criando o problema para que pudesse apresentar a si mesmo como a solução.
Roger Cohen, no
NY Times, sobre a queda de Kadafi (estamos esperando)
Cantou seu repertório censurado, pegou seu saquinho de dinheiro comunista e saiu de fininho. Maureen Dowd, no
NY Times, sobre Bob Dylan na China: os tempos mudam.
Eu sou assim: quando ponho em palavras dói menos. Miriam Leitão,
em seu blog.
Adquirimos um desejo de tecnologia que ultrapassa a compreensão humana.
Mas a conta cobrada por tal desejo veio cara demais. Kazumi Saeki, romancista japonês, no
NY Times
A norma editorial de utilizar traduções prévias sem levar em conta o contexto e a finalidade da citação muitas vezes enfraqueceu – e algumas vezes anulou – os argumentos do próprio autor.
Denise Bottmann, via
Todoprosa
Vemos a comunicação digital instantânea como uma arma contra a opressão e, nas mãos de tiranos que acessam
seu poder, uma arma de opressão. Maureen Dowd, no
NY Times
Pessoalmente, acho que a liderança militar está com um pouquinho de medo dos jovens movidos a Twitter da Praça Tahrir. ainda Thomas Friedman, no
NY Times
Essa revolta é em primeira instância sobre um povo que está farto de ser deixado para trás, num mundo onde podem ver claramente com os demais avançaram. Thomas Friedman sobre a revolta no Egito, no
NY Times
Nas mãos de um escritor talentoso, o universo está contido no pessoal. Dani Shapiro, no
NY Times
Eu preferia um artista que transformasse seu tempo, em vez de refleti-lo. Patti Smith, via Maureen Dowd, de novo, no
NY Times
O objetivo de um artista não é resolver um problema irrefutavelmente, mas fazer as pessoas amarem a vida em todas as suas incontáveis, inesgotáveis manifestações. Leon Tolstoy, morto há cem anos, via David Brooks, de novo, no
NY Times
Se um partido vai se dar bem nas eleições, que seja pelo menos um partido que optou por ser modesto. David Brooks, de novo, no
NY Times
Mesmo que o público não te aprove, você tem que aprovar a si mesmo. David Brooks, no
NY Times nota desta redação: infelizmente, ele estava sendo irônico.
Van Gogh bem-sucedido só existe no banco Real, atual Santander. Marcelo Mirisola, no
Congresso em Foco
O sucesso hoje em dia não é somente produto da inteligência. É o cérebro e a tiróide trabalhando juntos: QI associado à energia e um desejo inacansável de ser o melhor. David Brooks, no
NY Times
A fonte secreta do humor não é a alegria, mas a tristeza. Não há humor nenhum no paraíso. Mark Twain, via
Todoprosa
Vida e obra andam, em muitos casos, coladinhas. A diferença entre os bons e os maus escritores é que uns sabem, outros não, como colocar isso no papel. Luiz Rebinski Jr, para o
Digestivo
Uma das grandes dádivas da diáspora: viajamos, nos mudamos, e continuamos a ser nós mesmos. Sam Kestenbaum, pescador, no
NY Times, sobre o Yom Kipur no mar
Não vejo diferença significativa entre a cartomante, o biscoitinho da sorte e qualquer uma das religiões organizadas. Woody Allen, sábio,
aos 74
O livro não é só o que escrevo, mas o que se passa à minha volta enquanto escrevo. José Castello, em
entrevista ao Prosa Online sobre seu novo romance, Ribamar
Os homens enlouquecem em bando, mas voltam à razão lentamente, um de cada vez. Charles Mackay, na coluna de
Maureen DowdA literatura, e não as escrituras, é que sustenta a mente e — por não existir outra metáfora — a alma. Christopher Hitchens para o
NY Times
Uma gafe é só a verdade transbordando. Maureen Dowd no
NY Times, sobre a derrocada das esquerdas
A realidade é inclemente: o encanto se quebrou. Fuadi Ajami no
Wall Street Journal, sobre o fenômeno Obama
Uma sociedade bem-organizada é aquela onde sabemos a verdade coletiva sobre nós mesmos,
não uma em que contamos agradáveis mentiras sobre nós mesmos. Tony Judt, um dos mais trágicos vira-casacas da modernidade
"Ser ameaçado de morte é bom para o humor." Salman Rushdie
"Obama pode não ser o político dos nossos sonhos, mas os inimigos dele, certamente, são o nosso pesadelo." Paul Krugman, no NY Times,
em tradução livre.
"The book is on the tablet." Equipe editorial da revista "Negócios da Comunicação", em excelente artigo sobre o livro virtual.
"Livre não é sinônimo de grátis." Jaron Lanier, em entrevista à Veja criticando a internet.
"Não colocaria nem um centavo no 'sobrenatural'." Marcelo Gleiser, na Revista da Cultura.
"O segredo da continuidade evolutiva de seu trabalho reside em uma aprendizagem, fria e desapegada, de como analisar a opinião publica." Vik Muniz, em entrevista a Luciano Trigo.
"Se eu quisesse curtir a vida, teria que ler bons livros. Mas como transformar isso em negócio, se as pessoas que escrevem bem não são bem pagas?" Andrew Wylie, um agente literário na era digital, via Verdes Trigos
"A única certeza, em todo caso, é que escritores são animais de hábitos e que a maioria deles têm um fraco por rituais e disciplina." Ezequiel Vinacour para La Nacion, via Blog da Flip
"Crônica: gênero do Eu e da confissão, mas também do mundo e da invenção." José Castello em sua coluna de sábado, que o Globo não linka
"Vou logo avisando: fico possesso quando alguém quer mudar um projeto meu." Jacob Goldemberg em Contocrônicas, na mesa de edição da KBR
"Dionisos será meu guia nessa viagem, que nada terá de teatral, mas será profundamente vital." Alberto Guzik em em seu blog
"Não tenho uma criança interior. Se tivesse, a esta altura eu já saberia." A.L. Kennedy em What Becomes
"Todas as pessoas de sucesso experimentam e realizam suas ideias na prática, sem medo do ridículo, sem medo de fracassar." Bertris Kurtz em Siga sua intuição, na mesa de edição da KBR
"No próximo episódio da Web, qualquer indivíduo pode ser um editor." carta aberta da Adobe em resposta ao ataque da Apple, também em carta aberta.
"Devo tudo que sou à minha mãezinha. O problema são os juros que ela cobra." Agamenon, politicamente incorreto em O Globo
"A psicanálise cura tanto quanto a homeopatia, o magnetismo, a radiestesia, a massagem do arco do pé ou o exorcismo feito por um sacerdote." Michel Onfray, em seu novo livro O Crepúsculo de um Ídolo, a Fábula Freudiana, via O Globo
"O impossível é o embrião do possível." Victor Hugo
"Vacinou-se com humor e ironia da seriedade bocó dos grandes intelectuais brasileiros." Paulo Roberto Pires, em seu blog, sobre Sérgio Buarque de Holanda
"O passado é a chave do presente." Bill Burton, vulcanólogo, para o NY Times
"Todo bom escritor é intransigente — contra tudo e contra todos, faz o que deve fazer. Escreve o que tem de escrever. Agarra-se a si mesmo e não se larga." José Castello, em seu blog n'O Globo
"Duvidar de si é fundamental." Tônia Carrero, no belíssimo Tonia Carrero - Movida Pela Paixão, da Coleção Aplauso, que estou convertendo agora
"Como aprendemos a duras penas, pequenas ficções podem crescer violenta e rapidamente na câmara de eco da mídia 24 horas." Frank Rich, para o NY Times
"A experiência da leitura é o mais radical contato com a solidão que já conheci." José Castello, em seu novíssimo blog no Globo
"A forma não só determina o conteúdo; a forma inventa o conteúdo." Gilbert Sorrentino, no NY Times
"Em termos de inteligência ecológica, a grande ideia é a transparência radical." Daniel Goleman
"Um terremoto como este destrói de uma vez velhas associações; o mundo, símbolo por excelência de tudo que é sólido, se move sob nossos pés como uma crosta sobre um fluido; um segundo de tempo implanta na mente uma estranha impressão de insegurança, que horas de reflexão jamais criariam." Charles Darwin, testemunha ocular do grande terremoto do Chile em 1835
"O grande e maléfico financiador do tráfico — e isso sim é uma revelação incômoda — é a proibição." Arnaldo Bloch, no Globo
"A autoestima nacional deveria brotar não do poder global, mas de realizações e valores culturais." Piers Brendon no NY Times, sobre a queda anunciada do Império Americano
"Qualquer um pode comprar ações. Administradores de fundos podem comprar os tubarões em conserva de Damien Hirst." Eduardo Porter, sobre O poder da arte, ops, o poder e a arte. No NY Times.
