Noga Sklar é escritora, editora e arquiteta. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004, se dedica exclusivamente à literatura.
Como editora da KBR, é pioneira na publicação de livros digitais em português. Tem 7 livros publicados.
Vozes da Flip
"A razão disso ser interessante é que é verdade."
Shalman Rushdie, sobre o livro que está escrevendo, descrevendo seus tempos de fatwa.
"Tudo bem querer dizer as coisas da melhor maneira possível, mas a verdade é que na maioria das vezes uma escolha funciona tanto quanto a outra. O mais importante é pôr o trabalho na rua."
Lionel Shriver, autora de Kevin.
"Passou perto de dizer que seria melhor a organização do evento ter homenageado Sérgio Buarque de Hollanda."
Sérgio Rodrigues sobre FHC no nosso Todoprosa (como enviado especial de Veja, chique)
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Não há mesmo por que banir a subjetividade da escrita, já que a terceira pessoa e sua pretensão à neutralidade e à acuidade não são, em si,
garantia de absolutamente nada."
Paulo Roberto Pires, para a Folha de São Paulo
"Quando o autor é casado, o ensaio brilha de contentamento."
David Brooks, para o NY Times
"Um bom judeu não pode estar satisfeito. Se ele estiver satisfeito é porque não é um bom judeu.
O judeu está sempre querendo aperfeiçoar-se."
Simon Peres, presidente de Israel
"Os humanos são seres simbólicos."
Lídia Aratangy, na Revista da Cultura
"A palavra cantada deixa sulcos muito profundos na memória de quem a escuta."
José Miguel Wisnik, em sua coluna n'O Globo
"Bolsas despencam, Londres arde, mas chega uma hora em que é preciso tocar a vida: ler, escrever, amar."
Sérgio Rodrigues, Todoprosa
"A ideia é usar os recursos digitais como chamariz, criando uma aura cool e jovem em torno da boa e velha literatura. Aquela feita exclusivamente de palavras, uma depois da outra. "
Scott Lindenbaum sobre sua revista Electric Literature, via
Todoprosa
"Este pequeno país que inspira as maiores coisas, seus melhores dias ainda estão por vir. "
Barack O'Bama na Irlanda, e não é que é mesmo? (Quanto à segunda parte da frase, hummm...)
"Os formatos e canais de distribuição de livros continuam a evoluir, mas a publicação criativa começa com o relacionamento entre autor e editor."
Gina Centrello, presidente da Random House, no
NY Times
Como os demais ditadores, ele estava ocupado demais criando o problema para que pudesse apresentar a si mesmo como a solução.
Roger Cohen, no
NY Times, sobre a queda de Kadafi (estamos esperando)
Cantou seu repertório censurado, pegou seu saquinho de dinheiro comunista e saiu de fininho. Maureen Dowd, no
NY Times, sobre Bob Dylan na China: os tempos mudam.
Eu sou assim: quando ponho em palavras dói menos. Miriam Leitão,
em seu blog.
Adquirimos um desejo de tecnologia que ultrapassa a compreensão humana.
Mas a conta cobrada por tal desejo veio cara demais. Kazumi Saeki, romancista japonês, no
NY Times
A norma editorial de utilizar traduções prévias sem levar em conta o contexto e a finalidade da citação muitas vezes enfraqueceu – e algumas vezes anulou – os argumentos do próprio autor.
Denise Bottmann, via
Todoprosa
Vemos a comunicação digital instantânea como uma arma contra a opressão e, nas mãos de tiranos que acessam
seu poder, uma arma de opressão. Maureen Dowd, no
NY Times
Pessoalmente, acho que a liderança militar está com um pouquinho de medo dos jovens movidos a Twitter da Praça Tahrir. ainda Thomas Friedman, no
NY Times
Essa revolta é em primeira instância sobre um povo que está farto de ser deixado para trás, num mundo onde podem ver claramente com os demais avançaram. Thomas Friedman sobre a revolta no Egito, no
NY Times
Nas mãos de um escritor talentoso, o universo está contido no pessoal. Dani Shapiro, no
NY Times
Eu preferia um artista que transformasse seu tempo, em vez de refleti-lo. Patti Smith, via Maureen Dowd, de novo, no
NY Times
O objetivo de um artista não é resolver um problema irrefutavelmente, mas fazer as pessoas amarem a vida em todas as suas incontáveis, inesgotáveis manifestações. Leon Tolstoy, morto há cem anos, via David Brooks, de novo, no
NY Times
Se um partido vai se dar bem nas eleições, que seja pelo menos um partido que optou por ser modesto. David Brooks, de novo, no
NY Times
Mesmo que o público não te aprove, você tem que aprovar a si mesmo. David Brooks, no
NY Times nota desta redação: infelizmente, ele estava sendo irônico.
Van Gogh bem-sucedido só existe no banco Real, atual Santander. Marcelo Mirisola, no
Congresso em Foco
O sucesso hoje em dia não é somente produto da inteligência. É o cérebro e a tiróide trabalhando juntos: QI associado à energia e um desejo inacansável de ser o melhor. David Brooks, no
NY Times
A fonte secreta do humor não é a alegria, mas a tristeza. Não há humor nenhum no paraíso. Mark Twain, via
Todoprosa
Vida e obra andam, em muitos casos, coladinhas. A diferença entre os bons e os maus escritores é que uns sabem, outros não, como colocar isso no papel. Luiz Rebinski Jr, para o
Digestivo
Uma das grandes dádivas da diáspora: viajamos, nos mudamos, e continuamos a ser nós mesmos. Sam Kestenbaum, pescador, no
NY Times, sobre o Yom Kipur no mar
Não vejo diferença significativa entre a cartomante, o biscoitinho da sorte e qualquer uma das religiões organizadas. Woody Allen, sábio,
aos 74
O livro não é só o que escrevo, mas o que se passa à minha volta enquanto escrevo. José Castello, em
entrevista ao Prosa Online sobre seu novo romance, Ribamar
Os homens enlouquecem em bando, mas voltam à razão lentamente, um de cada vez. Charles Mackay, na coluna de
Maureen DowdA literatura, e não as escrituras, é que sustenta a mente e — por não existir outra metáfora — a alma. Christopher Hitchens para o
NY Times
Uma gafe é só a verdade transbordando. Maureen Dowd no
NY Times, sobre a derrocada das esquerdas
A realidade é inclemente: o encanto se quebrou. Fuadi Ajami no
Wall Street Journal, sobre o fenômeno Obama
Uma sociedade bem-organizada é aquela onde sabemos a verdade coletiva sobre nós mesmos,
não uma em que contamos agradáveis mentiras sobre nós mesmos. Tony Judt, um dos mais trágicos vira-casacas da modernidade
"Ser ameaçado de morte é bom para o humor." Salman Rushdie
"Obama pode não ser o político dos nossos sonhos, mas os inimigos dele, certamente, são o nosso pesadelo." Paul Krugman, no NY Times,
em tradução livre.
"The book is on the tablet." Equipe editorial da revista "Negócios da Comunicação", em excelente artigo sobre o livro virtual.
"Livre não é sinônimo de grátis." Jaron Lanier, em entrevista à Veja criticando a internet.
"Não colocaria nem um centavo no 'sobrenatural'." Marcelo Gleiser, na Revista da Cultura.
"O segredo da continuidade evolutiva de seu trabalho reside em uma aprendizagem, fria e desapegada, de como analisar a opinião publica." Vik Muniz, em entrevista a Luciano Trigo.
"Se eu quisesse curtir a vida, teria que ler bons livros. Mas como transformar isso em negócio, se as pessoas que escrevem bem não são bem pagas?" Andrew Wylie, um agente literário na era digital, via Verdes Trigos
"A única certeza, em todo caso, é que escritores são animais de hábitos e que a maioria deles têm um fraco por rituais e disciplina." Ezequiel Vinacour para La Nacion, via Blog da Flip
"Crônica: gênero do Eu e da confissão, mas também do mundo e da invenção." José Castello em sua coluna de sábado, que o Globo não linka
"Vou logo avisando: fico possesso quando alguém quer mudar um projeto meu." Jacob Goldemberg em Contocrônicas, na mesa de edição da KBR
"Dionisos será meu guia nessa viagem, que nada terá de teatral, mas será profundamente vital." Alberto Guzik em em seu blog
"Não tenho uma criança interior. Se tivesse, a esta altura eu já saberia." A.L. Kennedy em What Becomes
"Todas as pessoas de sucesso experimentam e realizam suas ideias na prática, sem medo do ridículo, sem medo de fracassar." Bertris Kurtz em Siga sua intuição, na mesa de edição da KBR
"No próximo episódio da Web, qualquer indivíduo pode ser um editor." carta aberta da Adobe em resposta ao ataque da Apple, também em carta aberta.
"Devo tudo que sou à minha mãezinha. O problema são os juros que ela cobra." Agamenon, politicamente incorreto em O Globo
"A psicanálise cura tanto quanto a homeopatia, o magnetismo, a radiestesia, a massagem do arco do pé ou o exorcismo feito por um sacerdote." Michel Onfray, em seu novo livro O Crepúsculo de um Ídolo, a Fábula Freudiana, via O Globo
"O impossível é o embrião do possível." Victor Hugo
"Vacinou-se com humor e ironia da seriedade bocó dos grandes intelectuais brasileiros." Paulo Roberto Pires, em seu blog, sobre Sérgio Buarque de Holanda
"O passado é a chave do presente." Bill Burton, vulcanólogo, para o NY Times
"Todo bom escritor é intransigente — contra tudo e contra todos, faz o que deve fazer. Escreve o que tem de escrever. Agarra-se a si mesmo e não se larga." José Castello, em seu blog n'O Globo
"Duvidar de si é fundamental." Tônia Carrero, no belíssimo Tonia Carrero - Movida Pela Paixão, da Coleção Aplauso, que estou convertendo agora
"Como aprendemos a duras penas, pequenas ficções podem crescer violenta e rapidamente na câmara de eco da mídia 24 horas." Frank Rich, para o NY Times
"A experiência da leitura é o mais radical contato com a solidão que já conheci." José Castello, em seu novíssimo blog no Globo
"A forma não só determina o conteúdo; a forma inventa o conteúdo." Gilbert Sorrentino, no NY Times
"Em termos de inteligência ecológica, a grande ideia é a transparência radical." Daniel Goleman
"Um terremoto como este destrói de uma vez velhas associações; o mundo, símbolo por excelência de tudo que é sólido, se move sob nossos pés como uma crosta sobre um fluido; um segundo de tempo implanta na mente uma estranha impressão de insegurança, que horas de reflexão jamais criariam." Charles Darwin, testemunha ocular do grande terremoto do Chile em 1835
"O grande e maléfico financiador do tráfico — e isso sim é uma revelação incômoda — é a proibição." Arnaldo Bloch, no Globo
"A autoestima nacional deveria brotar não do poder global, mas de realizações e valores culturais." Piers Brendon no NY Times, sobre a queda anunciada do Império Americano
"Qualquer um pode comprar ações. Administradores de fundos podem comprar os tubarões em conserva de Damien Hirst." Eduardo Porter, sobre O poder da arte, ops, o poder e a arte. No NY Times.
"Não deixe a magia escapar, ou você vai se afundar na areia movediça da trivialidade." Elena Gorokhova, em Um monte de migalhas
"A página era o lugar onde eu poderia refletir sobre o que havia acontecido." Brian Turner, "poeta de guerra"
"Se você pode não escrever, não escreva." Chekhov, citado por Elena Gorokhova, cujo livro de memórias, Um monte de migalhas, vem fazendo sucesso de crítica e está na fila do meu Kindle
"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
Ainda dá tempo
Acabei de saber: hoje é Blogday
"31 de Agosto é o Dia do Blog, ou BlogDay, data escolhida pela semelhança entre 3108 e a palavra blog. Como o Natal, não passa de uma data comercial que certamente surgiu de um linkbait como qualquer outro.
Em 2005, o israelense Nir Ofir teve uma idéia bacana. 'Nos últimos meses, eu senti que, à medida em que surgem mais blogs, perco menos tempo com eles. Com o excesso de informações, visito apenas meu blog favorito. Então por que não incentivamos nossos visitantes a conhecer novos blogs?'. Poderia ter escolhido qualquer dia do ano, mas optou pelo 31 de agosto por razões semióticas: em inglês, 31-Aug vira 31-Og, que vira 31OG - já dá pra ler a palavra blog escondida ali? Durante o dia 31 de Agosto, bloggers de todo o mundo farão um post para recomendar a visita a novos blogs, de preferência, blogs de cultura, pontos de vista ou atitude diferentes do seu próprio blog. Nesse dia, os leitores de blogs poderão navegar e descobrir blogs desconhecidos, celebrando a descoberta de novas pessoas e novos bloggers."
Instruções do BlogDay:
Liste cinco novos blogs que você ache interessantes.
Notifique por email esses cinco bloggers de que serão recomendados por você no BlogDay 2007.
Publique no BlogDay (no dia 31 de Agosto) esse post.
