Noga Bloga: a crônica cotidiana de Noga Sklar

Noga Bloga recomenda:



Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
O livro não é só o que escrevo, mas o que se passa à minha volta enquanto escrevo.
José Castello, em entrevista ao Prosa Online sobre seu novo romance, Ribamar





Eu não disse?

“You solve the world’s pollution problems,” Mr. Tessien said. “You eliminate the need for wars. You eliminate scarcity of fuel. And it happens to be a very valuable market. So from a commercial point of view, there’s every incentive. From a moral point of view, there’s every incentive. And it’s fun and it’s exciting work.”

Extraído de artigo sobre fusão nuclear no NY Times de hoje


Vida de profeta é mesmo dura, gente. Toda profecia autêntica traz embutida em si um paradoxo: qual é o verdadeiro objetivo de quem a faz? Alertar aos que a ouvem contra um mal terrível, sim, mas pra quê? Para evitá-lo? Com que resultado ele se sente bem? Se a profecia resultar errada, prova-se a sua incompetência. E se a desgraça realmente acontece... bem, não poderia haver coisa pior.
Imagino mamãe, coitada, como deve ter sofrido. A cada passo que eu dava, cada novidade que eu arriscava, o comentário era sempre o mesmo: isso não vai dar certo. Abalada pela presumida experiência dos mais velhos, eu já começava insegura, derrotada, optando, não raro, pela premissa errada. De um jeito ou de outro acabava condenada: eu não disse? Era o que eu quase sempre ouvia, num misto de pena e triunfo. Deus me livre da responsabilidade de tentar adivinhar os desígnios deste mundo.
Essa sensação paradoxal de vitória, que me acostumei a ver em mamãe, me veio à mente esta manhã, ao ler as vociferações apocalípticas de Arnaldo Jabor. Só não consigo entender o que ele pretende, mas o que ele consegue, vejo muito bem: uma legião de leitores brasileiros acreditando ver em Bush a besta do apocalipse, um poderoso demônio do mal, soltando fogo pelas ventas obcecado em destruir o mundo. Mas com que objetivo? Maldade pura e simples? Loucura? Possessão demoníaca? Com este tipo de argumento, Jabor se distancia cada vez mais do intelectual sensato, analista equilibrado, mostrando aos adeptos desorientados a melhor saída para uma boa vida, que é o que todos nós queremos. Candidato a Hitler do século 21? Existem melhores, e um deles bem aqui do lado. Não vejo nada de bom nesse neo-antiamericanismo, nem confiabilidade nenhuma nos detratores oficiais de Bush, gente que faz o que pode para manter seu povo na vanguarda do atraso. Prefiro ver nos Estados Unidos a terra prometida da livre-iniciativa, o cenário das mais avançadas pesquisas científicas, onde bilhões de dólares são investidos todo ano pra melhorar nossa qualidade de vida.
Sou contra a guerra, contra todas as guerras, contra qualquer tipo de fundamentalismo, incluído o do Jabor. Não acredito que comportamentos reducionistas sejam vencidos com raciocínios igualmente reducionistas, e extremismo não está com nada. A arena política americana então... engana, gente. Vejam o boníssimo, desinteressado, Al-weltverbesserung*-Gore, do alto de seu Oscar eleitoral, mostrando as verdadeiras intenções. Acreditar que se estivesse no governo este peregrino oficial da paz daria um jeito na ambição americana, é tão maniqueísta quanto achar que Bush quer acabar com o mundo. Nem um nem outro. O mundo hoje em dia é uma vasta, complexa rede de negociações, bem além da capacidade crítica radical de um profetazinho de subúrbio, coisa mais terceiromundista. Bom mesmo para o Brasil seria um bom acordo com Bush na semana que vem, postulando uma vaguinha na farra futura do etanol. Afinal de contas, é tecnologia made in Brasil, quem diria.

*em bom alemão: melhorador do mundo

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Dízimo

Com a idéia de que só usamos dez por cento do cérebro, estamos pra lá de acostumados. Com a definição lulista de elite - como os dez por cento abonados que mandam no Brasil - também. Além disso, e com certeza, esse conceito de elite econômica se estende a nível global. (hum. hum. a nível, tá certo. palavrinha proibida na mídia, é a ressaca da falta de assunto do carnaval, gente) Dízimo, dirão outros, são aqueles famigerados dez por cento de contribuição obrigatória à igreja evangélica, mas o Aurélio é bem mais amplo:
[Do lat. decimu.]
Substantivo masculino.
1.A décima parte.