"Não deixe a magia escapar, ou você vai se afundar na areia movediça da trivialidade." Elena Gorokhova, em Um monte de migalhas
"A página era o lugar onde eu poderia refletir sobre o que havia acontecido." Brian Turner, "poeta de guerra"
"Se você pode não escrever, não escreva." Chekhov, citado por Elena Gorokhova, cujo livro de memórias, Um monte de migalhas, vem fazendo sucesso de crítica e está na fila do meu Kindle
"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
Mais 30 segundos de Pina
do Hierosgamos, sobre um espetáculo de Pina Bausch: "(um casal no palco, com forte sotaque estrangeiro) — Você acha que eu tenho sotaque? — ela pergunta, reforçando o óbvio. — Posso te amar por um dia? E ele, categórico: — Não. — Posso te amar por um minuto? — Nãããão. — Posso te amar por 30 segundos? (última tentativa) — Está certo... — ele concilia — pode, mas só por 30 segundos (ela começa a beijá-lo, enquanto ele olha o cronômetro). — Mas você vai... contar o tempo????????"
Era assim a Pina, uma artista maravilhosa que não tinha medo de nada, nada, nem de dinossauros. Pina Bausch foi meu ídolo de todas as artes e todos os tempos, e a conheci pessoalmente, ai que emoção, em 1990, quando trabalhava na Fundição Progresso como assistente de Maurício Sette. Depois disso, seguiu me acompanhando pela vida afora, isto é, fui eu que a acompanhei, não?
"meu assunto de hoje é mesmo a Pina, que há alguns anos tive a sorte de encontrar aqui no Rio: uma mulher simples e forte, merveilleuse, wunderbar. Até pedi autógrafo, ah! pedi mesmo, sou fã. Trabalhei pra ela como intérprete e foi demais, vou te contar: eu tinha esse bar em Botafogo, o Graal, onde exibia vídeos do tanztheater dela, como o expressivo "The Man I Love": um homem alto, de mãos enormes, interpretando a letra da música em linguagem de sinais enquanto ao fundo, num disco velho e meio arranhado, uma mulher cantava, com voz de taquara rachada. momento, querido, telefone. meus garçons — de tanto assistir — aprenderam os gestos, e cantavam "The Man I Love" em silêncio, o tempo todo... era tão bonito, contei a história pra ela, acredita? gostaria de te mostrar mas perdi a fita, dommage..." (mas com o YouTube, que tem tudo, a perda acabou sanada, obrigada, YouTube.)
Minha cena inesquecível, no entanto, nem é de espetáculo nenhum, mas sim do intervalo de um espetáculo no Theatro Municipal: a plateia vazia, todos no bar, no banheiro, no foyer, e aquela bailarina lá de pé, sozinha no palco por mais de dez minutos, sem se mover, uma lágrima face abaixo a escorrer. Exatamente como estou agora. Vai com Deus, Pina. Foi cedo demais. Adieu.
Enquanto me ocupo por aqui (aqui na Serra, esclareço, é feriado hoje: Dia de São Pedro padroeiro de Petrópolis, uai, gente, eu sempre pensei que o Pedro daqui era aquele outro) com um novo projeto — urgente e, por enquanto, incomunicável —, não vos deixo abandonados, queridos.
Vai por link que vale a pena acompanhar a "resenha" do Prosa & Verso para o Leite Derramado do nosso Chico, aquele que eu cito com gosto em Gozo — "James Joyce não é assim, digamos, um Chico Buarque irlandês", escrevi na época, e hoje acrescento: Chico Buarque tampouco é assim, digamos, um James Joyce em português, cada macaco, que assim fica bom —, pela pena nada pequena de Marcelo Mirisola. Confere lá.
Falar nisso, há mais motivos de comemoração, valei-me, São Pedro da Anunciação, que nesta santa segunda-feira meus problemas financeiros terminaram: acabo de receber do meu banco o aviso de uma ordem de câmbio enviada pelo Google, uau, primeiro suado dinheirinho (em quase 5 anos de trabalho) ganho com este blog. Quem clicou, colaborou, obrigada, gente. Que pre-anuncie muitos cem dólares mais, de outras muitas fontes mais. Amém.
"Meu primeiro livro se chama Rapport sur moi (Relatório sobre mim) porque 'relatório' significa 'dizer o que vimos'. É como se fosse um gênero literário que eu inventei para mim, do mesmo modo que o romance, o ensaio. Nesse sentido, todos os meus livros são 'relatórios', pois o que me interessa é a realidade que vivemos, esse modo que a realidade tem de ultrapassar a ficção, como podemos constatar a cada instante.
E meu trabalho é tentar encontrar palavras que correspondam a esse excesso. Não me interesso especialmente pela vida privada, mas pela vida como um todo. Para capturar algo válido da vida, parece-me que o escritor tem que pôr fim à distinção entre vida pública e privada*", declara em entrevista ao Blog do Prosa o escritor Grégoire Bouillier, que está na Flip, onde será acareado em público com a ex-namorada Sophie Calle, que por seu lado transformou em livro e obra de arte o fim do caso entre os dois que Gregóire terminou por email, etc., etc., mas isso, todo mundo já está careca de saber. Não sei não. Mas ouvi falar no outro dia em prolífica (eu disse pro-lí-fi-ca, e não pro-li-xa) escritora brasileira que inventou para si um gênero literário intitulado "ficcão autobiográfica" e que expôs em livro sua relação amorosa e sexual com um parceiro também escritor pela internet (prática que, ultimamente, tem se tornado muito perigosa) e que também acredita que a realidade ultrapassa a ficção e cujos livros são "relatórios" do que viveu onde tenta (e consegue) capturar "algo válido" da vida e cujo trabalho é "encontrar as palavras" numa inusitada prosa musical e que, por motivos óbvios que não sei quais são, não está na Flip. Sabem quem é? Cartas para a redação. Resta torcer pra que o ex-casal Calle/Bouillier se comporte direitinho e faça jus ao seu dinheirinho e não sufoque o público em Paraty com o cesto de roupa suja, que se lava em... livro. Argh.
Abre a cortina do passado/ bota o rei congo no congado Ari Barroso, em "Aquarela do Brasil"
foto: Getty
Demorô. Mas não é que aconteceu mesmo? Pois é: uma, pelo menos uma das profecias apavorantes que Alan me joga na cara a cada novo lindo dia que amanhece aqui na região serrana acaba de se tornar verdade, bem, hum. Essa, pelo menos — e já me contradigo —, diferente da mui antecipada autoextinção do Irã pelo Supremo Aiatolá, do inverno nuclear de King-Kong Ill depois de bombardear os EUA e, last but not least, da heróica morte submarina de seu filho [e meu enteado] adorado, em missão secreta na costa da China — toc, toc, toc — não tem nada de apavorante, é só mais uma garden party com um toque exótico a mais, então por que o incômodo? É que Alan diz, desde o começo desta história de Obama — para evitar o usadíssimo e abusadíssimo "obamania" — que o quadragésimo quarto não passa mesmo de uma fraude, de uma política midiamontagem, que líder negro ativista de Chicago que nada, um havaiano ingrato, ilhéu emigrado negando as raízes num sotaque falso, isso sim — e também, claro, um meio-queniano e indonésio de adoção, um mulato inzoneiro, lindo e trigueiro, enfim, mais que um polinésio, um analgésico polilíder multiraci[on]al — uau, com essa me perdi.
Mas agora me encontrando, isto é, voltando ao meu querido (e neurótico) marido Alan — ele mesmo um havaiano judeu de ocasião, retornado ao continente materno depois de um ataque quase fatal de "febre da ilha", ah, sim, só agora entendi a eterna "síndrome do exilado" que tanto o aflige cá no Brasil —, preciso ser justa: ele sempre afirmou que a única coisa decente que esperava de Obama era justamente... um luau na Casa Branca como nunca dantes naquele país, bem, hum: finalmente esse coqueiro deu coco, né? Ah. Tudo bem. A camisa florida por baixo do lei de orquídeas vamos ficar devendo, afinal, vocês sabem, não se pode ter tudo: foi um luau "kosher", sem porco enterrado assando no jardim, mesmo assim. E discreto ainda por cima, com pouca divulgação na mídia porque Deus não quis, não deu a menor força. Afinal de contas, agendou para a mesma data outro evento muito mais surpreendente e marcante: a inesperada passagem de Michael Jackson, outro rei congo de responsa, deste congado para outro bem melhor. Foi pena.
