E o miguxês, hein? Quem foi que inventou? Uma dz de engraçadinhos preguissosu ignoranti p falah na net? Vc ke sabe qm: foi Joyce. Sim. O James. Me diz se não:
Yrfmstbyes: you are off must say bye's (de saída dizendo tchau, ou: Dsizntchau) Blmstup: Bloom stood up (Bloom se levantou: Blsevtou) Tisntdall: this is not all (isso não é tudo: Isntudo) Rrr. Rrrrrsss. Hm.
Chega um momento no Ulisses em que é preciso esquecer tudo o que você leu, pesquisou, aprendeu, em que você precisa decidir-se a abrir a mente, se desarmar completamente, deixar o espírito de Joyce baixar, entrar, comungar com você. E o espírito de Joyce pode ser um obá, um orixá, um erê. Em todo o caso é preciso querer, querer muito. E acreditar que sim, você pode. Há momentos em Joyce em que o puro ato de lê-lo, e compreendê-lo, é o jeito melhor que eu conheço de elevar a auto-estima. Ler Joyce é, sim, transformador. Não é pra qualquer um mas uma coisa é certa: transforma qualquer um. E o episódio das Sereias é um momento desses. Mas nem tente entender com essa rapidez toda. Afinal de contas, Joyce confessou a um amigo que queria dar trabalho a seus estudiosos e críticos por pelo menos uns 300 anos. Você não vai querer resolver a parada em quaisquer cinco minutos. Meu conselho (para ler e esquecer): para absorver o encantamento deste episódio é preciso agir ao mesmo tempo como Ulisses e como os marinheiros, tampar os ouvidos e, ao mesmo tempo, estar atento a todos os sons. Não se desespere. Siga em frente. Antes do final deste texto eu prometo: você entenderá tudo. Bem. Quase tudo. A penúltima palavra do episódio, por exemplo, deve ter ocupado críticos no mundo inteiro por um bom bocado de tempo, ou, pelo menos, pelo tempo que leva para dizê-la em voz alta: Pprrppffrrppfff. Sabe o que é? Um pum. Um peido sonoro e bom, daqueles de limpar a alma, ai que bom. Eu não disse que era um erê? Taí um segredo. Lendo Joyce no original, sempre que há dúvida quanto a algum significado, experimente ler em voz alta, principalmente no episódio das Sereias, escute só: Idolores. Aidolores. Eudolores? Ai, Dolores! (É o som do inglês, estúpido!) Idolores, qualquer acadêmico sabe, é personagem e refrão da opereta Floradora (?), mas enquanto o erê não baixar, não vai dar pra entender os trocadilhos sonoros de Joyce ao longo de um texto onde tudo é ironia e lirismo ao mesmo tempo: "Sob a sombra de uma só pereira a hora da Madri de outrora Dolores deudolores. Em mim. Seduzindo. Ah! Sedutora." Dizem que a técnica deste episódio é a fuga per canonem, onde um tema apresentado ao início se repete em vozes e ecos, mas uma coisa é certa, uma palavra é chave: onomatopéia. No mais, é tudo música, mas não se deixe enganar: "Words? Music? No: it’s what’s behind." A fuga eu não sei, mas grande parte das frases usadas remete a uma fonte musical, eis algumas: The Shade of Palm; Goodbye, Sweetheart, Goodbye; A Rosa de Castella; Love and War; Minha irlandesa Molly, Ó; A Filha do Regimento; M'appari, da ópera Martha; Uma última despedida; Johnny, I hardly knew you; Estirado entre os mortos; Tutto è sciolto (tudo está perdido) da "Sonnambula" de Bellini; Waiting; The Grey Goose; A Flauta Mágica; The Croppy Boy; Tis the Last Rose of Summer; e o onipresente Don Giovanni. Da capo. Pra você que me lê, de coração: M'Appari na voz do Lionel de Tito Schippa, o preferido de papai, doce, doce, doce, escute enquanto lê: "Alertadocérebro, faces tocadas em flama, ouviram sentindo aquele fluir cativante fluir sobre pele membros coração humano alma espinha... Bom, bom de ouvir: a mágoa de cada um de ambos pareceu partir assim que ouviram. Assim que viram, perdidos Richie, Poldy, a dádiva da beleza, ouvida de quem nem de longe esperavam, a primeira dadivosa amordoçura sempreamada palavra dela." Bom. Se sobrou alguma dúvida de que a arte retratada por Joyce neste episódio é a música, resta o diapasão, o tape, tapetape, tapetapetape da bengala do cego marcando o caminho no chão, as rodas gingantes do cabriolé do Ardente Boylan indo ao encontro de sua mollyamante, e, mais que tudo, o relógio batendo o cuco, carracarracurra, sonnez la cloche. Quatro em ponto: a hora do encontro para a adúltera Molly, para o corno Bloom, ah, tão triste. Gente. Se eu dissesse que é espetacular, ah, estaria me repetindo, carracarracurra, taí: nem tudo é música, gente. Não. Há também o sexo, que mantém a tensão do texto o tempo todo, como a tira elástica deslizada direto do embrulho no bolso, esticada e enrolada, para apertar, a ponto de machucar, os delicados dedos crispados de Bloom. Há um clima de voyeurismo já na primeira página: "Espia! Quem está no espiad’ouro?" Há fascinação. Gorjeio. Palpitação. "O Sr. Bloom chegou à ponte de Essex. Sim, o Sr. Bloom cruzou a ponte de Essexo". Há também a linguagem crua e sonora do sexo: "Bloom. Torrente quente de gemegeleia lambetudo secreto fluiu no fluxo para dentro da música para fora, desejando, escuro lambe o fluxo, invadindo. Tocando, amornando, estampando trepando nela. Trepa. Poro a dilatar dilata. Trepa. O gozo o toque o morno o. Trepa. Transborda a barreira inundando jatos. Torrente, jato, fluxo, jatodegozo, trepemtranse. Já! A língua do amor." E pra concluir: cadê as sereias que dão nome ao trecho? Hein? Seriam elas Bronze e Ouro? Bronze de longe? Ouro de perto? Miss Douce e Miss Kennedy? Lidiabronze e Minaouro? Ah, gente. Não tem sereia nenhuma nesse texto, sério. Só tem sereio. Ops: tritão: são os homens que (en)cantam, Ben, Si, vozes de baixo, tenor, maviosas, em volta do piano de cauda no palco da sala de concerto onde o garçom calvo e surdo só serve, não ouve: é surdo. Onde o rapazinho cego só olha, e não vê: é cego, hehehehe. Fff. Oo. Rrpt. Pprrppffrrppfff. Erê. Eu não disse? Ah. Bom. Foi demais agora. Tléc. Boom. Terminou.
***
De resto, o flato final é o "a pedal" que termina a Fuga. Bem pensado, não? (em comentário privado de LGA)
A esta altura já deu pra sacar a obsessão de Joyce em contar tostões, do preço das jardas de cetim negro barato cobrindo os seios das garçonetes a — Espera. Cinco Dig. Perto de dois aqui. Um vintém para as gaivotas. Elias está cheg. Sete no Davy Birne. São cerca de oito. Digamos meia coroa. Meu pobre presen: P.R. dois e seis. —, transferida no Ulisses para os bolsos mal ajambrados de Bloom e Stephen, ou Stoom e Blephen. Daí pra frente a coisa piora, e não admira: imagino que reflita a agonia contábil do próprio Joyce, se agravando na vida cotidiana à medida em que avançava no livro, até chegar a...
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Quem enfrenta uma odisséia com pouco dinheiro no bolso, e até quem nem tem dinheiro para enfrentar uma odisséia, entende isso muito bem. Não eu, que abomino dinheiro e o controle dele. Mas no caso das muitas viagens que fiz com mamãe, por exemplo — mamãe, vocês sabem, era guia de turismo e se orgulhava disso —, era ela quem anotava, em diários detalhadíssimos, todos os gastos da viagem. Os diários originais, pra variar, sumiram, ou foram destruídos. Sobraram dois, duas preciosidades: um, relatando a primeira viagem com papai a Israel, em 1967, 21 anos depois de ter saído de lá, em 1953, com um bebê na cestinha: eu; e o segundo, de nossa viagem, minha e dela, ao Peru e Bolívia em 1974. Confiram:
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Transcrevendo, no dia 15, no Trem da Morte atravessando o Pantanal: "Tomamos café 5,00 O dia até que passou depressa. No almoço, comemos feijão, arroz, bife, salada, sobremesa, a 10,00. Noga ficou 20 horas sem fazer xixi até que o trem não é sujo."
***
Já os artistas, vocês sabem, vivem contando tostões e pedindo tostões a quem os tem pra realizar seus sonhos. Confiram a propósito este orçamento que encontrei lá em casa procurando os diários, parte de uma proposta para a montagem teatral de "O homem e o cavalo", de Oswald de Andrade, logo quem: o nosso modernista Oswald. Nem sei de onde veio, deve ter vindo de Pedro Sayad, figurinista da peça e meu amigo na época: Administração: Cz$200.000,00; Cenários: Cz$360.000,00; Figurinos: Cz$230.000,00; Iluminação: Cz$250.000,00; etc, etc; até o total de Cz$5.760.000,00 (cinco milhões, setecentos e sessenta mil cruzeiros, ops! falha minha: cruzeiros novos, ai, Deus, não: cruzados) ou 7.020,794 OTN's, gente, o que é isso? Ah, sem comentários: era o Brasil da Inflação, em março de 1988.
"Você não precisa provar sua inteligência, seu valor e sua competência para ninguém. Você sabe do que é capaz. Saia do transe, relaxe e siga em frente." Horóscopo de jornal by R.A. em 08 fev 08
É, gente. Já deu pra ver que estou hoje num momento mais pra MMC (Meu Mundo Caiu) depois de ter me segurado por dias numa fase bem West Side Story (I feel pretty and witty and gay, gay, no caso, em seu significado original. ah. esquece.). Aconteceu que eu puxei tanto pela mente naquela história de encanto, deslumbramento e profundo entendimento que me pegou em cheio no Ulisses, na altura do episódio das Sereias, que acordei esta manhã com uma ressaca mental tão profunda quanto, duvidando de tudo a começar por duvidar de mim mesma a um ponto tal, que até me voltei para horóscopo de jornal. Vê se pode. O cancerzinho começou com um tumorzinho numa discussãozinha com LGA que me fez sentir tremendamente ignorante, ops, fez com que eu me sentisse: meu personal-joycean não achou graça nenhuma na brincadeira com sereia-macho, ou melhor, sereio, e foi logo me jogando num poço profundo de erudição puramente grega: é tritão, Noga. Sereia-macho é tritão. Hum. Passou leve e lépido como um vento apenas vislumbrado de voz (o tumor crescendo) pelo meu fracasso retumbante em converter uma amiga e colega intelectual — meio alérgica a Joyce e suas correlatas febres de citações — à abrangente TAITI, minha mais recente religião: Turma dos Adeptos Incondicionais do Trocadilhista Irlandês, ou seria melhor TAITIJJ? Ah. Esquece. Não estou pra erê nenhum hoje (o tumor crescendo, sem nenhum humor), essa coisa insistente de erê, afinal, é preciso explicar: veio das palavras cruzadas, sem coincidência nenhuma, em dois dias seguidos, vê se pode. Erê erudito esse. Só o que me consola, além da coincidência — ops, sincronicidade — do horóscopo, claro, é saber que ninguém, mas ninguém mesmo, apesar de todas as evidências em contrário, sabe onde vai parar determinada aventura artística. Mick Jagger, por exemplo, em recente documentário de Marty — aimeudeus, que intimidade é essa: Martin Scorcese por favor —, aparece jovem, sem ruga nenhuma (acreditem: ele já foi assim) com apenas dois aninhos de pedrarrolando, dizendo "acho que estamos indo bem, deve dar pra continuar por mais um ano". Gulp. Tudo é questão de tempo, gente. Tudo. O sucesso e o fracasso também. Tudo. A própria idéia de paródia, claro, não partiu de mim: partiu de Joyce lui-même. Agora güenta. Só que no meu caso, é claro, na contramão de Joyce ou Picasso: estou andando para trás na ousadia, e não para a frente como devia. Joyce e Picasso, é claro (ô turminha), pelo menos numa coisinha se distinguem de mim: nunca ligaram a mínima para a opinião alheia. Fizeram pouco de Deus e o mundo e não havia monstro sagrado que os intimidasse, como bem prova a família real mais feia do mundo, duplamente imortalizada:
(clique para ampliar: mania nova)
Ah. Esquece. Essa neurose de se comparar (pra se diminuir, ou se superar) é uma estratégia de simpatia que nunca deu certo, mais ineficaz até do que aquelas pra arranjar marido. O fato é que me empanturrei de James Joyce, e estou apenas dando o tempo da digestão se completar antes de enfrentar a próxima arte que ele aborda no Ulisses, e essa eu sei e todo mundo sabe, dura de engolir: a Política. Ah. É. Nessa aí, muita gente boa se esborracha desde os tempos de J.C. — Jesus Cristo, ele mesmo —, o que deixou todo mundo carente, mas tão carente, que acabou virando uma compulsão interna e eterna por um Messias Redentor. Tumor inoperável esse.