Junte a tag do BlogDay usando este link: tag e um link para o site do BlogDay.
Noga Bloga recomenda (fora da lista habitual de favoritos):
Lendo Engana - blog novíssimo de Edgar Lubicz, Tiago Rios e Ju. A garotada leva o maior jeito.
Kaleidoscope - blog da poeta, escultora e artesã muito especial Simone Kaplan, uma brasileira em Brooklyn Heights.
Crônicos - blog dos meus companheiros de Paraty, já que não dá pra citar todos individualmente.
Verdes Trigos - o portal cultural mais ativo do Brasil também é blog.
Essa mania de bancar a engraçadinha só me causa problema, gente. Sério. Ou vocês pensavam que era só aqui no blog? Não. É um vício. Um transtorno. Uma praga. Um modo de viver a vida que não vale a pena, garanto. Já me valeu muita inimizade, muito tiro pela culatra, pra não falar do meu péssimo hábito de resolver os problemas de todo mundo. Eu falo demais.
Hoje, por exemplo. Resolvi que hoje, dia trinta e um de agosto de dois mil e sete, eu ia, finalmente, mudar. Não ia fazer nenhum comentário desnecessário, nem explicar nada, nem facilitaria a vida de ninguém, em detrimento da minha própria. Ficaria na minha. Discreta. Calada. Hum. Não funcionou. Eu tinha planejado comprar uma azaléia nova, e ao passar pela loja, na Antero de Quental, perguntei o preço: — Oito reais. — Mais os três da violeta que eu queria levar pra mamãe, por conta da sexta-feira e tal, onze. — Aceita cartão? — Não. Só dinheiro. E cheque. — Na carteira, eu só tinha dez. Vou passar no banco, pensei. Enfrentar a fila, porque afinal, não tinha trazido o tal chaveirinho gerador de senha, conhecem essa? Na agência perto do cinema não tinha Prime, e a fila... vocês sabem: é sexta; pela hora da morte. Fui à minha agência, sete pessoas na minha frente. Pensei: ao chegar no caixa, não vou comentar nada, nem fazer nenhuma piadinha. Afinal de contas, estou aqui por minha própria escolha. Ninguém tem nada a ver com isso. O caso é que das sete pessoas, pelo menos três tinham uma verdadeira bíblia em contas, fala sério, e eu lá em pé, morrendo de calor, ainda com gripe, indisposta. Esperando. Sete. Seis. Cinco. Quatro, três, dois. Opa. Sou eu. Não consegui, gente. Cheguei na frente do caixa: — Vinte reais, por favor. — E fui em frente: — os vinte reais mais custosos de toda a minha vida. Mas não tem importância, foi até bom. Deu pra relaxar. — Mas quando a senhora só quiser retirar, use o caixa automático... — Eu sei, minha filha. Mas não planejava tirar dinheiro, e não trouxe o tal do chaveirinho. Paciência. Saí do banco meia hora depois, com os vinte reais, mas muito puta comigo mesma. Enquanto eu andava as duas quadras até a loja de plantas, na direção contrária da minha casa, repetia obsessivamente dentro da cabeça: "quando eu chegar na loja, não vou falar nadinha, juro. Vou comprar a planta, pagar e pronto. Não vou ficar me explicando, tintim por tintim, ninguém agüenta mais isso." Pego a azaléia, a violeta, levo no caixa, dou um leve sorriso e adianto os vinte reais, cash. — Tem um real? — Não! — respondo, bem lacônica. E fico ali quieta, enquanto na mente, vendo o movimento da vendedora procurando troco, já vou criando a novela: "não quer deixar por dez? Poxa. Se fosse pra deixar por dez, não precisava eu ter ido ao banco. Fiquei na fila mais de meia hora, imagine." Mas a boca? Nem se mexeu. Vejo a vendedora perdida, buscando uma solução, roda daqui, roda dali, mas me segurei. Finalmente ela se decidiu, abriu a própria carteira, tirou de lá uma nota de dois "real" toda amassadinha, mais duas moedas de um real (que eu odeio), e me deu o troco contadinho: nove reais. — Obrigada. Saí de lá feliz da vida, pronta pro fim de semana, e com sorte, uma nova vida. Mas fala sério: podia ter passado sem essa, e afinal de contas, economizado um real.
Vida de blogueira não é nada fácil. Outro dia eu citei o "El País" aqui no blog e uma amiga se espantou — pra não dizer capitulou, deixou-se cativar pela vasta multiplicidade de fontes que consulto e cito: "Quantos jornais você lê por dia?" Gente. Não vou mentir. Eu só leio o Globo, dou uma olhada rápida no NY Times, e no mais, aposto na sorte, na intuição, num google rápido em busca da origem das coisas... e claro, na opinião dos outros sobre o que decido escrever: é a tal fonte de terceira mão, deve ser por isso que não tenho emprego na "grande mídia".
Vejam o Arthur, por exemplo: dá aula na PUC, faz programa na tevê e coluna... no Globo, é fã de futebol, jazzista, lê e escreve um livro atrás do outro e ainda tem não sei quantas filhas pra criar, ah, sim, e ainda por cima arrumou um emprego de DJ no granfinérrimo hotel novo do Rogério Fasano no Arpoador, sim, o link na Veja é velho, mas foi o melhor que encontrei. Como se não bastasse, o referido super-homem é assíduo telespectador de House, gente, o que se passa com esse seriado? Pra merecer artigo de tanto jornalista sério? (sim. a Carla Rodrigues, em seus apreciados posts agora tão raros, também escolheu falar do tema). Eu não entendo. Só tendo o blog e um livro pra divulgar já passo ocupada o dia inteiro, deve ser porque tenho marido (com sexo, com sexo, faço a maior questão de confessar), cuido da casa, cozinho e lavo. Passar não passo, odeio passar roupa, tenho uma faxineira quinzenal pra isso. Ah, sim. E faço palavras cruzadas, porque o Alan me obriga, vocês sabem: previne o alzheimer. Só que este coquetel do Globo acaba sendo, de vez em quando, um desserviço pro intelecto. Outro dia, por exemplo, fui forçada a concordar que o calendário judaico é baseado no sol. Fala sério. Todo mundo sabe que os judeus mantém, há milhares de anos, um calendário lunar, mas gulp!, tudo pela boa memória. Já hoje, gente, não deu pra deixar passar, vejam essa: "o queijo da pizza". Ah, bom. Vocês pensaram que era mozarela? Quem sabe o italiano original "mozzarella"? Hum. Aurélio rápido, foi o que eu pensei também, mas aí apareceu uma cedilha no meio, juro, e tive que engolir a "moçarela" aí de cima sem tempo pra derreter no forno, tá certo: vai tudo acabar em pizza mesmo. Tudo bem. Agora entendi. O meu problema não é ler 3 jornais por dia, um ou outro romance, meus colunistas favoritos, uns 3 ou 4 blogs literários, o Verdes Trigos, pesquisar meu próprio nome no google, conferir as vendas da Livraria Cultura, checar a audiência no youtube, pesquisar ciência, cuidar da mamãe, pagar milhões de contas, conferir no contador as palavras-chave que trazem leitores ao Noga Bloga (até boceta tem), ih, já deu. Anoiteceu. O meu problema é ter que ver tudo com um olhar crítico (olha a leitora malvada aí!), procurando os equívocos, os micos, os furos. (com duplo sentido sim senhor: significando os "erros" e também as notícias na internet antes que o jornal as publique, sim, o Noga Bloga também faz furo, pelo menos furo literário eu garanto que faz. ou dá.) Tudo isso pra que o Noga Bloga não acabe, invariavelmente, provocando bocejo, ai que tédio: ZZZZZZZZzzzzzzzz. Ou em pizza de moçarela, isto é, engolido com gosto e gula (e erros de grafia também) pela grande mídia, e pelos hits do contador de acesso. Pelo menos um gostinho (quase) diário eu tenho: o de ver publicado em jornal alguma coisa que eu já falei antes, pra uma audiência tão magrinha que nem entendo como é que se espalha, ah, sim, gente: é pura coincidência, ou um assunto que está no ar, no inconsciente coletivo daquele momento. Só falhei nesse caso do House, fala sério: um cara grosso, mal-humorado, barbado e ainda por cima manco e com um charuto na boca, eu hein? Vai entender porque é que ele faz sucesso, ah, sim, é preciso assistir de vez em quando, criticar a coisa em vez de quem critica a coisa, entendeu, Noguinha? Deve ser por isso que eu não vou pra frente como cronista, não é mesmo? Acabo tendo que me conformar com fofoca de blog, e dando graças a Deus por ter alguma coisa pra escrever, garantindo assim meu rótulo fake de "escritora". Blz, valeu.
"A verdade é que poucos artistas foram admiráveis como pessoas. No fundo são matadores, que fariam qualquer coisa por seu trabalho", afirma Morris Dickstein, professor de Literatura Inglesa no Graduate Center da Universidade Municipal de Nova York.
Essa eu não podia deixar passar, vejam só como a antena do Noga Bloga tem sintonia fina, e leiam o artigo publicado hoje no NY Times sobre a íntima — mas não necessariamente aberta — relação entre a vida pessoal e a obra de escritores, no caso do NYT, Arthur Miller (pra quem não sabe, marido de Marilyn Monroe), que teve com sua terceira esposa um pouquíssimo divulgado filho com síndrome de Down, Daniel Miller.
Em se tratando de amor à arte a melhor coisa é ser capaz de transcender, de ignorar completamente, por trás da obra, o seu autor. O que hoje em dia, com a bisbilhotice estraçalhadora da mídia, acaba sendo impossível. A gente pode, e quer saber: tudo e mais um pouco sobre esta figura mágica, imponente, infalível e afortunada, que é no fundo no fundo, igualzinha a nós, sim. Atire a primeira pedra o escritor estreante que nunca sonhou ter a sorte de uma J. K. Rowling. Penso nisso com freqüência.
Pensei nisso quando uma leitora, ao se deparar com a minha foto decepcionante na orelha do Hierosgamos, deixou esvair-se o charme, o encanto, a paixão erótica delirante que o livro tinha provocado nela (gulp): "Nossa. Imaginei que ela fosse diferente." Subtexto: como é que pode tanto fogo, tanto ardor, tanto lirismo, vir de dentro desta mulher mediana, tão normal, meio acabada, baixinha, de braço gordo e rosto manchado pela idade? Não há foto de estúdio que dê jeito nisso, e é por isso que eu gosto de me abrir online, entregar de uma vez o ouro (ou a falta dele). Penso nisso com freqüência, ou melhor, procuro um jeito eficaz de me livrar disso, dessa maldição de ver a todo instante o autor do livro dando uma entrevista na Flip, ou no saguão do hotel onde um dia o surpreendi, ou sentado de roupão em casa em frente ao computador, escrevendo as mal traçadas linhas de olho na opinião do leitor. Sim, penso nisso a cada instante que passo lendo as 600 páginas destas memórias de Amós Oz — De Amor e de Trevas —, e tendo chegado à página 42, onde ele descreve em tintas carregadas o mau leitor, me pergunto: como é que acabei, caramba, sendo uma leitora tão ruim? Verdade, gente. Me vi refletida ali com uma fidelidade mórbida de holografia. Sou mesmo péssima leitora, e como o Amós muito bem descreve, "me mantenho sempre de pé atrás, tratando com uma animosidade puritano-justiceira hipócrita a obra, a condução da narrativa, o exagero, os jogos de palavras, o duplo sentido, a música e a musa das palavras... prometidas nas primeiras páginas da imprensa marrom." Aqui no Brasil, infelizmente, ainda é preciso acrescentar a má qualidade da tradução, os erros de revisão, a padronização imbecilizante da crítica perpetuadora de mitos que não, não chega a ser imprensa marrom, imaginem se o escritor está com essa bola toda. Mas hipócrita não, não sou. Quem sabe pelo menos nisso me salvo da condenação radical imposta por Oz, que como escritora, não endosso de jeito nenhum. Se em algum momento quando escrevo penso no leitor, é com todo o respeito, atenção, carinho, vontade de compartilhar. Embora às vezes meu texto incomode não tenho, de jeito nenhum, a intenção de ofender. Escrevo o que preciso escrever, e isso é tudo... ditado, sem interferência nenhuma, por uma voz interior que desconhece, ou simplesmente ignora, o gosto e a expectativa de quem um dia me lerá. Paciência. Mas é por respeito puro, por puro amor — se não ao leitor, pelo menos à língua portuguesa — que o texto intuído num primeiro rascunho é seguido de horas, meses, anos de revisões, edições, cortes impiedosos, sim: guardadas as proporções, até mesmo aqui no blog. Quem lê um texto logo ao ser publicado, e volta a ele mais tarde, pode quase sempre perceber a mudança. Não quer dizer que Oz não seja um bom contador de histórias. Ele é. E no meu caso existe ainda um deleite extra, que me motiva a seguir pelo livro afora: é minha história que ele conta, são casos de um país que conheço bem, manias que lá em casa eram comuns, palavras em hebraico que escutei desde que nasci, um jeito judaico de ver a vida que conheço muito bem. Me sinto em casa com ele, e estar em casa é sempre bom... embora, às vezes, banal. Alan me explica que existem três tipos de má literatura: - o texto é ruim e a história é ruim - o texto é bom, mas a história ruim - a história é boa mas o texto incomoda Em todos os três o livro não passa de um caminho esburacado, cheio de pedras. Com algum esforço e muita vontade, a gente até chega a algum lugar, mas não consegue se deixar levar, mergulhar, transcender o sofá, a dor no pescoço, a câimbra* na perna, a súbita vontade de comer, de tomar um vinho, de ver tevê, aiai. Quando foi mesmo que me transformei numa leitora tão mesquinha? A culpa não é minha, gente, mas me sinto tão culpada... Mudou a literatura, ou mudei eu?