Ao vivo, faz pouco, na tevê: Michael Jackson levado ao hospital; Michael Jackson em péssima forma; Michael Jackson em coma; Michael Jackson morreu, Michael Jackson acaba de morrer em Los Angeles, aos 50 anos, há dois minutos anunciaram ao vivo, em tempo real. Ao morto. Fim da história.
The rarest of all commodities in this world is love [o mais raro dos bens neste mundo é o amor]. Mark Sanford, governador fujão da Carolina do Sul e latin lover flagrado da vez
"...meu coração clama por ti, tua voz, teu corpo, o toque de teus lábios, o toque de teus dedos e uma conexão ainda mais profunda com tua alma", confessa em tom apaixonado o email acalorado do amante distante, inconformado, involuntariamente transformado em quase-lamento pela aflição constante que tinge de cores impactantes este amor impossível, uau, como soam clichês quando publicadas tais sentidas declarações românticas, Deus meu, quem teria assinado isso? Stephenie Meyer, a musa mestra do amor vampiro contemporâneo?
Ou euzinha mesma, meio-que-dormindo, em pobre versão de poético erotismo em meus velhos tempos de incôndita paixão, dura solidão, corpo carente excitado grudado no teclado, clamando por mútua e internacional compensação? (mas tinha uma diferença no meu caso, e crucial, mães-de-família, ô, que fique bem claro: Mr. Alan Sklar, o caloroso americano que amei tanto, e tão explicitamente online como 'Maria' amou Mark Sanford, não era casado; e nem eu) Nada disso é ficção, podem acreditar. Ou talvez seja, quem sabe, do jeitinho que eu gosto, uma 'realidade aficcionada', isso, com dois cês assim mesmo — e com a licença poética do dicionário, tal como em "afidalgado", querendo dizer: com um toque amestrado de ficção —, que ao contrário dos afoitos pombinhos conectados não costumo deixar de lado o máximo cuidado com a ortografia correta, mesmo quando, bem, hum — correção? discrição? contenção? traição conjugal? —, é isso aí, tornaram-se raros todos os demais cuidados por agudas artimanhas do tesão, se é que vocês me entendem. O que não deu pra entender muito bem foi como o meu seríssimo marido Alan — ao lado de quem, todo mundo sabe, fui capaz de mais graves arroubos sexuais e amorosos por escrito, de ruborizar, vamos combinar, qualquer moralista republicano, e pior: publicados mais tarde no romance Hierosgamos de comum acordo, sem compostura ou censores, abaixo os falsos pudores — se emocionou a mais não poder com as lágrimas incontidas do marido traído — mas ops, não foi ele, Mark, quem traiu a esposa, cometendo o exato desprezível deslize que, em nossos primeiros emails apaixonados, Alan confessou não ser capaz de engolir? Ou esquecer? E do jeito que a imprensa edita, fica parecendo que um traço comum de (falta de) caráter vem unindo ultimamente os mais conservadores dentre os republicanos americanos, ah, bom, agora sim, acabo de entender tudo: é a fidedigna fidelidade política, cega fraternidade de macho apegado — que ao companheiro de partido, gênero e classe tudo se perdoa —, ah, gente, mesmo que o homem privado por trás do ato público seja um vil, um duas-caras barato, baixo covarde desprezível. Porque, cá entre nós, embora até possa concordar que, em última instância, "quem ama perdoa", e até por um último ato apaixonado, eu pudesse perdoar um marido equivocado, não me deixei convencer pelas lágrimas arrependidas do dolorido Don Juan desmascarado. E não é que eu seja contra os imprevistos do amor, me entendam bem: reconheço o rumo descontrolado dos acontecimentos que as artes do 'destino', em caprichosos desatinos, nos reserva na contramão da fidelidade marital, que ninguém pertence a ninguém e disso sei muito bem. Mas para assuntos do coração, acredito, valem as mesmas regras que [ou deveriam valer, hã-hã] em qualquer negociação: transparência e honestidade acima de tudo. Sai dessa, seu Gardel metido de primeiro mundo: tinha um pássaro na mão, mas agora, tem dois voando. Ou quem sabe não. Vai por mim, Governador, que a outra da sua vida, aquela, que vive como uma brasa por lhe faltar um bom homem em casa, não hesitaria um segundo em se tornar a primeira Evita da distante e careta Carolina Sulista. Love is in the air. Or at least, in the affair.
Uai, gente, que negócio é esse agora? Pirou? Falando de futebol? Falta de assunto ou o quê? Ok. Calma aí. Pra tudo tem uma explicação, né? É que o 'carioca' Benny Feilhaber, que brilhou ontem na seleção americana contra a Espanha, acalmando "A Fúria" de vez... é meu primo, congrats, Benny. Te cuida, Brasil!, que o novo campeão vem aí. Invencível desta vez, hehe.
Paulo Coelho e o desrespeito à vida como regra no Irã: um legítimo herói de ficção, só que desta vez... na vida real.
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Sarah 'sex-and-the-city' Jessica e o despeito com a vida virando regra em Hollywood: gêmeas de aluguel? Qual é o problema dessa gente, hein? Por que é que não podem trepar e parir com gosto, como todo mundo? Falta útero, falta tempo, sobra dinheiro... ou falta mesmo amor verdadeiro à prole? Pobres filhos modernos de celebridade, argh, haja trauma de rejeição, gente: direto na fonte original.
De Adriana Monteiro de Barros, poeta: "Confesso que imaginei qualquer tese ou análise mais crítica sobre J.J. Mas estou debruçada sobre algo muito melhor e mais acolhedor. Este Gozo de Ulysses tem me arrebatado as noites."
Embora hoje em dia eu me considere, se comparada aos demais, razoavelmente ateísta e fatalmente científica e racional (pois, queridos, de todos os meus anos de infatigável busca espiritual sobrou somente o apelido inicial nas famigeradas rodinhas do abraço ritual: "cérebro", no mau sentido, claro)...
...Pronto. Nem levou uma frase pr'eu começar a contradizer minha própria premissa original, já que racional, cerebral, com ou sem mágica simpatia ocasional, o hábito esotérico de dupla (e dúbia) interpretação de todos os fatos, por mais que se combata, fica como tatuagem gravado no corpo contraintelectual de ex-xamã (se é que isso existe, ou um dia existiu), mancha indelével na alma de quem pensa (mas na verdade não compensa) que tudo isso não passa mesmo de uma bobagem. Pois é. Acontece comigo: você pega, esfrega, nega, mas apagar não apaga nunca. E, pasmem, não estou sozinha nessa. Aconteceu de novo nesta ensolarada manhã de junho, com a surpreendente florada serrana de inverno, roxa de orgulho e frio (a descrição bucólica foi só pra causar inveja), despontando nas copas secas já no primeiro dia (e a datação pra chamar atenção ao sagrado solstício de inverno: dia e noite na mesma duração e ainda por cima a esperança esotérica de última revolução, tem emoção maior que essa, ou não? e é hoje só, aproveitem: viram só? como eu tinha razão?)... quando, ao ler como sempre, com o maior gosto, a crônica de domingo da coleguinha Maureen Dowd, percebi nas entrelinhas heróicas da mosca morta de Obama a mensagem divina que transmitiam, como se segue: No "O alfaiate valente", conto de fadas dos Irmãos Grimm, um pequeno alfaiate, brandindo um retalho rasgado, mata de uma só vez sete* moscas que esvoejavam em torno de seu pão com geléia. O homenzinho se admira tanto de sua própria bravura — "De puro júbilo seu coração balançou como o rabinho de uma ovelha" — que passa a querer que o mundo inteiro saiba de seu feito. Então ele borda uma tira de couro com a legenda 'Sete de um só golpe!', veste o cinto por cima da roupa e vai à luta. Protegido por sua lenda, e usando a mente astuta em vez da força bruta, [nosso ex-alfaiate] derrota dois gigantes e captura um unicórnio e um javali, antes de ganhar a princesa e viver feliz para sempre como rei.