Não é de hoje que eu desconfio, sem arcar com o ânus da prova (ai. desculpem.), que a culpa do aumento exponencial no nível de coliformes canifecais que assola o Alto Leblon recai sobre esse serviço profissional de passeadores de cães. Porque, francamente, e me corrijam que eu devo estar errada, não acredito — nunc et in hora — que a responsabilidade disso possa ser dos moradores tipicamente classemedialta daqui do bairro. Pois hoje, meninos: finalmente eu vi, vi sim, com os olhos que esta terra há de, etc, etc, um passeador de cachorros desses, saquinho de m%a vazio na mão, tirar o seu pra fora e fazer xixi no poste enquanto o cachorro, coitado, se conformava com o outro lado. E isso, às onze da manhã, pra quem quisesse ver. Ou cheirar. Juro por Deus.
***
Involuntariamente *apud James Joyce sobre o Cidadão, do lado seu cão Garryowen, conforme coincidentalmente verificado com certo postergamento nos dez de fevereiro do ano do senhor de 2008, agora, vamos combinar: essa profissão de passeador de cães, também foi Joyce que inventou. Afinal de contas, mesmo sem chegar à conclusão — na tradução, pelo menos — se o cão danado Owen Garry era uma fera racista fanada, ou não mais que um reles vira-lata comedor de restos de biscoito, a gente descobre sem sombra de dúvida que o cachorro não era dele, quer dizer, do Cidadão, mas sim do vovô Giltrap que não era avô dele, mas da futura Gerty MacDowell e nem aparece na trama. Boiou? Liga não. É só pra dar liga mesmo.
Se o Ulisses fosse um polvo, teria até hoje tentáculos muito vivos conectando-o a exemplos contemporâneos da literatura. Mas como já disse, prefiro encarar a obra-prima de Joyce como uma matrix firmemente ancorada no inconsciente coletivo cultural, cujos cordões astrais alimentam um bocado de autores na literatura contemporânea. Alguns exemplos:
Ulisses x Tudo se ilumina, de Jonathan Safran Foer: o umbigo da dupla se expressa, nesse caso, na perfeita e brilhante transliteração do inglês em vozes de múltiplos sotaques. Dá pra imaginar, por exemplo, o Alex (don’t dub me that) de Foer sem o prévio consentimento de Joyce, perfeito em "Vyfor you no me tell? Vel, I ses, if that aint a sheeny nachez, vel, I vil get misha mishinnah". Trata-se aqui, no entanto, de um discípulo quem sabe involuntário já no caminho de se igualar ao mestre. Ou não teria Safran Foer patrocinado o brilhante primeiro monólogo da história da literatura totalmente escrito em linguagem alfanumérica como o fez, pelo teclado do telefone, em Extremamente Alto & Incrivelmente Perto.
Ulisses x Harry Potter e a Câmara Secreta: essa eu garanto que te pegou. Pois você sabia que em ambos aparece o basilisco, animal mitológico que mata com os olhos? Ah. Tá bom. Informa a Wikipédia que o tal do basilisco aparece também em Leonardo Da Vinci, Voltaire e Shelley, mas cá entre nós, J.J. e J.K.R. já está de bom tamanho.
Ulisses x Reparação, de Ian McEwan, essa é bem direta, ou alguém duvida que Gerty MacDowell inspirou a lasciva Lola? Ambas falsas boas moças que provocam mas se mostram provocadas, e mais os irmãos gêmeos: um Jackson pra cada uma? Ops. Em Joyce, os gêmeos são irmãos de outra, mas tudo bem: tô sempre errada mesmo.
Jovem Joyce x Jovens Escritores Brasileiros: será que o Dia Mastroianni de J.P. Cuenca lembra, mesmo de longe ou, pelo menos, no título, a saga heróica do Dia de Bloom? Mais um retrato de um jovem devasso enquanto artista, numa busca incessante e infrutífera de si mesmo? E o que dizer pelo menos do título de "As sementes de Flowerville", do jornalista e blogueiro Sergio Rodrigues? Flowerville, não sei se vocês sabem ou se não passa de mera coincidência, é o nome idealizado da sonhada propriedade no campo de Leopold Bloom, Virag, Flower.
Joyce x homem comum contemporâneo: consta que vem de Joyce a mania muito americana de reduzir tudo a siglas: é um tal de GOP (good old party, significando republicanos), ou LOL (laughing out loud, em internetês) ou ainda ASAP (as soon as possible). Joyce, vocês sabem, inventou o mais famoso acrônimo da língua inglesa, IOU (I owe you), mas ah, estou me repetindo. E o que dizer então do hábito de cortar pelo meio as palavras? Como mayo, em vez de mayonnaise, por exemplo? Hein?
Ih. Viajei na maionese. E se for no cinema? Além do já citado "E o vento levou", Joyce está muito bem representado por "Mais estranho que a ficção", e, gente, por mais estranho que isso possa parecer, por mais banal que este título soe, não duvide, a expressão aparece no Ulisses: é Joyce e pronto.
Ah, se arrependimento matasse. Esse Joyce tinha muito peito, vou te contar: é por isso que ele é James Joyce e o restinho de nós um bandinho brega de barnabés covardes. Eu, pelo menos. Você pensa que a coisa é séria mas se depara com um texto exagerado hiperadjetivado enfatizando um gigantismo zarolho em listas e mais listas e mais listas numa mistura hilária à altura de um legítimo samba do crioulo doido: Cíclopes. Mas eu, amarelei. Tasquei o tesourão em tudo. Tudinho. Só sobrou o original em mau inglês, juro por Deus que um dia existiu:
"the shadow was here, i didn’t invite it or let it come in, but it did anyway and like a warrior i fought it with my sword of light, nice image, so let’s go back to kissing... and if i am a warrior my horse knows its way since i was born, like an athlete flew over all obstacles so you have to stop it, let me down gently and take my helmet off to show my abundant hair, take me to your hut by the river and give me a glass of the purest water... and help me out of my armour with the 3 straps around my back, and they hurt me, and they are deeply intrained in my flesh for this is an iniciatic armour."
Por Deus e pela Virgem Maria. Agora ele, Joyce, que leva uma certa vantagem, claro, afinal, escreve na língua-pátria dele:
"In Inisfail the fair there lies a land, the land of holy Michan. There rises a watchtower beheld of men afar. There sleep the mighty dead as in life they slept, warriors and princes of high renown. A pleasant land it is in sooth of murmuring waters, fishful streams where sport the gurnard...denizens of the aqueous kingdom too numerous to be enumerated. In the mild breezes of the west and of the east the lofty trees wave in different directions their firstclass foliage, the wafty sycamore, the Lebanonian cedar...Lovely maidens sit in close proximity to the roots of the lovely trees singing the most lovely songs while they play with all kinds of lovely objects...the splendid and of the noble district of Boyle, princes, the sons of kings."
Mas a lista das coisas mais lindas, essa eu fiquei com pena, cortada em prol de comerciais 196 páginas — menos de duzentas em cadernos exatos, múltiplos exatos de oito perdidos de qualquer jeito na diagramação da editora —, deve ser por isso (ou pela falta disso) que o Hieros nunca decolou: una copa en Bellas Artes - Madrid despues flamenco en Las Cuevas; um café no Garcia - Rio, uma caminhada na praia (a walk on the beach) a solitary swim on Green Emerald lake (mountain lake) in Bariloche - Argentina; a walk to the bottom of Grand Canyon (never did); have coffee above the garden at Getty Center in Santa Monica CA; new MOMA of course when waiting lines are over; sunday breakfast in Notting Hill - London; watch the sun changing la façade d'Institut du Monde Arab a Paris; pyramids au Cairo; "... match me such a marvel, save in Eastern clime a rose-red city, half as old as time": Petra, Jordan, let there be peace in the Mideast; Zippori, Galilee for a Dyonisius feast; a Bejárt ballet in Acropolis on summer festival, speaking of festivals another summer in Edimburgh for avantgarde theatre; an Itzhak Perlman concert anywhere: he has the power; Wagner Ring in Beyreuth staged by Patrice Chereau; Robert Wilson 10 years ago; Pina Bausch, of course, on her castle in Wuppertal; ufa, more next year, right, love you/ N
Pra rivalizar, vai Joyce nomeando os heróis e heroínas irlandeses da antiquidade numa lista que inclui de Dante Allighieri à Rainha de Sabá passando por Adão e Eva, Capitão Nemo, Ludwig Beethoven e Gautama Buda. Crioulo doido perde. Ou se estoura de rir.
"O sonho é uma arte poética involuntária" Kant by Mario Benedetti by José Castello
Acho que foi Joyce quem disse certa vez não acreditar na possibilidade de tornar seu Ulisses uma obra universal através de traduções. O cinema, afirmava ele, seria um meio melhor, e isso nos anos 1920, quando a arte filmada carecia dos múltiplos recursos que tem hoje. Joyce era fã de cinema, e abriu o primeiro deles em Dublin em 1909. E leio en passant, no google, que chegou a discutir a filmagem de Ulisses com Eisenstein, isso sim, teria dado samba. Ops. Odisséia. Mas a verdade é que, apesar da riqueza de possibilidades, a posteridade ainda fica nos devendo, como no caso das traduções, um filme decente sobre o Ulisses. Este "Bloom", de 2005, em versão dirigida in loco pelo irlandês Sean Walsh, não passa nem perto. Tá certo que eu estava num dia ruim, nervosa, cansada, sobrecarregada. No entanto, a simples e majestosa visão da Torre Martello sobre o mar esmeraldino (ou verdemeleca) de Eire já seria suficiente para dissipar tudo isso e me fazer mergulhar no clima de encantamento em que tenho vivido, enquanto leio o Ulisses. Que nada. Fui detestando os personagens um a um à medida em que apareciam: Mulligan gordo e gay demais; Stephen, hum, até que eu gostei do Stephen, romântico e delicado à primeira vista; Bloom muito baixo, muito bobo e careteiro demais, e olhem que sou fã do muito irlandês Stephen Rea desde os tempos de Neil Jordan, taí, um Neil Jordan cairia bem nesse projeto pretensioso e desprovido de humor (?!?). Com esse filme tive a dupla experiência de ver-o-filme-depois-de-ler-o-livro e ler-o-livro-depois-de-ver-o-filme, já que estou bem no meio do romance. Hora errada? Não sei. A verdade, vamos combinar, é que eu já tinha alugado este dvd antes mas, sei lá, não me lembrava de nada, acho que dormi, o que diz bastante sobre a força da obra. Na parte que li, concordei com os trechos escolhidos pelo roteirista — que não invejo, ô trabalhinho difícil — apesar de discordar totalmente da técnica de "leitura" escolhida para os fluxos de consciência, fala sério: o cinema merecia mais, e a maravilhosa ousadia criativa de Joyce, muito mais. Na parte que não li... boiei — nem dá pra entender o que está acontecendo e o excesso de texto comprimido em minutos de imagens dá curto em qualquer cérebro, resultando em flagrante desinteresse —, só não dormi porque vocês sabem, fui mordida pela antitsetsé que é a beleza do Ulisses. Resultado: tudo que eu quero agora é esquecer do que vi e me voltar para dentro de novo, para meu próprio arsenal imaginativo e meu casamento criativo muito privado com Joyce, que só funciona na solidão de alcova que é a minha mente. Um parêntesis só para as (cenas do bordel: Alan olha pra mim entre divertido e penalizado, você já leu isso? eu não, ainda não, coitada, quero ver como vai se virar). Muito bem, parece. Apesar das múltiplas teorias estético-psicanalítico-filosóficas que cercam o futuro e enigmático episódio "Circe", acordei esta manhã entendendo tudo muito bem: é a linguagem dos sonhos, gente, que Joyce explorou brilhante e herméticamente mais tarde no Finnegan's Wake, ai, tem dó: só vou chegar lá por volta de 2012, mas então: fui dormir com a cabeça cheia, cheia de dor mas em todo o caso, dormi. No fim da tarde eu recebera uma visita importante: un ami de Paris, é isso mesmo, doutorando de cinema — o que mais? — na Sorbonne que em outra vida havia sido barman do Cochrane's, nosso Davy Byrne's local convenientemente criado por Crocker — pirata britânico dos mares bravios a velas desfraldadas — e sua musa loura Úrsula, amigos de João, mon chéri ex-barman que, para minha surpresa, apareceu com uma família francesa: esposa e filho. Pois fui dormir com a cabeça cheia de Joyce, peixe, passado, pão, álcool, crônica, filme, webdesign, literatura, obrigação, Bloom, Rea, Alan, João, Pascale, Adrien Otávio bebê. No sonho, João já pai ex-barman de dentro da carteira um selo quadrado azul colado na tela ah! histórico completo da doutorando Paris enquanto um conto tudo muito fácil ah! reproduzido em qualquer lugar bastante colante um software distante na telinhafrancesa-meiocomputador ah! primeiro mundo altercoisa ah! ParisFrança! Adrien Otávio bebê contado seis meses de idade o português perfeito raciocínio impecável a aula uma gradação a toques de um francês? transição indigesta de longe o passado o crânio calvo remoto o controle do som ah! louca bebê Adrien Otávio seis meses ou menos ah! precisado de banho João pai ex-barman quase quarenta anos Pascale branconeon um artefato redondo estranho de um lado banheira do outro tela de computador digitada temperatura e tema ah! evitado o tédio lavada a beirada enlamada da calça um bege cru hora do táxi até agora nada aquela tralha toda Adrien Otávio bebê perfeito num perfeito papoperfeito todos trancados cinza nas grades do prédio cinza uma carona? ah! bate na vaga furgão amarelo sorriso amarelo ah! um bebê Otávio nãonão. Ufa. Acordei com os olhos muito espertazuis de Otavinho e pronto, gente: entendi tudo num átimo, só pode ser sonho, porque em outros, entendam, também eu já estive acossada e nua fazendo amor no meio da multidão num flagrante rasgado dos meus próprios pecados mortais. Quem não.