* agora vem cá: é "câimbra" ou "cãimbra"? o Aurélio diz que é câimbra, mas eu sempre soube que era cãimbra: em ambos os casos, um formigamento chato, impossível de ignorar.
Duda Mendonça está morando aqui no prédio. Bem. Pelo menos foi o que imaginei depois de ter visto, por meses a fio, a correspondência endereçada a ele na portaria. Perguntar, não perguntei, vocês sabem: não pega nada bem ser tão curiosa, investigar, esclarecer uma dúvida, se meter desse jeito na vida alheia, em coisa que não nos diz respeito.
Mas cá comigo pensei, uai, gente, o que é que este cara está fazendo aqui? Porque aqui no prédio, vocês sabem, só tem apartamento de quarto e sala, bem, e uma meia dúzia de coberturas, duas delas fantásticas, com vista pro mar, mas ainda assim, de quarto e sala: nada adequado pra um milionário de mensalão, com contas no exterior e uma queda inconfessável por rinhas de galo. Ou então é aqui que o sujeito se esconde, uau, sob o nome verdadeiro num falso quarto e sala disfarçado de cobertura em prédio aparentemente humilde: o cara é fera mesmo, um mestre da dissimulação, concluí, prestando atenção na varanda pra ver se detectava algum cocoricó suspeito. Há outros. José Dirceu, por exemplo. Por mais que alegue inocência em seu blog (não linko! não linko!) e em seu histórico de herói esquerdista — fala sério, no primeiro mandato ele bem que me convenceu — ao Meritíssimo Joaquim Barbosa, relator do processo (e também petista?), ele não enganou. Não. Eu é que me enganei com esse tal de Joaquim Barbosa, um jovem juiz nomeado por Lula, tsk tsk, com fama de difícil e ainda por cima preto, é, gente, vocês sabem: além de judia safada, sovina e comedora de criancinha, sou racista desde que que nasci. Já o Lula... bem. Só faz besteira com fundo populista. Não é que eu vá de repente me tornar lulista. Não. Vejo o Lula mais assim como um script randômico de computador, que às vezes funciona e às vezes não: um franco-atirador da ética popular. Mas com o Joaquim Barbosa eu reconheço: o Lula foi na mosca. Sabe essa coisa de minoria desprezada, que pra dar certo tem que agir mil vezes mais certo que os outros? Parece ser o caso desse juiz que levantou a moral do país, um Brasil, que a despeito de todo pessimismo, pode sim, dar certo. E o que é mais gostoso: na contramão do catastrofismo da imprensa, que já profetizava mutreta com o episódio dos emails publicados. E mais gostoso ainda: jogando com o preconceito nem tão velado de seus pares o Joaquim foi grande, magnânimo, imparcial e justo como qualquer grande juiz, e com a dose certa de senso de humor. Um demolidor, esse Joaquim. O preto mais branco do Brasil — ops, contraponto perfeito de Vinícius de Morais, o branco mais preto — transformando em harmonia pura a sociedade brasileira, um caso perdido, no entender do Conde Gobineau — citado no Globo de hoje por Mestre Zuenir — que afirmou, em 1869: "Com esse povo mestiço o Brasil não dura 200 anos." Bem. O Brasil injusto, corrupto e atrasado, pode ser que não dure mesmo. E se depender do Dr. Joaquim, pode até acabar em breve. E quanto ao Duda Mendonça, meu famoso vizinho, incluído nos 40 do latrocínio público? Ah, gente, as aparências enganam. Enganam mesmo. No outro dia houve aqui no prédio uma reunião de condomínio, onde o tal de Duda teve atuação marcante. Resultado: o Duda não, não era mais aquele. Era só um homônimo, ufa. Suspiro de alívio, como aliás, todo o Brasil. Um país, que afinal de contas, acabou tendo jeito.
Ray Bradbury aos 87, em sua casa de Los Angeles- Foto New York Times
"A literatura está ultrapassada", afirma com um meio sorriso troglodita, ou melhor, com um sorriso meio troglodita, ou ainda, com um meio sorriso de troglodita o jovem estudante do Pedro II, em matéria de capa do Megazine desta terça-feira.
Como é ser jovem no Brasil de hoje? Imaginem. Faz pouquíssimo tempo que eu percebi: vivemos há quase 15 anos sem inflação (ops, wikipedia rápida sobre o Plano Real, só pra não pagar um mico histórico, como fez outro dia o governador: desde o final de 1993), o que significa... que a maioria dos jovens nem sabe o que é lidar diariamente com uma moeda instável, e a insegurança endêmica que isso traz. Bom pra eles. Já os outros privilégios que esta juventude tem não são poucos, ih, falou a coroa agora, a sofrida e ultrapassada terceiro-mundista que até hoje não sacou que o Brasil mudou. Cresceu. Apareceu. Apesar do pessimismo em contrário, Lulas fora nada. E diferente dos cérebros de minhoca que a matéria do Globo parece sugerir, o que encontro é uma geração brilhante, de múltiplos talentos e com fácil acesso a um equipamento que no meu tempo, sinceramente, nem nos sonhos mais loucos. Me lembro muito bem, isso sim, do laboratório fotográfico improvisado no lavabo lá de casa, o ampliador em cima do vaso pra aumentar o alcance, o cheiro nauseante e corrosivo do ácido, o malabarismo heróico contando os minutos de exposição pra sobrepor dois negativos na escuridão — sentada no chão gelado de costas pra porta, fechada e lacrada com uma toalha velha — num experimentalismo tosco de adolescente, eu hein? E vocês ainda esperam que eu critique o fotoshop? A fotografia digital? A tecnologia aberta do mundo online? A limitada visão intelectual do jovem estudante do Pedro II é nada mais que isso: uma visão limitada. A maior parte dos contemporâneos dele, pelo que sei, não se limita em nada. Navega sim, na internet. Escuta música em ipod, vê filme em dvd, fala com os amigos no MSN, sim: escuta milhões de músicas de todos os tempos, vê os filmes antes da estréia, tem amigos em realtime no mundo inteiro, e pra expandir a consciência, nem precisa viajar. Mas viaja. É este o diferencial de hoje, e pra quem pensa que sem decorar tabuada a mente não vai pra frente, aconselho traduzir online, em html, um complexo pensamento gráfico. Eu sei. Passei por isso nas últimas semanas e vos digo: é preciso uma boa dose de inteligência e muitas conexões sinápticas pra usar plenamente o computador. E a praticidade de ter tudo ao alcance da tela? Pesquisa. Notícia. Namoro. Supermercado. É uma revolução sim, e a gente estranha, mas veja o lado bom. Esqueça a dependência dos dados, o desespero quando falta luz, a vulnerabilidade, a falta de privacidade. Tudo isso, em breve, será passado, um passado ultrapassado, muito aquém da imaginação. Quanto ao futuro da literatura, não sei não. Muita gente diz que a leitura online vai destronar o livro. Há quem se sinta ameaçado pelo digital, eu entendo, como um escriba medieval pela prensa de Gutenberg. A matéria de hoje no Globo parece confundir, isso sim, o meio com a mensagem, ou no caso, a tela do monitor com o texto gravado. Transcendam isso — é puro preconceito — e pensem nas bibliotecas digitais, nos clássicos disponíveis para download, nos milhares de escritores que escrevem e publicam online sem o constrangimento de um garrote comercial... nossa. E quanto ao bom gosto... pode não ser o seu, mas continua importante: o povo sabe, exige o que é bom. E mesmo tão ampla, tão divulgada e tão metida a onipotente, a internet ainda está na infância, nas primícias, nas meras preliminares. Vem muita coisa admirável por aí, e a literatura não vai ficar pra trás, pelo contrário, já vai lá na frente: provê a inspiração, e os cientistas que se virem com os detalhes, como disse muito bem o escritor Ray Bradbury, mestre da ficção científica, em entrevista ao New York Times. Comemorando 87 anos em frente à tevê tela plana de 52", que antecipou em Fahrenheit 451*, reconheceu: "Estou cercado de minhas metáforas."
* comprem na Cultura, gente, só custa R$11,00, isso mesmo: um clássico, impresso em papel (futura raridade) e com 216 páginas. imperdível.
"Let's not, and say we did", repete o Alan. Tem sido este, ultimamente, o mantra preferido dele, que enjoou de vez de sair de casa. E segundo ele mesmo conta, o do pai dele antes dele, e antes disso o do avô, e por aí vai. Ou diz que foi. Algo que, com meu parco talento de tradutora, não consigo importar pro português de jeito nenhum.
Não com o ritmo e a cadência que eu gostaria, ah, Noga, deixa de frescura e traduz assim mesmo, afinal de contas, não tem ninguém lendo: "a gente não vai, mas diz que foi". Fudeu*. Se estrepou. Criou-se o mito, a mania, a onda: simples assim. Todo mundo diz que foi, mas não vi ninguém lá. Todo mundo tem, mas ninguém usa (até parece vibrador). E aquele best-seller então? Todo mundo comprou, mas ninguém leu. Tô falando de quê, mesmo? Pra quem? — Ei, você aí! Tá me ouvindo? — Quem? Eu? — É. Você mesmo, que me encontrou online. — Tá falando comigo? Eu, hein! Já fui. Tô fora. Bato na porta. Grito. Insisto. Mas não acho ninguém. Escrevo para milhões, todo mundo sabe, faço isso faz tempo. Desde que resolvi publicar online, todo santo dia, uma versão vagamente confessa dos meus dramas cotidianos. Draminhas. Dramalhões. Transformados com alguma arte em projeto único de literatura, é. Pra você aí que (não) me lê (nunca), faço do blog um compromisso sagrado, um cultivar diário do ritual de escrever, quase outra religião, ah bom, agora entendi: digamos que eu rezo, mas não tenho a menor fé. Capricho no tema, no toque, no bom ou mau humor do dia, na dor, na nudez* da emoção, no gozo* da poesia. Corrijo a sintaxe com o maior carinho, a grafia, o ritmo. Leio em voz alta feito louca, o dicionário sempre ao lado, ops, na janela do lado. Digamos que eu escrevo, hum. Gosto de escrever, e não tenho mais nada pra fazer. Digo pra todo mundo que tenho um blog, sim, um sucesso de público, muito lido e apreciado, pode publicar aí, Joaquim, no Gente Boa: "Está no ar, totalmente remodelado, o blog da escritora e cronista Noga Lubicz Sklar, retumbante sucesso na blogosfera — onde sua audiência vem crescendo, e em ritmo chinês. Noga autografa no dia 4 de outubro, na Travessa do Leblon, o seu mais recente e pornográfico* romance: Hierosgamos - Diário de uma Sedução." Tudo pelo leitor, este feitor. Ou melhor: esta ilusão. Sim, gente. Foi pensando em vocês — e claro, naquele chatíssimo, indesejadíssimo pop-up do Mercado Livre que tanto nos atormentava — que eu mudei de contador, e foi aí que a coisa pegou: acabei descobrindo que oitenta e quatro por cento da minha querida, valorizadíssima audiência, que me enche tanto a bola, passa menos de 5 segundos por aqui, ouviu? — Hei, você! Peraí, volta aqui, pô! Fica mais um pouco! Inútil, já era. Paciência. Pesquiso e descubro que isso acontece nos melhores blogs, verdade: coisas da ingrata blogosfera. E por causa disso, ou melhor, apesar disso, o Noga Bloga volta hoje a ser o que sempre foi: um espaço aberto, democrático e transparente, onde me mostro inteira e provo por a+b — e outras 21 letrinhas, parágrafos, travessões e vírgulas, claro — ser uma escritora única, erótica*, ousadíssima, genialíssima, injustiçada... e não-sei-por-que-cargas-d'agua, ainda inédita. Azar de quem não me lê, viu? Perdeu. Perdeu. Não gostou? E daí? Eu sim. Afinal de contas, ninguém me lê a não ser eu mesma, e francamente: não existe, atualmente, escritora melhor do que eu, espelho, espelho meu. Resistiu até aqui (são 5%! só 5%!)? Pois saiba que aqui se pratica literatura, sim, a verdadeira, a amadora, a de quem escreve por puro amor à arte de escrever. Nada dessa chatice, dessa obrigação careta de ser profissional. O que não dá dinheiro, mas pelo menos, dá uma liberdade danada. Tchauzinho. Cansei, vou pra praia agora e pronto. Ninguém tem nada com isso.