E agora a mensagem oculta, tchân-tchân-tchân-tchân, fresquinha pra vocês: não é que acabei lendo a lenda dos Grimm bem no dia em que me preparo, por artes da pura coincidência, para uma reunião importante, onde o mais relevante é mostrar-me a mim mesma já como autora de sucesso — uma celebridade, consagrada para sempre na rede —, pra ver se desta vez cola e rola? Taí. Vai de coração, em primeiríssima mão, minha própria e mui modesta le(ge)nda publicitária: "Noga Lubicz Sklar: uma autora apaixonante."
*nota desta redação: e por falar em misticismo, os Irmãos Grimm parecem ter uma evidente quedinha pelo número sete: são sete moscas, "O Lobo e as Sete Cabras", "Os Sete Corvos", "Branca de Neve e os sete anões" e por aí vai. CQD.
Lê os textos imorredouros, aqueles que estarão escritos na pedra pela eternidade afora. Aqui não me refiro apenas aos gregos, clássicos propriamente ditos, mas também e sobretudo a Walter Pater, Léon Bloy, Sully Prudhomme, Anatole France, Humberto de Campos e, naturalmente, a Camilo, o inigualável Camilo, estrela-guia de nossos esforços luso-parlatórios. Sérgio Rodrigues, em "Sobrescritos"
Uma das diferenças mais marcantes (e irreconciliáveis) entre meu brilhante marido americano Alan e esta modesta brasileira chinfrim que cotidianamente vos fala em linguagem de botequim é que embora ele saiba tudo, tenha aquela velha opinião formada sobre tudo, vocês sabem, em vez de ensinar, generosamente dispensar aos pobres ignorantes terceiromundistas que tanto o aborrecem o favor de sua aprofundada cultura californiana de topo de mundo, Alan não raro me obriga — e pior, sempre em momentos de franco relaxamento quando eu tento, ao cabo de árdua jornada mental, descontrair os neurônios exaustos com um filme bobinho qualquer em cartaz na HBO — a uma involuntária e insuportável prova oral:
"o que você está vendo aqui?", ou, "quem foi tal e tal?", ou ainda, "o que significa em termos de semiótica pós-existencialista esta cena a que acabamos de assistir?", pô. Peraí. Acabo irritada, e se não conseguir que ele cale de vez sua ilustrada boca de Berkeley, me dando a chance de envolver-me com a trama exibida sem pensar demais, como gosto de fazer, me desligo, não custo a adormecer. Tem sorte ele que eu já não vejo as novelas da Globo. Tudo bem. O mundo é feito de pretensão, falsa compreensão, meros arrotos de erudição, isso todo mundo sabe, mas gente, por quê? Não seria bem mais adequado informar, responder, espicaçar a curiosidade pra matá-la em seguida, ô coisa boa, compartilhar com quem você ama as coisas incríveis que teve a sorte de conhecer? Hein? Taí. Foi por isso e por pouco mais que isso que me arrisquei a "tirar Joyce de seu pedestal para examiná-lo e devolvê-lo às ruas", pisando firme "nos tapetes de Versailles calçando havaianas", ora, gente: por pura e simples generosidade, ou ingenuidade intelectual, sei lá, chamem como quiserem. O resultado? Ei-lo aí: todo dia alguém novo, antes medroso frente ao autor misterioso, se decide a desarmar-se pra simplesmente aproximar-se do gênio irlandês, deliciar-se com ele, engrossar, como ele mesmo disse, o coro dos "dois ou três pobres-coitados que eventualmente poderiam ler "as "coisas triviais" que ele escreveu. Podem conferir. Eu nem teria escrito sobre isso se não fosse o imbróglio insistente da embaraçosa ignorância que no outro dia, inocente, sem pensar muito, expressei na intelectualíssima caixa de comentários do blog do Sérgio, ah, gente, pra quê. O curioso é que em resposta à minha cândida confissão de nunca ter ouvido falar no "inigualável Camilo", uma lacuna, claro, inaceitável n'alguém que se pretende escritora — "a nível" de desculpa eu poderia deplorar o ensino básico das letras lusas no Brasil, já que, vamos combinar, não sou exatamente uma "iletrada pedante" e até me arvoro em público de especialista em Joyce, imaginem — ninguém, nem uma só alma piedosa foi generosa a ponto de esclarecer, Camilo é tal e tal, não seria bem mais fácil? Mas qual. Nem uma humilde resposta à minha dúvida cruel, genuína e sinceramente despejada depois de uma investida malsucedida no google nosso de cada dia. Pois é. Se alguém por aqui não entende o que eu digo, ou não conhece os autores que eu cito, basta perguntar, viu? Nem é preciso se envergonhar, pode deixar que se eu souber, logo respondo. Ou investigo. Afinal de contas, nada é mais gostoso nesta vida do que iniciar um dileto amigo nos prazeres solitários que só você cultivava até ali. Ler James Joyce no original, por exemplo, "para valer, não para citar nas rodinhas". Ah, tá bom. Pior a amêndoa que o mau soneto, né? Melhor deixar o assunto quieto.
* um manifesto de coragem rebelde contra a pretensão que ele tanto detestava, by James Joyce himself: está no Ulysses
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adendo ainda no sábado, 18:28 (que somado dá 19, o número do carma literário), quando o autor Sérgio Rodrigues, após múltiplos e públicos apelos, finalmente esclarece de que Camilo ele estava falando, taí: apesar de ter caído em deslido, execrado para a eternidade, coitado, sabem que eu gostei do perfil do sujeito? pra quem quiser se inspirar no feito: o "primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente dos seus escritos literários", vai que a energia dele me contamine.
"O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aplaudiu seu homólogo Barack Obama por ter criticado a linha editorial da emissora 'Fox News', contrária ao governo democrata dos EUA, e comparou o caso à 'ofensiva' de alguns veículos de comunicação venezuelanos contra a chamada revolução socialista", leio assustada no Globo online.
Que a Fox News, a que sou obrigada a assistir por conta do neoconservadorismo irritante do meu marido — um ex-liberal e ex-hippie convertido por quem me apaixonei em tempos idos —, seja mesmo uma emissora revoltante, é fato, mas... será? Será que Obama, por conta de um simples desgosto e divergência de opinião, vai tentar fechá-la por decreto? Hein? Ah. Tudo bem. Ainda me lembro que Obama disse, durante a campanha, que assistia à Fox News para desafiar a mente, encontrar contrariando a oposição soluções competentes: terá mudado tanto, e tão rapidamente, agora que é presidente? Barack Obama, quando é preciso, é bem capaz de matar uma mosca, e já se cansou de provar isso, mas comer que é bom, acho que não come não. Ou será, gente, que me enganei a este ponto? Há precedentes. Ou alguém se esqueceu de quando Obama recebeu de Chávez, em encontro há poucos meses, aquele livro suspeito de presente? Dize-me com quem andas... etc., etc.: te cuida, Presidente.
"As mudanças mais importantes são invisíveis", escreve David Brooks no NY Times. "E acontecem dentro da cabeça das pessoas. Uma nação aparentemente apática se mobiliza de repente. Pessoas perdidas em sua vida privada sentem de repente que sua dignidade pública foi dolorosamente atingida."
Pois é. Perdida como tenho estado, e completamente envolvida por eflúvios irresistíveis de sonhos privados, longamente incensados, não tenho tido tempo nem energia para abordar, eficientemente, todos os demais assuntos — igualmente apaixonantes — que têm mobilizado a mídia nos últimos dias impactantes: é como se estivéssemos realmente a um tico de penetrar, irremediavelmente, o mais que esperado redemoinho evolutivo "repentino", aquele, que fontes espiritualistas prometem faz tempo. E marcado no momento, pasmem, já para o próximo domingo, durante o solstício de inverno/verão. Cá no meu canto escondido venho sendo afetada, como todos os demais, pela luz própria dos acontecimentos — que emana solene do meu notebook, eu querendo ou não, vinte-e-quatro-por-sete. Estou contando com isso. O que não significa, obviamente, que espero mudanças radicais de um dia pro outro, operadas em sigilo absoluto e jamais apurado silêncio enquanto os justos inocentes dormem seu sono pesado dos inconscientes, como ocorreu, por exemplo, com o "Plano Cruzado 2" do governo Sarney, de tão odiosa memória, ah, Sarney: olha ele aí outra vez. Mas desta vez me refiro a algo mais amplo, global, planetário, pipocando em focos explosivos em eventos cruciais ao redor do mundo, no Irã, por exemplo, onde as velhas oligarquias, mal e porcamente decadentes, já escrevem secretamente seu inescapável epitáfio político. Nossa hora, queridos, também chegará: a batata da infinita corrupção governista, me acreditem, está sendo assada neste exato momento. E essa minha certeza beatífica não se baseia, é claro, em nenhum expediente esotérico de mágica profecia, mas mui mais concretamente, na percepção de que finalmente uma visão que eu tinha vem se tornando realidade, progressiva e inevitavelmente. Taí. É a ubíqua internet por trás de tudo isso que a gente tem visto por aí: a mente coletiva sem fio, antiga fantasia teórica de Carl Jung — conectada em redes sociais a humanidade inteira, libertariamente, para além de qualquer autoritário controle demente, com a força contagiante do aluvião consciente. Ninguém escapará, podem confiar. E o poder mágico da informação inteligente a todos contaminará. Pronto. Falei e disse.