***
Pra adiantar o serviço já vou logo dizendo que o Alan sempre considerou o Hieros filmável à beça, e pelo sim pelo não já fui logo resolvendo os dilemas visuais todos e bolando um jeito de deixar muito claro o que era delírio e o que não, ah, esquece: tudo era delírio. Segue roteiro original para uso de quem há de. Nunca mais.
Filme
Diretor: Fernando Meirelles Sandra Kogut Personagens Noga real: Clarice Niskier Noga virtual: Claudia Abreu Alan real: Richard Dreyfuss part espec. Alan virtual: Eric Stoltz A mãe: Fernanda Montenegro part espec.
Script
parte 1: Claricenoga caminhando em St Aug e Leblon trabalhando no livro. Fazendo coisas normais, fazendo pão, regando as plantas, visitando a mãe com alzheimer na clínica. O livro é recusado em todas as editoras por 2 anos, o dinheiro está acabando, até que Claricenoga decide autopublicar, quando começa a parte 2. Richardalan nunca aparece nesta parte, só a voz no celular, ou vinda lá de dentro do quarto no apê do Leblon sob o toque sonoro do teclado. parte 2: o livro propria/ dito diálogos pinçados entremeados Noga e Alan em seus respec carros, ela (primeiro no avião) num chevy novinho vermelho alugado, ele num caquético e enferrujado BMW, começam a viagem como Claudianoga e Ericalan e vão se transformando ao longo dela, diálogos pinçados entremeados, em Nogaclarice e Alanrichard. Encontro/ corte para cena final, no Odeon da Cinelândia, festa fictícia de lançamento com os atores todos, produção, vips, editores, e Noga e Alan reais.
Ah, liga não. É só fantasia mesmo, e essa é das mais íntimas, embaraçosas e impublicáveis. Esquece tudo aí.
"...a aparição do duplo-etérico sendo de particular similitude com a vida devido à descarga dos raios jívicos vindos da coroa da cabeça e do rosto. A comunicação se dava através do corpo pituitário e também por meio de igneolaranjas e rubros raios emanados da região do sacro e do plexo solar."
de Lisa Renee, guiada por uma Hierarquia Espiritual:
"...nas primeiras ondas de Ascenção evolutiva encontram-se diretamente suspensos entre tais Eras ou linhas de tempo e sentindo desorientação. A sensação acontece imediatamente antes da abertura do portal dimensional por sua consciência pessoal para revelar o próximo nível da linha de tempo/realidade para o qual nos destinamos."
de Noga, no "Eu, xamã":
"...limites do tempo se dissolveram, e puxando de dentro do corpo um cordão interminável, na altura do plexo do lado direito me deitei de lado, em posição fetal. Apareceu um cristal enorme...acabei me entregando, relaxando o corpo na superfície lisa...o cristal se iluminava, emitindo luz colorida - do vermelho ao violeta, passando por todos os tons do espectro - uma cor para cada chakra."
Não sei não. Faz tempo que tenho sentido o maior medo de prazos e falsas esperanças do tipo "agora vai". Já vi muita gente boa sucumbir por causa disso. Mas lendo a revista do Globo neste domingo, fica difícil evitar um vigoroso "agora vai" rugindo de dentro do velho peito, gerado na mágica década de 1950 e já paralá de caído. Quando o mundo já esperava que a gente de vez desistisse, ou se aposentasse, desse vez a quem de direito, não sei não: olha nóis ai ôtra veiz. Ficou difícil. Me lembro de um comentário esnobe de S.Z., meu então assessor de imprensa, impressionado com minha decisão pospólen de trabalhar em casa, atitude vanguardeira que na época significava: desempregada. fodida. desamparada. Pois na Revista de hoje reportagem nobre retrata projetos de escritório doméstico para quem... decide trabalhar em casa, ô mulher posmoderna, sô. Inda que tardia. Inda que tardio também o renascimento de gente que fez história enquanto eu tentava fazer uma história, muitas vezes, dando uma mão a eles, ou pegando carona pela mão deles, como na expo de jóias na late Mr. Maravilhoso do paugrandense Luis de Freitas, nos idos de 1987, lá se vão vintinho. Ou fazendo do Cochrane's Crocker meu então escritório noturno, ah, tá bom: todo mundo que freqüentava aquele bar vinha com essa entre um uísque e outro, e curioso ou não, coincidência ou não, andei escrevendo sobre o Crocker's Cochrane's ontem mesmo, a lembrança avivada pela visita do Dr. João* — a.k.a. barman Johnny — aqui em casa, quando falamos do "falecido De Gang", é sério: houve quem pensasse (não eu) que ele houvesse morrido. Enfim. Lá vou eu de novo tentando a minha casquinha na lasquinha tardia de notoriedade que espicaça meus companheiros da então estrada, ou, pelo menos, meus contemporâneos na falta almejada de fama. Vai chegando a nossa vez tardia no bloco pós-carnavalesco "A Fila Anda". AFE. Vocês eu não sei, mas tenho me sentido cheia de energia. Isso porque, provavelmente, depois de anos funcionando com dois cérebros disfuncionais — o de mamãe senil e o meu — finalmente substituí um deles por um mais produtivo, canalizando mensagens literais de James Joyce, eita centro de mesa bom esse!, quer dizer, centro espírita de mesa, daqueles que Joyce tão jocosamente descreve no Ulisses, ao transmitir mensagens de mortos sobre sapatos perdidos: pra levantar moral de escritor fracassado não tem encosto melhor, fala sério. Mesmo que o texto psicografado fique a anos-luz do original canalizado, dá assim, digamos, uma pontinha de esperança. Um gosto amargo e doce de ilusão porética à la Stephen Dedalus: "E minha vez? Quando?" Pois é, gente. Junto com essa meia dúzia de três ou quatro que anda tentando se levantar dos mortos consta essa que vos fala, antiga designer, antiga metida, antiga vanguardinha do Brasil hoje metida a escritora, é, gente: antes fosse namoradinha, mas como se diz... nunca é tarde para... Nem que seja na hora da morte, é, tradução literal da oração latina aí de cima, puro equívoco católico apostólico que eu pensei que dizia: antes tarde do que nunca, ah, bom: nunc em latim quer dizer "agora": antes agora do que nunca, não é mesmo? Ops: na hora da morte amém.
* atual doutorando em cinema pela Sorbonne, que fique bem claro: tem gente que consegue meesmo dar a volta por cima
"Todo escritor precisa de um mecenas. Seja ele um segundo emprego, a loteria, família rica... ou, no melhor dos casos, o público leitor." pela matéria do Prosa, não dá pra entender se o autor é André Laurentino ou Margaret Atwood. Who cares. A dor é a mesma.
Verdade que eu já estava me preparando para um epitáfio, tinha título e tudo, meu tédio desarvorado traduzido na citação aí de cima, quando me deparei com matéria de página inteira do Ela sobre Marcelo De Gang. Sentei, tirei os óculos da maturidade, e gente, chorei. Marcelo De Gang foi personagem emblemático da minha segunda juventude, nos poucos meses em 1986 em que fui famosa, rica, e poderosa, tudo ao mesmo tempo. (em outros períodos de minha vida fui um, fui outro. agora não sou nem um nem outro.) Compartilhamos um escritório noturno, o Cochrane's. Eu ia pra lá com minha assistente, depois do expediente, em dias melhores depois de um jantar no Satyricon, ao preço de um salário mínimo inteirinho. Pedia um (já nem me lembro o que eu bebia), pedia dois e ficava lá até às 2, ou 3, recebendo e enviando torpedos de mini-champanhe antes de sair pra dançar no Cubatão e voltar pra casa quase de manhã, dirigindo bêbada. Pelas tantas Marcelo chegava, magro, misterioso, branco como uma pintura de Kasimir Malevitch, por baixo de uma capa preta: em si uma performance, gênero artístico muito em voga na época. À meia-noite era a vez do Claudio, com uma revista debaixo do braço mostrando os Talking Heads. Nunca antes de meia-noite, ejetado da aridez do subúrbio para a intrigante modernidade. Se Claudio desconfiou do fato, De Gang nunca soube que eu era artista. Olhava pra mim e via... um patrocínio. Quem diria. Eu dei. Troquei por um belíssimo casaco branco, eternizado mais tarde num cartão de Natal da Pólen. O casaco sumiu. O cartão também. E também o Cochrane's, a Pólen, o Claudio... e o Crepúsculo de Cubatão. De Gang também tinha sumido, e quando eu já me preparava pra sumir também, voilá: renasceu. E publicando livro escrito por ghost-writer. Será um sinal? Justo quando eu já não sei bem se opto por ser writer? Ou ghost? Melhor parar por aqui, porque se for pra contar tudo, dá livro, não post. Um livro que o ghost do Marcelo Victor já está terminando. Tarde demais. Quando eu namorava o Alan na internet, 4 anos depois de publicar o meu primeiro livro, tive um insight, ou delírio, ou suicídio criativo, não sei bem: deixar tudo de lado e dedicar-me somente à literatura, prato indigesto que eu já vinha comendo pelas beiradas. Vieram os anos de reclusão, de doze horas por dia na farra da mente, da poesia. É claro que para a média do trabalhador brasileiro, sou rica. De outra forma, como poderia? Mesmo que a grana não me pertença, e ponha em risco o staff fixo de mamãe, sigo o meu chamado. Até quando? Se mesmo hoje, já é tarde demais Quando o romance ficou pronto, achei por bem sair da toca, falar dele em tudo quanto é canto, mandar pra todo mundo, participar de concurso, encontrar outros escritores, um resumo de tudo que eu mais detesto: ser social. Pois no amplo debate desta semana sobre financiamento, escolhas e viagens, caiu a ficha. Não quero nada disso. Não quero encomenda, não quero crédito, nem patrocínio. Não quero regras nem contrapartidas. Quero paz. E o meu solitário notebook. O que escrevo vem do fundo do peito. Achou cafona? Retrógrado? Auto-indulgente? Fora de moda? Como o pouco gentil (e precipitado) comentador de blog, achou uma merda? Dane-se. Não quero me curvar a padrões, a temas encomendados, a regras de mercado. Cansei. Estou velha, gente. Deve ser isso. Trabalho há mais de trinta anos, segundo analistas (da imprensa, não do consultório. hum. pensando bem, estes também) sempre à frente do tempo. E vocês acham que sai daí algo de bom? Que nada. Significa ousado, diferente, inusitado... e comercialmente, um buraco sem fundo onde inevitavelmente vou cair um dia, quando a fonte familiar secar. Aí, me mato, pois já será tarde. Tarde demais para vencer. Pra convencer que não há nada de errado num texto feito de diálogos, que flui impetuoso numa enxurrada, não fosse a vida, a mente, a reflexão, feitas de uma enxurrada interna de... diálogos. Sempre achei aviltante trocar trabalho por dinheiro. Ou melhor, ser obrigada a trocar trabalho por dinheiro. E justamente por causa disso, escolhi atividades, hum, cada vez mais impossíveis em termos de remuneração. Hum. Este "em termos" não ficou nada bom, mas claro. Misturar criação com reivindicação nunca deu certo. Aos poucos que me lêem, devoto uma certeza: a cada dia, compartilham o melhor de mim. Por gosto, por missão, mas nunca por obrigação. Meu romance está aí, pra quem quiser ler: aproveitem, pois não prometo mais nenhum. Sou um mau negócio, ou melhor, não sirvo mesmo pra negócio. Nem pra contato, nem pra pedido, nem pra contrato. E enquanto estiver viva, sigo escrevendo crônica. Aqui mesmo. No blog. Pra quem curtir. Depois de uma vida inteira pregando a liberdade criativa, não vai ser neste meu último vôo, o da literatura, que vou me curvar ao peso de ser aceita.