* ah, sim. te peguei. essa foi só pra gerar tráfico, viu? ops. tráfego. dos sites de busca. entendeu?
"Sou um romântico do século 19", afirma Alberto Renault, vocês sabem, aquele que eu conheci no metrô. Considerado pela mídia um genial multimídia, conta na Revista do Globo que se considera um artista, e gosta mesmo é da criação, de ter idéias. Agora, não é o Alberto quem diz, nem Cristo, nem Lennon, nem outro famoso nenhum acima do certo e do errado, embora seja uma verdade universal: só a arte salva.
Sei, sei. Tem quem diga que é o amor e eu até concordo: o amor é importante. Mas nessa negra semana que graças a Deus já passou, não houve gesto de amor, ou toque, ou prazer no sexo que me aliviasse. Só a arte — o desafio de embaralhar o texto desembaralhando a dor — me trouxe um vislumbre de folga, um desejo de seguir em frente, de continuar, simplesmente, viva. De não ligar pra nada que não seja este impulso de estar só maquinando, elocubrando, descobrindo sob a trama do nada as ligações mais delicadas, mais perigosas, mais do que nunca misteriosas. Ocultas, mas óbvias. Obrigatórias. Sem o gozo da arte, ou a arte do gozo, a vida não rima. Nem tem ritmo. E o gozo da vida, meus caros, não tem nada a ver com essa empulhação pornográfica de supermercado, que andam querendo nos empurrar. O Alberto, com a rotina alucinada entremeada de silêncios, com seus muitos amigos temperados de recolhimento, com a mente disparada na frente enquanto o corpo que a contém, em franco disparate, relaxa e dorme... garanto que entende disso muito bem. Da rima, do ritmo. Do romantismo de século 19 que o 21 quer matar a qualquer custo, sem perceber que ao matar a alma do amor, mata o corpo também. Ou pelo menos, o que no corpo que ama faz algum sentido. Não é outra, não será nunca outra a conseqüência do sexo-sem-fronteiras que a mídia divulga, entulhando de artefatos grosseiros um íntimo território onde só cabe o lirismo, num embate inebriante de aromas. A dança dos corpos em plena harmonia do amor, exalando por todos os poros a fina arte de viver. Pêlos. Poeiras. Promessas. Pensando bem, eu deveria achar bom esse escancaro, essa desmi(s)tificação do que temos de mais mí(s)tico: a arte refinada do gozo. Deveria, para o bem do mercantilismo, pedir um patrocínio aqui para o blog à ABEME - Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico, calar de uma vez a sofrida boca de artífice da palavra escrita e cair de língua no jogo d'eles-excitando-elas movido a pilha, a pulhas, a susto. Oferecer meu erótico-porque-poético romance como brinde de Natal nos 22 mil pontos de venda da DuLoren, problema resolvido: ganhe um livro pra cada 100 reais em produtos da linha Kama Shastra, nome mais canhestro. Mas não posso, vocês sabem porquê? Por que não conheço as pessoas certas, e as que conheço, desprezo. Sou do Kama Sutra, não do Kama Shastra. Da vulva pulsante e viva, sem nenhuma ajuda de malhação pélvica (ginástica vaginal a domicílio, e com personal trainer? o horror, o horror). Diz a reportagem do Globo que Roni Argalji, dono da DuLoren, caprichou nas embalagens: sofisticados saquinhos de seda e caixas com motivos indianos. Acertou na mosca ao retratar fielmente o anti-romântico do século 21, o herói anti-gozo (e anti-herói) de Regina Navarro Lins que sabe tudo de fluidos, mas nada de sucos: um imbróglio cada vez mais elaborado e caro, mas sem nenhum conteúdo dentro. Este Argalji sim, é que é um gênio. E merece tudo, principalmente o sucesso de seus brinquedinhos, com o sexo detalhadamente explicado pela vendedora. Entendeu a fundo o desejo ardente do consumidor moderno: um fingidor do contentamento que acredita mesmo em ter tudo. E não ser nada. Já pra românticos dinossauros como (o Alberto e) eu, é um mundo cada vez mais hostil, banal, sem amor e sem arte onde tudo vira produto: produto de uma contagiante pobreza espiritual. Uma tristeza.
Queridos, o Noga Bloga está fora do ar até amanhã. Motivos:
FUGINDO DA DEPRESSÃO DA CHATEAÇÃO DA CONFUSÃO GRIPADA COM DOR DE CABEÇA SOBRECARREGADA SONHANDO EM ME MUDAR EM RESOLVER EM RENOVAR EM PROTEGER A MÃE EM VENCER EM VENDER EM SALVAR A HERANÇA SEM DISCUTIR PROBLEMAS NA FAMÍLIA EM ME LIVRAR DO MEDO DO PESO DA TRISTEZA DA RAIVA DA FRUSTRAÇÃO DO DESEJO DO QUE NÃO POSSO DO QUE NÃO DEVO DO QUE NÃO QUERO DA CRÍTICA DO ELOGIO DO VAZIO DOS ANÚNCIOS DOS POP-UPS DOS CONTADORES DE VISITAS DAS VISITAS DA VISTA DOS REPRESSORES DO INCÔMODO DO TRAUMA DO FRIO DO CALOR DO NEBULIZADOR DO MARIDO DO SEXO DA EMOÇÃO DA DISTORÇÃO DA COMPLICAÇÃO DA COMPILAÇÃO DO ADSENSE DO ADWORDS DA FALTA DE ASSUNTO DA FALTA DE TEMPO DO TEMPO DO RUMO DO ROSTO DO IRMÃO DO FUTURO DO PASSADO DA SOLUÇÃO DA DECISÃO
Tem nova categoria de autor na praça, é, gente, sem querer pegar carona em um certo vocábulo que ascendeu faz pouco ao OGT — Olimpo do Glossário Televisivo —, e pra variar, sem apreço nenhum pelo idioma, nossa pobre, maltratada e traumatizada língua pátria. Pra quem acha que eu sempre sei do que estou falando, um aviso com interface amigável: sou muito dividida.
Dividida entre ser leitora ou escritora, blogueira ou colunista, entre dois-pontos e ponto-e-vírgula, taí um caso sério. Enquanto eu continuar assim, escrevendo sobre o que eu leio e o que se publica em jornal, disso pelo menos eu sei: nunca, mas nunca mesmo serei levada a sério. Outra dúvida que sempre me ocorre — mais do âmbito da consciência que da reputação literária — é se devo ou não criticar outros autores, analisar, discutir, e eventualmente — é aí que a culpa pega — demolir o que escrevem. Não se preocupem. Desta vez não vou falar mal do Jabuti, que divulgou os resultados ontem. Nutri até uma certa e gratuita simpatia por Carlos Nascimento Silva, um mineiro como eu, sessentão, educado no Rio de Janeiro e com cara de gente boa. O Desengano dele pode ser que seja dos bons, quem ler e gostar por favor me conte, porque eu, vocês sabem, ainda estou pagando as parcelas do meu engano do último ano, tá bom, prometo não falar mais nisso. O Carlos, pelo menos, dá pra ver que respeita o português, a língua, claro, não o... ah, deixa pra lá que ninguém é tão burro. O que não parece o caso da nova classe de autores que queremos — stop. — que eu quero analisar aqui, analisar, eu hein, será mesmo que dá pra análise? Pra criar um departamento na PUC de São Paulo, com verba, patrocínio e pesquisadores abalizados, e publicar depois teses de doutorado sobre o tema? Mesmo que não se chegue a tanto, me embrenhei esta manhã numa pesquisa prévia e listei alguns tópicos, alguns caminhos, num breve rascunho de dissertação. Vejamos. Qualificar-se na classe é fácil, gratuito, mas não descubro de jeito nenhum como é que se consegue. Quem souber por favor me avise, prometo um crédito de última página, um link, um widget* ou outro bagulhinho promocional qualquer, ou explorando meus mais recentes exercícios de talento, um banner maravilhoso veiculado aqui no Noga Bloga mesmo, vocês sabem, o blog que mais cresce na internet. Os excelentes autores do meu projeto conseguem bem mais que isso, reparem: sem estar à venda em livrarias, sem terem sido publicados por editora grande, sem possuir site, blog ou verbete no wikipedia, e pasmem... sem saber sequer escrever direito, conseguem aparecer com destaque na mídia impressa, falando para milhões com um poder que vai da nota à foto de meia página, dependendo, é claro, não faço a menor idéia de quê. Do talento literário é que não é. Se você que me lê ficar curioso, e resolver ir atrás dos autores citados, cairá no site charmosinho de uma editora — ou melhor, uma prestadora de serviços editoriais — das muitas que existem (nada contra, imaginem), e lerá pérolas como essa: "As pessoas não envelhecem. O que envelhece são as coisas em volta. Com o passar do tempo, cada objeto, cheiro e lugar vai se enrugando, se encurvando na sua direção natural, enquanto as pessoas, no incessante auge de sua juventude, vão tendo que se acostumar com as condições em eterna mudança das coisas. " [...] e por aí vai, numa profusão de vírgulas, plurais, gerúndios e figuras de linguagem equivocados, pra mim já deu. De onde isso vem não digo nem morta, ou vocês acham que vou entregar meus trunfos com essa facilidade toda? Pra alguém chegar por trás, sem a menor cerimônia, e piratear meu brilhante projeto acadêmico? Minha chance derradeira de vencer na vida? Pra quem se contentar com uma dica tipo caça-ao-tesouro, o referido autor foi mencionado sim, gente, hoje, e com o maior destaque, na página de maior destaque do maior jornal do país. Outra dica: não foi no suplemento literário não, viu? Já outro, ou melhor, outra, na mesma edição mas claro, em outro caderno, se destaca pelo seguinte: "em regime de lançamento soft-opening (?) prepara as festas de arremesso (?) em BH e SP, está tão empolgada que já começou a escrita (?) do seu segundo livro. Uma coisa que a impulsiona é o fato de a obra agradar às mulheres, seu público-alvo, e, sobretudo, aos homens." Ufa. Como é difícil agradar a todos, ainda bem que eu não pretendo agradar ninguém, que texto esse meu, hein? Pra Jabuti já sei que não dá, com tanto vocábulo repetido... mas pra divulgação da autora, a nível, assim, de release, quem sabe acaba ajudando. Maiores informações nos links abaixo. Valeu, gente, um abração procês.
* ops. não sei muito bem o que é widget, portanto me desculpem se falei besteira, ah, sim: por favor elucidem. agradeço a colaboração de todos.
A memória de meu pai começa e termina naquele homem forte e onipresente, que sabe tudo, tem resposta pra tudo: um sujeito atraente, inteligente, decidido, acolhedor. Não houve tempo suficiente pra que eu o visse emergir de seu mito de herói, transformar-se num ser humano comum, emotivo, hesitante e falível como qualquer um. Deve ser por isso. Sim. Deve ser por isso a carência que sinto, meu incômodo extremo com a falta atual de valores firmes, honestos, íntegros, uma versão moderna do senso comum — simples, claro e indiscutível — que permeava a família quando eu era pequena.
O excesso de informação a que somos expostos resulta numa ausência generalizada de discernimento, ou pelo menos contribui para ela. Ficamos todos à mercê de uma onda amorfa de opinião pública, freqüentemente enfatizada pela imprensa. Sem medo do risco de que me considerem careta, sinto falta de um código transparente de comportamento que passa, às vezes, pelo pai repressor, mas sempre amoroso educador. Eu tive um, mesmo que a convivência tenha sido breve. É o que tem feito uma falta enorme na cultura contemporânea, e foi o que encontrei a noite passada, na sala de visitas do meu vizinho de porta. Me deu uma saudade enorme de confiar em alguém que, com toda certeza, superasse meu próprio conhecimento. De ouvir, de trocar idéias, de buscar conselho, consolo, conivência. Em outras palavras: de pedir colo. De ser filha. De ter um pai. O jeito calmo e as mãos expressivas do senhor elegante à minha frente, enrugadas, irrigadas por grossas veias azuis, foram logo me deixando à vontade: — Senta, minha filha. Senta onde você quiser. — Daí até o assunto principal foi um enorme preâmbulo relaxante, em meio a histórias de outras filhas — estas reais, felizes ou sofridas, do Rio a Riyad — sempre no bojo da mão amorosa e firme: — O marido chegou a agredi-la, imagine. Tivemos que tirá-la de casa e levá-la para morar conosco. — Me arrepiei bem depois da hora com a falta que um pai me fez, nos muitos transtornos emocionais que enfrentei. Mas o mais marcante ainda estava por vir: aquele pai-de-minuto tinha perdido a mãe para o alzheimer. Perguntei como foi. — Ah, minha filha. Aquilo não era vida. Nem pra ela, nem pra nós, os cinco filhos, todos vivos naquela época, — e acrescentou — agora só restamos eu e uma irmã. Como bom católico praticante, eu rezava todas as noites para que Deus a levasse. — Nossa. Eu penso nisso às vezes, sabe? Mas me sinto tão culpada... — Culpada de quê, minha filha? Deus não nos deu a vida para tanto sofrimento, e nesse caso, mais ainda para os filhos. Porque a mãe já não sofre tanto, quase desligada do mundo. A pessoa vive, depois adoece... e morre, e morrer é o quê? É viver na lembrança de quem fica, na memória do carinho, do amor, do respeito. Coisas que esta maldita doença acaba destruindo. Hum. Suspiro fundo, enquanto o meu silêncio se ocupa em concordar. — E como foi que ela morreu? — Em casa. Dormindo. No quarto com ela no fim de semana, numa conversa íntima e franca sem a certeza de estar sendo ouvido, mostrei a ela os filhos crescidos, unidos, maduros: estávamos bem. Não sei se foi isso, se foi meu relato que a deixou tranqüila. Ou se foi simplesmente o tempo decorrido. Dois dias depois, ela faleceu. Mais silêncio, ah, sim. Nosso assunto principal de vizinhos, eu ia me esquecendo, ah, bem, acho que agora já nem interessa tanto. Pelo menos pra mim, já não parece prioridade o apartamento pra alugar — onde eu gostaria de instalar mamãe — que me trouxe até aqui. Valeu mais pela dose carinhosa de aconselhamento dele, pela presença segura e reconfortante da figura paterna, mesmo quando não passa de símbolo. Ah, gente. Trinta e cinco anos se passaram, e ainda não estou pronta para ser órfã. Nessa minha carência, não há pai interior que dê jeito, juro.