De Thereza Christina Rocque da Motta, editora: "... ouvir minha mãe, do alto dos seus 82 anos, dizer que, pela primeira vez, se viu interessada em Joyce."
Brendan Behan com Jackie Gleason no camarim de "Take me along"
foto World-Telegram por Walter Albertin
Joyce teria gostado, eu acho. Exceto talvez pelo volume quieto, controlado, mantido coberto, num canto do lounge diminuto onde se revezaram as heróicas poéticas performáticas — Betina Kopp, Juliana Hollanda, Karla Sabah e Adriana Monteiro de Barros, um Quarteto em Mó Maior — numa corrida traumática pelo monólogo de Molly Bloom, esta polimulher que pretende ser nós todas e que existe de verdade, no fundo no fundo, dentro de todas nós. Sem deixar de lado o forradíssimo forró joycianojunino, anarriê!, de Pedro Lago e Rosália Milsztajn, escargô! Balancê(i). Tudo bem. J.J. teria preferido, talvez, um coro masculino, "Ben, Si, em torno do piano de cauda as vozes de baixo, tenor, maviosas –, no palco da sala de concerto onde Pat, o garçom que é surdo e calvo, atende a mesa, mas nenhum chamado: é surdo; e o rapazinho que é cego olha tudo, mas nada vê: é cego, hehehehe".
E o flato final: Fff. Oo. Rrpt. Pprrppffrrppfff — "meu" Bloomsday, melhor esclarecer, o melhor cego é aquele que procura ver, e, meninas, eu vi o meu marido Alan se enfurecer quando a portentosa figura de preto adornada de pérolas falsas gigantescas atravessou a sala, sem nenhum prévio aviso, numa cascata jorrada de palavras não-compreendidas, peraí, que negócio é esse aí? Tem um elefante na sala, gente, tem sim, e é melhor reconhecer logo: não é que o meu amoroso marido seja assim, digamos, um alcóolico, mas que ele bebeu muito na noite passada, ah, isso bebeu. Bebeu bastante e não comeu, e pior sedativo ainda, temporariamente abandonado pela esposa "estrela da noite" e destituído, coitado, do mais prosaico instrumento particular de compreensão — a capacidade de entendimento da nossa prosa, pura e simples prosa portuguesa — deu vazão ao mais puro dos sentimentos exilados de revolta, afinal de contas, era ou não era o "meu" Bloomsday? E que bando de palavras ao vento seriam aquelas, histericamente cacofônicas? Cacofônicas pra ele, claro, e é claro que garganta de bêbado não tem dono, nem tem desculpa, mas é claro que por puro amor eu desculpo o meu marido Alan, como se viu, um bebedor ocasional com problemas literários de ocasião. Afinal de contas, festa irlandesa sem um Brendan Behan bêbado qualquer vociferando em puro inglês... não tem graça nenhuma, Joyce teria desculpado e até se divertido, mas aos poetas presentes faltou um pouco, e é compreensível, de espírito esportivo. E olhem que eu mesma até me preparei pra isso, para a bebedeira da estréia, digo, uísque importado escondido no bar, o carro guardado na garagem do hotel e o táxi acordado de porta a porta, mas qual, fiquei mesmo na água mineral e quem bebeu foi ele, marido de artista: uma temporária situação secundária a que macho nenhum, mesmo que se comporte em público, se conforma a contento. Só custa a confessar que é assim que se sente. Ah. Melhor deixar pra lá. Foi uma longa, intensa e compensadora visita ao Rio que me marcou para sempre, embora na vida real só tenha durado 24 horas, suficientes, no entanto, pra que eu provasse a mim mesma que finalmente, mal tendo bebido de tantas e tais nobres fontes inebriantes, me tornei uma escritora sem problemas de tema. Para os muitos amigos presentes ao lançamento, vai meu deliciado obrigado, valeu mesmo, viu, gente? E o gozo explícito de mais um livro publicado que, daqui por diante, fica no mundo, não digo que abandonado, mas certamente por sua própria conta.
De José Castello, por email, nem precisa dizer mais nada: "Em primeiro lugar, me surpreende a leveza com que você trata o Joyce. É fantástico como você consegue pisar os tapetes de Versailles calçando havaianas! A sinceridade com que escreve também me apaixona. E sobretudo sua coragem intelectual. Assombram, em especial, a mim, que nunca consegui atravessar o Ulisses. Agora, tendo seu livro como guia, me dá muita vontade de tentar novamente."
De Simone Magno, da CBN, em resposta ao meu agradecimento por belos 2 minutos no ar na véspera do lançamento: "Ah, que bom que você gostou! O livro é muito legal mesmo!"
Caros, vou ao Rio e só volto na quinta-feira, vocês sabem exatamente pra quê. Deixo computador e a esperança incansável de vê-los por lá, na noite do meu lançamento incensada pela imagem revitalizada, e eternamente revitalizante, do irlandês James Joyce no próximo Bloomsday carioca. Eu já disse, mas, pra variar, repito: DaConde (Bernadotte), Leblon, terça 16/6, às 19 hs. Tchau. Até lá.
"...a autora faz uma análise criteriosa daquele que é considerado um dos melhores romances do século XX, e estabelece um diálogo profundo com a linguagem do consagrado escritor irlandês."
Ainda me recuperando todaprosa do efeito impactante de algumas prosaicas 3 mil palavras* em favor de meu modesto — embora, claro, bastante pretencioso ("com esse ou com cê?") — mais novo livrinho de crônicas e porque não dizer, do gozo precipitado pela supreendente qualificação do Noga Bloga como espécime raro da pseudoliteratura online (obrigada, Nelson), leio no Todoprosa que a famigerada língua inglesa acaba de declarar oficialmente seu primeiro milhão de vocábulos registrados (e querem nos convencer de que literatura contemporânea se faz com secura, objetividade, concisão e exiguidade verbal, uai, gente, deve ser mesmo intriga da insistente oposição literária terceiromundista, só pode).
Nem me falem. Essa loquacidade do idioma inglês, minha delícia enquanto leitora/cronista apaixonada de James Joyce, tem sido meu pesadelo cotidiano enquanto brasileira subliterartista chinfrim, casada com convincente, agressivo e verbalmente exigente literato caseiro norte-americano: o primeiro milhão de vocábulos malcompreendidos a gente nunca esquece, mas como bem lembra o Sérgio, tal abundância textual pouco vale na vida real, são meras parábolas, na maioria parábolas vãs, abusadas, vilipendiadas e parcimoniosamente adjetivadas, quando muito malparadas em autopublicadas mensagens vilãs. Mas, cá entre nós, embora a coisa me excite um bocado, nem era sobre isso que eu queria escrever, um mal normal, que acomete qualquer blogueiro ideal enquanto vítima represada, apressada, mal-e-porcamente-revisada — e eventualmente (à revelia) reprisada — do lauto noticiário internacional, mas sim, sobre como a surpreendentemente crescente popularidade do bem, elevada à enésima potência pela retórica corretamente civilizatória de um bem-educado e coerentemente divulgado Barack Obama — orador adorado e jornalisticamente adotado como franco candidato à iluminação —, tem resultado em correspondente fúria eloquente das forças do mal, maladaptadas e inconformadas em sua recorrente derrota virtual: uma crucial luta moral que, descontando a quedinha pelo drama, vejo refletida em todos que me querem mal, e até em momentos de raiva em meu mais querido adepto conjugal. Argh. Como agora, por exemplo, na guerra midiática que reedita, em termos cada vez mais duros, a renitente ditadura do mal e sua inesgotável batalha renhida contra o discurso suave do bem: pra quem acha que é exagero de minha neuramística parte, está no NY Times pra todo mundo ler, na ampla e globalmente aceita língua neologista inglesa, claro. E pros pobres [minguados] praticantes do preambulante [praticamente irrelevante, musical, poético e belo idioma] português, no Jornal do Brasil, vale conferir. Ah. Tudo bem. Tudo isso é só pra confessar o nível hiperemocional de tensão preconclusão, refletindo de certa maneira o onipresente conflito universal, dos nossos mais caros projetos que vêm dividindo, de modo rotineiramente assustador e praticamente irreversível, o placar político aqui da casa em extrema-direita e extrema-direta: é extrema-unção na certa. Que descanse em paz o odioso conflito de todo casamento visceral, porque eu, sinceramente, já não aguento mais: vade retro, tentação de ir e não voltar jamais.