Frase enigmática que por muito tempo intrigou os intérpretes do Ulisses de Joyce, "Women won’t pick up pins. Say it cuts lo." — Mulher não apanha alfinete. Diz que corta o am. (ou em outra opção de tradução, espanta o aman) — esse espanta o aman, ou corta o am, não passa de uma boa mandinga: mulher não apanha alfinete no chão porque espanta o amor, cuts lo(ve), deu pra entender? Bom. Desculpe aí se o mistério acabou de perder a graça. Ah. Pena que eu não soubesse disso. Já fiz a mandinga contrária, gente, é: me acreditem. E me dei muito mal. Funcionava assim, envolvendo pétalas de três rosas vermelhas — e vela de sete dias, sem fita amarela, e bilhetinhos cortados com o nome do amado — fervidas em água com mel, você besuntada com aquela mistura melada antes do primeiro encontro e o bilhetinho nomeado debaixo da vela acesa de sete dias. Podia até ser que não resultasse em fogo na casa, mas no coração de alguém, jamais falhava. E comigo tampouco falhou: fiquei com o sujeito insistindo na minha cola, bem depois de ter decidido, de ter tentado ardentemente, me afastar para sempre dele, ah! se eu soubesse o macete do alfinete. Apanhava do chão quantos fossem preciso. Outra superstição divertida contada por Joyce no Ulisses (li por aí que o autor era, ele mesmo, um bocado supersticioso) tampouco me é estranha: a do caso verídico de Cashel Boyle O’Connor Fitzmaurice Tisdall Farrell, um sujeito excêntrico de Dublin que andava na rua pelo lado de fora dos postes. Eu também. Juro. Andava pela rua evitando as pedrinhas pretas do calçadão português em ondas da orla, juro, um hábito estranho — e bastante neurótico, não? — que deu até miniconto:
No posto seis Gemido pode, se for baixinho. Nua ainda não, mas desnudada contra o vento, no canto do olho apaixonado, quem sabe. Regras deste tipo eram mania dela desde que a vi, de rosto virado pro chão, pisando com cuidado sobre as pedrinhas brancas, no desenho composto da calçada. Pra dar sorte, dizia ela, mas eu pensei: isso não vai dar certo. Quem deu sorte acho que fui eu e agora tento, do jeito que posso, transgredir suavemente o rígido código moral dela. No rosto pode, no lábio mole a língua discreta, oculta no largo da aba, descendo pescoço abaixo pela estampa filtrada da palha, ai, assim não. Na nuca ainda não. Na curva da noite quem sabe, quando a luz já não fosse tão clara... Pelo dorso adentro meu braço na cintura dela, eu mal me agüento mas finjo que aceito flanar por enquanto na sombra dela, o corpo me delata e toca o flanco, branco, preto, branco eu brincando com a sorte de tê-la conhecido, provando o doce e faminto hálito dela ali, gemendo, aiai, se for baixinho pode. O amor, como a prosa, não tem regra nenhuma. E aparece até no tombo, foi, com essa mania de rosto pro chão, claro, uma obsessão sempre exclui as demais, contando os passos preto no branco ela esbarrou na mesa, derrubou meu chope e aterrissou no meu colo cansado que ao peso ondulante dela se enrijeceu, se lembrou, gritou de desejo no meio do dia. Depois disso não teve mais chope, nem dama, nem carta jogada fora, o tempo encolhido no encontro, apenas o ponto dolorido do toque na queda abrupta dela, nem olhar a bem da verdade teve. Foi preto no branco e eu virei outro, e agora isso pode, aquilo não pode, é por puro amor que se eu penso não digo, se eu quero não faço, se eu gozo não conto até que ela me abrace e me abra a cona, no apartamento apertado com vista pra praça, as cortinas baixadas e a cama desfeita, onde a gente pode tudo.
Tá certo. Eu sei muito bem que esta crônica cairia bem numa subcrônica da subclasse "Joyce no meu cotidiano número xis", mas, ah: cansei disso. Cansei disso como muitas vezes incluída esta cansei de vez de mim. Hora de dar um tempinho, se por outro motivo não fosse, simplesmente porque hoje é domingo, além do mais, aniversário do Alan. Pelo bem das firulas do amor não convém esquecer deste tipo de coisa, e deste amor sem mandiga não quero abrir mão ainda, mas de jeito nenhum. Deixa esse bendito desse alfinete caído aí.
Minha tia octogenária... ah. Tá bom. Tem uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tem uma pedra. Titia está no hospital vítima de um derrame, e depois dos oitenta, vocês sabem: há motivo de preocupação. Mas é domingo à noite e eu não sei de nada, meu tio não me disse nada e nem quer que ninguém saiba de nada. Concordar não concordo, mas entendo. Afinal, com este meu tio jekhe que nem consangüíneo é, e que um dia tentou, sem muito sucesso, substituir meu pai, tenho um entendimento tácito, quase subliminar. Ele não quer que eu saiba? Não saberei. Mas durante a noite penso sobre o assunto, sobre que atitude tomar, se está certo ou não comparado a quê, e a quem, deixar o velho sozinho consigo mesmo (na hora da necessidade) — bem, sozinho não está: convocou meu irmão, o homem presente da família —, avisar os filhos, enfim, tomar a frente da coisa como me acostumei a fazer. Concordar não concordo, mas me refreio. Não faço nada pelo menos até esta amanhã quando um telefonema dele me salva de "ser a última a saber", já que a vida se encarregou e a notícia se tornou de domínio público. Próximo dilema é escrever no blog ou não, ser fiel à minha proposta de transparência total ou me recolher na iminência da morte, como todo ser humano normal e decente faz. Sou ruim de morte, essa é que é a verdade. Meu irmão quer discutir assuntos de cemitério — relacionados ao futuro inescapável porém incerto de mamãe, vocês sabem, trancada há anos na mortevida do alzheimer — mas eu me enraiveço: odeio assuntos de cemitério e ainda por cima tenho trauma. Mas quem não? Não consigo enfrentar o assunto com alguma calma. A verdade é que venho me preparando há anos, depois da temporada de doenças, para a temporada de mortes, mas como? Poucos tocam neste assunto e não sou diferente: me sinto perplexa. Tenho medo de hospital. Tenho medo da dor. Tenho medo do sofrimento. E mais dificuldades de encarar a morte alheia do que a minha própria, já há muito planejada: quero eutanásia, ser cremada e espalhada romanticamente no jardim botânico como aparece nos filmes, e não quero complicar nada, nada: nem precisa me levar para o Monte das Oliveiras na Terra Santa que não tenho a menor intenção de ressucitar um dia, uma vez já basta. Já deixei bem claro, e se o jardim botânico for meio complicado, me despejem no vaso mesmo, ops, no vaso de plantas, claro. Não vai daí desrespeito nenhum, ou humor inoportuno ou qualquer traço de uma inoportuna e inconveniente ausência de amor. Não. Só uma mentalidade prática de capricornianos interiormente solitários, mordazes e se metendo a espertos — meu tio e eu —, encarando com sua plena falta-de-jeito a falta de jeito universal que cerca os pensamentos de morte: nosso fim inevitável e de todos que amamos. Minha tia está bem. Bem, mais ou menos. Tão bem quanto pode estar uma senhora octogenária, já debilitada e com tendência à depressão, cujo cérebro atacado de frente se encontra em plena competição com o resto do corpo pra determinar a melhor hora de morrer. É. Eu poderia usar um eufemismo qualquer, deixar o ringue, abandonar a luta, esticar as canelas, chutar o balde, bater as botas, ou pra não deixar de lado minha atual obsessão — que até às portas da morte em família nos salva de demais loucuras —, como disse loucamente o Houaiss em sua tradução do Ulisses: "bater com o cu na cerca". Ah. Tá bom. Assunto espinhoso. Espinhoso e, se este deus de vocês quiser, prematuro, mas bem, hum, não por muito tempo. Faz parte deste interminável e doloroso e misterioso e nunca satisfatório rito de tornar-se adulto um dia.
James Joyce não gostava de cachorros. Nem eu. Não foi por mal. Foi por trauma, mesmo. De infância, ele. De infância, eu. O grande, desmedido Otelo, era preto mas não era mouro: era um dog alemão, isso mesmo. Com seu pulo animado pra cima de mim não pretendeu jamais me ferir, isto é, nunca me disse que pretendia. Tudo não passou de desmedida demonstração de amor, à altura de seu também desmedido corpanzil canino, o focinho rosnante e arreganhado, na curva macia de meu pescocinho medroso de menina. Nosso Otelo, o grande, foi traído por Iago: um rato, pior que a peste bubônica. E foi ele, o cão, que acabou morrendo, não sem antes devorar meia dúzia inocente de periquitos, surpreendidos no jardim lá de casa na armadilha do gaiolão, cujo segredo de porta ele havia há muito desvendado. Depois de Otelo vieram Janjão mit Jujuba, que meus primos adoravam, mas na realidade salsicha deles nunca penetrei muito. Eram pequenos, nada assustadores, mas incomodavam vovó no tapete da sala, desesperada: gay vek! loz mir up!oy, hub nisht kain coiach. Já gatos, não sei não. I'm not a pet person (tenho meus motivos), mas fica pra próxima vez. Depois eu conto a história dos gatos da Elza, de cuja diarréia virótica cuidei em Pirenópolis, ah, já deu comprimido pra gato doente? Bem. Melhor esquecer mesmo.
