sklar lubicz noga crônicas irônicas de
ulysses
james joyce


Para Joyce, quem mais?
Para o espectro muito vivo de Joyce,
que desassombrou de vez minha carreira de escritora.



Ulisses: o retorno

Antes que eu percebesse, já estava no fundo do poço. Havia perdido completamente o gozo da leitura. O que era riso fácil virou crise de doutorado, meu travesseiro macio trocado pela cadeira dura, o espaldar ripado machucando as costas sem nenhuma esperança de tesão: como distribuir na cama todos os livros, teses, links, o notebook, o telefone sem fio que preciso consultar a todo momento simplesmente pra engolir o texto? O que era viagem virou voragem e o vôo livre, balcão de repartição pública.
Quando dei por mim, discutia com um acadêmico — mil vezes mais experiente que eu nas engrenagens do ensaio — o sotaque exato do bêbado Bloom antecipando um prazer que deveria vir bem mais adiante: "sheeny nachez" no original, sheine narres, será? Gente. Levei três dias pra entender num grito eufórico e me descolar do exemplo alheio, em bom íidiche: "sheine=belo" "narres=gosto", um belo de um gosto, um prazer inenarrável com o bem-feito alheio — de um filho, por exemplo, bem casado, bem encaminhado na vida — mais que com seu próprio, uma bênção. Tá certo que no caso, e ainda mais se tratando de Joyce, só pode ser irônico, significar bem o oposto disso: ainda não cheguei no contexto, e a literatura judaica está cheia desse tipo de coisa. Mas e o sabor? O sabor da língua? Que belo engôdo, hein? Fico sabendo pelo Alan que "sheeny" é um termo pejorativo para "judeu".
Como foi que "sheeny nachez" acabou em "zi né um badrize limbo"? ...não estou criticando... só compartilhando como eu o faria se o fizesse, levando em conta a experiência pessoal: minha lembrança afetiva do sotaque de vovó que Joyce já despertara com "cutlet": um bolinho judeu de carne ensopada. Quanto mais eu escarafuncho, mais chego à conclusão de que é difícil entrar na cabeça de Joyce. Melhor deixar ele entrar na nossa.
LGA esclarece: " a coisa tem ramificações, por exemplo, Um judeu! ── exclamou Buck Mulligan, no original: The sheeny! Buck Mulligan cried. Traduz-se (literalmente) por: O lustroso! Buck Mulligan gritou. A tradução de Houaiss explica-se porque 'sheeny' — como também as expressões kike e hymie — é um termo ofensivo aos judeus, e ainda na expressão que se achará mais adiante — Goim nachez: o prazer orgulhoso dos gentios (com escárnio)."
Se Joyce escreveu o Ulisses dele com o de Homero ao lado, nada mais justo que eu escreva o meu com o dele do meu lado. E quer saber? Que tudo o mais vá pro inferno, de volta pra intuição, pra intenção gostosa, para a quase inconsciente fruição da arte. Mais uma vez, é a mão geniosa e genial de Joyce que me resgata do limbo. Afinal de contas, muitas têm o seu amado, mas só Dona Zélia en-gatti-lhou na literatura.* Ah, é, te devo essa**.


* no original: "If others have their will Ann hath a way", nessa até o Houaiss capitulou, se conformou com a nota de pé de página pra elucidar o jogo jocoso de palavras: se outras têm seu will (de William Shakespeare, vontade em inglês) Ann tem seu jeito (Ann Hathaway, esposa dele: "a que morreu para a literatura antes mesmo de ter nascido")

** taí um dos acrônimos mais famosos da língua inglesa, vocês sabiam? criado por Joyce, imaginem. A.E.I.O.U: A.E., I Owe You

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