*ops: caracteres, só vi agora, tantas horas depois, isso é blog!, gente
Que as palavras ensinem e as ações declarem. do Sermão de Antônio de Pádua
Vocês eu não sei, mas eu hoje acordei rezando por algo que é bem mais grave que um mero encontro conjugal, sob as bênçãos sagradas de um tácito acordo comercial. Há um eixo arraigado do mal no caminho da paz mundial, e por isso o apelo do dia ao santo de amorosa devoção: acendo todas as velas e faço de joelhos qualquer promessa.
Não que eu acredite que o poder votivo, quer dizer, do voto, entre tantas e tão misteriosas forças ocultas que nos controlam, faça, afinal, alguma diferença radical nos destinos do mundo — se é que tal coisa existe —, mas é mais ou menos como aconteceu com a eleição de Obama: pelo menos nas telas dos vídeos poderá ocorrer, se esta graça nos for concedida, uma mudança definitiva, um grande alívio visual que terá, por consequência, boa influência em nosso estado cotidiano de alerta mental. E antes que se especule o que é que nesta manhã de junho estou pedindo ao santo das solteiras, com ameaças ferozes de inverter-lhe a imagem caso não seja atendida... que namorado que nada, é dia de eleições no Irã, gente, e há grandes chances, livrai-nos, de uma vez, da cara e das intenções cinzentas de Ahmadinejad, o namorado que ninguém gostaria de ter, dá uma forcinha aí, mas ops, peraí: não é amanhã o dia do santo casamenteiro? E os namorados com isso? Hein? Pois é, nesse negócio de oração, se pensar bem, tem sempre um tropeço qualquer: há mais mistérios entre causa e padroeiro do que sonham nossas vazias crendices, de intenções e votos o inferno está cheio e, cá entre nós, se haverá paz na terra algum dia, entre os adversários de má vontade, pedido sem fé pra valer tem que ser mesmo concedido de véspera, não? No tempo certo pra preparar a festa, valei-me, meu santo português, que, por falar nisso, não deu muita sorte com datas: morreu solitário numa sexta-feira 13.
"E quando volto aos Estados Unidos mais ou menos a cada três meses e pego um jornal, descubro que não perdi tanto assim afinal. Enquanto estive relendo P.G. Wodehouse, ou 'Walden', a loucamente acelerada montanha-russa do ciclo 24 hs por dia de notícias propulsionou as pessoas pra cima e pra baixo e pra baixo e pra cima e depois as deixou praticamente no mesmo lugar em que haviam começado", escreve, no NY Times, Pico Yier*, um bem-sucedido jornalista de Park Avenue que largou tudo para viver num templo escondido no Japão, lendo e escrevendo quando lhe dá na telha com uma tangerina fresca na mão.
Pois não se espantem ao descobrir que o artigo foi publicado a, digamos assim, uns 3 ou 4 dias atrás, porque cá entre nós, embora eu tenha pretendido em bem menor escala atingir essa calma lenta de rotina ideal, tendo chegado a exatamente as mesmas conclusões de Yier pelo menos quanto à compulsiva leitura de notícias online and off, ando tão ocupada, tão preocupada, tão tensa, deprimida e atarantada como nunca estive antes — nem morando no Rio por mais de 30 anos, gente! — sem tempo ou disposição pra mais nada além do trabalho intenso, da ansiedade e da culpa não-sei-de-quê, ah, sim, pra variar: todos os males do mundo, da obra, e, claro, do conturbado casamento. Porque a nossa tão cultivada doença urbana mental, todo mundo sabe, segue firme e fiel, ofegante, latindo e lambendo o nosso ego fatalmente afetado como se um cachorrinho excitado fosse, bem ali do nosso ladinho onde quer que a gente esteja. Com um copo enorme de vodka na mão. Verdade que estou a poucos dias, poucas horas e mais alguns segundos — aiai, respira fundo — de tudo isso se acabar, ou se modificar, para o bem ou para o mal, com alguns poucos sinais de menos ou mais apontando para um fim normal, um novo começo profissional em que um pouco de calma, ou de sorte, ou sem grandes favores o franco resultado do trabalho intensivo de toda uma vida poderá, desdenhosa e finalmente, dispensar-me antes da morte certa algum doce e modesto usufruto, ui, soei trágica agora. Mas isso, gente, é pra me consolar de antemão da ausência futura de uma — (im?)possível? — reviravolta brilhante, vocês sabem, daquelas clássicas, dramáticas, aplaudidas sacadas hollywoodianas que elevam o herói a seu pódio iluminado um teco antes da bancarrota final, coisas de filme, mesmo. Porque embora em minha vida eu dificilmente careça de lances crucio-radicais cinematográficos, dignos da mais imponente e cada vez mais rara tela grande, a grande verdade é que após algum tempo instigante, por artes malignas do destino, tudo volta a um cotidiano chinfrim de mesmice interiorana que eu trago pra lá de oculto em mim, arrastando consigo os grandes amores, os altos e baixos inebriantes de uma drogada dependência de sucesso público a culminar, teatétricamente, num prosaico "me deixem só". No fundo no fundo, não sei se é desejo ou desculpa. A conferir.
*embora Pico Yier afirme em seu artigo que "as ferramentas que escolheu, palavras escritas, estejam aparentemente se tornando meros acessórios de imagens", a qualidade do que ele escreve — e, por extensão, a qualidade lida do calmo lazer literário que pratica — toca fundo em quem o lê. dá uma esperança danada de acertar-se na vida.
Julio Daio Borges, do Digestivo Cultural, explica gentilmente que não lerá nem resenhará O Gozo de Ulysses por ser acadêmico demais para sua linha editorial. Tudo bem, eu entendo, mas pra quem ainda não leu, esclareço: O Gozo de Ulysses é um dos livros mais antiacadêmicos da história da literatura. E o original de James Joyce que o inspirou, aliás, também.
De Paulo Martinez, produtor de moda, en passant no GNT sobre desfile da Lenny: "Este maiô não é pra tomar sol, é pra ficar dando uma pinta ali na piscina." Gulp.
"Qual livro você gostaria de recriar?", pergunta Sidney Rezende em seu blog. A resposta mais criativa ganhará... um exemplar de O Gozo de Ulysses ! Corre lá (são 1,3 milhões de leitores na disputa). Porque eu, vocês sabem, já fiz a minha parte.
De Gerana Damulakis, uma "Leitora Crítica", via comentário: "Venho lendo O gozo de Ulisses e estou simplesmente adorando. A irreverência, a escrita que flui gostosa; enfim, um texto atrás do outro, sempre trazendo algo interessante que causa imediata reação."
Lenta e arrastadamente, nesta gelada manhã serrana de domingo, leio no Globo — para ser mais exata, no blog da Marília, e mais, pra me consolar melhor, num bocado de sites de "celebridades" ao redor do mundo — como o nosso perfeito Rei Arthur da Cozinha Americana enfrentou, com sua doce Guinevere de academia (academia de ginástica, claro), uma baita crise conjugal de quatro anos de duração (ops, peraí: quatro anos? mas é meu casamento inteiro, gente!) nos duros tempos que antecederam a eleição de Obama para o Senado, por Illinois. Pois falando em Michelle, la belle, a dedicada e amorosa primeira-dama, o entrevistado de Marília descreve: "Ela passou a ficar cada vez mais ressentida com as ausências prolongadas de seu marido, desconfiava de suas ambições políticas, que ela considerava exageradas. E ele pensava que ela era fria e ingrata. Os problemas financeiros do casal só complicavam a situação". A conversa entre os dois ficou rara, ok, e o romance mais raro ainda, que noite de encontro teatral na Broadway que nada, tell me about it.