Caramba. O cara fez de novo. Se superou de novo embora desta vez, nos Cíclopes, o desafio traga toques sutis de desconfio. Ou de desconforto. A gente vai com tudo pra cima daquela ladainha pomposa, pensando que a liturgia apostólica, pelo menos, é coisa séria: não sabe da missa a metade, pois ao longo da longa lista de santos evocados — São Nunca, São Pedro, São Brás — acaba esbarrando com um Santo Anônimo, um São Pseudonymous e um São Homonymous, pra não esquecer de São Sinonymus, não, isso nunca. Com a gigantesca convicção vesga de quem tem um olho só, um Joyce muito lúcido dispara em paródia jocosa me lembrando da mania em família de afetar uma erudição que a gente não tem, nunca teve, hum, coisa típica de intelectual de superfície: quase um google, melhor apelar pro popular, não é mesmo? O que Joyce também faz, e o faz como ninguém. Leio o Ulisses com a voracidade com que eu gostaria de ser lida e, no entanto, com a humildade de duvidar que eu pudesse um dia provocar tanto: me surpreendo a cada momento, a cada palavra. Incomodada com a virulência xenofóbica da política ultranacionalista acreditei, sinceramente, que o episódio seria chato. Engano. E a tão cantada riqueza arroubada da Irlanda pelos cruéis súditos da Velha Vic, a Rainha Bêbada, chicoteadores de escravos, onde foi parar? No uísque Black & White? Não, gente. Foi parar no Rio de Janeiro, sim, está no livro, nos Cíclopes, episódio do Ulisses que se fosse hoje, não existiria: depois de mandar muita bala o tal Sinn Feinn entregou o jogo, mas não os pontos, e a falta da disposição armada fez da Irlanda um dos países mais ricos do mundo. Ponto pra eles. Escrevendo em contraponto ao vulgar, num estilo caudaloso à beça, Joyce abusa do economês, do jurisdiquês, do jargão esportivo e da técnica puxassaquista de coluna social — como, por exemplo, ao descrever uma festa onde todas as damas presentes têm nomes estranhos, tais como "senhorita Abeta Conifer Pinheiro do Vale, Lady Silvestre Olmedo, senhora Bárbara do Vidoeiro Amado, senhora Pontal do Freixo, senhora Azevinho Avelaneda, senhorita Dafne Loureiro, senhorita Dorotéia Canabrava, senhora Clyde Arboredo", deu pra entender a dica? É, gente: Joyce era um pacifista, um prévio e imprevisto ecologista, que Beuys que nada. E como se viu, um apologista da ecologia humana, embora faça pouco, às vezes, de heróis nacionais importantes como o famoso Hokopoko Harakiri e daqueles títulos todos — H.R.H., His Royal Highness, Sua Alteza Real; K.G., Knight of the Garter, Cavalheiro da Jarreteira; K.P., Knight of Saint Patrick, Cavalheiro de São Patricio; K.T., Knight of (the Order of the) Thistle, Cavaleiro (da Ordem) do Cardo; P.C., Privy Counselor, Conselheiro Privado; K.C.B., Knight Commander of the Bath, Cavalheiro Comandante (da Ordem) do Banho; M.P., Member of Parliament, Membro do Parlamento; J.P., Justice of Peace, Juiz de Paz; M.B., Medicinae Baccalaureus, Bacharel em Medicina; D.S.O., Distinguished Service Order, Ordem de Serviço Distinguido; S.O.D., Senior Officer of the Day. Oficial Mor do Dia; M.F.H., Master of FoxHounds, Mestre da Caça; M.R.I.A., Member of the Royal Irish Academy, Membro da Academia Real Irlandesa; B.L., Bachelor of Laws, Bacharel em Direito; Mus. Doc., Musicae Doctor, Doutor em Música; P.L.G., President of Life Guards, Presidente dos Serviços de Salvamento; F.T.C.D., Fellow of the Trinity College of Dublin, Membro do Colégio da Trindade de Dublin; F.R.U.T., Fellow of the Royal University of Ireland, Membro da Universidade Real da Irlanda; F.R.C.P.I., Fellow of the Royal College of Practitioners of Ireland, Membro do Colégio Real de Médicos da Irlanda; F.R.C.S.I., Fellow of the Royal College of Surgeons of Ireland, Membro do Colégio Real de Cirurgiões da Irlanda [Nota de A. Houaiss] —, convocados para testemunhar a barbaridade sem nome que assolava o Eire em perpétua luta. James Joyce: um aquariano legítimo e um cidadão precoce da Era de Aquário, mas que escolheu morrer em capricórnio, fazer o quê. Finalmente é neste capítulo, meio assustado e deslocado como vítima de inédita violência anti-semita, que se revela plenamente o varão desta odisséia, o especialista em tudo e herói de dois mundos que não se chama Ulisses mas Bloom, Virag em húngaro, Henry Flower o homem-flor, o injustamente acusado e Jogadofora conterrâneo espiritual de Mendelssohn, Karl Marx e Mercadante e Spinoza (e Einstein, e Greenspan, e Freud, e Lubitsch etc, etc) três vivas para o Rei de Israel, o Salvador. Um filho achacado de pai suicida, órfão de filho, marido traído mas que ao fim do episódio, glorioso e redimido, ascende aos céus na carruagem de fogo do Profeta Elias, ben Bloom Elias, entre hordas de anjos em toda a sua empáfia perdida de mártir semita.
A obrigação de ser intelectual, pra mim, foi sempre um peso. Lá em casa, todo mundo lia tudo. Eu também. Ah. Ia a todos os concertos, peças, balés, exposições. Reconhecia qualquer compositor clássico depois de dois minutinhos de melodia: Mozart. Hum. Bach. Schöenberg. Mais uma lista enorme de nomes: coreógrafos, diretores de ópera, filmes-cabeça. Curiosamente, Bach era considerado "hermético", só para iniciados. Existia um desses lá em Beagá. Reunia uma meia dúzia de aficcionados, num silêncio de igreja, para adorar fugas, tocatas, e nos feriadões, as Paixões, seis horas de música sem parar pra respirar. Ou pro cafezinho. Na vida "civil" era um babaca, tinha umas manias desprezíveis, mas ficou pra história como o "especialista em Bach". Bons tempos. A gente ia a Paris pra ver um filme, a Nova York pra ver uma peça, a São Paulo só para um concerto. Não perdia uma. O setor "memória cultural" da minha cabeça era quase um google, gente. Eu citava todas. Dos dez aos 20 li todos os livros obrigatórios e mais os lançamentos. Não me lembro de uma pronunciada cultura de best-sellers. Papai escolhia e orgulhosamente, antes de começar a ler, tascava a prova da posse: Lubicz. Depois não sei o que me aconteceu. Deu canseira. Papai morreu de repente. Me mudei pro Rio. Fiquei amiga de uns dois ou três artistas. Abri um bar de vanguarda. Uma insatisfação completa invadiu a minha vida e passei anos e anos lendo livros esotéricos, ou no máximo, científicos. E depois nada. Tevê. Roquenrol. Mais ou menos por essa época comecei a me corresponder com o Gerald Thomas. Ah. É. Acho que o gosto pelo teatro de vanguarda - quanto mais hermético, melhor - era inato, e não adquirido. Pemaneceu, incluíndo no altar cerebral a Pina Bausch. No primeiro email o Gerald se declarava surpreendido pela minha inteligência e nível cultural, fiquei toda boba. Mas pensei: ih, gente. Isso não vai muito longe não. Já já ele vai descobrir que sou uma fraude, nunca li Nietzsche, ou Hegel. E muito menos... gulp. Beckett. Lamentei não ter conhecido o Gerald durante a adolescência. Naquela época sim, eu vivia up-to-date. Sabia tudo que se podia saber na minha idade. Mas ultimamente... Tsk tsk. E ainda por cima tendo que suportar a família fazendo pouco de mim, porque tinha virado "bruxa". Vivia às voltas com xamãs, pêndulos, terapias alternativas. Coisa ridícula, de gente fraca, que precisa de uma bengala pra seguir vivendo. Hã-hã. Na minha cabeça eu estava mesmo era expandido, me deslumbrando com as coincidências, encontrando explicações mágicas para tudo e tentando me livrar da condenação de ter que acompanhar mamãe a todos os concertos no Municipal. Não é que eu não gostasse de música. Gostava. Não gostava era de aparecer em público com mãe a tiracolo, sem um homem pra chamar de meu. Aos 30, 40 e poucos, era humilhante demais, estragava qualquer Menuhin. Verdade. Eu era muito boba. Depois conheci o Alan, escrevemos adoidado, trepamos (na tela e depois ao vivo), ficamos. Pela primeira vez na vida, gozei. É, gente. Já era velha, mas nunquinha... Podem acreditar. Resolvi virar escritora e tô aqui, ó, incomodando vocês com a minha produção desenfreada. O problema é que eu tento participar da comunidade literária, mas não consigo. Como desisti de bancar a intelectual - definitivamente, não tenho saúde praquelas citações todas - fico vagando numa terra de ninguém entre Paulo Coelho e Phillip Roth. (tem pior, tem pior. outro dia uma escritora publicada, e judia! me confessou não ter a menor idéia de quem era Phillip Roth). Tudo isso agora, gente, por quê? Bom. Primeiro o Sérgio Rodrigues botou pra fritar na panela dele o trecho de um blog inglês, contando o caso de uma aluna de literatura que nomeou, como seu livro preferido, o "Alquimista" de Paulo Coelho. O pessoal caiu de pau, lógico. A intenção era essa. Paulo Coelho é a pedra no sapato dessa gente. Rico. Famoso. Internacional. E péssimo escritor, vai entender. Por outro lado, uma unanimidade nacional da turma intelectualmente superior acaba de faturar mais um prêmio: Milton Hatoum levou o Portugal Telecom, e esse pode? Como já expliquei com todas as letras que não sou intelectual, posso confessar sem medo de passar por burra: esse romance premiadíssimo é das piores coisas que já li. Voltando a Paulo Coelho, como é que é? Se eu gosto? Hum. Bem. Tem duas ou três coisas que eu li dele. Mas se o português eu acho mesmo chinfrim, pelo menos uma vantagem o cara tem: escreve de coração. Ou escrevia, né? Mais ou menos até Brida, antes de virar fórmula. Agora vem cá: Bach é mesmo hermético? Não acho não, gente. Quando quero música, é muitas vezes o que eu escuto. Se minha cabeça der nó, sou capaz de me enroscar com fones no sofá e mandar o São Mateus todinho de uma vez. Mas isso é raro. Enquanto isso, que ninguém nos ouça, e esperando que papai não se remexa no túmulo lá em BH: tem muito Tchaikovsky que eu adoro. Ah, sim. Pra você que já sacou, mesmo sem entender muito do assunto, esse aí no meu tempo de garota era o Paulo Coelho da música clássica. Música de elevador, uma vergonha confessar que na intimidade eu curto. Coisa linda aquele concerto pra violino e orquestra, gente. É meu secreto Alquimista, mas por favor, não espalhem.
(brincando com fogo, ou melhor, com um possível piromaníaco)
"James e Lucia estão indo para o fundo do rio. Onde James mergulha, porém, Lucia se afoga." do divã de Carl Gustav Jung, analista de Lucia Joyce
Joyce era esquizofrênico, bem, pelo menos foi a esta conclusão que chegou Dr. Carlos Gustavo depois de ler o Ulisses, fala sério, Carlinhos. E coprófago, e pedófilo, e um fã confesso de sexo anal, além de comedor serial de criancinhas, claro. Verdade? Ninguém sabe. Ninguém jamais saberá depois que um possível piromaníaco, o Stephen hero real — arqui-inimigo confesso da história moderna da literatura, neto do escritor e atual gestor despótico do patrimônio cultural do nonno (ai, que fofo. que meda.) — queimou as cartas de pai-pra-filha e vice-versa. E olhem que nem se tratava da mãe dele, no máximo a tia, ah, tá bom, que transou com o irmão também, é o que dizem, caramba. Não me processe não, Stevie darling, que essa história está na boca do povo — e quem sabe não passa mesmo de fofoca anônima de wikipedia —, mas que prova assim mesmo que a família é a morte do artista, ah, isso prova. Ou, pelo menos, que acabam em morte os efeitos colaterais que a arte exerce sobre a família do artista: tutti buona gente. Artista é tudo louco, a gente sabe, mas o que seria de nós sem este tipo maravilhoso de loucura? Joyce, dizem, comeu a filha ou, pelo menos, desejou ardentemente comê-la, já que é este o tema dominante em Finnegan's Wake. Bem, a favor dele a gente pode dizer que entre o desejo e a sua materialização há uma distância enorme, do tamanho da cultura do mundo e além do quê, vamos combinar: Joyce não é o primeiro pai que eu vejo arrastando a asa pra debaixo da saia da filha, o meu não, hei, sai pra lá (mas aquele meu ex... ah, deixa pra lá). E não é pra menos: fui sempre gordinha, baixinha, metidinha e meio desajeitadinha, e nem todo pai, vocês sabem, é cego. Mas Joyce, coitado, era. Ou acabou ficando. Ainda bem que ele nem ficou vivo o bastante pra morrer de desgosto com a caretice do neto Stephen, celebrado em sua chegada com um poema (ruim) do avô: "Of the dark past / A boy is born; / With joy and grief / My heart is torn." O sujeito sofre, cria, procria, e depois vem a cria tentar controlar a fúria criativa dele: Stephen Joyce, no vexame, não está sozinho. Faz bom par com a família de Wagner, por exemplo, tentando vencer na vida em Bayreuth às custas do antepassado famoso e do prazer extático que a gente sente com a criação dele, do Richard, claro. E com Ted Hughes, ex-marido viúvo de Sylvia Plath, que destruiu o diário dela; e com Valerie, viúva de T.S. Elliot que fez de um tudo pra evitar biografias do marido. Quanto a mim, não se preocupem: todo e qualquer absurdo que jamais me passou pela cabeça está publicado aqui no blog, e não há sobrinho nem enteado que possa controlar o futuro disso. Tá tudo no Google pra todo mundo ler. Existe esperança: Stephen James já tem mais de 70 anos e não deixa herdeiros, depois de uma vida dedicada à preservação, ou melhor, ao encarceramento, da obra do avô famoso, opa, desculpem: nonno. E se ele não morrer tão cedo, apesar da ardente torcida, não tem problema: em 2012, a obra de Joyce cairá em domínio público, se o mundo não acabar antes, claro.