Certo. Já o dízimo inteligente da humanidade, ou os dez por cento de elite a que quero me referir aqui, são outros bem mais de quinhentos: os que realmente regem o mundo, o mundo das idéias, muito antes que a corriola limitadora do dólar enfie no pote delas a sua mão gulosa. Dez por cento da humanidade, hoje em dia, anda por volta de uns 66 milhões. Caibo eu, cabe você e quem mais goste de pensar, refletir, espalhar no ar suas impressões sobre tudo. Dez por cento até dá pra impôr uma massa crítica, vai ver se devem a isso as coincidências de assunto na mídia, notadamente na blogosfera. Seguindo o meu palpite do outro dia, hoje é a vez da Carla falar sobre o estado de infantilidade da raça humana. É bom sinal. Significa que estamos refletindo a respeito, cansados do paradigma cansado, prontos para evoluir: sintomas de um rito de passagem. Outros dez temas caros aos dez por cento, ultimamente (não necessariamente nesta ordem):
- o realce excessivo concedido à aparência
- a ditadura de padrões
- o poder da palavra
- a importância do orgasmo
- a confusão da ciência
- o excesso de marketing
- a transparência da informação
- o clima
- a democracia intelectual dos blogs
- o otimismo

Pensem (e falem) bem, gente. Não deixem de colocar sua carninha pra fritar nesse panelão de fondue. Sessenta e seis milhões é coisa à bessa. Garanto que estou dentro, o que é que vocês acham? Mas ambição, ambição mesmo, é pertencer ao clubinho fechadíssimo dos que publicam - na grande imprensa - aquilo que pensam: esse aí não deve passar de um por cento dos dez por cento. Tô batalhando pra entrar lá. Me aguardem.

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Falsa ilusão

Uai, gente. Peguei esta num título de matéria, ainda bem que estava "entre aspas", ah, bom. Pensei que toda ilusão era falsa, e sob esse ponto de vista, uma falsa ilusão seria o quê? Uma verdade?

Se eu fosse enfocar a falsa ilusão da aparência, comemoraria o fato: depois de descoberta a verdadeira imagem de Cleópatra, o narigão está entrando na moda, na contramão da ditadura rinoplástica.

Mas se fosse abordar a insegurança do carioca, estranharia a força da convicção oficial contra as milícias. Uai, gente. Esse blablablá ajuda em quê? O que sei: a polícia é corrupta, ineficaz e pouco confiável. Já as milícias, por outro lado, garantem aos moradores das favelas a falsa ilusão da proteção contra o crime. A faxineira daqui de casa, habitante de Rio das Pedras, abre o maior sorriso ao comentar a ação moralizadora da "mineira" no bairro dela, tem o maior orgulho de ter se salvado da selvageria do Vidigal, onde perdeu um filho para a ação policial. Só tem um jeito pra situação... moralizar, aparelhar, restaurar o crédito da polícia, instituição protetora paga pela sociedade, embora os membros dela muitas vezes nos esqueçamos disso.

Mas (falsa?) ilusão mesmo, gente, e das piores, é acreditar que governos, editais e catálogos monumentais de regras podem frear o movimento de democratização da informação, protagonizado pela internet. O Miguel Conde, no Prosa de hoje, traz uma discussão interessante sobre a ampla divulgação de pesquisas científicas, na contramão do lucro das publicações tradicionais. Não tem jeito não. Caminhamos a passos largos, em ritmo de maratona, em direção à transparência total de idéias, descobertas, pensamento.

Disponibilizar a mente no território livre da internet é como caminhar às cegas, ou quem sabe cegados pelo excesso de luz. Fica tudo exposto, e não se sabe bem ao quê, ou a quem. Aconteceu comigo no outro dia. Me envolvi numa discussão no Todoprosa sobre a validade literária dos blogs. Quando fui ver, a interlocutora, com nome mas sem endereço, é jornalista, e crítica literária feroz. Vai saber, no vasto espaço virtual, quem é que nos vê, nos enxerga, nos lê. Só nos resta confiar, dando a cada momento o melhor de si.