A gente xinga a máquina, maldiz, mas às vezes a surpresa é boa, vejam só: acabei de encontrar o rascunho do post perdido de ontem, arquivado no blog errado. Vale a pena conferir, apesar do assunto repetido... o texto tem sua graça, e é melhor que o que se seguiu:
Este emprego de blogueira, fala sério, é dos piores que existem. A gente lida, não com a falta do assunto, mas com um excesso endêmico dele. Depois é o trabalho de formiga de embaralhar tudo aquilo, separar as peças, classificar por cores e remontar tudinho de um jeito inesperado, criando ineditismo onde não existe novidade nenhuma, só mesmice. Não ganha nada, trabalha nos fins de semana e até doente. Não tira férias nunca e ainda compete num mercado monstruosamente amplo, não para trabalhar menos, como a maioria dos trabalhadores normais, mas para trabalhar mais. Ter mais visitas. Ser mais lido, mas peraí. Tem pior, gente. Tem pior. Pior que ser blogueiro e falar do cachorro, da dor de dente, da falta de namorado e do mistério da balada, é ser blogueiro metido a escritor, filósofo, colunista de jornal. É duro, gente. Tem que ser mais inteligente, mais gramaticamente correto, mais original e ousado, e além do mais manter, sob chuvas e trovoadas, uma atitude profissional num mercado de trabalho que vai e vem não por mês, não por dia, mas... por hora. É, gente. Nossa audiência é medida por hora, e dela depende o nosso prestígio, o nosso futuro nessa profissão ingrata da qual não abro mão. Adoro blogar. Mas tem algo de errado aí. Tá certo que a liberdade do blogueiro, a independência de editor, de patrão, e em última instância, até de gosto de (e)leitor*, é algo que todo mundo inveja. Usar o blog como trampolim pra uma vida boa, mais tranqüila, mais relaxada, é até bem fácil: ninguém confessa, mas ter e manter blog pode ser melhor que divã de analista, e neste aspecto, a economia é boa: no bolso e na alma. O blog é uma espécie de amante, se é que vocês me entendem, dá um prazer danado, mas só funciona bem quando existe um marido oficial: um emprego (bem) remunerado. Em resumo: ser blogueiro não é profissão. É hobby. Errado é quando o hobby te consome a um ponto... que não sobra energia pra mais nada, mas fala sério, se assim não fosse o texto aqui no blog não passava de porcaria, coisa dispensável, chata, repetitiva... e não daria futuro, prestígio, alavancada no ranking: um vício sem remédio. Mas hum. Não era sobre isso que eu queria escrever. "Isso é nefasto para a sociedade", afirma em entrevista para o Megazine do Globo a psicanalista Lulli Milman, "pois a vida não anda". Refere-se a doutora à tendência que os jovens têm de permanecer cada vez mais tempo na casa dos pais, segundo ela, um desejo inconsciente de eterna juventude: os pais não envelhecem, os filhos são eternas crianças. Mas o que eu quero analisar aqui é um pequeno aspecto desta afirmação, ui, que não tem nada a ver com pais, filhos, e hum, em última análise, com o que é nefasto para a sociedade: a sensação bem real de que a vida não anda. E eu até entendo porquê. É que mudanças no comportamento são mesmo lentas, gente. Se alguém duvida, basta conferir online, e direto da fonte — que o Noga Bloga, quando pode, vai mesmo fundo —, porque as mulheres preferem o pink, apesar de uma moda que insiste no preto há décadas. E voltando ao assunto do post, eu quero dizer com isso o quê, mesmo? Falando sério, nem eu mesma sei, e é este o pior problema dos blogs: o texto de momento, improvisado, datado... e mais volátil que cotação na bolsa, só pra usar o jargão do momento e pegar umas tags de pinga. Listo a seguir as respostas possíveis, votos para a redação: * é, gente. danou-se. leitor agora virou eleitor: além de ler, ainda tem que votar, pode?
O post já ia longe quando de repente, não mais que de repente, o incontrolável painel deslizante embaixo do teclado — em outras palavras, o sensível demais pro meu gosto 'touch-pad', que no notebook substitui o mouse — me enfiou na cara a ampulheta metida, com seu barulhinho típico de hard disk enrolado (coisas de memória limitada), ai, gente, de novo? Pra variar, o backup falhou... e tudo se apagou num segundo, fala sério: quase desisti. Afinal de contas estou aqui de roupão, com gripe, indisposta e infeliz. Quem é que consegue trabalhar assim?
— O blogueiro! — responde com um dar de ombros desdenhoso, entre triunfante e irônico, meu eu escritor, aquele, vocês sabem: um ser superior, charmoso e livre, que só escreve quando baixa a inspiração. No resto do tempo ele bebe, lê (livros, não blogs), viaja, faz sucesso, se apaixona, transa muito e goza mais ainda, dá autógrafo, dá palestras e conselhos aos novatos ("desistam!"), em outras palavras: vive intensamente. Pois só quem vive intensamente tem assunto pra escrever. Já com o blogueiro, o negócio é outro. Gozando ou não, escreve todo dia, e pouco importa o assunto: escreve sobre o cachorro, sobre a dor de dente, a ressaca e a falta de namorado. Tudo coisa de momento, que dura online pouco mais que um momento, principalmente quando um toque involuntário no teclado leva embora a tela do blogger, taí, excelente metáfora: o que se diz em blog não se escreve, ou melhor, até se escreve. Mas não se publica, uai, gente: se está no blog já não foi publicado? Ah, bom. Não se publica em livro, Noga. Isso, todo mundo sabe. Enquanto lamento a dissertação perdida sobre os ups and downs de ser blogueiro — com meia dúzia de considerações brilhantes das quais, sinceramente, já nem me lembro —, desprezo arrogante o aviso do destino e retomo exatamente o mesmo tema: ser blogueiro, hum. Já sei que isso não vai dar certo, mas pelo menos, não repeti a palavra "assunto". Ser blogueiro profissional: um oximoro. Já que o blogueiro, com toda a liberdade (literária e literal) de que dispõe, é essencialmente... um amador. Se escreve todo dia, é por puro amor. Escrever em jornal é emprego. Mas em blog, é diversão. Pra escrever a sério, ser mesmo um profissional, quem tem blog tem que ser insistente. Insistente mas iludido, se é que vocês me entendem: um desempregado fingindo que trabalha. E mais: carregar nas tags, nos links, e tratar de inscrever o blog em todos os feeds que aparecem. Jornal tem prazo, reunião de pauta, editor e revisor. Blog tem preguiça, falta de assunto, cara-de-pau e corretor de texto — ferramenta que aliás, nem sempre funciona, e nisto até se parece com o revisor de jornal, só não pode é levar a culpa: qualquer deslize em texto de blog é responsabilidade única e exclusiva do blogueiro. É, gente: a liberdade tem seu preço, e custa sempre mais caro. O jornal recebe cartas dos leitores, centenas, milhares. Mas só publica as que o interessam. Já o blog recebe comentários, vocês sabem, publicados automaticamente, sem seleção nenhuma: quem manda em blogueiro é o leitor. Bem. Às vezes. Comentário de blog, quando existe, é uma questão complicada. Tem o problema dos pseudônimos... e da freqüência. Se os comentários são poucos, o blogueiro é ruim. Se são muitos, o blogueiro é ruim. Quem fala bem do blogueiro é puxa-saco e quem fala mal, agressivo. E se o leitor pesar na mão, e o blogueiro apagar... ninguém hesita em classificar: é censura. Mas o pior censor do blogueiro profissional, eu garanto: é ele mesmo. Como neste post, caramba: este texto não rola mesmo, desisto. Vou voltar pra cama. Afinal de contas, blogueiro profissional que se preza não escreve por obrigação. Nunca, ouviram? E encara de frente, ainda por cima, a mais dura e cruel das decisões: apago este post ou não?
Sabe aqueles dias em que você não quer nem comer, pra quê isso, se vai pôr tudo pra fora mesmo? Não quer arrumar a cama porque vai se deitar de novo, não quer ler o jornal que só tem notícia velha, não quer se aporrinhar e nem transar, porque afinal de contas, você se excita, goza, sente aquele tchan, mas no fundo no fundo é tudo uma mesmice que não dá em nada?
É tanto assunto que fica difícil encontrar assunto. Uma notinha perdida no Segundo Caderno — ah, quem dera fosse minha, penso, o pensar não dá pra evitar —, sobre o lançamento de um livro que ensina tudo sobre vinhos, reconhece que é humanamente impossível saber tudo sobre vinhos, e de acordo com o título, só uma coisa importa: gostei; não gostei; então pra quê comprar o livro? Mesmo se for um Romanée-Conti, eu hein, coisa de novo-rico ou de político em ascenção, gente que não tem o que fazer, Deus que me perdoe. Deus que me perdoe porque não estou aqui pra falar de vinhos, nem de políticos, nem de corruptos, nem de jornal. Nem de lançamentos literários nem do ceticismo de um amigo que num vôo pra Sampa pousou em Congonhas mesmo e escapou com vida, pasmem, porque não liga nem um pouco para tudo isso que está aí, sensacionalismo puro, e é mesmo — bem, quase puro —, e eu então vou falar de quê? Dos meus espirros, da minha gripe devida ao stress, da dor no corpo? Da cabeça mole, pra não falar do miolo? Da vontade de não sair da cama, de dormir o dia inteiro? E apesar do estigma que recentemente a contaminou, vocifero a palavra-chave: C-A-N-S-E-I. Não, gente. Eu não sei o que é importante, e pra falar a verdade, nesta altura da vida, já esperava saber. Encontro algo ao que me agarrar, me entrego, dou meu sangue à causa... pra descobrir mais tarde que era tudo inútil, ilusão, engano, que a vida verdadeira não é nada disso. Nadinha. Ter estilo? Pra que ter estilo? Pra que falar tanto se no fundo no fundo as coisas se resumem a uma coisa só: amo. sou amado. amo sem ser amado. sou amado mas não amo esta pessoa, uai, não era uma coisa só? Houve tempos, a Carla diz, em que bastava ler o jornal de manhã pra saber das coisas. Hoje não, como já disse o Caetano, quem lê tanta notícia? Quem vê tanto blog, tanto portal, tanto canal, quem lê tanto livro esquecido, perdido em lista de espera de crítico? Ou formador de opinião? Quem precisa de tanta informação? Tanta obrigação? Tanta superação? Ah, gente. Tô precisando é de dar um google na minha vida. Hoje em dia, todo mundo sabe, não é preciso saber de mais nada, ou pelo menos reter na memória o conhecimento de nada: está tudo no google, você vai lá, pesquisa e lê na hora, então pra quê? Gosto? Estilo? Opinião? Verdadeiramente me diga, quem liga? Quem tem tais coisas hoje em dia? Cada texto, cada certeza, cada atestado de conhecimento é nada mais, nada menos, que um pastiche do que já foi dito, escrito, listado no google, ai, que fastio. Enjoei de tudo. Ainda bem que no fundo fundo, sei que é só a gripe. Que amanhã de manhã, se eu acordar melhor, estarei novamente achando graça em tudo, cheia de pique, de ilusão, de boa-vontade para com o futuro, hei, f-u-t-u-r-o? Será? Que a gente tem futuro pela frente? Bem. Nunca se sabe, e a beleza toda está aí. No fundo no fundo ninguém sabe nada, e o que prestava pra hoje, não presta pra amanhã. Tudo depende do seu humor, bem, tudo tudo... não. (Se tem uma coisa só que eu quero ressaltar neste post apesar da tosse, do nariz entupido, do meu olhar marejado, molhado de vírus, é que esta idéia de comparar violência urbana com os males da ditadura não faz o menor sentido. Tá certo que os torturadores do DOPS eram bandidos. Hitler era bandido. Mao Tsé Tung era bandido, Stalin sim, Pol Pot, Átila o huno, nada mais que bandidos. Torturavam. Roubavam. Matavam. Mas afinal de contas, não dá pra esquecer. Eles eram — e aqui me repito: não dá pra esquecer — cada um em sua época, o poder estabelecido, coisa que bem poucos discutiam. Vão querer me convencer agora de que os bandidos do tráfico no Rio são a mesma coisa? Não pode, gente. Não dá pra aceitar, nem mesmo cogitar isso. Ou estaremos pra sempre perdidos.) Fechado o parêntesis do extremo absurdo impresso, posso voltar à minha insignificância. À minha vontade de não fazer nada, de não saber nada, de não afirmar nada. De ser apenas uma mulher com gripe, com tédio, com dor no corpo e quem sabe na consciência, afinal de contas, preciso fazer alguma coisa... confusa? perdida? iludida? Ai, gente, onde foi mesmo que eu li isso? Que quem afirma que sabe tudo é só porque finge saber tudo? E no fundo no fundo sabe que não sabe nada? Nadinha? É isso. Antigamente era bem mais fácil: a gente lia Tolstói, entendia Tolstói, e citava Tolstói: todas as famílias felizes se parecem, etc etc, ou não era Tolstói? Era Dostoiévski? Ou Solzhenitsyn? E isso, só pra ficar nos russos, mas hoje em dia é pedaço de filme, de vídeo no youtube, de crônica não-sei-onde no blog de não-sei-quem, uma cultura triturada, pulverizada, e que no fundo no fundo não serve mesmo pra nada. Porque a única coisa que me interessa mesmo, nesta segunda-feira, é o efeito infalível do xarope contra tosse. O resto? É tudo aspirina.
