sklar lubicz noga crônicas irônicas de
ulysses
james joyce


Para Joyce, quem mais?
Para o espectro muito vivo de Joyce,
que desassombrou de vez minha carreira de escritora.



Noga se lê Nora

"É um dom de Deus uma mulher sensata e silenciosa, e nada se compara a uma mulher bem-educada. A mulher santa e honesta é uma graça inestimável; não há peso para pesar o valor de uma alma casta."
Eclesiástico 26:18



LGA pergunta:

Noga:

Você sabe quem foi Nora Barnacle? Bloom é o alter-ego de Joyce? Qual foi a real influência de Nora Barnacle na escrita/estilo/densidade/lirismo/e quase tudo literário de Joyce? O que aconteceu em 16 de junho, na vida de Joyce?

Respondo:

Ai, mamãe, outro professor na minha vida, já não basta viver com um (risos), vamo lá: Nora Barnacle foi a mulher de Joyce, com quem este trocou cartas fogosas que nunca li. Mas gostaria. Bloom? Li ontem que o alter-ego de Joyce é Stephen Dedalus, pelo menos no "Retrato do artista quando jovem". Por outro lado, já respondendo outra pergunta, no dia 16 de junho de 2004, ops, 1904, Joyce conheceu Nora Barnacle com quem veio a se casar. Em Ulisses, Stephen é jovem demais (esse cara não cresce não?) para ser Joyce, hum. Por outro lado, não há como fugir da impressão de que todos os pensamentos que Bloom pensa têm que ser os pensamentos de Joyce, mas hum, Joyce que eu saiba não era judeu. Aguardo ansiosa a sua resposta*. Pra ser sincera ainda não sei qual foi a real influência de Nora na arte de Joyce. A gente sempre tende a pensar que mulher nunca apita nada, bem, com a rara exceção daqui de casa onde é a mulher que apita, ops, escreve. Falar nisso, depois que você me responder, me dá permissão pra publicar este interessantíssimo diálogo?

"... ela deslizou a mão para dentro das calças dele sem que ele pedisse, agarrou na mão dela o aparato sexual dele e muito lentamente, sem dúvida prazerosamente, o masturbou até o orgasmo, sem desviar dos dele seus olhos calmos, de quase-santa (do livro "James Joyce - retrato do artista", do jornalista irlandês Stan Gebler Davies). A história real foi escrita por Joyce em uma de suas cartas, e foi isso que J.J. celebrou em seu livro incrível. E é isso que vem sendo celebrado há vários anos pelo estranho conjunto de acadêmicos, literatos e produtores de literatura que organiza o Bloomsday. Em uma palavra: celebram uma punheta. E o mesmo termo pode ser aplicado à maioria das atividades que acontecerão amanhã", afirma Paddy McGuiness, não o crasso comediante inglês, mas um respeitável editor australiano conservador, a respeito do pouco lido — e menos ainda entendido — Ulisses, na véspera do centenário do "dia de Bloom" em 2004. É Luiz Gonzaga, mais uma vez, quem envia a dica.

De: Luiz Gonzaga Alvarenga
Para: Noga Lubicz Sklar
Enviado: sábado, 19 de janeiro, 2008 10:06
Assunto: Nora Barnacle (ou: para entender Joyce)

Ok, vamos lá:

Nora foi a primeira e única mulher na vida de Joyce. Também era literata (palavra estranha! faltou dizer: a seu modo. suas cartas a Joyce se perderam ou foram destruídas) e sua influência sobre Joyce não pode ser minimizada. Bloom, quando pensa em Molly (por exemplo, o trecho que você gostou), é Joyce pensando/falando de Nora. Nora sofreu o diabo nas mãos de Joyce, mas ele a imortalizou em Molly. E sendo você Noga, fale mais de Nora. Ela merece.

(pode reproduzir, autorizo).

LGA

O que pode Noga dizer de Nora? Li algumas cartas picantes de Joyce para Nora, mas como o Luiz Gonzaga avisou, nenhuma de Nora para Joyce. Fica a coisa então restrita ao campo onírico da especulação, ops, sem o duplo sentido que tanto agradaria a Joyce, o homem que escreveu: "...te derrubo por baixo de mim sobre este ventre macio que é o teu te fodo por trás, como um porco monta uma porca, glorificado pelo suor que emana do teu cu fedido", hum.

Que homenagem melhor de Noga para Nora que a prova cabal de graça amorosa numa mulher que não é casta, nem santa, nem silenciosa? Segue, semi-xará (escrito para o meu Alan em dezembro de 2004):

"Enfiei o dedo na cona pra sentir a forma, a umidade... e me espantei ao descobrir lá dentro uma coisa viva, um bicho com uma boca sugadora — quase como um peixe —, engolindo o meu dedo como se fosse ar. Passei o dedo médio pela vulva, até o botãozinho rosa do lado esquerdo: meu interruptor clitoriano de gozo. Comecei devagar a acariciá-lo, com os olhos bem abertos fixados nos olhos dele — o pau dele se levanta — enquanto ele observa, curtindo o meu ato dividindo meu prazer, meu dedo se movendo do clítoris à cona (aquela boca sugando) depois de volta, esfregando mais forte e mais rápido até o limiar do orgasmo, gritando o nome dele." — do Hierosgamos.

* LGA não respondeu... deixou a pergunta no ar pra que a própria tomasse a forma de sua própria resposta... agem assim os grandes mestres? Deixam ao estudante a tarefa de pensar, discutir, concluir? Seria Joyce Stephen... e Bloom? A hipótese se confirma nas Notas de Cliff

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Joyce no cotidiano IV

A César o que é de César:
"O movimento para adiar o pagamento do IPTU, a fim de evitar que o dinheiro seja usado com fins eleitorais, foi recebido com deboche por César Maia, prefeito da cidade do Rio de Janeiro. Ele disse que o boicote levará a uma vitória de Pirro (general grego que derrotou o exército romano numa batalha que lhe custou severas baixas)."

A Joyce o que é de Joyce:
"— Pirro, senhor? Pirro, um píer.
Todos riram. Lúgubre riso altamente malicioso. Armstrong olhou em volta para os colegas com seu perfil de bobo alegre. Num instante todos rirão mais alto, cientes de minha falta de ascendência e da mensalidade que o papai paga.
— Me explique agora, disse Stephen, tocando com o livro o ombro do garoto, o que é um píer?
— Um píer, senhor, disse Armstrong. Uma coisa que avança pela água. Uma espécie de ponte. O píer de Kingstown, senhor.
...
— O píer de Kingstown, disse Stephen. Sim, uma ponte decepcionada."

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Campanhas de domingo
(da série Joyce no cotidiano. No caso, no meu)

Mangabeira x Gabeira? Sou mais Gabeira. Gabeira para presidente.

***

Estava eu quase dormindo, quando ouvi vinda do além, ops, da tevê, a voz troante: "vamos construir a cerca..." o quêêê?? Era Mike Huckabee — crente que seria o vitorioso do dia — querendo cercar o país. Meu Deus. Elio Gaspari na coluna de hoje afirma que Bush é o pior presidente da história dos Estados Unidos. Até agora, queridos. Até agora. Deus nos livre desse macacabe. Perdi o sono de vez. Oprah para presidente.

***

Às vezes a gente perde. Às vezes a gente ganha. Tudo bem. Assim é a vida. É dia de São Sebastião e ninguém deu a mínima pra minha campanha pública de otimismo. Assim encerro a breve carreira política iniciada por vítima de bala perdida. Ops. Esquecida. Noga na prefeitura? Eu, hein! Tô fora. Meu negócio é literatura.

***

E não adianta vir com essa conversa mole de que hoje é um domingo como qualquer outro. Não é mesmo. É meu aniversário, gente! Meu e de minha mãe velhinha: há 56 anos tenho sido o presente de grego dela. Pensei que era a dica da aposentadoria, mas olha aí, ó: revolucionei minha vida de novo. Batendo cabeça pra Anthony Burgess, grande especialista: Re Joyce!

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Cartas de amor para adultos

Discutindo com o Alan ontem à noite as cartas eróticas de Joyce para Nora: o cara não é normal (risos nervosos). E alguém duvidava? Escrever pornografia assim não é pra qualquer um. Ler também não. O que é que eu penso vendo o meu ídolo se mostrar assim, de pica-ao-vento (foram publicadas), com tais tão estranhos gostos de alcova? Normal. Ou melhor: (a)normal. "Você pensa que é todo mundo assim? Como nós?", pergunta o Alan. Não sei. Papai e mamãe acho que não eram. Dá pra entender a aflição dos filhos de Nora, suspeitos de destruir as cartas dela em resposta. Não admira. Só não dá para perdoá-los por nos terem privado delas. Segue meu texto com o mesmo título deste, escrito — em novembro de 2005 — enquanto eu hesitava, resistia como podia a traduzir meu picante diálogo online com o Alan.

afinal decidi mesmo traduzir os Cyberjournals* e estou esquentando as turbinas. cheguei à conclusão de que ninguém melhor do eu para traduzir meu próprio relato de trocas amorosas. afinal sou escritora, falo português, porque não? medo. paura. fico pensando nos termos que vou usar na hora de traduzir os termos eróticos. sim, porque escrever em inglês, uma lingua que domino mas não é a minha, aquela, na qual fui educada, condicionada, reprimida... é uma coisa. agora, falar de sexo em bom português, como é que vai ser. pesquiso horas na internet e todos os termos que encontro acho chulos, vulgares, agressivos. nossa. nesta época de encontros online, bem, adultos quando se encontram amorosamente fazem sexo, não? e encontros online se baseiam na palavra escrita, há que caprichar na descrição, ser fiel ao ato em si, excitar o outro através de um inexpressivo conjunto de letras... alan diz, palavras são palavras e nada mais. mas eu tenho medo de empacar. no calor do ato tudo fica poético, suor, cheiro, aperto, fricção, nada mais poético que aquele calor súbito percorrendo a espinha, kundalini ou whatever, barrigas, seios, e... cunt in cock? em inglês, soa até bem. mas como descrever em português, dar nome aos bois, sendo ainda poética, transmitindo a beleza do amor realizado? pra emocionar o leitor, e não chocar? excitar pela pura beleza do encontro? deus. nunca tive um desafio como este. vai ser uma briga boa, a deusa coroa do sexo contra a mineirinha enrustida de Belô. vamos ver como elas vão se virar.



e já falando de cartas de amor, tenho em casa este tesouro, esta peça única, a carta de meu pai para minha mãe que sobreviveu à sanha destruidora do alzheimer, quando ela rasgou todas as outras antes que eu pudesse salvá-las. o que será que tinha de errado nesta estória de amor que me gerou? de onde veio esta raiva da minha mãe, sim, porque eu sei que a doença descontrola, desliga os botões todos, mas não consigo acreditar que uma raiva assim não existiu antes, quando o cérebro funcionava a contento. o meu pai daquela época era um romântico maravilhoso, capaz de amor arrebatado, lindas palavras, belas idéias. o pai que conheci já não era esse, talvez reprimido e limitado pela realidade da vida. mas é no jovem idealista, poético e apaixonado que eu gosto de me reconhecer, naqueles genes que eu gosto de banhar os meus. vai ficando amarelinha e já meio rasgada, tadinha. vou transcrevê-la abaixo e assim preservar sua memória, eternizada na tela. meu ato mágico neste dezenove de novembro para eternizar a memória do amor que me gerou, fazer dele o gerador, inspirador do amor que eu vivo hoje.