E não me venham com essa de amor de náufragos numa ilha (ou seria numa cabana?), por favor, mito tão absurdo e injustificado como o Triângulo das Bermudas, ambos enganos esperançosos amplamente disseminados numa época (saudosa?) em que mídia, investigação e pesquisa tinham outro significado, vejam, por exemplo, a tentação benévola de tantos para logo inserir o "misterioso" caso do Air France 447 nessa dolorosa estatística, tão insolúvel quanto fantasiosa: agora pretendem, imaginem, mudar a partir deste domingo o número do voo, como se proteção fosse contra desgraças futuras — pior a emenda que o soneto, já que 445, vamos combinar, somados os algarismos dá "13", o número explícito do (sai!) azar. Mas voltando ao perfeito casal Obama, aposto que Renegade - The Making Of A President, o novo livro do jornalista Richard Wolffe, será mesmo um best-seller imediato e isso, não só pela indiscutível fascinação que Barack Obama exerce na mente carente das massas impotentes: uma também perfeita crise conjugal associada à pobreza em potencial e encerrada, como nos melhores contos de fada, com um mais que perfeito e próspero final feliz, excita e consola o humilde humano comum em cada um de nós, não é mesmo? Alan e eu, por exemplo — nestes santos últimos dias que precedem não-sei-qual inevitável desfecho —, atravessamos uma grave crise pra Camelot nenhuma botar defeito, e para a qual somente uma quase impossível perfeita conclusão proverá a salvação: nossos sonhos mais caros, em que apostamos, literalmente, até nossos últimos tostões, estão por tornar-se realidade, e nada garante o retorno financeiro que esperamos deles (isto é, que Alan espera, já que eu, uma irracionalissimamente emocional de carteirinha, fico a cada dia que passa mais apegada à nossa bela casinha que Alan, confesso, desde o começo da temerosa aventura pela moderna arquitetura planejou vender, e com lucro expressivo). Some-se a isso a viagem pessoal de livro bem-sucedido da qual já estou quase despertando, mas ah, deixa pra lá: é só depressão pré-parto de livro novo, afinal de contas, se perdemos as últimas esperanças, onde é que a gente vai parar? E quanto ao "lenta e arrastadamente" lá de cima, não se assustem, não é por conta das doses maciças de tranquilizante que, pelas dores no desassossegado peito que venho sentindo, eu deveria estar tomando. Não, gente. É por causa da conexão discada mesmo, já que, vocês sabem, uma séria crise conjugal nunca chega desacompanhada e ontem pela manhã nosso Velox pifou, imaginem, logo agora: uma semana antes do lançamento de O Gozo de Ulysses. Resta esperar pelo nosso improvável final feliz, afinal de contas, se "eles" podem, porque não nós? "Ambos sabem os sacrifícios que tiveram que fazer para chegar à Casa Branca*. De modo que esta harmonia que hoje se vê entre os dois foi uma dura conquista", vamos combinar: são vãs esperanças deste tipo que garantem o sucesso de qualquer best-seller, hum. Não sei. Meu problema, no fundo no fundo, é uma mais contagiosa ainda carência absoluta de fé, ore-se com uma desconfiança dessas: tudo dá certo no final, e se ainda não deu... ah, melhor mesmo deixar pra lá que o técnico da Oi já vai chegar.
*na intimidade, Alan se refere à nossa casa nova nas montanhas como "Casa Branca", embora eu esteja pensando, seriamente, em pintá-la de cinza.
Tá certo: costumo achar Lobo Antunes um chato insuportável, mas nesta declaração pré-Flip, hoje no Globo, não tenho nada a tirar nem pôr: "O que eu acho que deve ser um livro foi mudando com o tempo. Antes estava interessado na história, agora a história não me interessa absolutamente nada. Não vejo os personagens fisicamente, não imagino como eles são. Meus livros são vozes, sobretudo os últimos, são muito simbólicos, não tendem para um fim definido. Não me interessa mais fazer romances, mas pôr a vida inteira entre as capas de um livro." Falou. Qualquer dia tento lê-lo de novo. Depois do Finnegans, quem sabe.
Bem que eu gostaria de ser capaz daquele tipo de discurso radical que, tenho certeza, cala ao fundo na mente de muitos sionistas dedicados no dia seguinte ao (histórico? raro?) discurso egípcio de Obama no Cairo: que árabe filho da mãe, safado, entreguista, inimigo de Israel, eu sabia, bem que eu disse!
Mas não, gente, não engulo essa de que Bush, sim, era amigo incondicional de Israel e dos judeus, não. Bush sim, era um entreguista: entregava-se de bom grado na mão do acaso (e de mais alguns assessores atentados) pra não ter que levantar um único dedo, deitado nos precoces louros chamuscados de seu discutível primeiro mandato, legitimado pela coroa de espinhos, vítima santificada do covarde ataque malvado dos ímpios, tem algo mais bíblico do que isso? Tem. O comando global claríssimo da paz, do amor entre irmãos, da harmonia na Terra entre todas as coisas emergindo historicamente das guerras mais sangrentas, ih, gente, soei messiânica agora, eu sei, mas cá pra nós, não consigo mesmo resistir a uma retórica bem praticada numa soma nunca antes igualada dos melhores clichês da civilização que se chama a si mesma de humana. Tá certo. Há profunda ingenuidade política no ambicioso subtexto de Obama, autoimolado, ops, ainda não, autoempossado no pódio da paz entre os povos, ele mesmo, com sua mist(ic)a herança genética tomando-se ares de cosmopolita, um minilabirinto simbólico disso. Mas há, por outro lado, um embora civilizado extensamente inusitado duplo sentido, lembrando aquele classicamente oculto irônico diálogo da incompreensão conjugal, o que, afinal de contas, ele estará querendo com isso? Tudo bem. Em seu vasto apanhado (numerologicamente engendrados 54 minutos e 54 segundos, está no youtube), Obama deixou de lado alguns fatores históricos que muitos gostariam de ver (re)cobrados, mas, gente, o mundo anda, e o que o mundo era um dia já foi, não resiste mais neste nosso mundo: os egípcios já não são "aqueles" egípcios, nem os gregos, nem felizmente os bárbaros vikings ou infelizmente os maravilhosos filósofos medievais do Islã, etc., etc., nem Neanderthal nem nada, apesar de que uma perenidade idílica de Éden sempre buscada bem que seria bem-vinda, com ou sem hífen entre tantas outras dúvidas, ou dívidas, pois cá entre nós, que sentido faz perder mais tempo ainda com esse papo cifrado? Relaxem, pois. Acreditem. Pelo menos no dia de hoje, um 5 de junho de históricas proporções, ininventado postercriado "Dia da Terra" ideal, praquele tão ambicionado congraçamento universal. Está declarado: Barack Hussein Obama, Presidente da Terra.
"Parte da luta americana contra terroristas radicais tem a ver com a mudança dos corações e mentes daqueles que eles recrutam. Se existem vários homens e mulheres entre 22 e 25 anos de idade no Cairo ou em Lahore que escutam um discurso meu ou de outros americanos e dizem: 'Não concordo com tudo que eles dizem, mas parece que eles sabem quem eu sou ou parece que eles querem promover o desenvolvimento econômico ou a tolerância ou a inclusão', então talvez eles se sintam um pouco menos dispostos a se deixarem tentar por um recrutador terrorista", declara Obama em entrevista exclusiva a Thomas Friedman, do NY Times, antes de embarcar para o Oriente Médio. Vale conferir. Tais inéditas opções diplomáticas de Obama, no entanto, sejam ou não expressão da verdade e da boa-vontade em busca de um mundo mais tranquilo, passam bem longe da unanimidade. Argh.
de Paulo Polzonoff Jr., via Facebook "No mais, fiquei com uma pontinha de inveja de você: gostaria de voltar a ter esta relação apaixonada com a literatura que você parece ter."