Quando eu era garota escova progressiva não existia, claro, mas a questão dos cabelos lisos, sim. A gente praticava um tipo diferente de tortura, a assim chamada "touca": enrolava os cabelos ainda molhados em volta da cabeça, prendia com pinças e pressionava com uma meia de náilon (ahn?), deixava metade do dia, depois virava de lado e deixava o resto do tempo. O resultado era satisfatório mas demorado à beça, e sempre ficava uma ou outra marca de pinça. Mesmo assim, ninguém saía de casa sem ela, e lavar cabelo era complicado, um ritual complexo e freqüentemente adiado. Ainda tinha o problema do clima: se estava muito úmido o cabelo escorria; se muito seco o cabelo encolhia. Eu era insegura pra caramba, e não me aceitava de jeito nenhum.
Pelo menos no quesito cabeleira, isto hoje em dia até que mudou. Mesmo com ela crespa e compridíssima — sei, sei. na minha idade não cai nada bem, mas o Alan curte assim e pronto — não raro vou pra cama logo depois de lavar; no dia seguinte, é só passar o pente e pronto: um penteado perfeito, ou melhor, a perfeita falta dele... mas é assim que eu gosto, e não ligo nem um pouco pras opiniões em contrário. Já em outras áreas da minha vida não tenho tido a mesma sorte, ou quem sabe, a mesma sabedoria. Profissionalmente então, desde que optei por ser escritora, tem sido um verdadeiro inferno. Apesar de acreditar na qualidade e originalidade do meu texto, me sinto culpada e francamente envergonhada de sair por aí apregoando isso. Quem acha que eu me promovo além da conta vai até se espantar, mas gente, é a pura verdade: sofro à beça com isso. Num mundo plenamente narcisista como este da internet, autopromover-se é a coisa mais normal, mas não sei porque, todo mundo critica... como se fosse crime: hipocrisia pura. Já fui quase expulsa dos comentários do Todoprosa por não perder oportunidade de falar no meu livro lá, mas pensem bem: se eu não fizer isso, quem é que vai fazê-lo por mim? Como é que vai ser? Tá certo que o espaço online é amplo. Amplo e indiferenciado, e tome de acrobacia pra se destacar na multidão. A gente lida com todo tipo de limitação, trabalha todo dia de graça (ih, gente. tô encasquetada ultimamente com esta questão, deve ser o desespero financeiro), e ainda querem nos empurrar um assessor de imprensa? No meu caso, por exemplo: com vergonha ou sem vergonha, o fato é que com meu passado de designer — e publicitária — tenho talento e capacidade suficientes para criar — e veicular —anúncio e comecei hoje mesmo, com o AdWords do Google. Também sou perfeitamente capaz de escrever um press-release, mas aí a coisa pega: enaltecer a si mesma? Hum. Não pega nada bem. E mesmo que desse pra superar isso, não ia adiantar grande coisa. Destino de release enviado à redação pelo próprio autor não é nada nobre, já dá até pra imaginar qual é: E no entanto, muita gente boa advoga a autopromoção, como neste artigo do NY Times (acham até que é obrigatória): "Quando um colega escritor me qualificou como 'mestre da autopromoção', senti um frio na barriga. O fato dele acrescentar 'no melhor sentido' não aliviou minha aflição." Confere lá. Voltando ao Todoprosa: nessa semana mesmo, comentando um artigo interessante do Sérgio Rodrigues sobre a necessidade de editores na internet, eu disse que fazia questão absoluta de submeter meu texto a críticos experientes, com espaço na mídia impressa. Ao que um gaiato respondeu que se eu dizia isso... era por meu livro não estar vendendo nada (verdade: a distribuição só está começando agora). Ora, gente. Basta de falsos pudores, de sucessos forjados, de orgulho humilhado: vamos cair na real e pronto. Vender como, se não puder promover? Como diz a epígrafe talmúdica no início do Hierosgamos, quem já baixou, leu: "Se eu não for por mim, quem será?" Tudo isso pra justificar as recentes atitudes promocionais aqui no blog, como o capítulo grátis em pdf (um sucesso de download!) e o banner autoveiculado aí de cima: vendo sim, e quem quiser comprar, compre de mim. Afinal de contas, a casa aqui é minha, e é da boa educação honrar sua anfitriã. Além dos direitos autorais, levo comissão de 4% na Cultura, sim senhor (com qualquer livro que vier do meu clique no banner deles), ou vocês querem que eu viva de quê? Ah. Antes que me esqueça: uns meros cliques nos ads do Google também contribuem com algum trocadinho. Não chega a ser um salário, bem, mas pra quem me lê todo dia, dá um certo apoio moral, não é, queridos? Não há vergonha nenhuma nisso. É toma lá dá cá, e bom domingo pra vocês.
"É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus." Joshua ben Joseph
Em tempos de crise é uma atitude normal: apelar para o apoio espiritual. E com Karen Bishop, arauta dos Novos Tempos, não poderia ser diferente. Um alerta de energia, quando a economia global resvala morro abaixo, não podia deixar de rolar. Sempre à frente dos acontecimentos, Karen & Phil abriram mão de sua propriedade duplamente hipotecada e se instalaram, desde o mês passado, num chalé alugado da cidade vizinha, sem aquecimento nem nada e ainda por cima, com o telhado furado. Preciso ser justa com ela: bem antes das coisas se precipitarem, Karen já vinha considerando a possibilidade de emigrar, intenção hoje reiterada, numa tentativa concreta de escapar ao desastre.
"Aqui nos Estados Unidos", ela diz, "as mudanças vêm ocorrendo de forma dramática. Nosso país inicia a derrocada final... que deve vir rapidamente agora. O tapete foi puxado, e já não resta muito a que se agarrar. A superpotência que acreditamos ser precisa conquistar um poder legítimo. O velho falso poder deve perecer, nada mais resta para mantê-lo vivo. Mas trata-se apenas do processo normal de ascenção e evolução."
Ah, bom. Não é o mundo que está se acabando (ainda). É apenas o mundo financeiro, calcado, como todo o mal do planeta, em pura ilusão. Seria o primeiro-mundismo americano nada mais que um castelo de cartas? Ou trata-se apenas do rumo natural das coisas? Esotérico que se preza, todo mundo sabe, condena a hegemonia do dinheiro desde criancinha. Trabalhar sempre, mas cobrar... nunca, e tome de culpa, tornando a vida impossível. Quem já foi, como eu, espiritualista — terapeuta alternativa, designer de jóias energéticas, escritora de auto-ajuda, etc etc, até cair neste ceticismo frio e reducionista —, sabe como é difícil conviver com este tipo de tabu. A própria Karen insiste numa futura sociedade sem moeda, mas sinceramente, não consigo antecipar como isto funcionaria: falta de imaginação pura. A verdade é que, em nossa civilização essencialmente materialista, a riqueza foi sempre prima-irmã do pecado, como afirma aí em cima, na epígrafe do post, Jesus de Nazaré em pessoa. Entrar no reino dos céus, todo mundo sabe, é um bom eufemismo pra morte e na morte, nada de terreno se leva. Vem daí, quem sabe, a crença arraigada de que pra ascender — ou evoluir —, é preciso abrir mão dos bens materiais. Nada contra. Faço isso praticamente todo dia, voluntariamente ou não, e não engulo a idéia de trabalhar pra sobreviver (antes que me chamem de patricinha, ou me acusem de vil burguesia, esclareço que o que me dói é não poder me dar ao luxo de trabalhar de graça em paz, como aqui no blog, por exemplo. Vai ver que escrever em blog é mesmo coisa típica dos níveis espirituais mais elevados, olha aí a velha xamã falando). Alan Sklar, no Hierosgamos, alerta o leitor para o que verdadeiramente tem valor: "...estamos aqui por pura opção... pratique o equilíbrio e a moderação em tudo... exceto no amor, chérie. viva espiritualmente, escolha o bem... é do bem que fazes que prestas contas perante Deus... nada mais... não faz sentido uma existência egoísta, autoconsumista... chegar ao fim sem ter feito nada além de acumular bens... o significado da vida é doar, amar... é fazer o bem, como estamos fazendo: um perante o outro nus, completamente sem medo... é por isso que teclamos freqüentemente a mesma coisa... pensamos igual."
E a Karen, pelo menos, concorda. Se sente bem, completamente feliz, na cama com seu amor sob as goteiras da cabana urbana que adotou. Adora o jardim, a paz, o tempo livre, e nisto estou com ela e não abro: aqui em casa é assim também, todo o tempo do mundo dedicado à arte e à prática do amor, e isso é que é importante: nossa própria versão de paraíso, sem nenhuma obrigação a cumprir. Um estilo de vida que não combina nada, é claro, com amor ao lucro. Tell me about it. À frente do tempo eu também estou. Há quase três anos resolvi trocar minha segurança material, meu dinheirinho suado e muito bem guardado, pela (a)ventura de encontrar um companheiro. E segundo a Karen, fica mais do que provado que optei pelo caminho certo. Afinal de contas, do jeito que a coisa vai, toda ambição vai acabar em pó, e o reino dos céus finalmente se abrirá aqui na Terra . Se eu fosse você, pensava nisso agora mesmo.
Lá vou eu de novo meter a mão em cumbuca e falar do que não entendo. Bem. Não entendo em parte. O que não se discute é meu apreço literário por terreno emocional minado. Tem gente que é um deprimido simples, daqueles que sofre até um determinado ponto, atinge o limite e pronto. Se mata na forca, no tiro, na overdose. Eu não. Mantenho esta obsessão por me matar com palavras — no mínimo uma vez por semana —, e o que é pior: espirro os restos no leitor. Quem vem sempre aqui vai ver que gosta. Ou então vejamos por outro lado: quando vejo o perigo à frente, tomo como missão botar a boca na mundo. O caso de hoje não sei qual é, e quem decide é você.