Ein Dorot, 20 de abril de 1950

Querida Eva

Recebi ontem a tua carta que me trouxe uma alegria indescritível não só pelo fato de receber noticias tuas que já estavam atrasadas, como pelo seu conteudo, que compensou plenamente a longa espera.
A falta que sentes é correspondida e não sei se em maior gráu, mas posso te afirmar que é incalculável, tanto mais quanto vão se arrastando os dias.
De acôrdo com o que dizes entrarás no kibutz no dia 15 de junho e se não posso dizer que isso me faz feliz pois ainda faltam quasi dois meses, pelo menos entrarás um pouco antes do que nós pensávamos...
...Por meu lado considero a nossa situação resolvida embora ainda te restem dúvidas mas não posso te dizer se fazes bem ou mal em não dizer aos teus pais, pois não os conheço e não sei como reagiriam, em todo caso creio que não haveria mal; eu pelo menos já dei a entender algo aos meus.
É sempre dificil, para quem passou tôda a vida ao lado dos pais separar-se, mas da forma como nós o fizemos não é tão brusco pois não é uma decisão repentina mas o fruto de uma idéia amadurecida à qual nos vamos nos acostumando pouco a pouco. Teus pais sentirão a tua falta mas não lamentarão a tua partida se souberem que tu te sentes feliz e que encontraste alguém que se encarregue de fazê-lo.
As coisas bôas na vida não se conseguem sem dificuldade, e nós precisamos ser suficientemente fortes para transpor todos os obstáculos sem esmorecer, quando nós estamos certos de que o que nós procuramos é justo e que é aquilo que nós realmente desejamos. Eu estou certo disso.
Não posso dizer exatamente como cheguei a essa conclusão mas quando eu me propus a fazer hachshará* e entrei no kibutz disposto a mudar radicalmente de vida estava convencido de que estava no caminho certo, mas sentia ainda a falta de algo que não podia definir. Essa duvida desapareceu quando te conheci e agora estou convencido que nada mais me faltará quando nós estivermos juntos. E se tu por acaso te sentires sem fôrças para dar tal passo, lembra-te que eu aqui estou à tua espera. Os pais e irmãos são insubstituíveis mas recorda que eu e todos tivemos que dar êsse passo e não me arrependo em absoluto. Além disso a separação não é definitiva pois em Eretz* sempre haverá lugar para mais alguns judeus.
As novidades que a Pola* manda são bem poucas. Além de decrever a viagem ela diz que estão fazendo um curso de ivrit* em Jerusalém, que agora já deve ter terminado e que depois farão um tiul* pelo país inteiro. Sôbre a hachshará em Eretz êles resolveram não fazê-la agora para esperar o segundo grupo e também devido às necessidades de Mefalsim*
Chegou hoje uma carta oficial do garin* comunicando isso e dizendo também que casaram ontem em Mefalsim a Chana e o Benjamim. Diz também que o Simon* vai fazer um curso de pintura, a convite do kibutz Hamenchad. Creio que êle deve estar bem contente com isso e também a Pola. Quando lhe mandei a resposta da carta lhe falei sôbre ti e sôbre o que penso de nós.
A data para a saída do primeiro garin está marcada para o dia 18 de Santos isso quer dizer que na próxima semana êles sairão do kibutz. Amanhã haverá um jantar de despedida e comemoraremos também a proclamação do Estado de Israel. Para este jantar será sacrificado o perú que coitado não tem culpa alguma na história
O kibutz está sendo muito modificado e está melhorando sensivelmente, pelo menos no aspecto, pois cortamos todo mato da frente e em frente ao refeitório, onde vamos fazer jardins e plantar árvores frutíferas. O trabalho no campo e nas uvas também está correndo normalmente. A Nagariá está fabricando os baús para a aliá* e por sinal estão saíndo muito bons.
... Anteontem chegaram do Rio o Armando e o Cytryn e também o casal Roterman... O que eu admiro é que todos êles já te conheçam do Rio, e parece que eu fui o último, e no entanto você esperou por mim.
...Na semana passada houve eleições no kibutz para escôlha da nova maskirut*. Começou às nove e terminou às 4,30 da manhã... e para menahel hameshek* eu creio que êles não tiveram muita sorte pois escolheram um chaver* que geralmente tem os pensamentos longe do kibutz, esperando por alguem que deve entrar brevemente, para que êle possa sossegar; já sabes que foi a mim. Calcula agora a importância da tua chegada pois não posso, por mais que me esforce, dedicar todas as horas livres para o kibutz; por isso em nome de todo o kibutz estás convocada para o quanto antes
...Em fins de abril ou princípio de maio devemos receber o caminhão o que será uma grande coisa. Devemos receber agora um rádio. Os elementos do Rio trouxeram bastante discos e muito bons; é pena que a vitrola esteja quebrada e não ouçamos música há tanto tempo. No dia 28 irei a S. Paulo para fazer compras e verei se compro a peça que falta.
Aceito a sugestão da devolução pessoal dos beijos, contanto que seja em breve e aqui vai mais um vale.
Como vai o teu estômago, melhor? Tome os remédios sem reclamar e sem fazer caretas.
Um saudoso abraço do
Abrahão


notas da transcrição
Hachshará - granja de preparação para a vida no kibutz
Eretz - pátria, Israel
Pola - irmã de meu pai que emigrou para Israel antes dele
Ivrit - hebraico
Tiul - passeio
Mefalsim - kibutz de imigrantes brasileiros e argentinos em Israel em 1950
Garin - grupo de emigrantes para Israel
Simon - marido de Pola que se tornou pintor famoso em Israel onde vive e pinta até hoje
Aliá - subida; emigração de judeus para Israel
Maskirut - secretaria
Menahel hameshek - responsável pelas finanças, tesoureiro
Chaver - companheiro, camarada

obs - grafia de português da época


*título provisório do Hierosgamos, em inglês

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Nefelibata

"Do Aurélio: nefelibata
[Var. pros. de nefelíbata.]
Adjetivo de dois gêneros.
Substantivo de dois gêneros.
1.Que ou quem anda ou vive nas nuvens.
2.Fig. Diz-se de, ou literato alambicado que despreza os processos simples, fáceis.

The dreamy cloudy gull
Waves o'er the water dull

Joyce faz o poema e discute a rima: "Assim escrevem os poetas, os sons similares. Mas aí Shakespeare não tem rimas: verso branco. O fluir da linguagem é o que é. Os pensamentos. Solene."

Houaiss fez:

Onírica nefelíbata gaivota
Ondula por sobre os mares sua derrota

Mas "dull" quer dizer "obtuso", "entendiante". "Gull" é "gaivota", dúvida nenhuma, mas em sentido figurado, "uma pessoa boba, fácil de ser enganada". Hum. Rimar é preciso, certo. Mas vou de gaivota ou de idiota? Contrariando o Houaiss, sapeco um

Nublada onírica medusa
Navega sobre as ondas obtusa

e vou dormir. Mas não consigo. Só fico pensando naquela gaivota idiota. No dia seguinte, me levanto afoita, direto para o escritório. Abro o Ulisses antes de tomar café — isso não está nada bem — e encontro lá: Voraz a ávida gaivota/ Revoa o mar e se abarrota, uai, gente, está bom isso. Mas não era assim... Volto ao inglês: The hungry famished gull/ Flaps o'er the water dull. Mistério. Não custo a desvendá-lo. Joyce reescreveu o mesmo poema dez páginas depois, mudando as palavras sutilmente e mantendo ritmo e rima... para alterar o sentido c-o-m-p-l-e-t-a-m-e-n-t-e! Agora sim: tenho certeza de que é idiota e não gaivota, mas tarde demais: a gaivota já tinha me conquistado. Ou pelo menos o pássaro, porque num golpe de sorte descubro que "pomba", em português, tem também um sentido figurado. Quer dizer "pessoa ingênua, sem maldade". Bingo! Tasco:

Nublada onírica esvoaçante
A pomba sobre o mar maçante

Esvoejo pelo dia afora numa tarefa ou outra, encontro amigos, converso, telefono, escrevo meia dúzia de emails. Mas subconsciente o poema não me larga. Bem que o espírito de Joyce podia enviar um pombo-correio... Mais uma noite maldormida e acordo de um sonho com uma palavra na boca: "adeja". Não sossego enquanto não deixo a cama, tateio no escuro, caneta e papel confiando no tato pra não deixar o adejo se perder. Esta manhã finalizei:

Nublada onírica esvoaçante
Adeja a pomba sobre o mar maçante

isto é, pelo menos até o próximo insight. Só no trecho da carta erótica "como um porco monta uma porca" já mudei "porco" por "cervo" e de volta umas vinte vezes. Como se a vida na terra dependesse disso. Ou a minha felicidade.
Já deu pra entender porque não ouso me meter a traduzir o Ulisses. Nem em duas vidas, gente. Nem em duas vidas.

Ou soaria melhor "a pomba adeja sobre o mar maçante"?

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Joyce no cotidiano V

Ainda a questão do buraco.
Na reunião em família, por falta absoluta de outro assunto no qual eu não fosse direta e publicamente desacreditada, decidi contar o capítulo "sucesso do buraco" na emocionante novela Noga x Prefeito-do-Rio. Pra quê. Ninguém quis saber da minha vitória, qualificada por todos como "ilusão". Sou acusada de estar mais feliz com minha própria "brilhante atuação" do que com o efetivo fechamento do buraco na rua. Estão todos convencidos de que nada adianta nada, embora, é claro, nenhum deles nunca tenha tentado nada.
"Em Ulisses", leio nas Notas de Cliff, "Stephen precisa desembaraçar a realidade do seu passado de memórias ofuscantes; precisa descobrir quem realmente é, confrontado com a pessoa que outros, como Buck Mulligan, pensam que ele é.
É, gente. Um Joyce bem interpretado dispensa qualquer Freud.