Era um homem de bem, este Geraldo Jordão Pereira: um sujeito totalmente do bem. Morreu ontem, de um avc, aos 69 anos. Deixa esposa, quatro filhos e 11 netos. Será cremado. Nunca escrevi um obituário antes. E se escrevo este, não é por estar envolvida, ultimamente, em lides penosas pessoais com a morte. Não. Nunca escrevi um obituário antes porque imagino que, para escrever um, é preciso um certo grau de envolvimento com o morto, uma admiração, um algo a mais pouco além do interesse acadêmico, do conhecimento enciclopédico de um Google. Ou então, por não passar de jornalista de araque mesmo, cronista por pura pretensão. Ou puro amor pelo ofício. Encontrei uma vez o Geraldo Jordão pessoalmente, não me lembro bem de quando mas muito bem das circunstâncias: do como e do porquê. Fui apresentada a ele por intermédio da minha então analista Beth Rodrigues, amiga de um dos filhos dele, e o procurei, afável e austero em seu escritório da Salamandra, para apresentar um projeto no qual me vira apaixonadamente envolvida: um livro sobre o Bispo do Rosário. É preciso puxar pelo hipocampo pra ver se me lembro como é que fui me envolver com isso. Acho que foi através do Marcelo, um namorado fotógrafo, que me levou pela primeira vez à Colônia Juliano Moreira onde o Bispo passou sua vida. Lá conheci a Denise, uma psicóloga que cuidou do artista e me mostrou a cela onde ele vivia, os restos de obras e da matéria-prima que ele usou — hoje transformados em museu e atacados por cupins quando os vi pela primeira vez, — e foi o que bastou: entranhou-se em mim a paixão pelo Bispo como um emaranhado caótico de fios destecidos. Mergulhei. Fiz contatos, tentativas malogradas de patrocínio, entrevista com o Frederico de Morais, então considerado o responsável pela "descoberta" do Bispo e meu amigo dos tempos de Belo Horizonte. Meu papel não seria o de escrever o livro, tarefa da Denise, mas sim diagramá-lo: eu era designer naquele tempo, e apesar da atenção do Geraldo, o livro jamais foi publicado. Não rolou grana, nem vontade pública, sei lá. Esqueci. Não me esqueci, no entanto, do intenso envolvimento que experimentei naquela época, é, gente. Eu andava pela rua escutando o Bispo dentro de mim, ditando instruções, cores, fontes, tipos de papel. Formatos. Atravessava o túnel pra ir à Colônia e ouvia o Bispo mostrando o caminho. Criava na mente projetos loucos de ajuda aos doentes, nus, largados, indolentes. Planejava cortar de graça o cabelo deles, reproduzir em livro os signos medievais rabiscados nas paredes, qualquer coisa que me redimisse pela loucura deles, pela alma desconectada deles. Um medo. Uma dor. Lembro disso muito bem, e ainda melhor hoje enquanto me lembro, já com saudade, do editor Geraldo Jordão. E também por estar sendo vítima, ou beneficiária (não sei bem), de uma nova paixão tão forte quanto a que senti pelo Bispo, desta vez como escritora e tendo como objeto o irlandês James Joyce. Escuto o tempo todo a voz mordaz, genial e atordoante de Joyce me soprando no ouvido motivos de crônica, por dentro e por fora. Joyce era esquizofrênico, dizem. Van Gogh era esquizofrênico, e o Bispo do Rosário, esquizofrênico. Enquanto eu, bem saudável, confesso escutar certas vozes de vez em quando. Já o Jordão, não sei que tipo de voz ele escutava, ou se escutava alguma. Sei, no entanto, que era uma peça rara, e que vai ficando cada vez mais rara num mercado editorial que se ocupa, cada vez mais, do aspecto negócio do negócio da literatura. Há outros. Cada vez mais esquecidos. A Salamandra publicava, se bem me lembro, livros de arte preciosos. Leio no jornal que Jordão revolucionou sua vida ao publicar seu primeiro sucesso na área da auto-ajuda: "Muitas vidas, muitos mestres", de Brian Weiss. Conhecendo o Jordão como imagino que conheço, acredito saber a razão desta guinada temática: não o imagino envolvido com alguma coisa só pelo apelo do dinheiro. De duas, duas: — ou acreditava na possibilidade real da existência da coisa — ou faria do lucro, como fez, motivo de filantropia
Nunca mais encontrei o Geraldo Jordão. Acompanhei, pelos jornais, sua luta por um transplante de fígado, que acabou lhe concedendo, com perdão do clichê, algum tempo extra de vida. Mas para os amigos, para a família, para seus filhos — editores como ele —, acredito que o tempo extra convivido não tenha sido clichê nenhum, mas um ganho real. Segue, pra eles, minha solidariedade de cronista.
Ufa. Depois da batalha cívico-religiosa na taverna do Barney Kiernan, Bloom não consegue continuar — de Burgess: "o confronto com a violência abalou esse homem pacífico" — sem um breve intervalo. Também preciso de um. Aproveito pra colocar as idéias em ordem, registrar os pensamentos, dar nome aos bois, isto é, aos capítulos. Tudo em prol de um livro quem sabe um dia publicado, ou, pelo menos, publicável.Stephen medita na praia: Proteu. Bloom descansa e medita na praia: Nausicaa. Ambos nas areias de Sandymount. Eu, porém, perdida do outro lado do Atlântico, perambulo em busca de outra praia muito minha.O tesão, no entanto, é o mesmo. Contido, o deles dois. Incontido, o meu. Incontido e radical, esse meu.
Não estranhem se o ritmo dessa prosa for se adensando livro adentro: tímida a princípio, uma ou duas crônicas, um esboço prévio de crítica, uma palavra ou outra pinçada esparsa, um riso ocasional. Depois um caudaloso e sintomático derrame de textos por capítulo, como se quisesse engolir, ou inundar de impressões ou transbordar do universo borbulhante, já no ponto de estourar, dos estudiosos apaixonados do Ulisses. Foi assim mesmo que aconteceu, mas não sei se é assim com todo mundo. Não havia intenção de livro ou de estudo, só de desafio mesmo: uma aventura intelectual que fazia pouco de mim há tempos, desafio cerebral a que poucos se entregam. Bobagem. Preconceito. Ler Ulisses é um tesão intenso, um fundir irrestrito da mente leitora com a criação do autor. Ah. Tá bom. Essa tal de fusão acontece com a gente ao ler qualquer bom livro, desde os doces romances-mulherzinha da adolescência. Acontece até com livro ruim, quando o autor tece uma maestria de prender qualquer leitor com seus ganchos espertos, como num Michael Crichton, por exemplo. Ou num Dan Brown desses da vida. Mas no Ulisses é diferente. Porque tudo no Ulisses, gente, é diferente. Até mesmo os capítulos entre si. Se não houvesse um fio condutor amarrando a frouxa trama, ou melhor, desenrolando-se redentor pelo labirinto criativo de Joyce, poderíamos até sentir que lemos dezoito livros diferentes, cada um mais louco, estranho, hilário, esperto, surpreendente e poético do que o outro. Há a intenção do jogo. Há a intenção do novo. Há a intenção da paródia delirante, do assassinato premeditado do estilo. Como escritora, desconfio que por trás da genialidade de Joyce não há intenção nenhuma: só a genialidade em si se derramando, a liberdade intensa de reconstruir a idéia de literatura reduzindo o passado a pó. Ops. Eu disse pó? Porque se disse, talvez me referisse a um passado triturado, pré-digerido e intencionalmente transformado em alimento para a imaginação: é assim que Joyce, ou pelo menos é assim que imagino Joyce, montando as peças de seu gigantesco puzzle literário, inchado de referências. Inchado, grávido, intumescido: não sei que qualidade de pleno devo associar a este texto: hesito, claro. Embora tenha meus momentos, confesso, de até me sentir Joyce, os reconheço como puro delírio, claro. É claro que não chego aos pés dele, nem quero: só quero chegar na mente, na mão direita, no lápis preso entre polegar e o dedo médio dele, intermediado às vezes pela pressão condutora do indicador: uma mania minha, não dele, essa, de ficar observando como é que as pessoas seguram o lápis como se medida fosse: da minha estranheza neste mundo. Talvez por ser assim estranha é que da simples pretensão sempre adiada de ler o Ulisses, o grande e assustador romance do século 20 e de todos os outros séculos, emergiu para mim um desafio maior, mais petulante, mais pretensioso ainda: escrever sobre o Ulisses como se uma neo-Joyce eu fosse. Não duvidem nem por um momento de que há momentos em que acredito mesmo nisso. Não reparem. Sou louca. E é por ser louca, ousada, e muito, mas muito metida — sem deixar por isso de me sentir incompreendida —, que apesar de me identificar com Joyce no talento, na maestria, ou pelo menos na vontade intensa de tudo isso, capto um aspecto dele com o qual me identifico sem sombra de dúvida, e com o qual todo autor se reconhece, no breu disforme que precede o reconhecimento público: somos todos coletores de injustiças.
Bonita a iniciativa de apor a público a força ampla de um amor de pai-pra-filho, ou de filho-pra-pai, como no affaire Gracindos. Tudo bem. Eu entendo que é do cinema, e mais ainda da tevê, esse hábito de expor-se a tudo e em tudo — cite-se um BBB — coisa que pega mal na literatura, por exemplo. Ou costumava pegar. Antes da internet, se é que vocês me entendem. Esse pega-pra-capar em torno da memória afetiva da Famiglia Rodrigues, por exemplo, dois ramos antagônicos da progênie do Grande Nelson. Na FLIP em Paraty chegaram ao cúmulo de exigir (in)discreta separação de mesas no jantar de homenagem: os do registro na sala e os off-registro na varanda. Quem sai perdendo com isso é o público leitor, verdadeiro e legítimo proprietário da memória de um autor. A de Nelson Rodrigues, mais um exemplo, destroçada em sua origem por litígios de espólio. Um absurdo. De tal litígio já não sofre a memória literária de Joyce: seu superneto Stephen James adquiriu todos os direitos, e a monopolizou. O problema é que a monopolizou tanto, e com tanta sede ao pote, que optou por negá-la a todos os demais entre nós. E mais uma vez, vai sofrendo e amargando limites uma tribo que só cresce, apesar de tudo isso: a dos adoradores do Ulysses de James Joyce. Bem ao auge do gosto dele: A.U.J.J.