E se arrepender do que diz? Uai, gente. Taí uma coisa que na internet não vale. Pode-se até apagar um testemunho, ou um post posteriormente enjeitado: jurar que o autor é clone, plagiador sem honra, um vexame. Mas deletar a impressão na mente de quem a leu... ah, isso. Na rede não passa de uma falsa ilusão. Basta um segundo de opinião online... e pronto. Lá se vai em direção ao futuro, o trem irrefreável da posteridade. Qualquer mais tarde hoje em dia, provavelmente já é tarde demais. Melhor mesmo entregar a Deus.

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A conexão mosaica

Haha. Aposto que com aquela matéria "sexy" de capa no Globo, com 4 ou 5 páginas explícitas sobre o sucesso comercial das sex-shops, e o comportamento avançadinho dos clientes, vocês acharam que acertariam na mosca meu assunto de hoje. Que nada. Azar de quem opta por esses atalhozinhos de segunda.

Na verdade, pensei em escrever sobre o jantar com champanhe à luz do luar da vizinha de cobertura. O belo casal maduro aí do lado, o tilintar das taças, pratas e porcelanas, garrafa no gelo, conversa tête-à-tête, me deu uma nostalgia... um desejo fundo de ser romântica... vocês sabem. Com toda a minha história de amor digna de Marie Claire, nesse carnaval o romantismo esteve ausente aqui de casa, substituído prosaicamente por rolos e rolos de papel higiênico limpando catarro. Argh. Dois gripados numa noite entupida, não desejo a ninguém.

O caso é que a pauta caiu quando eu descobri, ontem à noite, uma história se formando dentro da história do HierosGamos, sem que eu me desse conta. Me emocionei demais com a conexão mosaica que apareceu, meu romance traduzindo, em certa medida, a beleza ancestral da bíblia para os dias de hoje. Quem me lê regularmente, já deve estar cansado desta autopromoção sem fim, mas desta vez, gente, eu prometo. Estou parando. Já que estou acabando a décima milésima revisão do livro, com aquela sensação boa de dever cumprido, de missão terminada. Eu já poderia morrer, mas deixar essa vida gostosa tão cedo, eu hein? Vou mesmo é declarar aberta uma boa temporada de sombra-e-água-fresca, pra curtir as conseqüências boas do meu futuro sucesso. Antes de me recolher ao silêncio (só sobre o HierosGamos, por favor), deixo pra vocês um último linquezinho: a primeira parte já está online, pra quem não curte um download.

Shabat shalom pra vocês, uma maneira mosaica de desejar um sábado de paz, de tranqüilidade. Aproveitem.

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O buraco é mais embaixo

A culpa de tudo isso é de Shakespeare. Não fosse o lirismo do velho mago, leitor despudorado da natureza humana, eu nunca seria capaz. Se o Globe Theatre foi a Globo seiscentista, novela moderna, no nosso conectado vinte e um, é post diário de blog. A gente lê todo dia, vicia, acaba privando da intimidade do autor. Se encontra no bar, é que nem celebridade: acha que é amigo. Aconteceu comigo. Onipresente e polivalente, esse blogueiro a que me refiro, apreciador de jazz - professor, editor e escritor - nos últimos dias virou sheik. Puro delírio de post. Na vida real é executivo, filtro crítico de furo literário. E no meu passado recente de escritora, foi boca cósmica voraz, engolindo e apagando no ato as mensagens múltiplas que enviei. Passado o carnaval, e curada a ressaca, a missão que me proponho é difícil: transformar o buraco negro dele num buraco-de-verme, comunicação impossível - porém provável, mágica, científica - entre dois mundos normalmente estanques. Imaginem agora a cena, e vejam se não tenho razão:

Estagiário cansado, entediado, quase soterrado na pilha de tarefas impressas à sua frente, analisa desanimado o HierosGamos. No meio de suados corpos ecoantes, almas pulsantes, pontas opostas de uma safada teoria das cordas, se depara com o seguinte monstro erotizante: "o animal de duas costas". ?!? Vai pro lixo ou não vai? Ora faça o favor. Adeus.

Não é à toa que me desespero. Leio a referência poética de Shakespeare - sim, gente, o animal de duas costas é da lavra de Shakespeare, e os insistentes 222 sins do livro, embora pareçam coisinha simples, meio óbvia, são uma homenagem sutil a James Joyce - nesse romance quântico de um casal literário, querendo ser lido por cultura à altura, é pedir demais? Arriscar com o sheik PRP, meu chapa de blog, uma boa-vontade de harém? Nas mil-e-uma-noites de poético erotismo?
Pois é isso, Paulo Roberto. Tudo isso pra te dizer, sem samba nem meias palavras, mas com poesia, física teórica e ousadia de blogueira, que preciso arrumar um jeito de você ler o meu romance. E antes da semana santa.