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Ulisses: o retorno

Antes que eu percebesse, já estava no fundo do poço. Havia perdido completamente o gozo da leitura. O que era riso fácil virou crise de doutorado, meu travesseiro macio trocado pela cadeira dura, o espaldar ripado machucando as costas sem nenhuma esperança de tesão: como distribuir na cama todos os livros, teses, links, o notebook, o telefone sem fio que preciso consultar a todo momento simplesmente pra engolir o texto? O que era viagem virou voragem e o vôo livre, balcão de repartição pública.
Quando dei por mim, discutia com um acadêmico — mil vezes mais experiente que eu nas engrenagens do ensaio — o sotaque exato do bêbado Bloom antecipando um prazer que deveria vir bem mais adiante: "sheeny nachez" no original, sheine narres, será? Gente. Levei três dias pra entender num grito eufórico e me descolar do exemplo alheio, em bom íidiche: "sheine=belo" "narres=gosto", um belo de um gosto, um prazer inenarrável com o bem-feito alheio — de um filho, por exemplo, bem casado, bem encaminhado na vida — mais que com seu próprio, uma bênção. Tá certo que no caso, e ainda mais se tratando de Joyce, só pode ser irônico, significar bem o oposto disso: ainda não cheguei no contexto, e a literatura judaica está cheia desse tipo de coisa. Mas e o sabor? O sabor da língua? Que belo engôdo, hein? Fico sabendo pelo Alan que "sheeny" é um termo pejorativo para "judeu".
Como foi que "sheeny nachez" acabou em "zi né um badrize limbo"? ...não estou criticando... só compartilhando como eu o faria se o fizesse, levando em conta a experiência pessoal: minha lembrança afetiva do sotaque de vovó que Joyce já despertara com "cutlet": um bolinho judeu de carne ensopada. Quanto mais eu escarafuncho, mais chego à conclusão de que é difícil entrar na cabeça de Joyce. Melhor deixar ele entrar na nossa.
LGA esclarece: " a coisa tem ramificações, por exemplo, Um judeu! ── exclamou Buck Mulligan, no original: The sheeny! Buck Mulligan cried. Traduz-se (literalmente) por: O lustroso! Buck Mulligan gritou. A tradução de Houaiss explica-se porque 'sheeny' — como também as expressões kike e hymie — é um termo ofensivo aos judeus, e ainda na expressão que se achará mais adiante — Goim nachez: o prazer orgulhoso dos gentios (com escárnio)."
Se Joyce escreveu o Ulisses dele com o de Homero ao lado, nada mais justo que eu escreva o meu com o dele do meu lado. E quer saber? Que tudo o mais vá pro inferno, de volta pra intuição, pra intenção gostosa, para a quase inconsciente fruição da arte. Mais uma vez, é a mão geniosa e genial de Joyce que me resgata do limbo. Afinal de contas, muitas têm o seu amado, mas só Dona Zélia en-gatti-lhou na literatura.* Ah, é, te devo essa**.


* no original: "If others have their will Ann hath a way", nessa até o Houaiss capitulou, se conformou com a nota de pé de página pra elucidar o jogo jocoso de palavras: se outras têm seu will (de William Shakespeare, vontade em inglês) Ann tem seu jeito (Ann Hathaway, esposa dele: "a que morreu para a literatura antes mesmo de ter nascido")

** taí um dos acrônimos mais famosos da língua inglesa, vocês sabiam? criado por Joyce, imaginem. A.E.I.O.U: A.E., I Owe You

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Bernardina

" — J.J.? lerdo lúbrico lingüista... ou métrica ou rima, a palavra e seu tom... mas desta vez em portugês, para que eu ouça o ritmo original da mente.
— pois pra isso é preciso melodia, meu amor, como em lingüista lúbrico e lerdo, entende?"

do Hierosgamos, de Noga Lubicz Sklar


Conversando comigo na cama o Alan confessa porque desistiu: deparado com a exigência de escrever um ensaio analisando as vírgulas, ordem das palavras e intenções veladas de determinado clássico da literatura, abandonou de vez a pretensão acadêmica. Era a vida real que o interessava; não um vazio exercício do intelecto, conduzindo na prática a lugar nenhum. Ou melhor: à admiração (des)lambida de uma meia dúzia de colegas (e concorrentes) intelectuais. O que tem isso a ver com o prazer da leitura? O que eu quero é sentir o orgasmo. Não me interessa um relatório extenso de ressonância magnética, mostrando as cores do cérebro se alterando durante o coito. Saber demais sobre os ingredientes pode correr o risco, às vezes, de desandar a receita do prato.
Tudo mudou com a entrada em cena da versão mastigada de Ulisses em português, algo assim mais ou menos como "Ulisses for Dummies". Dona Bernardina é qualificada: fez pesquisa de pós-doutorado sobre a obra de James Joyce no University College de Londres e em Dublin, que inveja, meu Deus. É membro da International James Joyce Foundation e da Escola Letra Freudiana. Já traduziu Joyce antes: segundo ela própria, um desafio um tanto assustador. Tá certo, tia. Somente o encantamento pelo "estilo harmoniosamente adequado ao conteúdo, pela sonoridade das palavras, pela melodia, cadência e ritmo da linguagem" de JJ deu a ela a coragem de enfrentá-lo: bravo, fessora. Valeu pela mão. Seu objetivo maior foi divulgar o Ulisses, e nisso estamos juntas, eita fã-clube diversificado! Cada um tirando a lasquinha a seu modo, eu, pelo menos.
É preciso reconhecer: ler o Ulisses na versão de Bernardina Pinheiro dá uma segurança danada. Estou nessa e não abro. Imagino que seja o que se entende por "versão anotada", tradição bastante respeitada no circuito internacional, e a nossa está à altura. Mas tem um problema: enquanto a versão de Houaiss é uma aventura na selva do intelecto — um obstáculo a cada virada de página, uma instigante dúvida, permanente e insinuante, quanto à nossa própria capacidade de entendimento, mas ao decifrá-la... que deslumbramento! —, a de Bernardina é uma visita guiada a bordo de um daqueles ônibus vermelhos de dois andares. No andar de cima, é claro. Vamos combinar: ler o Ulisses do Houaiss é mergulhar de snorkel, navegar livremente entre os corais multicoloridos de Abrolhos, tocá-los, senti-los te arranhando a pele para emergir sangrando, mas triunfante. Já o de Bernardina é observá-los de longe, bem sentados com uma Skol na mão num barco de fundo de vidro: espanta mas não assusta. E isso é bom.
A edição da Objetiva é uma maravilha, caprichadíssima. Traz no final a mais perfeita tradução das notas de Cliff, de Rickard, e da própria acadêmica tupiniquim (outros não cito, porque os desconheço). Explica tintim por tintim o teor dos episódios, as correspondências, as dificuldades intransponíveis nos muitos e variados trocadilhos, a maioria deles com intraduzíveis cores locais. Acreditem ou não, tem até um mapa ampliado de Dublin, das quadras de Dublin percorridas por Bloom, se um dia eu for lá não me esqueço de levar. Em resumo: dá pra entender o Ulisses quando a gente lê a versão de Bernardina, em si mesma um curso avançado de literatura irlandesa na FLV — Faculdade de Letras da Vida. Por outro lado, por estar o texto principal também dividido em dezoito capítulos, dá a falsa impressão de que Joyce fez assim: corta um pouco o barato das descobertas. Moral da história: nada substitui a contento o original em inglês. E em francês, em gaélico, em italiano, em grego, em latim, em alemão, em íidiche. Em transliterado inglês caipira. Em bel-cantês.
Já o professor e escritor Luiz Gonzaga de Alvarenga — outro fã de responsa de Joyce, com quem tenho tido a sorte de me corresponder durante a minha viagem — faz um tipo de mentor bem mais interessante: joga a teus pés as questões instigantes, envia links, te põe pra pensar. Em outras palavras: não te dá o peixe na boca; te ensina a pescar, a distinguir alimento de isca, é, gente: ao ler Joyce a gente ao mesmo tempo pesca e é pescado. O que não é possível é pretender engolir o peixe cru sem cortá-lo antes, primorosa e delicadamente, em cheirosas fatias delgadas de sashimi. Ainda por cima se vem desprovido de seu tempero mais picante.
Na melhor tradição da tradução traidora, LGA confronta Bernardina e Houaiss e intermedia o debate com algumas sugestões. O ensaio dele, na íntegra, está online aqui. Alguns exemplos:

JJ - His curling shaven lips laughed and the edges of his white glittering teeth.

AH - Seus curvos lábios escanhoados riam e as pontas de seus brancos dentes resplandecentes.

BP - Seus lábios crispados e barbeados riram assim como as pontas dos seus dentes brancos cintilantes.

LGA - Seus escanhoados lábios rosnantes riam e as pontas de seus brancos dentes resplandeciam.

(Uma das acepções do termo curling é: to raise and turn under the upper lip as in snarling. Ou seja: elevar e distender o lábio superior, como quando ao rosnar.)

***

JJ - His mother's prostrate body the fiery Columbanus in holy zeal bestrode.

AH - O corpo prostrado de sua mãe dele o fogoso Columbano montara em tesão sagrada. (Pág. 32).

BP - O corpo prostrado de sua mãe o ardente Columbano em seu zelo sagrado passou por cima. (Pág. 31).

LGA - O corpo prostrado de sua mãe o fogoso Columbano em sagrado zelo protegia.

(São Columbano foi um monge missionário saído da Irlanda para evangelizar a Europa ocidental. Viveu de 543 a 615. A palavra bestride possui vários sentidos: montar; abarcar; proteger; ultrapassar a passo largo. Esta última acepção estaria de acordo com um conhecido episódio da vida deste santo: desejando ele ir para a Europa em missão evangelizadora, sua mãe se opôs, prostrando-se ante ele. Contrariado, Columbano passou-lhe por cima ao ir-se (tradução de Bernardina). Mas cabe também outra interpretação. Por ser ele um santo, a referência do texto talvez faça alusão à existência de um quadro (com sua imagem) acima da cama da mulher agonizante (“sua mãe”, no caso, não seria a mãe de Columbano, e sim a mãe do personagem Stephen Dedalus). A versão de Houaiss é destituída de sentido.)

***

JJ - Buss her, wap in rogues rum lingo, for, O, my dimber wapping dell!

AH - Beijoca-a, fode com sabida lenga de esbórnia, oh minha bela putinha fodedora.

BP - Beijem-na, façam amor com ela, digam-lhe coisas bonitas, pois, Ó, ela é minha bonita e encantadora garota!

LGA - Beije-a, fode-a, xingue-a nesta língua estranha de velhaco, oh minha bela putinha fodedora.

(A tradução de Houaiss segue o original, que apresenta várias palavras de baixo calão: dell significa: prostituta ou meretriz de grandes seios; wap significa: copular; foder (vulgar); dimber significa: simpática, bela, encantadora.)


NN (notas de Noga): o termo "minha putinha fodedora", aparentemente, é um favorito de Joyce, e já aparecia nas cartas a Nora (uma pequena edição, de apenas 500 exemplares, foi publicada em São Paulo no ano de 1982 pelos editores Massao Ohno e Roswitha Kempf): "Assim era Nora, tão voluptuosa quanto Joyce, 'de espírito simples, excitável, de voz grave, sonolenta e impaciente', a quem ele chamava, nos momentos de carinho, de 'minha adorada menininha de convento' ou 'minha colegial travessa de olhar lânguido' e, nas cartas mais sensuais, 'minha amantezinha punheteira, minha putinha fodedora', referindo-se ao seu corpo como 'musical e estranho e perfumado'."

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Joyce no cotidiano VI

Saiu no Gente Boa:
D. João VI tinha tanto medo da maçonaria quanto o diabo da cruz. Quando descobriu que seu ajudante de ordens, o Conde de Paraty, era maçom, obrigou-o a se vestir de padre franciscano por duas semanas até abandonar a crença.