"Sem o fogo do silêncio não há escrita. É preciso que haja silêncio, longo, misterioso, torturante, para que a palavra, quando enfim dita, quando finalmente escrita, tenha valor." José Castello
É consenso geral abominar a correria em que vivemos nesses nossos dias. Agora vem cá: quem é que nos obriga? Eu, por exemplo, não me obrigo a nada, e desde que instalei na minha varanda mínima uma rede que o espaço inteiro abriga, me obrigo a menos ainda. Mas enquanto me embalo, bem quieta, neste nada abrangente, a minha mente dispara: para ela, não há um segundo calmante de silêncio. Agora mesmo: acumulou-se tanto nela o fluxo de palavras que interrompi a leitura e me sentei a dispará-las, precipitadamente, antes de ler no Prosa a entrevista com um de meus queridos na literatura que, certamente, provocará mais texto ainda. Por conta disso, leio, aceito, mas não concordo com José Castello que vê no longo e torturante silêncio que a precede o valor da palavra escrita. Para mim, vem do atordoante fluxo incessante de idéias que, tudo bem, anoto — como o Castello diz que Dostoiévski o disse — pra ver se me livro delas. Tudo bem: não passa de efeito apressado de uma cultura consumista em que, como o Castello diz, obsceno não é exibir-se, mas se ocultar. E é assim que eu, moderna, ainda que pornográfica demais para o meu gosto, não me exibo, mas me mostro. Nem que seja, com buscada clareza, somente para mim mesma. É a edição quem decide se fui apressada ou não. Banal. Irrefletida. A não ser, é claro, para o grande James Joyce: seu Ulisses é o único livro da história da literatura que, em vez de ter páginas cortadas na edição, acrescentou ao original mais um bocado delas, eita excesso de assunto. Quanto a mim, a coisa anda tão feia que chego ao acinte de manter janelas abertas con(v)iventes — ansiosa, assim, duas-palavras-em-uma —, escrevendo dois ou três posts ao mesmo tempo, quando não dois blogs. É, gente. Próximo passo: hospício. Ou um ataque histérico de silêncio interno.
**intervalo para ler Vila-Matas**
E agora a entrevista, que quase me obriga a acrescentar à minha já numerosa bibliografia obrigatória para ler Ulisses esse novo Vila-Matas: "Paris não tem fim" e mais a promessa de uma boa tradução por Joca Reiners Terron. Se não corresse, não estivesse correndo, o sério risco cotidiano do exagero, já ia aproveitar em minhas Crônicas de Ulisses o "estilo contraponto" que une o autor de "Paris..." a Hemingway, guia fracassado de V.M. enquanto ex-favorito. Será que algum dia Joyce vai ser pra mim um "ex-favorito"? Duvido. Já estou muito velha pra isso, fala sério: aprendi a escolher. No mais, vale o dito: "É importante crer em si mesmo", ou fala sério, gente, a gente não chega a lugar nenhum.
Faltou acrescentar que, como bem lembra J.C. em papo mental de bar, bom mesmo é "viver de acordo com nossa estúpida vontade", ah, nem sei de onde ele tirou isso. Do senso comum é que não foi.
Bonita essa página móvel do Globo sobre o perdão. Gostei mesmo. Mas senti falta do tributo arrependido devido pelos bárbaros britânicos aos ex-súditos de seu extenso império onde, segundo James Joyce no Ulisses, "o sol nunca se levanta". É lendária a crueldade colonial destes filhos-da-pátria que, enquanto lhes foi permitido, cuidaram de não deixar pedra sobre pedra nas terras conquistadas, tão numerosas e por tanto tempo.
Do Ulisses, em Cíclopes: "Foram expulsos de casa e da pátria no ano tenebroso de 47. Seus casebres de barro e suas choças à beira da estrada foram postos abaixo por aríete e o Times esfregou suas mãos de contentamento e disse aos saxões engulidoresdesapo que dentro em breve os irlandeses seriam tão poucos na Irlanda quanto os pelesvermelhas na América."
Ou: "Eles crêem no açoite, no flagelador todo-poderoso, criador do inferno na Terra e em Jacky Tar, um filho-da-mãe, que foi concebido por jactância ímpia, nasceu da armada combatente, padeceu de uma dúzia no rabo, foi cortado, esfolado e ressocado; urrou loucamente; no terceiro dia se reergueu do leito; se recolheu a porto, está sentado, adernado, até segunda ordem, quando voltará a mourejar por um ganhapão e sua paga."
De Duckworth, editor inglês, em carta de rejeição a James Joyce por volta de 1915:
"O 'Retrato do artista quando jovem' exige uma leitura atenta do começo ao fim... É discursivo demais, sem forma, irrestrito, e coisas feias, palavras feias, são proeminentes demais; parecem às vezes jogadas na cara do leitor de propósito, desnecessariamente... A não ser que o autor se decida a usar algum controle e senso de proporção, ele não fará leitores. Sua pena e seus pensamentos parecem às vezes ter fugido com ele."
O livro foi finalmente publicado na Inglaterra em fevereiro de 1917. Reproduzindo personagens e fatos reais da vida de Joyce quando estudante em Dublin, já antecipava o incrível romance que viria a romper todos os limites e transformar a literatura moderna.
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De Ezra Pound — que recomendou, de início, a publicação de Ulisses, em capítulos, na revista inglesa "O Egoísta" —, quando Joyce chegou ao "Cíclopes": "Não é necessário um novo estilo por capítulo."
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De Joyce lui-même, a respeito do exército de opositores do Ulisses:
"Agora, pelo que ouvi, está se preparando um grande movimento contra a publicação, iniciado pelos puritanos, imperialistas ingleses, republicanos irlandeses, católicos — que confederação! Meu Deus, eu deveria receber o Nobel da Paz!"
E sobre Finnegans Wake, rejeitado por quase todos seus defensores habituais:
"É tudo tão simples. Se alguém não entende uma passagem, tudo o que é preciso é lê-la em voz alta."
"Imagino que terei por volta de onze leitores."
Perdendo a visão mas não A Visão, se é que vocês me entendem:
"O que os olhos trazem não é nada. Tenho cem mundos para criar, estou perdendo apenas um deles."
"Jim, how beautiful you are!" de Nora Barnacle a James Joyce, morto, pelo visor do esquife
Que por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, todo mundo sabe. Mas por trás de uma grande mulher, existe o quê? Um homem pequeno? Um ego masculino domado? Amansado, sim, mas a pão-de-ló, cama, cozinha e roupa lavada, café da manhã na cama. Pequeno? Talvez. Mas, certamente, raro. Nem sempre paciente. "Bem, Jim está escrevendo seu livro. Vou pra cama e este homem se senta no quarto ao lado e continua rindo do que ele mesmo escreve. Então eu bato na porta e digo, Jim, olha, pára de escrever ou então pára de rir." É meia-noite, num certo apê em Zurique. Mas pelo que sei, poderia ser aqui, ao meio-dia, nesta sala apertada do Alto Leblon, e esta fala na boca do Alan, é, gente. Sim: é duro ser Noga e Nora ao mesmo tempo. Mas quando leio Ulisses, me esqueço de tudo. Meu riso deliciado evoca o eterno riso deliciado daquele homem de outrora por trás do texto: um eco póstumo; e-terno. No que se refere à escrita, me identifico com J.J. em quase tudo. Escrevo tão bem quanto ele, mas se ele nunca tivesse escrito, eu mesma jamais escreveria. Sou arrogante como ele, detestada, ousada e iludida quanto à própria importância como ele era, bem: neste último aí digamos que eu esteja sozinha agora, porque Joyce, todo mundo sabe, transcendeu faz tempo a própria miséria em que acreditou a vida inteira ter vivido. Me entrego. Me arrebento. Escrevo cartas e artigos (meio desesperada, às vezes: desesperançada) explicando o que escrevo. Imponho ao leitor e aos críticos a jactância da minha literatura, e se recebo de volta não mais que um ostracismo descrente, não me calo em tréplica. Jamais me calo, esta é que é a verdade. Só quando canso de mim. Todo escritor faz isso, não é? E se não faz, de duas uma: ou porque não pode, ou porque não se arrisca. E se não pode e nem se arrisca não se reconhece escritor. É isso. Em tudo o mais, reconheço, difiro dele. Não bebo demais. Não traio. Não sacrifico a família ao meu autocentrado delírio, bem. Isso quem sabe é por não ter família. J.J. teve patronos, ou melhor, patronas: três mulheres que, por trás da insistência dele, preservaram para o futuro a impetuosidade tão (im)própria da boa literatura. Uma delas, dizem, custou a Joyce dez anos da vida dela e quase um milhão de dólares, ops, não seria o contrário? Quem doou o quê, e a quem? Bem. Hoje em dia, vocês sabem, ninguém doa nada, doa a quem doer. Ô miséria. Aos meus herdeiros, não deixo nenhum legado em dinheiro, nem em propriedades, nem mesmo num mero gesto de boa-vontade com o mundo. Não. Deixo apenas a minha jamais plenamente reconhecida genialidade: livros publicados, outros inéditos, todos não-lidos, poucos compreendidos, escritos esparsos acumulados. E está de bom tamanho, me acreditem. E quanto a este texto? Acharam difícil de encarar? Acreditar que alguém pudesse ter a si próprio em tão alta conta? Pois é. Aprendi com Joyce, faz pouco tempo. E a ninguém interessa se esta onda indomável de sou-mais-eu reflete, simplesmente, um interior em conflito — uma incurável e contagiosa mania de ser humilde —, que nega teimoso tudo isso. Vale mesmo o que está escrito. Vou ter vergonha de quê? De quem? Pra quê?
Fato inédito na história da literatura, mas juro, é a pura verdade: a tradução superou o original. E no mais inesperado de todos os lugares, gente, é: aqui mesmo onde vocês estão pensando. Incrível? Ficção? Confira, participe, dê sua opinião. Traduzir James Joyce, como todo mundo já sabe — e se ainda não sabe, faço questão de mostrar —, é tarefa impossível, que supera as intenções do bom texto até mesmo para os intelectuais mais preparados. Mestre Antônio, por exemplo, tinha um vocabulário tão extenso, mas tão extenso, que virou referência em dicionário. Foi este mesmo, aliás, o mal que o afetou no Ulisses: filolocídio agudo. Não foi em Nausicaa, pule de dez, que isso aconteceu. Explico: em Nausicaa, Joyce explora com rara obviedade o seu momento-mulherzinha. Náusea. Eca. Argh. A coisa vai tão longe que chega a ser engraçada, uai, gente, mas não era isso mesmo que ele pretendia? Acendendo uma vela pra Deus, ops, pra doce virgem ("que se cumpra em mim segundo o Teu Verbo") Maria, e outra pro demônio? E tudo isso ao som longínquo do órgão sob o odor inebriante do incenso sagrado e, pasmem, combinação inusitada, no áspero sexonareia à beira-mar? Ora pro nobis que o sujeito é um atentado. (Até pensei que fosse... com essa fofice toda... um passeio sob medida para as insuperáveis artes interpretativas de Tia B., mas não, gente, há momentos, mesmo aqui, em que o doutor H. ainda a supera, coisa mais machista, crendeuspadre!) Mas, hum, de volta ao que interessa. Pensando bem, fica até fácil de entender, haja visto a evocação festiva do ato memorável de nascer, coisa mesmo de brasileiro nato. Sem mais delongas, a cena remete à triunfante chegada de um mui esperado varão a este mundão de Deus, ritualmente repetida em tom de lauta loa:
no original: Hoopsa, boyaboy, hoopsa!
na versão de A.H.: Upa, machimacho, upa!
na versão de B.P.: Hurra, meninooumenino, hurra!
na versão inédita de L.G.A.: Viva! É um meninoummenino vivaéum!
E agora... na versão maravilhosa, inspiradíssima, irrepreensivelmente poética de José Antonio Arantes:
Opá, émeninoé, Opá!
Fala sério. Esse Zé Alguém sabe mesmo das coisas. Pena que no caso se limitou a pequenos trechos do Ulisses mencionados no "Homem comum enfim", de Burgess. Agora. Quer ver entrar areia nessa festa? Esse jeito de Joyce de desmontar palavras só pra remontá-las mais adiante é que faz (e desfaz) o mistério atordoante da coisa, veja só na ordem natural: Hoops, a boy, a boy, hoops. Pô. Que droga. Nem um pouco afim de esclarecer, desse jeito grosseiro, os bastidores da notícia. Ô vício.