Só pra variar esta que vos fala, a que nunca assiste novela, vai buscar assunto na coluna de tevê. Patrícia Kogut, em seu controle remoto, anuncia o amor gay da vez na TV Globo, criado especialmente por Aguinaldo Silva para comover multidões: "um personagem homossexual terá tanta afinidade e afeto por uma amiga que optará por ela em detrimento de outros relacionamentos. Em determinado momento — adianta o autor — eles vão transar." É roubada, gente. Roubada pura. Já estive lá e não foi por pouco tempo não. Neste assunto sou peagadê, e dez anos depois do fim de outros dez anos de puro sofrimento, ainda tenho às vezes vontade de me matar por causa disso. Vocês sabem como é mulher. Gosta de homem mas lamenta a virilidade, o desleixo, o bloqueio de sensibilidade que às vezes vêm junto. Sonha acordada com aquele cara ideal: charmoso, cuidadoso, talentoso e mais meia dúzia de osos e ades com os quais se identifique, que goste de arte, de shopping, de chorar baixinho no escurinho do cinema. Que compartilhe com ela jeitos e assuntos e que na cama, por puro milagre, solte de vez os cachorros da testosterona num tesão infinito, depois, é claro, de acariciá-la docemente por horas, com um desinteresse prévio de animal doméstico. Um cara desses, hoje em dia, até existe. Mas continua sendo raro. O mais comum é a gente fantasiar aquele amigo gay, tão lindo, tão doce, tão... amigo, tão disponível, e tentar transformá-lo em amante perfeito, mas gente: é uma batalha perdida, e no fundo no fundo, um desrespeito à individualidade. Sua. Dele. Mesmo que os dois acabem transando. Eu sei. Aconteceu comigo. Eu entendo que a sexualidade tem matizes, gradações, liberdades e indecisões. Mas lá em casa, por mais que a gente se amasse, por mais que a gente tentasse, o muro alto entre nós permanecia. Era uma insistência tal da carência de um, pra cima da afetividade do outro... que só poderia mesmo acabar em desastre. E foi em desastre que acabou. Depois da história fechada, claro: cada um tece a memória à sua maneira. Eu só queria o bem dele — acreditava piamente nisso —, e em certo momento abri mão do gozo do corpo, me contentando com o gozo da mente. Gente. Não vale a pena porque se a mente é de gente, o corpo é de bicho, se é que vocês me entendem. E ele, tentando se erguer dos escombros tristes do nosso amor destruído, saiu-se com essa de sempre ter sido o melhor amigo, um sócio, um parceiro de negócios. Fui eu que com minha mania de sexo atrapalhei tudo. Não atrapalhei nada, e a dolorosa face da minha verdade é que eu queria o que eu queria, e ele o que ele queria. Em longos dez anos de nós dois, foram poucos os momentos de querer o mesmo. Aguinaldo garante que existem muitos casais assim, e se ele diz é porque sabe. Mas não há nada de belo, poético e compensador no mito romântico do amor impossível, isso quem garante sou eu. Amor bom é o amor viável, plenamente satisfeito, o amor com intimidade, afinidade e entrega, e em se tratando de uma relação adulta, com o prazer sexual atendido. Não há nada de belo na renúncia e no comodismo, por mais que em novela até pareça atraente. Essa idéia de herói sofredor já era, gente, e não existe desculpa, esperança ou feitiço que dê jeito em mal que já nasce feito. Amigos, amigos. Um companheiro de verdade, me acreditem, é outra coisa.
"A acompanhante, imagine, dopava o casal de idosos e saía pra namorar, deixando os dois em casa sozinhos. Numa dessas, exagerou na dose... e a senhora morreu durante a noite", é o que me conta C., a simpática, doce criatura responsável por mamãe nos últimos três anos. Acabei de demiti-la, com a desculpa bastante real da contenção de despesas, mas cá entre nós, nunca engoli esta mulher. Venho trabalhando no assunto há quase seis meses, procurando uma alternativa viável ao esquema dela e tentando convencer a família da urgência em substituí-la. Me entendam bem: mamãe é assistida 24 horas por dia por duas cuidadoras zelosas, nas quais depositamos toda a confiança do mundo (espero que merecida). A ex-funcionária em questão exercia a função de "coordenadora da equipe" — ? e mais: ???? —, e o processo de demissão em si levou 2 semanas, durante as quais fui forçada a escutar de C. os mais escabrosos casos de maus-tratos a idosos, tudo numa tentativa patética de me provar, por a+b, a absoluta necessidade da presença dela para a segurança e bem-estar de mamãe.
Até apelar para a possibilidade de apoio financeiro da comunidade judaica esta mulher apelou, ao me contar a história de um casal que acabou se suicidando por falta de recursos, fala sério. Eu disse a ela: — Não, C., graças a Deus, não. Não é o nosso caso. Agora vocês sabem o que passei nos últimos dias: vi desenrolar-se à minha frente, ao vivo, um script legítimo de um desses filmes B de terror, transformando o tranqüilo Alto-Leblon numa massacrante Silent Hill. Enquanto especulávamos várias casas de saúde para mamãe, escutei a horripilante criatura listar as desvantagens de cada uma, tudo, é claro, com o objetivo francamente manipulador de desestimular qualquer mudança: — Você precisa estar atenta, Noga, pensar bem. No Rio Comprido tem tiroteio todo dia, imagine você, no meio da noite, atendendo a uma emergência de sua mãe em meio às balas perdidas. E os enfermeiros, atendimento médico e ambulatório 24 horas por dia? Tudo mentira. A não ser que você contrate acompanhantes particulares da sua confiança, sua mãe será maltratada, passará fome, tomará os remédios errados. Não é que C. não tenha sido importante. Foi. Recomendada pelo psiquiatra de mamãe para organizar a rotina, pôr fim ao caos que imperava na casa enquanto morei nos Estados Unidos, montar uma equipe de confiança... tudo isso ela fez, e com sucesso. Se fosse, além de competente, honesta... teria ficado lá durante os seis meses necessários e seguido em frente... — Escute, C. — aleguei, amenizando o golpe — o doutor disse que há tanta gente precisando de você. Antes do fim do aviso prévio você já terá outra paciente, não vai perder nada. — Outro paciente? Não, não quero. Tenho sérios problemas de família e vou me dedicar a eles, não quero outro paciente tão cedo. Ah, bom. Era este então o plano perfeito dela: receber um bom salário pra não fazer nada, explorando a nossa boa-fé e insegurança de filhos... e foi por isso que ficou tão revoltada. Há quase um ano, sem que a gente soubesse, C. vinha contratando uma das moças da equipe para substituí-la. E claro, pela metade do preço. Enfim. Já foi. Posso respirar de novo. A noite passada foi de suspense absoluto, eu aqui em casa e mamãe na casa dela, entregue à megera recém-demitida. Tudo correu bem. Impressionante é descobrir a quantidade de pessoas que baseiam seu bem-estar e rotina profissional na exploração da desgraça alheia. O que ela me conta das casas de saúde para idosos, pelo que pude ver, não é tão absurdo quanto parece. O cliente, geralmente filho do paciente, já fragilizado pela triste situação do pai ou mãe e ainda por cima se culpando por tudo — é, gente. numa situação como essa a gente ainda por cima se culpa por tudo — é o pato perfeito para ser depenado. Maldade pura. "Este é o mal que existe em tudo o que se faz debaixo do Sol: o mesmo destino cabe a todos. O coração dos homens está cheio de maldade; enquanto vivem, seu coração está cheio de tolice, e seu fim é junto aos mortos". Está na Bíblia, gente. Está na Bíblia. Já estou quase acreditando.
Embora eu ache meio ridículo — e até duvide seriamente de que a CIA tenha realmente, em seu quadro de funcionários, especialistas em remote viewing —, acabei sucumbindo no fim de semana, por pura necessidade de diversão, ao filme de Sandra Bullock "Premonição", e ainda por cima assisti a todos os extras, fala sério: quem é que não gostaria de um dom deste tipo na vida real?
Sei, sei. De uma certa forma já venho escrevendo sobre isso aqui, discuti a tendência humana para formar padrões baseados no passado próximo, e a maioria dos sonhos "proféticos" poderia ser explicada assim, mas afinal: trata-se de passado, de futuro, de medos projetados ou de desejos ocultos? Se você acha que a questão é confusa, experimente ver, se já não viu — é, gente, nesse eu me atrasei à beça, hesitação pura, pura falta de vontade de jogar fora 8 reais — o "Déjà Vu" de Denzel Washington. (Outro dia eu estava falando pro Alan que o Denzel Washington deveria ser eleito o próximo presidente dos EUA. O cara é simpático, onipresente, de uma integridade perfeita, e convincente à beça... e como o presidente deve ser mesmo manipulado por forças nada ocultas, nada como um bom ator pra convencer a todo mundo de que sabe mesmo o que está fazendo. Brincadeirinha assustadora.) Mas de volta ao filme do Denzel, trata-se de uma fantasia delirante inserida na vida real de nossos dias, e descreve uma rede de satélites — que vigia a mais recôndita intimidade de todo mundo — e de um software incrível que recria as imagens com 4 dias e meio de atraso. Dá pra elucidar qualquer crime — bem, com a desvantagem dos tais 4 dias e meio, o que faz Denzel decidir se transportar para o passado e modificá-lo. Ops. O filme fala então de viagens no tempo? Ninguém me avisou... Vai pra frente? Vai pra trás? Comparando os dois eu prefiro, pasmem, o de Sandra Bullock. Tem um roteiro e uma montagem bem interessantes e passa alguma credibilidade. Afinal, sonhos proféticos acontecem a qualquer um, embora raramente se realizem, claro, e o transtorno mental que a aflige, guardadas as proporções, é bem conhecido de pacientes psiquiátricos, dos esquizofrênicos aos doentes de alzheimer. Já o de Denzel tem furos incríveis no roteiro, o paradoxo de influir no futuro alterando o passado é mal explorado e pessimamente resolvido, e ainda inclui uma lamentável paixão transtemporal que nem Freud explica, déjà vu coisa nenhuma. Além do excesso de barulho, pelamordedeus, no IMDB ainda sugerem que você veja o filme na tela grande e no volume máximo, pra pirar o máximo possível na piração tecnológica deles. Não que o filme da Sandra não tenha furos incríveis no roteiro, ih, gente. Já cansei dessa história, esse assunto é mesmo muito bobo, e mesmo que um dia seja provado que passear no tempo é absolutamente possível, e que passado e futuro não passam de ilusão da mente... Ah. Se eu disser que me perdi nessa vou estar me repetindo, todo santo dia agora neste blog eu tento escrever sobre coisas profundas e acabo me perdendo, mas a verdade, gente, é que nestes últimos dias eu tenho me sentido perdida. Perdidinha. E parece que não há fantasia, não há distração, não há brincadeira nem achado filosófico que resolvam o meu problema de encontrar uma saída para as dificuldades de família quanto à doença de mamãe. Precisamos deslocá-la, vender o apartamento e transformá-lo em fundos para bancar os cuidados dela. Tenho visitado clínicas de idosos, algo que, na teoria, parece muito bom, mas que na prática acaba sendo mesmo um depósito de gente que a gente não quer mais por perto, com corredores escuros, quartos mal-cheirosos... e caros: uma depressão atrás da outra, e mais a dúvida de como ela vai reagir, qual será o grau de sofrimento dela ao enfrentar a mudança... ah, gente. Não desejo isso pra ninguém, embora saiba que hoje em dia cada vez mais gente vem passando por isso. Então tá combinado. Vou sonhar um futuro onde já exista algum remédio pra prevenir o alzheimer, ou que a sociedade tenha evoluído tanto, mas tanto, que existam abrigos grátis, verdes e maravilhosos bancados pelo governo para os nossos idosos. Volto de lá numa máquina infalível do tempo para um passado há uns 10 anos atrás, dou o remédio à mamãe, depois me enfio de novo com ela máquina adentro e a deixo lá, ao abrigo do futuro. Ou simplesmente adivinho os passos da economia mundial, pego uma inside information qualquer no mercado de ações do mês que vem e faço uma fortuna rápida, acabando de vez com as minhas inquietações (ou... me transformo em best-seller, quem sabe... da noite pro dia, isso máquina do tempo nenhuma resolve). Dizem que dinheiro não compra a felicidade. Mas que resolve aí por volta de uns 80% dos nossos problemas, é fato. Não se pode ser feliz só com uma mera disposição pra felicidade, uma vontade irresistível de curtir o seu amor deixando tudo o mais pra trás, ou pra frente, para um futuro ou passado remoto onde não nos incomode mais. Difícil mesmo é conviver com o presente inescapável, e seus esquizofrênicos altos e baixos de cada dia.
"Quando uma pessoa delira, é insanidade; quando muitos deliram, é religião."
Robert Pirsig
Eu sempre guardei na memória a impressão de que o famoso livro de Robert Pirsig, "Zen e a arte de manutenção de motocicletas", tinha mudado a minha vida, uma dessas leituras marcantes, inesquecíveis, mas pra falar a verdade... já tinha me esquecido porquê. Pois hoje, lendo a frase aí em cima na matéria de capa do Prosa sobre o último Richard Dawkins — "Deus, um delírio" —, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, me lembrei imediatamente do motivo. O Bob é lúcido à beça.