Está no Ulisses:
── Ah, é uma linda confraria, disse Nosey Flynn. Agarram-se a ti quando estás por baixo. Sei de um sujeito que queria entrar nela, mas são fechados como os diabos. Por Deus, acertaram em deixar as mulheres de fora.
Davy Byrne nutibocejissorriu tudo de uma vez:
── Uuuuuhaaaiaaii!
── Houve uma mulher, disse Nosey Flynn, se escondeu num relógio para descobrir o que faziam. Mas com os diabos sentiram o cheiro dela e a juramentaram no ato como Mestre Maçom.

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Paradigmas

"A arte" — afirma A.E., o poeta George Russell, no nono episódio (dialética) de "Ulisses" — "deve nos revelar idéias, essências espirituais informes. A questão suprema sobre uma obra de arte é a profundidade da vida que brota dela."
"O resto" — conclui — "é especulação de um colegial para outros." Bons tempos. O que é que escapa hoje em dia ao rótulo maldito de pura especulação? Hein? Pelas mãos de quem faz tempo já passou de seus tempos de colegial? Não a arte. Certamente que não. E o espírito? Ainda menos.
Ah. O espírito. Que perda de tempo. A vida esotérica não é pra qualquer um, diagnostica Joyce — pela irônica boca idealista de Stephen Dedalus, seu alter-ego jovem quando artista — antes que a dor da vida o transforme num Bloom traído qualquer. Entre ovos áuricos cintilantes e um corpo de carne que muda, completamente, a cada seis meses — ops. exagero. hoje em dia, todo mundo sabe: a cada seis anos — J.J. oscila hilário entre crente e sarcástico, entre o ridículo e o radical.
Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Arte. Dinheiro. Crise. E entre um e outro exercitar o espírito quando tudo o mais, ao contrário do que parece, se encolhe na esfera da intangibilidade.
Nada mudou desde então. Embora a alma, por vezes ridícula, anseie interminavelmente por mudanças radicais: o fim dos tempos; os novos tempos. Ascenção. Aposcalipso. Mulatas calipígias em tempo de carnaval, ops. De vênus a vênias, o corpo uma mercadoria. Mercadoria de segunda mão que inevitavelmente "se esvai na impalpabilidade através da morte, através da ausência, através da mudança de hábitos".
Estranhamento... seres por descobrir-se... grandes, estranhas palavras. Hum. Já escrevi isso antes. Menos, Noga, fuja do advérbio como o leitor do debate! Ninguém hoje em dia dispõe-se a pouco mais que monossílabos. Nada de devaneios. Seja prática. Pragmática. Esporádica. Ops.
Leio ao mesmo tempo o relato perplexo de Oliver Sacks em "Alucinações Musicais", analisando as transformações de gosto de um paciente após ter sido atingido por um raio: uma iniciação xamânica clássica. Antes indiferente o médico de agora, mero sobrevivente, vive para a música, come e mora em música. Ele é que é feliz: difícil é não creditar a uma causa sobrenatural o enlevo de tal mudança. Abaixo as teorias de plasticidade do cérebro.
Afirmam os profetas do improvável que temos vivido no fio da navalha do fim do mundo como o conhecemos, no limiar de uma grande, definitiva transformação. Para pior? Não sei pra onde vamos. Não sei o que deixamos. Não é, certamente, o aspecto acomodado de commodity. Se há algo que precisa, anseia, procura renascer de nós é a possibilidade de sentar-se à biblioteca num fim de tarde com dois ou três amigos pra jogar conversa fora, debater os destinos do mundo e antecipar o recrudescimento da arte.
Transformado em espectro pela morte do corpo, relegado a espectro pela ausência do espírito, regenerado enquanto espectro pela mudança do amor à arte e à literatura, James Joyce nos envia do além a receita da pós-modernidade. Tem gente por aqui que a consome com gosto.

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Joyce no cotidiano VII

Eu que não sou besta de entrar na discussão do Todoprosa, ótimo blog do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, pra dar uma de esnobe e dizer que livro levaria para a tal da ilha deserta. Muita gente reclamou, personagem inclusive. Só um? Unzinho só? Me mato antes. Prefiro nenhum.
Mas cá entre nós, na encolha e sem muita escolha, confesso: eu levaria o Ulisses. No original, é claro — com rima, lirismo e riso, charada e ritmo — que não estou pra texto intragável. Ou mastigado demais. E ficaria muito bem, anos e anos relendo a mesmíssima e nunca a mesma coisa e gargalhando sozinha:
— Gente! Descobri! (gritando para o nada. para o nada e para ninguém, feliz da vida) Ó! Olha só o que Joyce quis dizer aqui! Já leio este livro há uns vinte anos e só agora é que entendi, pode?
Bum. Morri.

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Intelectual, eu?

"sim. é de paixão que falo, e de mente. morar no Rio não, não moro: é aí que bate o ponto."
Alan Sklar no Hierosgamos


Pois vejam vocês: a noite inteira naquele pesadelo infame, vigiada de perto pelo cinzento bibliotecário quacre embora eu tenha dormido bem, cabeça largada na mesa sobre os braços exaustos, acompanhando atenta a discussão. Sem entender (quase) nada, claro. Acordei com a cena do Alan na ponta da língua, nu no quarto sob o sarongue improvisado de toalha preta, a voz troante encarando sem medo um Shakespeare de frente:

"Life's but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing."


Conhecem? É de Macbeth. Atraída pela força da imagem, ainda não tinha a menor idéia de onde é que eu encaixaria isso, quando num rápido passar de olhos pelo jornal de domingo dei de cara com um Noam Chomsky: "Não levo muito a sério o termo 'intelectual'. Algumas das pessoas mais educadas, sofisticadas e astutas que conheci tiveram pouca educação formal. Chamamos pessoas de 'intelectuais' se são suficientemente privilegiadas para serem capazes de seguir a vida da mente e usar o privilégio para tentar explicar questões humanas em geral". Gostou, papuda?
Taí. É aí que bate o ponto, ou pra ser mais clara a referência: and there's the rub. É Shakespeare. É Hamlet. Sabem o que eu fiz quando a traduzi no Hieros? Pesquisei todas as traduções clássicas para o português na internet pra decidir de qual eu gostava mais, em qual confiava mais: deu nessa aí.
Nada disso está no Ulisses, com exceção do papo intelectual na biblioteca, é claro, e mais a frase imortal de Shakespeare misturada no (con)texto como se fosse nada, sem mais barulho por nada, num imperdível milkshake.
Nada com que eu não possa lidar. Aqui em casa é a mesma coisa o tempo todo, um debate ferino constante, atirando um no outro dardos de brilhantismo irônico grávidos de referências. Mas é claro que em Ulisses é tudo à enésima potência, e se até hoje os fiz acreditar (me fiz acreditar) que ler James Joyce era tarefa fácil, divertida, descomprometida, quase como um superhomem em quadrinhos meio metido a besta... chegou a hora de desfazer o equívoco. Tropecei, gente. E tropecei feio: o tal nono episódio dialético na biblioteca é duro de engolir. Uma delícia.
É claro que eu podia passar batido, me limitar ao mais humano em mim, ops, em Joyce. Mas não é o que eu quero. Quero é enfrentar o desafio, mas como não sou o Alan, não estudei literatura inglesa na universidade, não fiz pós-graduação, conheço um pouco Shakespeare mas nada de Shelley, Dante, pouco de Wilde, nada de O'Neill Russell ou Synge ou Príncipes de Tiro tentados e naufragados no mar profundo, na busca inútil da boa rima ou do ritmo correto da mente... sigo capengando. À razão de uma ou duas páginas por dia mas cafungando a fundo: quero ler tudo, apre(e)nder de um tudo. Mesmo sabendo que no fundo no fundo, embora entendendo que "um homem de gênio não comete erros, seus erros são voluntários e são portais de descoberta", tudo se resume a discutir quem traiu quem, quem dormiu com quem e quem provou ser mais esperto que quem. Pela pena de Joyce, gente, fofoca maldosa de intelectual é puro néctar: um licor venenoso genial que, derramado nos "pavilhões do ouvido adormecido", nos leva desta para uma muito melhor. Terrivelmente esperto, não?
Com essa volto alegremente ao meu instigante espetáculo idiota de som e fúria. Vos deixo por hoje com um Shelley que me fascinou (em Joyce), "no intenso instante da imaginação: quando a mente é um carvão evanescente, aquilo que fui é aquilo que sou aquilo que em possibilidade eu possa vir a ser", uma batalha que sim, vale a pena enfrentar. Acabo concluindo que Chomsky está completamente errado, e que a falta de uma boa educação formal empobrece um bocado a vida, isso sim. Já não serve como consolo. What have I learned? Of them? Of me?
Ter um vasto domínio da literatura é gostoso à beça. É criativo. É chique. É inteligente. É como fazer sexo no café da manhã, se é que vocês me entendem: bem melhor que ovos mexidos, ai, foi mal. Me perdoem o trocadilho picante, ainda mais num domingo de sol. Ninguém me merece.

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Joyce no cotidiano VIII

Instada por um amigo, deixo-me levar contra a vontade a preencher um currículo na TV Globo. Em determinado momento do formulário, sou inquirida: conhece alguém na empresa? Eu não. Vocês sabem: hoje em dia, é tudo uma questão de QI: quem indica. Ops. Hoje em dia?

No Ulisses (e até bem antes): Amplius. In societate humana hac est maxime necessarium ut sit amicitia inter multos. (tradução e comentário de LGA: "Além disso, na sociedade humana a amizade entre os muitos é uma necessidade vital", por Tomás de Aquino, Summa contra Gentiles)
Em bom português: pra vencer na vida é preciso ser bem relacionado. Ih. Dancei nessa.

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Citações

(da série: Joyce no meu cotidiano)

Fui acusada esta manhã de, através do excesso de referências e citações, ter tornado meu romance Hierosgamos arrastado, pedante, irritante: pesado até no nome.
Eis aí uma diferença importante entre mestre e discípulo: o que em mim é pecado mortal, é no Ulisses o mais intrigante e atraente dos aspectos do livro. Chego a afirmar que J.J. antecipou em sua obra o enriquecedor estilo em camadas do hipertexto: cada citação é um link, desdobrando em si mesmo um sutil subtexto do subtexto do subtexto. Bom exemplo disso, e de como nisso as traduções se perdem, é a referência ao Shylock de "O mercador de Veneza": o explícito exacted his pound of flesh in interest de Shakespeare, este, gente, sanguinário e radical como poucos (Joyce chega a afirmar no Ulisses que "depois de Deus foi Shakespeare quem mais criou") foi enfraquecido em português com lhe arrancou a pele com juros (B.P.) ou reivindicou sua fibra de carne como juros (A.H., um pouco mais fiel)quando, na verdade, o que espanta e deslumbra no original linkado é a genial tirada posterior do "juiz" exigindo que Shylock cobrasse sua "libra de carne" sem derramar nem uma gota do sangue de seu credor. Joyce, simplesmente linkando, nos fala de tudo isso — e mais: combate a idéia do anti-semitismo ao evocar (em nossa memória) uma outra passagem da peça: "If you prick us, do we not bleed? if you tickle us, do we not laugh? if you poison us, do we not die? and if you wrong us, shall we not revenge?" — o que, vamos combinar: é bem mais profundo do que um prosaico e metafórico "arrancar a pele".
O que me lembra uma historinha zen que o Alan vive repetindo: "Um jovem monge põe-se sob a tutela de renomado mestre oriental. Mestre, ele pergunta, qual é o sentido da vida? Em resposta, recebe uma surpreendente vergastada, e é orientado pelo Mestre a vagar por cinco anos em busca da resposta. De volta ao mosteiro, pergunta novamente: Mestre, qual é o sentido da vida? Mais uma vergastada e mais dez anos de peregrino. Finalmente, depois de 16 anos, recebe do Mestre uma digna resposta: a vida, meu caro, é uma tigela de cerejas. Mas, Mestre, isso é tudo? Penei pelo mundo por dezesseis anos para ouvir do senhor que "a vida é uma tigela de cerejas"? Ao que o mestre respondeu: e não é?
É, gente. O problema aqui é que, para tornar-se Mestre, não basta desvendar o mistério da tigela: é preciso, bem mais que isso, descobrir quantas, e que tipo de cerejas existem dentro dela. E comê-las com gosto pra saber se são doces, é claro.