Taí. Já não era sem tempo: nossa velha profecia favorita acabou de virar filme. E vamos combinar que não é só este mundo que vai acabar em 2012, gente, não. E nem só o reinado do dinheiro, ou melhor, nossa moderna concepção capitalista de vida baseada no axioma "tempo é dinheiro".
Pois saibam vocês que o copyright das obras de James Joyce (literatura é lucro?), até agora ferozmente defendido entre quatro paredes de aço por seu neto Stephen, deve expirar também na mesma data, salvo prorrogações em contrário, confiram nO Gozo de Ulysses: "Se apesar da ardente torcida ele não desencarnar tão cedo, não tem problema: em 2012 – se o mundo não acabar antes, já disse e repito – a obra do nonno cairá em domínio público." Mas agora falando sério: vocês aí, leitores, que me conhecem tão bem, sabem muito bem que, para mim, esse tipo de superstição apocalíptica ficou bem para trás, nos bancos de trás daquele encrencado ônibus do destino onde viajei com alguns amigos e companheiros de culto, do Rio a Curitiba, para encontrar José Argüelles (ai, gente, saudades do trema) em pessoa, com sua sonolenta interpretação dos Calendários Maias. Hoje em dia, felizmente ou não, estou mais para o racionalismo deste artigo da Slate, ai, isso dói, Dawkins (a racionalidade da pura verdade, digo). Dói tanto que nesta semana crítica mal estou me segurando, isto é, já estou de novo me segurando em pêndulos, Mercúrios retrogrados e afinal, mas não finalmente, nas promessas contundentes de uma nova era brilhante que se inicia, não em 2012 como prometido anteriormente — logo depois do tsunami arrasador mostrado no filme —, mas, pasmem, já nas próximas semanas: para ser exata, no próximo solstício de verão (21 de junho, meros 5 dias depois do [meu] Bloomsday), quando enfim inauguramos — somente nós, claro, seres iluminados e ascencionados, verdadeiros anjos encarnados neste estranho planeta que atende pelo nome de Terra, embora seja 70 por cento água: os demais, fadados, que se danem de uma vez — a mais perfeita oposição ao Doomsday de que já se teve notícia. Não é pra menos. Até lá, espero, rindo e cantando, seremos todos aficionados, convertidos leitores apaixonados pela ficção co(s)micopoética de James A. Joyce, cá entre nós, tem coisa no mundo mais iluminadora? "Cá do Brasil, dou a minha mineira mãozinha."
De Antônio Torres, em resenha privada: "Por fim, mas não por último, espero que seu livro chegue a muitos e muitos leitores, que por sua vez chegarão ao Ulysses, que com certeza lhes proporcionará um gozo estético que jamais experimentaram. E aí, muitos pontos a mais para você."
Depois de entrar em contato com um homem religioso tenho sempre o impulso de lavar as mãos. Friedrich Nietzsche
"Pensar que dessas cartas possa aparecer uma relação não limpa entre os dois quer dizer que não se entendeu nada sobre o papa Wojtyla", afirma o vaticanista em artigo do Globo sobre o "conturbado" processo de beatificação de João Paulo II, uai, gente, quem não entendeu nada agora fui eu.
Tudo bem que pouco ou nada entendo de liturgia católica, mas se até Cristo — a despeito, claro, de mil teorias não-limpas sobre a menos limpa e mais santa das mulheres — teve amiga íntima, por que não poderia o pobre papa polonês? Aí tem coisa, honi soit qui mal y pense, o que poderia haver de "sujo"? Sexo? Gozo? Beijo de língua? Hum. Não sei. Essa mania que as religiões têm de compartimentar bem aquém do bem e do mal o escopo do comportamento humano é que provoca, a meu ver, boa parte dos males desse mundo. Santidade mesmo, vamos combinar, é atravessar a vida se expondo a qualquer "tentação" ou pensamento "ímpio" e mesmo assim, por puro amor ao amor em si, permanecer piedoso e íntegro. JP2 na verdade, a meu ver, se fortalece depois de morto. Longa vida ao santo que não evitava as mulheres como se o diabo fossem.
carretas namorando na União Indústria: celfoto Noga Sklar
Não sou Susan Boyle nem nada, mas confesso, gente: estou "exausta e exaurida emocionalmente", como afirma "O Globo" se referindo a Susan, embora, acredito, não ao ponto de internação. Ainda. E nem tem tudo a ver com ter sido preterida durante a breve carreira de cronista, respectivamente, pelo Jabuti, o Portugal Telecom, o Prêmio São Paulo, o Man Booker International e o Nobel — não necessariamente nesta ordem, crescente, de valor e importância, aí incluído o convite para a Flip.
Vocês me entendem: 57 anos de idade, feia, pobre, desempregada e mal-arrumada, romancista frustrada, só faltava ainda por cima ser virgem e nunca ter sido beijada, desses dois últimos escapei, graças a Deus. E ao Alan, claro, somado a uma meia dúzia de uns dez ex-namorados dos quais por pelo menos um (como eu, arquiteto e prosista), em momentos de crise, ainda me sinto apaixonada. Pois saibam vocês que hoje em dia grande parte dos meus problemas se deve justamente a ele, Alan, marido aposentado, americano desterrado e, pasmem, remediado — o que hoje em dia com a queda das bolsas já nem é tão raro —, cheio de manias da maior ou menor grandeza. Como, por exemplo, neste episódio dramático de construção da nossa baucasa, onde tudo que a gente adquire tem que ser "no atacado": judeu não compra no varejo, ele diz, nem arquiteto ou empreiteiro, tá certo. Geralmente não cedo. Aceito, confirmo, e por trás das costas torço nervosamente os dedos, faço que não ouço. Mas no caso das ardósias mineiras fartamente rústicas, de generosas texturas, vamos combinar que eu bem que concordei com ele. Decidimos, contra a opinião criativamente simplória do empreiteiro e na contramão dos fatídicos porcelanatos chatos, revestir nosso piso nesta pedra natural, sem corante ou aditivo, produto de Minas que a Europa cobiça e não sem razão: é bonito mesmo. Mas aqui pela Serra, sei lá por que, ardósia acabou virando sinônimo de pobreza, baixa qualidade, produto indigente pra telhado de zinco nenhum botar defeito. E por causa disso, navegando nas águas elitistas e exigentes de Mr. Alan, tanto pesquisei na internet que acabei atingindo a fonte da coisa: a pedreira de exportação propriamente dita em Papagaios, Minas Gerais. Pois foi. Preço acordado, contrato assinado, mal sabia eu o que me aguardava, ah, gente. O frete foi marcado para "impreterivelmente" sábado cedo, e me preparei a contento: dois serventes em regime de hora extra e um dia inteiro esperando, que celular de motorista que nada, sempre fora de área. Veio o domingo e nada do nosso piso, mais um dia maldormido de trabalho extra e plantão na obra, até que quase às dez da noite, quando eu já tinha até desistido, me liga o motorista com uma história triste de funcionário cansado marcando a entrega pra finalmente esta manhã, "dá pra subir com a carreta?", dá sim... claro... pode vir sem susto... Pois é... não deu... e eu nem sabia em que estava metida... Às seis da manhã toca o telefone, e com lançamento de livro e acabamentos de obra tudo ao mesmo tempo aqui e agora, nem posso dizer que tenha me acordado, já que faz tempo que eu mal durmo: era o motorista da carreta a caminho do porto do Rio, já tendo sido xingado, vilipendiado e rejeitado, tendo o trânsito impedido no árduo caminho para o nosso tranquilo cul-de-sac no mato, no mais para domesticado Vale do Sossego, Correias, região serrana do RJ. Me visto às pressas, faço alguns contatos de emergência e saio ao encontro do gigante estacionado... dá pra imaginar a dantesca cena? Nem precisa: segue junto a foto, prova in loco das bodas de ardósia: o magnífico caminhão deles, 29 toneladas de pedra com destino a Sevilha e Oslo e no meio delas, espremidos e meio verdes, os nossos humildes 6 engradados transferidos, 6 toneladas de pretensão para Alan & Noga Sklar no enferrujado caminhãozinho de interior. Tá certo. Com tanto drama sério na vida custa encontrar um bom motivo de regozijo e riso, mas mesmo assim é preciso. Rir, todo mundo sabe, é o melhor remédio, e em consulta a seguir o cardiologista confirma: evita a morte por falha do coração. Sobra a queda de avião, ô tristeza, não é à toa que morro de medo disso. Ai. Passou por aqui um arrepio.