"Nada de novo sob o sol." - no Ulisses "... nada de novo sob o sol, ain chadash." - no Hierosgamos
Agora imagine que você se depara com um texto desses que circula pela internet sobre um amor de garota, lacinhos frufrus olhares lânguidos, revistas de moda, sonhos românticos de casamento e um bom encorajamento para arriscar um flerte — porque afinal de contas é ano bissexto (estamos em 2008, mas hum, poderia ser 1904) e, além do mais, não é sexta-feira e as calçolas estão do lado avesso —, assinado por... hum, poderia ser Veríssimo, ou Arnaldo Jabor, campeões deste tipo imposto de falsa literatura por email... mas não. Assinado, isso sim, por um tal de James Joyce, fala sério, você acreditaria? Aquele James Joyce, ele mesmo, o terror supremo dos mais sofisticados intelectuais? Bem. Talvez. Você talvez acabasse acreditando ao interceptar, por trás da doçura aparente, sinais evidentes de um amargurado ressentimento, um tom mórbido de sexualidade exposta por trás das camadas superpostas de anáguas transparentes — e um texto (irônico) de quase uma página só pra falar de "banheiro": de um eufemismo inacreditável —, um olhar comprido indo de encontro ao desconhecido com cara de estrangeiro que a observa, ao longe, com a mão no... ah. Lá mesmo, por dentro da calça pretaluto. E mais um toque mordaz da crueza de Joyce encerrando a cena: no passo hesitante daquela beleza de garota, dos castanhos cabelos luxuriantes, do olhar tímido dela sob a aba largazulada do chapéu (imperceptivelmente manchada, véu comprado em liquidação), do perfume doce (doce e barato) que emana do aceno dela, a gente descobre que esta musa inspiradora de orgasmos solitários é... manca. É isso mesmo. Já o Alan, meu interlocutor no Hierosgamos, foi mais delicado. Jamais revelou, a não ser ao vivo, que o vaso sagrado onde andava derramando a preciosa semente, quando me encontrou, pertencia a uma mulher... corcunda. Envolveu-se com ela pela beleza frontal dela, pelos belos cabelos, e custou algum tempo pra descobrir por trás do dorso o volume desnaturado, um relevo tão inominável quanto inesperado: "para testar minha integridade, minha capacidade de transcender a miséria, a repulsa ao defeito", sério, foi o que ele me disse. Até descobrir que no caso de Rosemary, como no de Gerty McDowell, o verdadeiro aleijão se alojava na alma. Pra dizer a verdade fui cruzando o episódio, sob a luz descendente do crepúsculo em Sandymount, com um certo tédio: pela primeira vez no Ulisses o tom de paródia não me divertiu. Mas eu entendo: é o horror ao cri-cri, às superstições babacas de mocinha, ao sonho dependente de marido, profundamente plantado em mim. Mas Joyce não deixa barato, ou não seria Joyce. E logo contrapõe ao quase tatibitate de fêmea jovem a visão madura e desfirulada de um lascivo Bloom, direta ao ponto de soar chocante. E real. Deu pra sentir daí este cheiro rascante de homem? A linguagem sem rodeios de um falo ereto? Direto pra dentro e pro fundo do seu poço profundo? Que será que ela sente naquela parte? Pois foi isso que descobri exposto no episódio do encontro na praia — Querida, eu vi o seu. Eu vi tudo. — ou do desencontro: o contraste marcante entre os sexos, que leva um homem à busca de sua mulher e uma mulher ao seu homem, como imã e aço, atraente e inevitável como o magnetismo terrestre. E o que cada um espera deste encontro? Que ilusões profundas de esperança o cerca? Diferimos nas inseguranças, verdade, mas nos espelhamos na similaridade delas: certa com a morte e os impostos.
Dele. No Ulisses: "Não deixei ela me ver de perfil. Ainda assim, nunca se sabe. Moças bonitas e homens feios se casam. A bela e a fera." Dela. No Hieros: "inteiro ainda não... eu sei, só te provocando, ansiedade pura... desejo de te ter nas mãos. mesmo se você fosse a fera em pessoa, esta bela aqui ainda apostaria em ti."
A fêmea se abre, se entrega. O macho ataca. Ambos desconfiam. No Ulisses, pelo menos por enquanto — ou em seu mais forte encanto —, é a versão dele que (im)pressiona mais, e não é à toa: foi escrita por um. Já no Hierosgamos, embora a versão final venha temperada de alguma doçura feminina, a visão dela foi escrita por ela e a visão dele foi escrita por ele, ambas intrigantes, espantosas, reveladoras. Revelações ousadas que reconheço, mais do que nunca, brotadas do sonho explícito de Nausicaa, de Molly, de Bloom, mesmo que eu ainda não tivesse lido, plantadas pra sempre na alma do mundo, ih, Noga: balançou o turíbulo. Sai dessa que a hora é essa, chega pra lá que são nove-horas: bateu o cuco.
Não sei se vocês estão sabendo, mas numa última cartada a cada vez mais desesperada Hillary acusou Obama de plágio em seus discursos. Cada detalhe eu não sei, mas ouvi comentários na tevê sobre uma das frases copiadas: "Todos os homens nascem iguais". Outra: "Eu tenho um sonho", uai, gente. Pensei que esta última era de Martin Luther King, não mais um homem, mas um monumento, e quando a gente a usa não plagia, mas cita. Ah, sim: a primeira vem de Thomas Jefferson, na Declaração de Independência dos Estados Unidos. Mas se a gente vai mais a fundo a gente descobre (tá, tá: a repetição é de propósito sim) que a acusação de plágio se refere a um governador americano — ou melhor, afro-americano, tá tudo em casa — que contestou em seu discurso a alegação de que tais ditos famosos não passam de simples frases, apenas palavras, não mais que palavras ao vento. Uai. Complicou. Em seu já famoso incansável afã retórico, o vazio Obama Bin copiou o que já havia sido copiado, citou a citação da citação, excitação no ar: será este Obama uma fraude? Ou Deus nos livre, um Bin Laden? É triste. Mas há quem afirme (não eu, Deus me livre: adoro ele) que isso é verdade sim, David Brooks, por exemplo, em artigo mais lido do New York Times. Se eu bem entendi trata o texto de uma febre Obama, claramente abordada como doença. Uma doença que passa, pena. Mas deixa seqüelas. Ainda bem. Nem todo mundo que acorda do "sonho Obama de mudança" descamba sem escalas para o pesadelo conformista do mundo atual, gente. Não. Há os que continuam ligados no desejo e na possibilidade de outros rumos, doa a quem doer, eleja-se quem se eleger. E nesse caso, ainda há muito para ver e ser revisto. Isso, claro, pra quem é capaz de desvendar as mentiras políticas da mídia. Eu não sou. E onde vale o escrito resta saber quem escreveu, quem leu, e porque foi que o pau não comeu quando foi ao ar. Ah. Tá bom. A vida pública é feita de absurdos. Mas francamente: há limites. Ou não? De acordo com o denso, excelente e oscarizado Michael Clayton não, não há. Mata-se a rodo e tudo por dinheiro, e o fato do filme rezar pela cartilha antiga, verdadeira e já bem manjada de Erin Brockovich não o faz pior. Apenas mais real ainda. Incrível, fantástico, extraordinário: normal. Em política, tudo se critica, tudo pelo poder, tudo pela rejeição à mudança. Mas não adianta: a mudança é a única constante, e a julgar pelas últimas no noticiário, a hora é mesmo essa. Fidel sai de cena. Musharraf também, em breve, se Deus quiser e ele há de querer. E embora bem poucos o queiram, a Guerra da Bósnia também acabou de querer acabar. Vai tudo pelos livros de história adentro e tchau. Ou para o ostracismo da história. Agora, quanto ao furacão, ou onda, ou saco-vazio-que-mal-pára-em-pé Obama, só o tempo dirá o que é mesmo verdade, isso, claro, como lembra Veríssimo em sua crônica de hoje — mas todo mundo já pensou antes, e não se atreveu a dizer — se tudo isso não se acabar logo ali, numa poça de sangue em cozinha de hotel. Toc toc.
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Ah, sim. Só pra não ser acusada de (nunca) mudar de assunto: minhas crônicas sobre Joyce não são plágio não, gente. Joyce, todo mundo sabe, não é um autor, mas um monumento da literatura. E citá-lo não é... ah, bom. Desisto. Nada além da cultura sampleada do nosso mundo moderno e pronto: valem todos os escritos, mas só se salva o talento. Além do mais ninguém o lê, e desse chapéu que nem pára em pé direito não há de sair coelho nenhum, ou pelo menos, não se preocupem: nenhum dinheiro. Fica tudo por isso mesmo, ou pela citação da citação da citação da citação e assim por diante. Deus me livre de qualquer dessas palavrinhas à toa que eu proferi por aqui se transformarem em profecia. Socorro.
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Ai, gente. Assunto muito complexo esse, cansei, que tal falar de sexo? Hein?
"e essa história de orgasmo simultâneo, hein?... não conheço ninguém que tenha conseguido isto." do Hierosgasmos, ops, Hierosgamos
E por falar em sexo, assunto chato mil vezes repetido. Uai, gente. E existe outro? E se existisse, seria por acaso mais instigante? Pois é. Vamos falar de sexo, coisa que todo mundo conhece e experimenta um dia, mas da qual muito pouca gente fala, sem recorrer a eufemismos ridículos. Obscuros. Obscurecedores: algo não muito educado que se pode às vezes imaginar na cama; a outra coisa antes do casamento; o amor se ri dos ferrolhos, das "partes", dos orifícios. Do prepúcio grudado de Bloom: um riso nervoso e sem graça. E o ponto gê? Existe mesmo? Pesquisadores localizaram "uma área intravaginal de tecido mais espesso nas mulheres que relatam orgasmos intensos, sem a participação do clitóris", mas ninguém sabe ainda se o espessamento vem do orgasmo ou se é o orgasmo que vem do espessamento. Ui. Imagine um papo brabo desses num jornal de 1920, aliás, nem hoje: só travestido de informação científica, uma parte do clitóris, vagina, vagina latejante. Nove entre vinte mulheres declararam seus orgasmos vaginais: coisa rara, e Joyce, gente, já sabia muito bem disso. E escreveu sobre isso: "lots of them can’t kick the beam". Segundo o Houiass: Uma penca delas não consegue atingir o ponto, penso eu. Ficam com a coisa nelas por horas. Ah, tá bom. Solta a rola. Voa, pombinha. Não foi à toa que esse pornógrafo aviltante foi proibido. E proibido deveria continuar, fala sério.
(da quase-série: Joyce em pics, ou, conversas com Luiz)
LGA:
Com referência ao "fornido" ou "gorducho" Buck Mulligan: quem tem razão?
Oliver St. John Gogarty (1878-1957) - Oliver St. John Gogarty was born in Dublin and educated at TCD from where he graduated in Medicine in 1907. Gogarty was a keen sportsman, socialite, poet and novelist who won the admiration and animosity of many of his contemporaries, including James Joyce who based the character of ((((((Buck Mulligan)))))))) on Gogarty in his novel Ulysses. Gogarty published his first of many poetry collections "Hyperthuleana" in 1916.
NLS:
essa é dura, já procurei no google foto do distinto e elegante sujeito, retratado no filme Bloom como um zé gordo e bobo alegre, viado demais para o meu gosto.
NLS:
Luiz:
A respeito da sua nota no JJ13: [1] Bloom lembra-se do nome de uma heroína da época, Grace Darling, que salvou a equipe de um navio (o Forfar), afundado por recifes. [Esta seqüência de pensamentos tem início quando Bloom vê as luzes do navio Bailey].
Mea culpa. Realmente, se antes (próximo à nota 58 - pág. 405, Houaiss), estava no texto a referência à torre, foi engano meu colocar "navio".
Abraços.
NLS:
mas não fique triste não porque no final do episódio há, sim, um navio piscando no horizonte. este nosso Joyce de cada dia é tão amplo que mais cedo ou mais tarde abarca tudo, todas as versões e quase todas as interpretações, se ainda não chegou na sua é porque não terminou ainda, rsrs. Beijo!
CQD.
Poscriptum elucidatorum, muitos dias e emails depois:
LGA:
"Embora descrito como "plump", seu retrato como jovem não mostra que ele – Oliver St John Gogarty, o Buck original – fosse gordo de fato mas num encontro ocasional em 1909, Joyce notou que Gogarty tinha ficado gordo e talvez Joyce precisasse de um homem pesado para combinar com sua idéia de vilania." (do blog de alguém)