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Matriosca

Que o Ulisses de Joyce é um instigante e amedrontador jogo mental de armar acredito que todo mundo — ou quem curte literatura — já está sabendo. O que não tenho tanta certeza assim de que seja de domínio público é a existência, dentro do livro, de um mini-labirinto de dezoito cenas curtas que se passam nas ruas de Dublin, onde aparecem quase todos os personagens —"descritos isoladamente em seus afazeres (B.P.), dentro do contexto da comunidade dublinense a que pertencem" —, e que correspondem, de certa forma, aos dezoito episódios do grande (literalmente) romance: um livro dentro do livro como uma matriosca.
Estou me preparando para entrar nele, e se eu sair do outro lado sã e salva, com a mente preservada e devidamente exercitada, prometo contar tudinho pra vocês do lado de lá. Mesmo porque, de acordo com LGA, meu personal assessor online de Ulisses — uau, coisa mais chique, sô — o tal labirinto funciona, no livro, como um divisor de águas da complexidade. Se antes dele o Ulisses é puro deleite e diversão, depois dele a coisa promete esquentar, o bicho promete pegar pesado.
Dizem que Joyce escreveu o episódio, intitulado "As rochas ondulantes", com um mapa de Dublin à frente. Mais de um fã já tentou percorrer as ruas num pé só — uma representação do marinheiro perneta — e descobriu que o escritor foi completamente exato no timing. Neste capítulo, afirmam as Cliff Notes, o ardiloso irlandês parece avisar ao seu leitor: "você veio até aqui em nove episódios e está pensando que, realmente, conhece Dublin e meu método literário. Cuidado: você está confiante demais;" — quem? eeuu?? — "Dublin e meus métodos não são nem simples nem facilmente percebidos". Caramba. Nada aqui é o que parece ser, ai, que meda.
Vejam o que diz o Luiz: "mas quem, em todo o mundo (e olhe que pesquisei a fundo) sequer desconfiou que o episódio 15 (Circe) é escrito na forma de uma peça do Grand Guignol (Teatro do Grande Palhaço)?" — gente, que coisa mais tarantino! não me agüento de ansiedade... — "E é isto que eu coloco nas notas laterais do texto no meu ensaio (não nas notas de rodapé). É por isto que ninguém entende este episódio, e, ou salta rapidamente para outras partes, ou desiste da leitura (se não o fez no episódio 11, que é quando a coisa começa a complicar)", ai meu Deus, que paixão mais louca é essa...

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Um passo à frente, um passo atrás

Marcha assim, hesitante, a força motriz da matriz emocional humana. O poema tumular se esvaiu na poeira do tempo, mas a dor, não. A dor, aparentemente, não se esvai nunca. A dor da mente, não a do coração, é que me faz estancar silente, às portas deste novo desafio em forma caprichosa de labirinto. Para a busca do Graal é exigido um coração inocente, e o meu não é. Penso mal de muita gente. De quase todo mundo.
São questões pendentes, pedantes ou mal-compreendidas que deixei para trás, como um mau leitor de Joyce, um leitor apressado e desatento de Ulisses. Preciso voltar no trecho perdido da história antes de prosseguir.
Espanto não há. Sumiu também minha referência ao texto, meu dedo intrigante enfiado no olho da mente evitando o conflito: consubstanciando na memória do pai a dor de filha, como a parte intragável, ou deteriorável, do curto artigo entimemático* que acabou eliminada da versão de Houaiss: uma pêra descascada sob um muro de cemitério. Cemitério colocado, claro, por conta de simetria. Não tem nada de tolo, não é? Principalmente no meu caso: é trauma de cemitério mesmo, por ter passado em branco pelo funeral do texto ou ter deixado em branco o funeral de meu próprio pai mas neste, não dá pra voltar atrás. Virou trama ruim de cemitério.
Meu pai saiu cedo de cena, mas não se suicidou como o de Bloom, não. Embora o constrangimento em se falar dele até hoje não destoe muito do da carruagem fúnebre, uma agonia mortal por falar de suicídio diante de Bloom. E a falta de reflexão familiar sobre o tema acaba gerando fantasias insones de um (im?)possível e involuntário suicídio, alimentado pela lembrança triste do olhar descrente pouco antes de morrer: de deixar para trás as tramas inacabadas e uma carta de instruções para o advogado.
Pois se essa história, a minha, permanece inacabada, é por falta da memória contundente e inapelante do cadáver no túmulo e, se mais não fosse, pela recusa do avô em reproduzir meu poema tumular adolescente na pedra definitiva do túmulo.
Assuntos silentes, assuntos prudentes de cemitério que ninguém enfrenta e que acabam engolidos como pêra sem casca por falta absoluta de alguma simetria que os explique. E que com a explicação naturalmente os di-lua, dissolvendo a dor do coração travado, tramando a demência futura num passo de dança bem explicadinho.
Confissão novamente cuspida, memória encaixada no tema espinhoso e, por mais que o tempo passe, presente no tema perene da mente, já posso seguir: um resoluto passo à frente pra dentro do labirinto da dor não-resolvida.

* a nota é de LGA, esclarecendo a técnica utilizada no episódio sete do Ulisses — Éolo —, sobre entimemática: "O entimema é uma figura de pensamento, na lógica. No entimema, obtém-se uma conclusão a partir da veracidade da afirmação oposta. Como uma das premissas se omite (por sua obviedade), ele é chamado silogismo abreviado. Exemplo: se todos os seres vivos são mortais, então o homem é mortal. O entimema é um argumento retórico, ou argumento de oratória."

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Assunto relevante

(A respeito do artigo de Miguel Conde e André Miranda, publicado em primeira página do Segundo Caderno, sim, gente: é assunto de primeira página)

----- Original Message -----
From: Noga Lubicz Sklar
To: Miguel Conde
Sent: Wednesday, January 30, 2008 10:33 AM
Subject: assunto relevante!

Oi, Miguel

Você, como sempre, levantando briga boa em seus artigos. É real e interessante o perverso círculo vicioso best-seller x marketing. Pouco leio autores brasileiros, pra não escapar à regra. O problema não sei qual é, mas talvez seja uma absoluta falta de informação que começa bem antes da publicação do livro: a desinformação dos editores e sua pouca disposição "idealista" para enfrentá-la, em prol da assim chamada "nova literatura brasileira". Um efeito colateral disso é que a tal de nova literatura raramente sai do nosso mundinho tupiniquim, isso quando tem a sorte de chegar nele. Agora: você acha que as editoras deveriam se pautar somente pelo que o leitor quer? Acha que assim a gente vai pra frente? Inova alguma coisa? It's all about money, stupid?
Um exemplo (pra puxar a brasa pra minha sardinha) talvez seja o meu romance, aquele a que sim, você deu a chance: Hierosgamos. Está no Bloga um confronto de opiniões que eu gostaria que você lesse. É um livro que, mesmo de fora do "grupo", mexe com o leitor (o raro e precioso leitor) e poderia, se oportunidade tivesse, bagunçar o morno status quo, mas... tsk, tsk. Não tem ninguém lendo por absoluta falta de atenção publicitária o que, espero, não reflete falta de qualidade. Ou de inovação.
Por falar nisso, estou escrevendo outro livro, que vai sendo publicado online à medida que está sendo escrito. Entretenimento? É só mais um assunto que ninguém vai querer ler, mas eu não me importo, só me importo com o que sinto como sendo o legítimo impulso de escrever. Se quiser dar uma olhada: Crônica irônicas de Ulisses, sim, meu amigo, é sobre o muito falado e pouco lido Ulisses de James Joyce. Ops. Falar (bem ou mal) sobre um livro resolve alguma coisa? Ah, sim, acabei de saber por seu artigo que a moda de "hoje" são os escritores irlandeses. Então: estou me aproveitando dela.
Abraço!
Noga

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O que há num nome?