Dawkins afirma que a necessidade humana de conforto é um problema. Sou forçada a discordar: conforto é bom, e eu gosto. De resto, concordo com ele em quase tudo. A idéia de religião como um hábito humano anacrônico aparece, como não podia deixar de ser, no Hierosgamos, confere aí: "Religião é coisa primitiva, meu amor: uma resposta datada à consciência humana limitada, mal começando a evoluir... já estamos em outro estágio agora. Quanto a mim, venho batalhando contra alguns conceitos em torno de dogmas, de espiritualidade. Fui muito presa a superstições e rituais, mas ortodoxa nunca. Estou num momento de pesquisa e reflexão, sem ter ainda concluído nada, e apesar de acreditar, com bastante convicção, que a idéia de Deus imposta pela tradição judaico-cristã é falsa, quero dizer, que este impiedoso Deus julgador não existe, continuo invocando o nome d'Ele o tempo todo. " Se nos meus tempos de xamã — como mostra o trecho — eu era presa a rituais, nunca me deixei iludir completamente, e me surpreendi com uma participante do meu grupo de mulheres para quem a espiritualidade se resumia à possibilidade de falar com a mãe já morta. Ora. Para mim não é nada disso, nunca foi, e continuará não sendo. Não acredito no sobrenatural e como Dawkins, me preocupo com a verdade, procurando não chamar minha ignorância de Deus. E Deus então é o quê? Ah, gente, esta é uma discussão complexa, e quem quiser saber o que penso a respeito terá que comprar o Hierosgamos. Mas o tema hoje aqui é outro. Comentando o meu post aí de baixo, o leitor Valtinho afirma que "a perfeição é a matemática! logo qualquer coisa, arte à bordo, para ser perfeita deve ser exata." Mas eu pergunto: o que é a matemática senão uma abstração racional, inventada pelo homem em sua perpétua busca de padrões convincentes? Uma linguagem como qualquer outra, quando utilizada para ler a vida? (por ler, entenda-se: simbolizar, representar, e não substituir) Confundir religião com espiritualidade, código genético com o corpo humano, e nota musical com melodia é um vício racional e limitante de tomar a parte pelo todo. É como reduzir um poema à sucessão de letras, uma tela a pinceladas de cor sobre o tecido. Todos nós sabemos, no fundo no fundo, que a mente humana pode mais, muito mais. Temos a capacidade não só de apreender o todo, mas de transcendê-lo, atribuir a ele um sentido maior, transformador, e é aí que a limitação mecânica pega: máquina nenhuma, equação, ciência, teoria nenhuma é capaz de se adaptar, se auto-reorganizar, resultando em algo imponderável, totalmente diferente da proposta inicial. Não. Não há nada de exato nisso. Entendo (e concordo com Dawkins) que há mistérios insolúveis no universo, bem, insolúveis até que deixem de sê-lo: ser cientista dos bons, daqueles pra quem ciência é pura arte, é derrubar um mistério por dia, e onde é que isso vai parar? Ninguém sabe, e é aí que está a graça. Mas a sensação de que qualquer mistério, uma vez desvendado, nos parece coisinha simples — claro e úmido como água —, provoca essa ilusão de que tudo na vida é quantificável. A gente se esquece que o deslumbramento com a clareza dos padrões se baseia em eventos do passado — ou pelo menos já conhecidos —, e a ilusão de antecipar o futuro é apenas a projeção disso: wishful thinking e nada (de)mais, convenientemente manipulado ao bel-prazer dos crentes — e dos descrentes — para cumprir as expectativas de cada um. O que a gente não entende nos parece misterioso como, no caso aqui do blog, meus recém-descodificados botõezinhos java. Tem coisa mais banal que estes códigos html? Parece coisa de escola primária, ensinando o beabá a quem não sabe ler. E no entanto, seu efeito na tela parece magia pura, um truque pra muita gente incompreensível, experimentem só: o que aparece e desaparece é...
a variável "e":
documento definido pela identidade 'filosofices';
Se o "e" existe
o retorno é verdadeiro;
clique para mostrar:
ou para esconder:
caso contrário retorne ao início.
Conseguiu? Agora. Confundir isso aí com milagre ou magia é que não está com nada, é ignorância pura. E onde é mesmo que a discussão matemática de arte entra nisso tudo? Ah, gente. Tá certo que a música é feita de notas, acordes, compassos. Somos feitos de pele, nervos, carne e ossos. Mas acreditar que isso explica a beleza de uma sinfonia ou o princípio vital num ser humano, é como dissecar um corpo ainda vivo à procura do mistério da vida: o resultado final será, fatalmente, o oposto do que se queria demonstrar*.
*Achou confuso este post, meio chegado a conversa de botequim em dia de bebedeira? Pois saiba que a nova filosofia é assim mesmo: metida a hermética, mas perdidinha. Todo mundo mete a mão na colmeia e tira de lá o mel que lhe cabe pra se lambuzar. Eu também.
Meu ex-marido MG, arquiteto premiado pelo IAB, tinha um tremendo bom gosto. Dono de um traço maravilhoso, preferia desenhar gordas, mas mesmo me achando gorda demais nunca quis me desenhar. Eu tinha este projeto, vocês sabem, um livro de poemas ilustrado por ele, que jamais topou nenhum projeto em comum. Aliás, nunca quis compartilhar nada, que dirá um mero livro de poemas inéditos, e ainda por cima, provavelmente autopublicado.
MG era professor de história da arte na universidade, e ensinava a seus alunos o juízo de gosto, uma espécie de cartilha pra admirar obras de arte (hum, estou discreta hoje, repararam? Emegê e pronto, uma espécie de inicial genérica pra meus ex-companheiros de Brasília, mas trata-se, neste caso, do MG acadêmico, não de MG Lorca, o espanhol). Durante o tempo todo em que estivemos juntos, MG só publicou um artigo. Como não podia deixar de ser... sobre juízo de gosto. Discutimos muito por causa disso, ele querendo quantificar tudo, eu evitando quantificar o que fosse. O gosto pela arte, eu dizia, é qualidade inata da alma... como é que se ensina isso? Para MG, um metódico nato, disciplina era tudo. Planejava fazer um curso de análise matemática da música clássica, sim, gente, Mozart pra ele era uma questão de cálculo. Foi por causa dele que acabei embirrando de vez com nosso poeta maior, João Cabral de Melo Neto. MG dizia que o João Cabral era cerebral, frio, calculado, era por isso que ele curtia a poesia dele. Eu, hein? Nunca parei pra conferir, reconheço, falha minha. Mea culpa, mea maxima culpa, mas arte de verdade, pra mim, é o que faz chorar de emoção, quase pára o coração de susto. Tá certo. Não precisa chegar a tanto. O fato é que eu finalmente confirmei: a gente traz mesmo embutido um juízo de gosto, um faro infalível, que não carece de cartilha nenhuma. Não importa o que diz a crítica, o marketing, o pai, a mãe ou o namorado, o que é bom a gente sente e estamos conversados. Pois ontem à noite, arrasada, depois de 15 horas de trabalho insano sem parar nem pra fazer xixi, resolvi assistir ao recém-lançado em dvd Miss Potter, com a potencialmente chata Renée Zellweger, ela mesma, aquela do engorda-emagrece-engorda agora meio gordinha, e daí? Ainda por cima, na história, uma escritora e ilustradora de livros infantis — sorte dela, não precisou de parceiro nenhum —, assunto que não tem nada a ver comigo, mas gente... o filme é tão bom, tão sensível, tão convincente... (se é fiel não sei. Alan disse que no primeiro mundo toda criança que se preze devora sem mastigar a coleção de coelhinhos de Beatrix Potter mas eu, brasileirinha, nunca tinha ouvido falar nela, e não, não tem nada a ver com o Harry...) Você dormiu no meio? Nem eu, nem uma cochiladinha, e olhem que sou mestra nisso: afinal de contas só vejo dvd na cama. Quanto a Miss Potter, uma mulher à frente de seu tempo que só tinha ouvidos para o próprio coração, era uma artista, no mais puro sentido do termo: a antítese de qualquer calculismo. Não sabia sequer quantificar a própria fortuna e certamente, não seguia cartilha nenhuma. Como aliás, todo artista verdadeiro que eu conheço. Por isso se alguém, algum dia, se atrever a te ensinar como se observa a arte, mande o chato se calar e só escute o que eu digo: ouça. veja. sinta. Quando se trata da verdadeira arte, qualquer cálculo termina em prejuízo.
É, gente. Espero que vocês gostem dos improvements sutis que andei fazendo aqui no blog. Faço com gosto. É tudo pra vocês se sentirem melhor aqui na casa. E quando eu disse que faço, é porque faço mesmo, isto é, eu mesma faço, não tem nada de webdesigner de oito mil reais por aqui não. Pesquiso, roubo um script daqui e dali (o blog da Carla é um dos meus preferidos) e boto mesmo fogo nos neurônios, bem, só pode fazer bem, pelo menos afasta o alzheimer, não?
Agora, claro que como tudo, este método caseiro tem lá suas desvantagens. Aqui e ali aparece um bug e pronto: são horas e horas pra consertar, não vai rindo não, afinal de contas sou velha o bastante pra ser da geração que nem consegue programar gravação de vídeo, ih, gente!, me entreguei, com tevê de plasma e timer-não-sei-de-quê embutido, quem é que ainda programa vídeo? Enfim. Fica o consolo da inteligência, já ajustei muita tralha eletrônica nesta vida. Isso tudo é só pra me desculpar por não ter escrito muito esta semana. Estes meros botõezinhos java espalhados por aí, somados à memória exígua do meu notebook, me exigiram aí por volta de umas 100 horas de quebra-cabeça e briga com o computador, mas pra mim valeu. É sexta. Faz sol. Vou tomar café e caminhar um pouco que já nem sei de que cor anda o mar. Depois escrevo mais, ah, e claro: comentários para a redação.
"Mas fundo na mente, eu sei. Sou eu que te amo mais, e Freud tem tudo a ver com isso. Com o sexo, digo, com o pacote que mandei, meu amor, com carne e tudo. E olhos e pêlos pubianos, calcinhas usadas, it will be soon."
Taí. Não tenho o menor saco pra livro policial, mas com uma resenha animadora dessas, dá até vontade de arriscar este "A interpretação do assassinato", eu nem sabia que o Xexéo lia, pensei que só via televisão. O que prova o pouco que se sabe da vida dos colunistas que a gente tanto admira (ops*), e que o apoio logístico à venda de um romance pode vir de qualquer lugar: fale de mim o quê e quem quiser falar, mas por favor, falem. Vejam. Comprem.
Aí, Xexéo: vou te mandar um exemplar do Hierosgamos (2x) pra ver se cola, embora não combine com teu estilo publicado. Bom. Basta de introdução. Joaquim Ferreira dos Santos, meu mestre de Paraty — este sim, adora o assunto do Hierosgamos (3x) —, já neste ponto do post teria, no mínimo, três coisas pra criticar: 1- o blablablá introdutório: longo demais; introdutório? ai meu Deus. 2- parêntesis e travessões: só criam confusão, atravancando o texto; tenta ler em voz alta pra sentir o drama. 3- a palavra "logística": hum, não sei não, complexa demais; em texto técnico pode até ser, mas em crônica não soa nada bem.
E agora chega de fugir do assunto, que isso aqui não é nenhum divã. Não, gente. Não gosto nem um pouco de romance ou filme policial, mas de Freud x Jung, sim: é meu tema favorito. Minha erudição, claro, mal se compara à do Xexéo — nem à do Jed Rubenfeld —, e eu nunca poderia chegar nem perto dos incríveis diálogos que o Jed criou para a dupla dinâmica da mente, embora o Prosa tenha elogiado os meus. Mesmo sem ter lido o livro de Rubenfeld — o Xexéo, afinal de contas, nem terminou a leitura... e já está resenhando: tempo real perde — eu concordo que sim, a culpa é toda de Jung. Mas só porque Freud, antes dele, já tinha inventado a maldita. E pra compensar criou o gozo, enfiando o sexo na boca de todo mundo ou, fala sério, não haveria Hierosgamos (4x) nenhum. Além de tudo, descobriu a (in)consciência, é: nos tornou responsáveis por todos os nossos atos, porque antes do velho Sig, todo mundo sabe: o culpado de tudo era Deus. Ou quem sabe o Diabo. Não sei se Freud interpretou o assassinato. Interpretou os sonhos, disso eu sei, mas foi Jung que acreditou neles, e foi aí que a coisa pegou. Explicando cientificamente o nosso lado espiritual, Jung pegou de jeito o desalentado sujeito pós-Freud — um réu condenado desde criancinha — e deu a ele, no inconsciente coletivo, os plenos poderes de Deus. Eu, pelo menos, encaro a coisa assim. Na mente de Noga, protagonista do Hierosgamos (5x), os dois brigam o tempo inteiro. Ela acredita nos sonhos, no carma, na sincronicidade. Mas é no sexo que encontra a felicidade. Noga senta o leitor na poltrona do analista e promete contar tudinho: realiza o sonho de publicar o livro, mas na hora de vender... erra no blog o link da livraria, pode? Ato falho puro, dá pra imaginar? E a frustração dos incontáveis fãs... por um mês inteirinho? Essa, nem Lacan explicaria, e é mamãe quem tem toda razão: a vida não é fácil mesmo. Jung, com seu talento e imaginação, foi declarado sim, culpado do nosso pior crime: confiar plenamente na emoção. Também é este o crime do Hierosgamos (6x), Xexéo, cá entre nós: um romance que tem corpo, alma e espírito, e pra apimentar, uma leve pitada de mal-estar da civilização — coisa típica de judeu. Quanto à promessa de não falar mais no Hierosgamos (7x) aqui no blog, bem, vocês sabem: não é fácil se livrar de uma obsessão, e a minha é esta. Freud explica. Mas só Jung justifica.
* se eu não puxar saco de colunista agora, vou puxar quando? aliás, me desculpem o excesso de links no post, mas vocês sabem: quem tem conexões tem tudo.