O que há num nome?

Há coisas que eu vejo em Ulisses que ninguém mais vê, e isso, com tanto acadêmico por aí especializado nos trinques e truques de Joyce. Não é que eu seja mais brilhante. Não. Acredito até que devo creditar o fato à inocência, à ignorância com que leio o livro. Ou não. Ou não passa de arroubo de leitora apaixonada, daquelas que vê no amado um encanto escondido que ele na verdade nem tem, fala sério. Nunca senti isso a respeito de um livro.
Não é o caso da frase "o que há num nome", extensamente estudada, é, gente, com essa simplicidade toda, fala sério, como o próprio Joyce diz pela boca de Stephen, seu alter-ego jovem, discutindo o assunto com Bloom, seu alter-ego maduro: "sons são imposturas, como nomes. Cicero, Podmore. Napoleão, Jesus, Shakespeares eram tão comuns como Murphy." (Murphy? Uma espécie irlandesa de Silva?) Em Ulisses, nenhum nome é gratuito, e quase todos subtextados com trocadilhos: se fosse personagem do marido, Nora Barnacle seria Nora Craca, a que agarra e não larga mais. Stephen Dedalus, por exemplo, evoca a lenda de Ícaro, pai e filho num mesmo ser, uai, gente, e eu que não tinha percebido isso? Stephen é Ícaro no símbolo e é Dédalus — o fazedor de labirintos — no nome? Há os vários trocadilhos na biblioteca com o nome Best (good, better, best, second best), pra não falar de Shakespeare e Ann, uai, gente, já escrevi sobre isso? Será que de tão deslumbrada já estou me repetindo? Como se faltasse assunto? Agora vem cá: alguém percebeu no nome completo do jovem Dignam — Patrick Aloysius Dignam — o do próprio Joyce?: "É o que nos perguntamos na infância ao escrever o nome que nos disseram que é o nosso."
E o que dizer de um personagem sem nome, obscuro, que aparece no enterro de Patrick Dignam — muito digno e justo — vestindo um impermeável macintosh marrom, e que acidentalmente sai listado no livro de presenças com o mui irlandês apelido de Macintosh? E que apesar de jamais ser nomeado acaba crescendo no Ulisses, sempre como "o homem do impermeável macintosh marrom"? Taí: é Joyce entregando o jogo ao leitor.
Outro nome dos mais expressivos e (quase) nada discutido do livro é o de Hugh "Blazes" Boylan, empresário de Molly com quem ela irá trair o marido (ainda não cheguei lá), um fanfarrão exibido e superficial que é o oposto de Bloom em tudo: Blazes Boylan para os íntimos. Boylan eu não sei, mas lembra "boiling", fervendo, não é mesmo? E Blazes é explícito mesmo: ardente. Blazes Boylan: ardendo e fervendo e bufando como uma chaleira grosseira. Vamos ver na cama.
Por outro lado, eu vejo o Ulisses às vezes como uma mulher falada, conceito mineiro que traumatizou a minha adolescência. A mulher falada é considerada uma vagabunda, alguém que perdeu a "honra" — leia-se: virgindade, coisa mais antiga — mesmo que nada disso tenha acontecido e que o tal apelido se deva apenas a uma fofoca maldosa, uma impressão superficial. A dificuldade, por exemplo. Este episódio do labirinto. Me preparei para ele, por sua fama (indevida?) de complicado. Li todas as notas, a relação de todos os personagens, o que eles faziam, como e quando. Fiz meu dever de casa bem direitinho. Mastiguei a comida bem mastigadinha antes de pô-la na boca, já meio sem gosto, quase reduzida a papinha de bebê desdentado. Mas ao começar a lê-lo, gente! Que surpresa! É um dos mais espetaculares do livro até agora, coisa nunca vista. Dizem que é um labirinto, mas eu diria mais que é uma cama-de-gato, conhecem? Do Aurélio: brinquedo que consiste em entrelaçar, nos dedos de ambas as mãos, um barbante com as pontas atadas, e que é, então, retirado com os dedos das mãos por outro participante, dando forma diferente ao entrelaçamento anterior, e assim sucessivamente. Coisas da minha infância em Minas. O texto vai sendo tecido como uma renda preciosa, e com a leveza branca de pequenos flocos de nuvens — moutonner (diz Joyce que os franceses dizem), de encrespar-se, mas também de mouton, carneiro? encarneirar-se? — se encrespando como espuma. Os mini-episódios, independentes, são interconectados por personagens e diferentes visões do mesmo fato: é um "nossa!" atrás do outro (claro que depois de Joyce outros autores fizeram isso; McEwan, pelo menos, fez, em Reparação; mas não com a riqueza e complexidade de Joyce, I give him that).
Babei de prazer ao ver mencionada, pela primeira vez, a data em que ocorre o Ulisses: 16 de junho de 1904, assim, coisinha simples, como se fosse nada, datilografada na máquina de escrever da secretária de Boylan, e eu que sempre me perguntei como é que se sabia disso! Onde é que isso aparecia no livro? Taí. Aparece aí. Adorei o jogo intraduzível de palavras com "boiled shirts" ("traje a rigor" na tradução de B.P., literalmente aquela camisa engomada de smoking, com o peito plissado) descrevendo os convidados numa festa chique, e em franco contraste com uma cena anterior onde Maggy — uma das pobres, quase-mendigas irmãs Dedalus — ferve a camisa no fogão para tirar as manchas: "boiling shirts", pode ser mais irônico? E mais brilhante?
Mais um significado duplo que eu curti demais aparece na cena do Padre Conmee, quando ele encara uma moça que "sai ruborizada com um rapaz de trás de uma sebe, sacudindo um graveto agarrado na saia" enquanto lê o salmo sin — letra hebraica: é como os salmos são numerados, o que fica claro por ter sido mencionado o res antes — mas que também significa... "pecado". Ai, gente. O homem levou sete anos pra escrever o livro e, francamente, como leitora já estou indo pelo mesmo caminho: sete anos para lê-lo já estou achando pouco.
Bem. Pode ser que em algum ponto a coisa se complique a um ponto que eu entregue os pontos e finalmente diga: caramba, que livro incompreensível, impossível de ler. Mas ainda não cheguei lá, isso eu garanto: por enquanto não passei do deleite. É claro que as coisas que às vezes escrevo se provam precipitadas mais tarde, ah, eu estava enganada, que burra. Mas o texto das crônicas reflete com fidelidade (eu tento!) não a mente atenta, mas o coração sobressaltado com que vou lendo o Ulisses. E quando há muito pra despejar, e o fascínio começa a transbordar, escrevo, num impulso intraduzível: Boylan with impatience.
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