Há coisas que eu vejo em Ulisses que ninguém mais vê, e isso, com tanto acadêmico por aí especializado nos trinques e truques de Joyce. Não é que eu seja mais brilhante. Não. Acredito até que devo creditar o fato à inocência, à ignorância com que leio o livro. Ou não. Ou não passa de arroubo de leitora apaixonada, daquelas que vê no amado um encanto escondido que ele na verdade nem tem, fala sério. Nunca senti isso a respeito de um livro.
Não é o caso da frase "o que há num nome", extensamente estudada, é, gente, com essa simplicidade toda, fala sério, como o próprio Joyce diz pela boca de Stephen, seu alter-ego jovem, discutindo o assunto com Bloom, seu alter-ego maduro: "sons são imposturas, como nomes. Cicero, Podmore. Napoleão, Jesus, Shakespeares eram tão comuns como Murphy." (Murphy? Uma espécie irlandesa de Silva?) Em Ulisses, nenhum nome é gratuito, e quase todos subtextados com trocadilhos: se fosse personagem do marido, Nora Barnacle seria Nora Craca, a que agarra e não larga mais. Stephen Dedalus, por exemplo, evoca a lenda de Ícaro, pai e filho num mesmo ser, uai, gente, e eu que não tinha percebido isso? Stephen é Ícaro no símbolo e é Dédalus — o fazedor de labirintos — no nome? Há os vários trocadilhos na biblioteca com o nome Best (good, better, best, second best), pra não falar de Shakespeare e Ann, uai, gente, já escrevi sobre isso? Será que de tão deslumbrada já estou me repetindo? Como se faltasse assunto? Agora vem cá: alguém percebeu no nome completo do jovem Dignam — Patrick Aloysius Dignam — o do próprio Joyce?: "É o que nos perguntamos na infância ao escrever o nome que nos disseram que é o nosso."
E o que dizer de um personagem sem nome, obscuro, que aparece no enterro de Patrick Dignam — muito digno e justo — vestindo um impermeável macintosh marrom, e que acidentalmente sai listado no livro de presenças com o mui irlandês apelido de Macintosh? E que apesar de jamais ser nomeado acaba crescendo no Ulisses, sempre como "o homem do impermeável macintosh marrom"? Taí: é Joyce entregando o jogo ao leitor.
Outro nome dos mais expressivos e (quase) nada discutido do livro é o de Hugh "Blazes" Boylan, empresário de Molly com quem ela irá trair o marido (ainda não cheguei lá), um fanfarrão exibido e superficial que é o oposto de Bloom em tudo: Blazes Boylan para os íntimos. Boylan eu não sei, mas lembra "boiling", fervendo, não é mesmo? E Blazes é explícito mesmo: ardente. Blazes Boylan: ardendo e fervendo e bufando como uma chaleira grosseira. Vamos ver na cama.
Por outro lado, eu vejo o Ulisses às vezes como uma mulher falada, conceito mineiro que traumatizou a minha adolescência. A mulher falada é considerada uma vagabunda, alguém que perdeu a "honra" — leia-se: virgindade, coisa mais antiga — mesmo que nada disso tenha acontecido e que o tal apelido se deva apenas a uma fofoca maldosa, uma impressão superficial. A dificuldade, por exemplo. Este episódio do labirinto. Me preparei para ele, por sua fama (indevida?) de complicado. Li todas as notas, a relação de todos os personagens, o que eles faziam, como e quando. Fiz meu dever de casa bem direitinho. Mastiguei a comida bem mastigadinha antes de pô-la na boca, já meio sem gosto, quase reduzida a papinha de bebê desdentado. Mas ao começar a lê-lo, gente! Que surpresa! É um dos mais espetaculares do livro até agora, coisa nunca vista. Dizem que é um labirinto, mas eu diria mais que é uma cama-de-gato, conhecem? Do Aurélio: brinquedo que consiste em entrelaçar, nos dedos de ambas as mãos, um barbante com as pontas atadas, e que é, então, retirado com os dedos das mãos por outro participante, dando forma diferente ao entrelaçamento anterior, e assim sucessivamente. Coisas da minha infância em Minas. O texto vai sendo tecido como uma renda preciosa, e com a leveza branca de pequenos flocos de nuvens — moutonner (diz Joyce que os franceses dizem), de encrespar-se, mas também de mouton, carneiro? encarneirar-se? — se encrespando como espuma. Os mini-episódios, independentes, são interconectados por personagens e diferentes visões do mesmo fato: é um "nossa!" atrás do outro (claro que depois de Joyce outros autores fizeram isso; McEwan, pelo menos, fez, em Reparação; mas não com a riqueza e complexidade de Joyce, I give him that).
Babei de prazer ao ver mencionada, pela primeira vez, a data em que ocorre o Ulisses: 16 de junho de 1904, assim, coisinha simples, como se fosse nada, datilografada na máquina de escrever da secretária de Boylan, e eu que sempre me perguntei como é que se sabia disso! Onde é que isso aparecia no livro? Taí. Aparece aí. Adorei o jogo intraduzível de palavras com "boiled shirts" ("traje a rigor" na tradução de B.P., literalmente aquela camisa engomada de smoking, com o peito plissado) descrevendo os convidados numa festa chique, e em franco contraste com uma cena anterior onde Maggy — uma das pobres, quase-mendigas irmãs Dedalus — ferve a camisa no fogão para tirar as manchas: "boiling shirts", pode ser mais irônico? E mais brilhante?
Mais um significado duplo que eu curti demais aparece na cena do Padre Conmee, quando ele encara uma moça que "sai ruborizada com um rapaz de trás de uma sebe, sacudindo um graveto agarrado na saia" enquanto lê o salmo sin — letra hebraica: é como os salmos são numerados, o que fica claro por ter sido mencionado o res antes — mas que também significa... "pecado". Ai, gente. O homem levou sete anos pra escrever o livro e, francamente, como leitora já estou indo pelo mesmo caminho: sete anos para lê-lo já estou achando pouco.
Bem. Pode ser que em algum ponto a coisa se complique a um ponto que eu entregue os pontos e finalmente diga: caramba, que livro incompreensível, impossível de ler. Mas ainda não cheguei lá, isso eu garanto: por enquanto não passei do deleite. É claro que as coisas que às vezes escrevo se provam precipitadas mais tarde, ah, eu estava enganada, que burra. Mas o texto das crônicas reflete com fidelidade (eu tento!) não a mente atenta, mas o coração sobressaltado com que vou lendo o Ulisses. E quando há muito pra despejar, e o fascínio começa a transbordar, escrevo, num impulso intraduzível: Boylan with impatience.

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Saravá, meu pai

"Quem ouve desde menino/ Aprende a acreditar/ Que o vento sopra o destino/ Pelos caminhos do mar"
Dorival Caymmi


Canta ao longe, e encanta, com seu canto e encanto a sereia. Ou seria melhor: canta a sereia ao longe e encanta com seu canto o encanto. Eu é que não sou besta de parar pra escutar. Ops. De não parar. De não escutar: o canto (des)encantado em forma de fuga das Sereias, décimo primeiro episódio de Ulisses.
"Começo a escrever este livro em 13 de janeiro, o aniversário da morte de Joyce em 1941" — nos conta Anthony Burgess em "Homem Comum Enfim", seu livro sobre o escritor irlandês, publicado pela Companhia das Letras e já fora de catálogo — "e espero terminá-lo no Bloomsday, em 16 de junho." Não chego a tanto. Comecei a escrever um livro de crônicas sobre Joyce — mais um entre tantos que já existem, é isso mesmo — no início do ano, e acabei tão encantada com o tema que não quero me limitar com datas. A sereia me pegou de jeito: me afundo cada vez mais no assunto e não vejo a saída. Nem quero ver. Mas não posso negar que desde o primeiro instante, sei lá porque, procurei sem sucesso coincidências numerológicas que me aproximassem de Joyce: o centenário do Bloomsday já havia passado, e o centenário de nascimento de Joyce, também. Mesmo a marca judaica sagrada dos cento e vinte anos já ficou para trás, e o centenário da morte ainda está bem longe: não dá pra esperar até lá. O que eu não sabia, e fico sabendo por Burgess, é que "a solenização de datas era natural em Joyce e contagia seus admiradores". Ah, bom. Finalmente encontro alguma coisa: o encontro amoroso em meu romance Hierosgamos acontece em 2004, cem anos depois do encontro de James Joyce e Nora Barnacle em 16 de junho de 1904, o Bloomsday. Ou melhor: do primeiro e ardoroso contato amoroso dos dois, e é isso que Joyce perpetua no Ulisses.
Dois de fevereiro de 1882: neste dia, há exatos 126 anos, encarnava na terra — em Dublin, precisamente — o escritor James Augustine Aloysius Joyce, pai, mãe e espírito santo da literatura moderna. Bem. Mas se for pra ter Joyce como inspiração literária, não sei muito bem se ele é pai ou padrasto, esta é que é a verdade: comparar-se, quem há de? Difícil mesmo é ficar indiferente. Dia dois de fevereiro é dia de Iemanjá, dia de festa no mar. E para celebrar Joyce cai muito bem este encanto oceânico de deusa, porque vamos combinar: James Joyce não é nenhuma marmota pra sair do buraco e encontrar a própria sombra — o que, segundo Burgess, é um consolo bem joyciano para os rigores do inverno no hemisfério norte — mas sim um possante Poseidon, possuído de literatura.
Joyce foi pioneiro em tudo, rompeu com todas as regras. É "uma espécie de poeta-prosista e, por isso, um impostor", como afirma Burgess: foge ao senso comum, corrompendo a noção generalizada de que é um erro pretender, num romance, fazer literatura. No romance popular, do tipo que engorda a prateleira dos best-sellers, há o culto do enredo e do personagem, numa linguagem direta, sempre transparente. Em Joyce, não: linguagem é ritmo, símbolo, ironia. Escrita é música. Sua trama é de tal forma rica que se estende por várias camadas superpostas de texto, assombrando até hoje com significados ocultos seus leitores e intérpretes. Enquanto escrevia Finnegan’s Wake, em resposta à pergunta de um amigo sobre a produção do dia, Joyce disse que sim, havia alcançado muito: completara duas frases, de tal forma carregadas de significado e cuja ordem exata das palavras era de tal importância, que haviam consumido um dia inteiro de trabalho.
Num mesmo Joyce convivem muitos Joyces: há o Joyce enigmático; há o Joyce político; há o Joyce obsceno; há o Joyce cômico; há o Joyce linguista, erudito; mas há, acima de tudo, um Joyce que retrata o homem comum e seu fluxo contínuo de consciência. Joyce se encontra de tal maneira ancorado no inconsciente cultural coletivo que, mesmo sem ser lido, espalha seus tentáculos pela literatura contemporânea, como uma matrix de estilo.
O Ulisses me intimidou, fechado e imponente na cabeceira da cama, por mais de dez, talvez vinte anos. Dispor-me finalmente a enfrentá-lo foi minha resolução deste ano novo, uma espécie de remédio amargo mas eficaz na formação de qualquer escritor. Mas, gente, o que é que estou dizendo? Não é nada disso! James Joyce foi pra mim uma revelação, um deslumbramento, um mundo inteiramente novo e uma diversão incomparável, uma delícia erudita desde a primeira página. E se você não acredita, nada melhor para homenageá-lo, neste dois de fevereiro, do que tomar a tardia decisão de lê-lo. Afinal de contas, foi no dia de hoje, há 86 e 69 anos, que Joyce recebeu os exemplares das primeiras edições de Ulisses e de Finnegan’s Wake. O aniversário é dele, mas o presente... vamos combinar: quem recebeu fomos nós.

Saravá, meu pai.

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Datas, concílios, centenários

Coisa estranha, a intuição. E é só para ela que posso apelar escrevendo hoje, no vácuo criado pela desconexão.
Antes que algum crítico pretensioso num improvável futuro se debruce sobre estas linhas enigmáticas, já vou logo esclarecendo: escrevo este texto num dois de fevereiro de carnaval com a internet desconectada. Me sinto cega. Surda. Mas muda nunca. Não há nada capaz de me calar a boca, ao que parece. (Para desespero de ah, ninguém. Não tem ninguém aqui e o Alan está dormindo.) Nem o engano. Nem a frustração. Nem o vexame antecipado da besteira exposta.
Coisa curiosa.
Sendo hoje o aniversário de Joyce, dei um tiro precoce no escuro e enviei minha crônica do aniversário de Joyce para o Prosa do Globo. Não publicada, é claro, não sei se está claro pra todo mundo que a marca do escritor não é seu talento publicado em vida, mas sua rejeição — Joyce também, sim, morreu de rejeição, mas me entendam bem: rejeição a Finnegan's Wake, dá pra entender muito bem —, ah, tá bom: quem quer se desculpar encontra desculpa em tudo, torce tanto a realidade que acaba em torsade, jóia pura repleta de verdade e antes que alguém pergunte: um tipo enrolado de colar que pode acabar no pulso, peça sem a menor personalidade. Foi só pra rimar mesmo.
Blablablá.
Curioso foi ler o caderno à beira do enfarte desta manhã — já pós-tragada, pretergada a frustração da não-publicação no blog do Prosa na internet ontem à noite — ops! Corta tudo! Conectei! Mudou tudo! Mas de volta ao caderno e suas celebrações concílicas, concêntricas, conectadas por caminhos escusos ao mais profundo dos meus pensamentos, uau. Comecei pensando que meu artigo era uma besteira, mas LGA me escreve — santa conexão: "Acabei de ler, neste instante, o seu texto sobre o Ulisses. Mrvlhs." (vogalicídio meu, por pura falsa modéstia) — que a coisa presta, me prescreve uma longevidade que, sem modéstia, eu não vislumbro.
Pra não me perder nas labirintites do mundo oficial o que achei curioso foi ver no caderno: os cem anos de Rosa; os sessenta de Lobato; e outros cem de Machado. Ops. Da morte de Machado. E embora para o níver de Joyce não tenha sobrado nada, nem uma mísera notinha, resta o sorriso do gato de Alice celebrando o fato de que em cada relato há um Ulisses escondido, pode procurar: que nem Wally. Ou nem tanto: um pai literal ou literário, mas francamente padrasto.
Não quero ser injusta. Nem elitista. Mas indiscreta, sim, sou. Sempre. Meu livro sobre o Ulisses estende seus tentáculos não sobre tudo que existe, mas sobre tudo que eu vi, ou li, ou senti. Foi por isso, e só por isso mesmo, que deixei de fora o gênio de Rosa, tema muito justo na capa do Prosa. Mas se existe alguma coisa na literatura brasileira que me deixa envergonhada de nunca tê-lo lido, é Guimarães Rosa: o próximo da minha fila atrasada de deslumbrâncias.
Se Joyce encontra Rosa em algo mais do que adjetivo inexistente ou póscriado — joycianos. rosianos. —, é na recriação do idioma. Mas Rosa não. Não bebe do absinto de Joyce, só da liberdade maior doada ao mundo pela escrita dele. E faz dela um uso interno, nacional, para seu próprio e nosso uso. E o faz muito bem. Sem (d)efeitos colaterais, viva. Eia Rosa.

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Joyce no meu cotidiano


Ufa. Finalmente alguém me explica o que significa Bleibtreustrasse, eu já estava desistindo: seja fiel. Bloom não foi, um exilado de Jerusalém, filho de convertido que acabou casado com uma meia-judia que não se enxerga. E eu? Fui fiel? Sou? Não sei. O que sei é que depois de velha dei pra ficar sensível demais ao anti-semitismo, que até em Joyce me arrepia antes de entender que é bem o contrário.
Mas se eu retroceder na memória um pouco além de Bloom, vou parar na mesma fazenda-modelo de Kinneret às margens do lago Tiberíades, ou seria na mesma fazenda-modelo [kibutz Afikim] em Tiberíades, às margens do lago Kinneret? Oy! Kinneret sheli! Ou será que foi sonho?
Calma, gente. Foi lá que eu nasci, verdade pura, simples e biográfica.

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O poeta é um fingidor

(da série: Joyce no meu cotidiano)

Desalentada, tomada de dúvida, de volta ao protelado Proteu, conferi B.P., A.H., L.G.A., A.B. (por J.A.A.), todos pretendentes no solilóquio, irlandeses, os pretendentes da história, falsos filhos de reis: i-m-p-o-s-t-o-r-e-s? Vivendo a vida deles, um paraíso de fingidores, falsos pretendentes. Eu num inglês estropiado (compromise ou compromisso?) e ele, sem português de estrangeiro: poetas. O poeta é um fingidor, finge a dor de um álvaro de campos, sendo ele ou não. Boca para o beijo dela. Boca para o beijo da boca dela, anota aí. Takes two to tango, não resisti. Cadê? Sempre esqueço o caderninho, e quando lembro, esqueço a caneta. Engoliu lábios vagos de ar, ops, ficou bom. Engolfou. Vai decorado mesmo. No decoro da mente, descaradamente no silêncio, porque se encontrar alguém, babau. Perde rápido o rumo da rima.

Se bem que hoje em dia tem gravador no celular, só preciso fingir que falando com alguém. A voz gravada soa ruim, agravada, mas desperta em casa a amnésia da mente: uma grave dica. Já não preciso do papel da padaria lápis emprestado. Que se explodam. Longelonjuralonjuralonjura. Ela jurou que sim, era isso mesmo: quem quando onde lerá estes signos em versos?

Prêmio em Paris: cuidado com as imitações.

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Joyce no meu cotidiano II

(sem mais revisões, por favor)


"Tantas revelações neste fim de semana, eu andava insegura... (Te procu-rando frenética no US.Search.com: esse tal de Alan Isaac não existe) Tudo se encaixou, tranqüila agora... (Alan E. Sklar, 60, 1 address in Los Angeles, Ca.; 2 addresses in St Augustine, Fl.; 2 addresses in Honolulu, Hi.; 3 addresses in Guilford, In.; 3 addresses in North Bend, Oh.)"
do Hierosgamos


Lendo a carta de Martha Clifford para Bloom (para Henry Flower, florescendo) a gente percebe que essa coisa de usar pseudônimo na internet não tem nada de novo, ah, tá bom: também começou com Joyce. Esgruvinhando os detalhes da carta, Burgess conta que lá pelas tantas, "pelo menos uma edição de Ulisses silenciosamente corrigiu "ermo", "world" (de: te chamei de garoto travesso porque não gosto daquele outro ermo) por "termo", "word", como se... — ah, tá bom: não toque no meu texto — "arruinando a cena futura na zona de prostituição em que a mãe de Stephen cita Martha, autora da carta: Oro por você em meu outro ermo. Mais um dos minúsculos mas monândricos macetes de Joyce.

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Glossário I

throb. pulsar. latejar. throbbing. latejando. latejante.

ela meneia as ancas suínas e seus quadris, no oco do ventre um ovo de rubi {tantra. enlevo oriental} lateja você fora o latejar sempre dentro {latejante} seu coração comemora. os pesos-pesados com a tanga na virilha. latejam: um coração de heróis. segredo de todos os segredos, selo do Rei Davi: feminilidade abençoada: como conquistar uma mulher {vagina latejante}

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Mito

Com a reportagem de capa da Veja, e em seqüência temática perfeita para a epifânia de ontem do Arnaldo, eu deveria falar sobre a adaptação biológica do cérebro humano para a fé. Fui sôfrega à revista - o assunto me apaixona - mas... nada de novo. Já sei que a maioria dos fenômenos sobrenaturais (e emocionais) são explicáveis por interações elétricas e descargas químicas. E daí? Parafraseando Jobim, o que é felicidade? Hein, meu amor? Tatatá. A sorte não existe, nem o azar: são manifestações do acaso, reconhecidas e reforçadas pela fome de padrão do cérebro, uma estratégia de sobrevivência que nos permite superar a desorientação causada pela consciência da inevitabilidade da morte, algo intrínseco ao DNA. Sim. Mas que esse funcionamento sofisticado do organismo humano parece milagre, parece. Explicar tintim por tintim a tecnologia da televisão de plasma não faz a imagem menos deslumbrante, e se tem uma coisa que ajuda mesmo a viver, é a prática intencional do maravilhamento. Com o sabichonismo científico todo, é o que inunda o nosso corpinho de hormônios do bem, prolongando a cada descarga um adiamento consistente do fim.
O que eu gostaria mesmo de saber é porque ninguém aplica essa simplificação didática da natureza (humana) ao mito do orgasmo feminino. Isso sim, seria útil, e eliminaria de uma penada só a prolífica indústria da frustração sexual, derrubando de uma vez um dos pilares do capitalismo selvagem. Gulp. Entendi. As outras mulheres eu não sei, mas eu cresci e amadureci sabendo que orgasmo é feito difícil, raro, conseguido pela estimulação mágica e única de um tal esponjoso, hipersensível e ninguém-sabe-onde-fica ponto G, deflagrando uma orquestra esfuziante de sensações: meio parecida com as luzinhas piscantes de um ovni, chegando à terra pra abduzir. Passei trinta anos de vida adulta absolutamente convencida de que não experimentaria nunca um daqueles tremores incendiários, e mais raro ainda, a dois: gozar ao mesmo tempo que o outro. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir, num caso de amor com uma Jacuzzi, o significado prático da palavra mais banida e vilipendiada da literatura erótica mundial: latejante. Pior: vagina latejante. Pra latejar a minha com um companheiro na cama ainda demorei um bocado. Mas consegui. Fazendo uma pesquisa de apoio à revisão do Hierosgamos, o Alan encontrou ontem esse artigo sobre a fisiologia do orgasmo (preguiça de traduzir, sorry). Segue trecho:

"...This localized area of bulbar vasoconcentration contracts strongly in a regularly recurring patterns during the orgasmic expression. The contractions have onset a 0.8 second intervals and recur within a normal range of a minimum of three to five, upto a maximum of 10 to 15 times with each individual orgasmic experience. The inter contractile intervals lengthen in duration after the first 3 to 6 contractions of the orgasmic platform and the measurable intensity of the contractions progressively diminishes. The duration of the orgasmic platform’s recurring contractions and the degree of the contractile excursions vary from woman to woman and within the same individual from one orgasmic experience to the next. These recurrent contractions in the outer third of the vagina are the only physiologic responses of the vaginal barrel that are confirmed entirely to the orgasmic phase of the sexual cycle."


Taí, gente. Cientificamente explanada a misteriosa e pouco divulgada vagina latejante. Imaginem se mamãe, nos meus quinze anos, tivesse me contado essa historinha assim, simples e empolgante: uma descarga energética involuntária, culminando num inesperado efeito calmante, relaxante. Teria me poupado milhares de reais, anos de divã. Tatatá. E daí? Pra desvendar mesmo o mistério - e superar o trauma da ignorância - precisei encontrar um amor de verdade, e acreditem: é a melhor maneira. Por essas e outras, vou parar de culpar mamãe por tudo... e começar a aproveitar a vida. Bom domingo.

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Joyce no cotidiano IX

Se alguém lesse no futuro algum dos meus posts deste início de ano [A.D. 2008], poderia erroneamente, ou presumidamente, ou apressada e academicamente concluir que o codinome "Cesar", atribuído a um antigo prefeito da comarca do Rio de Janeiro, o associasse remotamente a um certo imperador romano. Até tu.
Mas, gente: seria um erro. Como o erro presumido que cometi ao investigar as ligações ocultas de um certo Lorcan "Sherlock", que aparece no Ulisses em Rochedos Serpeantes, aha! Sherlock! Sim! Personagem famoso, publicado inicialmente pelo irlandês Conan Doyle em 1887, provavelmente uma paixão do menino James...
Que nada. Engano. Devagar com o andor que o santo. Lorcan Sherlock existiu mesmo: um verídico e autêntico xerife da irlandesa Dublin. O que não impede Sherlock Holmes de ser transformado em verbo muitas páginas mais tarde, no décimo sexto episódio, Eumeu.
Já o tal de Cesar... de imperador não tinha nada. Só a presunção mesmo.

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Pratique o eu

(da série: nem só de Joyce vive uma obsessão, publicado originalmente em 10/10/07)

para Millôr

oolhos-de-pinter, d'àpres Steven Forrest/ The New York Times


"Não sou nada. /Nunca serei nada. /Não posso querer ser nada. /À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.", diz Fernando Pessoa, quero dizer, Álvaro de Campos, em seu poema "Tabacaria". Fernando Pessoa é pessoísta à beça. Enquanto escreve seus poemas magistrais, descreve a si mesmo como o mais vil dos homens, abjeto, um fracasso completo se comparado aos demais, como reforça este outro poema dele — Poema em linha reta — que eu sei quase de cor e no qual me reconheço. Fala sério: é muito pessoismo.
Comparar-se aos outros é mesmo um perigo. É causa ou efeito de depressão, uma doença que piora com a idade, é, gente, a velhice tende mesmo ao pessimismo, não é? Bem. Às vezes não. Como prova o habitualmente irônico Millôr Fernandes, do alto glorioso de seus 84 anos: "O mundo melhorou. Estamos vivendo o melhor momento da humanidade. A higiene é recente. Antigamente, a média de idade era 42 anos, hoje é 80." Tá certo. É bem millôr reconhecer isso. Mas o rótulo de humorista, o jornalista recusa e o entendo muito bem. Se é perigoso ser otimista, fazer humor é mais perigoso ainda.
É o Alan quem me ensina: "o sarcasmo é a forma mais baixa de inteligência." Quanto a mim, não sei porque, desde que casei com ele venho me tornando cada vez mais mordaz, e isso, apesar da vidinha feliz e pacata que nós dois levamos. Por outro lado, foi ele mesmo quem me apresentou ao humor corrosivo de George Carlin, não custa nada sklarecer. Aos meus ouvidos brasileiros soou, a princípio, meio estranho: um tipo de humor que não se aprende na escola, não, gente, de jeito nenhum: nasce com a gente, uma coisa assim, digamos, cárlica. Mas que se agrava com a prática... quanto a isso não resta dúvida, eu que o diga, com as minhas tiradas terrivelmente incorretas, como por exemplo o hábito de publicar certas coisas aqui no blog fazendo associações livres que ninguém mais entende, e até mesmo antecipando um preconceito sutil que ninguém, mas ninguém mesmo, jamais perceberia se eu não o apontasse.
Tomar os outros por si não faz bem nenhum. Pior ainda é seguir o conselho de quem nunca quer o bem alheio, como demonstra em artigo no Globo Babu Santana, prêmio especial do júri no Festival do Rio. O ator nos conta que trabalhava em uma livraria no centro do Rio quando pensou em fazer o teste para o Nós no Morro, e ouviu da dona da loja: "Para que você quer fazer teatro? Você é feio, negro, queixudo. Corta um dobrado para sobreviver, para que tentar o teatro?" A atitude estimulante da moça não é incomum, mas vamos combinar, não foi nada babu da parte dela.
Bom mesmo é praticar o eu. Quanto mais você é você mesmo, mais você mesmo você se torna, se é que vocês me entendem. Foi por isso que não entendi nada ao ler o título do artigo sobre Harold Pinter, reproduzido do New York Times, de onde vem também a foto aí de cima: "Aos 77, ainda pinteriano." Uai, gente. E quando você envelhece, deixa de ser você mesmo? Do que não gostei nem um pouco foi da tradução do adjetivo que é tema do texto, no inglês original "pinteresque". Pinteresco, esclarece a autora, significa "cheio de dicas obscuras e sugestões, que deixa a audiência na incerteza até a conclusão", uma descrição exata da "singular e inclassificável" obra de Pinter, hum, me identifiquei com essa. "Nunca consegui escrever uma peça feliz, mas consigo aproveitar uma vida feliz" me salva Pinter, mais uma vez.
E por favor: não me acusem de elitista por linkar o New York Times, gente, não é nada disso. Só fiz isso porque o Globo não o permite, numa política bem assim, hum, deixa pra lá. Por falar nisso, o Alan reclamou à beça do meu projeto para o MeMo que vai, segundo ele, na contramão das tendências, querendo cobrar pra ser lido (ou visitado), coisa de que a mídia online, em todo mundo, vem abrindo mão. Mas não, faço questão de esclarecer: a idéia do mecenatomoderno não tem nada a ver com cobranças mas sim, como o próprio nome diz, com mecenato. Em outras palavras: o milenar patrocínio de artistas por quem pode, e escolhe apoiá-los.
Ah, sim, vocês perceberam. Parece que eu, finalmente, mudei de obsessão, e já não falo tanto no meu Hierosgamos, o fracassado romance que ninguém quer ler, mas agora vem cá: tá certo que a autora dele não é nada popular — é mal-humorada e de muito poucos amigos —, o que não altera em nada a qualidade literária do texto, não é mesmo? Pouquíssima gente o leu, e quem já o fez, adorou. Insistir nisso agora até parece renancismo, mas no fundo no fundo, é noguice pura. E estamos conversados.

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Carruagem de fogo

A história começa:

Episódio 8, Os Lestrigões
* Um sombrio jovem da A.C.M. ... pôs um volante nas mãos do Sr. Bloom ... Elias está chegando.
* ... girando entre as desoladas amuradas do cais, gaivotas ... Atirou para elas uma bola de papel amassada. Elias trintaedois pés por segundo está chegan.

Episódio 10, Rochedos serpeantes
* Um esquife, um volante amassado, Elias está chegando, flutuou ligeiramente Liffey abaixo ... navegando em direção a leste ... entre a antiga doca da Alfândega e o cais George.
*North Wall e o cais de John Rogerson, com quilhas de barcos ... balançando na esteira da balsa, Elias está chegando.
* Elias, esquife, volante leve amassado, navegava em direção a leste pelos flancos de navios e traineiras ... escuna de três mastros Rosevean vindo de Bridgewater carregada de tijolos.

Episódio 11, As sereias
*Prossigamos. Você sabe o que quero ... Um vintém para as gaivotas. Elias está chegan.

Episódio 12, Os cíclopes
* E veio do céu então uma voz, clamando: Elias! Elias! E Ele respondeu com um único grito: Abba! Adonai! E eles O viram mesmo Ele, ben Bloom Elias, entre nuvens de anjos ascender ... como um tiro disparado de uma pá.

Episódio 14, O gado do sol
* Meu Cristo, quem é este excremento amarelo protestante ... Elias está chegando! Lavado no sangue do Cordeiro.

Episódio 15, Circe
* ... é a segunda vinda de Elias ... [O FIM DO MUNDO: (com sotaque escocês)] ... a voz de Elias, áspera como a de um codornizão, dissonante no alto.
* [ELIAS] Nenhum ganido, por favor, nesta tenda. ... Você é um deus ou um maldito imbecil? ... Juntos na cantoria. Encore! Jeru...
* [ELIAS] (com as mangas da camisa arregaçadas) ... ele observa tudo e não está dizendo nada.
* [BLOOM] ... Pesadelo da imprensa. Atordoado Elias.

Episódio 17, Ítaca
* ... quando um homem escuro colocou em sua mão um de se jogar fora(subseqüentemente jogado fora) anunciando Elias, restaurador da igreja em Sião ... levando nos braços o segredo da corrida, gravado na linguagem da predição.

Fim da história.

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Joyce no meu cotidiano III

"... uma mesinha junto à janela, em frente a um homem de cara sombria cuja barba e olhar pendiam atentamente sobre um tabuleiro de xadrez.
— Aquele é ele? Haines perguntou, girando na cadeira.
— É, disse Mulligan. É o John Howard, irmão dele, nosso magistrado municipal.
John Howard Parnell transladou calmamente um bispo branco e sua garra cinza subiu de novo para a testa onde repousou. Um instante depois, sob este anteparo, seus olhos fitaram rápidos, espectrilúcidos, o seu adversário e caíram de novo sobre um canto de manobra."

***

... em frente a um homem nu de cara preocupada, na poltrona junto à janela, cuja barba de dois dias e olhar fixo não se desgrudam da tela do computador.
— Alan? perguntei, me virando na cama, convidando o irmão mais velho de William.
— Cinco minutos. Ocupado. Quase terminando o jogo.
Alan Edward Sklar com um meio sorriso satisfeito clica calmamente no mouse. Yes! Um instante depois seu queixo descai triste, decepcionado, a estratégia infalível derrotada pelo adversário brilhante, um jogador tailandês sem rosto nem voz.

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Isso se chama vivência

(da série: Joyce no cotidiano)

Ando muito boba, gente. Choro por nada, até lendo jornal. Mas não é por nada disso que vocês estão pensando, ah, quem me dera saber no que é que vocês estão pensando.
Pois no Globo de hoje, em meio a bombásticas fotos de carnaval que nem sequer olhei — é mais do mesmo — o mesmo blablablá de sempre apregoando a destruição da terra e duas ou três páginas de concorridas e globalizadas eleições americanas, além, é claro, de mais alguns sinais explícitos da corrupção que corrói o governo Lula, dei de chorar com um frase curtinha enfiada no meio de um artigo do Ali Kamel.
Gente. O Ali Kamel sabe do que está falando quando fala bem de Obama, e limpa dentro de mim o impulso mais puro em prol da evolução da humanidade. Kamel sabe do que está falando ao descrever a mélange educativa de Obama por ser, ele mesmo, um exemplo do mesmo sincretismo, como já explicou em outro artigo. Como estou longe de poder endossar o Obama a ponto de mudar alguma coisa, endosso nesta terça-feira gorda nossa própria versão moderna de humanismo: Ali Kamel.
Há mais, porém, no meu choro contido pra não melar o café de vez. Há mais, muito mais emoção por trás da identificação com uma simples frase. Ando muito boba, mas fico mais boba ainda quando o Alan me fala, como se não fosse nada, que tem visto minha inteligência crescer a olho visto enquanto leio/escrevo Joyce. Pois de todos os estudos, teses, análises comparativas preposjoycianas que abundam por aí, na rede e fora dela, o que sinto na carne, e que limpa dentro de mim o impulso mais puro em prol da evolução da humanidade, é que não basta erudição ou inteligência para ler o Ulisses, nem nada disso é na verdade preciso. Pra entender o Ulisses é preciso ter vivido e não só. É preciso ter vivido e estar aberto pra viver muito mais, mais profundamente ainda mergulhado na maravilha que pode ser uma vida humana, bem além das diferenças de credo, cor e companhia. Para ser plenamente humano é preciso querer plenamente a aventura da humanidade, o que em essência se chama arte, coisa que qualquer um entende: isso se chama vivência e não tem nada a ver com a corroída teoria planetocrata que vê na arte o kolbojnik* da humanidade, gracinha sem graça de um tal de Tal, na coluna de arte do mesmo jornal.
É preciso uma boa vivência de kibutznik pra entender que este approach filosófico da arte só é mesmo bom pro lixo. E uma boa vivência de Ulisses pra entender que humanidade resumida em arte não é kolbojnik nenhum, mas um belo frasco de Chanel nº5 para ser consumido aos poucos, na curva suave do pescoço da mulher amada. O nome disso é vivência.

* pra quem tem preguiça até de seguir link, já vou logo esclarecendo que kolbojnik é uma mania nojenta que existe (ou existia, no século passado) no kibutz e que consiste em botar um lixinho no centro da mesa, pra despejar lá dentro os restos de comida. argh.

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