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Nossa musa emplumada

Preta Gil é gorda, desbocada e preta. O que foi? Se chocou? Falei alguma mentira? Se eu fosse obesa, tudo bem. Se eu fosse negra, ou afrodescendente, também. Como não sou uma coisa nem outra, a verdade num instante vira preconceito.
Não é que o meu telhado seja, assim, feito de blindex. Sou velha, judia e feia. Ah, sim. E baixinha. Chata. Dependente da mãe.
Preta Gil é ousada, animada, cheia de energia. Muita gente acha ela sexy, tem sempre um belo do lado. De salto alto, a plumagem colorida, foi a musa indiscutível do carnaval, quebrando a regra mais que discriminatória da lipo. Ponto pra ela.
Daqui do meu canto, não posso reclamar. Deus até que foi bom comigo. Me deu um amor, uma bela vista, e um cérebro muito ativo. Tem quem goste do que faço, e afirme sempre que pode: tenho talento. Ponto pra mim.
Pra quem perde tempo policiando o vocabulário alheio, é que não vai ponto nenhum. Ou pra quem, seduzido pela passageira silhueta sem curvas do estereótipo, acredita no impositivo marketing da beleza. A glória do corpo é bem outra. Passa pelo gosto, pelo gozo. Pelo franco integrar-se às delícias da vida. Pra não falar das enaltecedoras glórias gratificantes da mente.
Pelas disposições em contrário revogue-se, a partir hoje, e em artigo único, a ditadura desniveladora da aparência.

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As coisas mudam

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É hoje só

Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei ...
Quarta-feira, sempre desce o pano.

Sonho de Carnaval/ Chico Buarque


Na ponta do Leblon está rolando uma mini-rave. Há quantos dias, não sei (vi hoje, vi ontem), mas pelo olhar apertadinho de sono, cigarro e cerveja (os outros ingredientes a gente não vê), a festa desse pessoal vai com certeza acabar na quarta-feira. A nossa, não vejo porque. Não deveria.
Já passei por isso algumas vezes. Uma delas, no carnaval da Bahia: quatro dias de mortalha, pulando atrás do trio elétrico, até transar de madrugada na varanda de uma casa qualquer, com um parceiro qualquer, transei. Sem camisinha nem nada, por baixo da mortalha, mas não contem pra ninguém. Faz é tempo, na era do amor livre e na fase pré-aids, coisa que existiu um dia, acreditem. Na quarta de manhã, no hotel, tentei sair da cama pra ir ao banheiro e caí, exausta, no espaço de menos de um metro que me separava da porta redentora. Um banho ocasional de endorfina desses faz o maior bem: afasta a velhice, lava a modorra do cérebro. Mais ou menos como sexo selvagem: mil trepadas em menos de duzentos dias destravam qualquer xoxota, por mais faminta. Mas a vida inteira nisso? Falando sério, gente, não há quem agüente. É o caráter passageiro que faz das exceções (excessivas), o cenário ideal pra ilusões. E só isso. Não vejo nada de ilusório em paixão, em quatro dias de samba, em dez dias paradisíacos numa praia deserta, num ano inteirinho sabático. Nem, indo mais longe, numa longa aposentadoria voluntária da sociedade frenética de consumo. São apenas estados temporários, substituídos por outros, diferentes, nem sempre menos compensadores.
Carnaval, originalmente, é coisa de carola: uma estratégia da igreja pra aliviar a pressão, mantendo no entanto a sensação de controle. Não se pode viver reprimido sempre, e quem controla sabe disso muito bem: dê-se ao povo quatro dias de pecado... pra alimentar de lembranças o resto do ano, autodominados pela culpa do excesso. Parece coisa de criança levada, e é. Criança tem hora pra dormir, hora pra acordar, hora pra estudar, hora de prestar exame, de comer, de viajar nas férias. Já eu, depois que conheci o Alan, estou treinando outro tipo de disciplina: durmo quando tenho sono/ acordo quando dormi bastante/ como quando tenho fome/ escrevo quando tenho assunto/ namoro quando há desejo (essa é mais difícil, depende do tesão do outro, mas dá pra levar muito bem).
Ilusão mesmo é acreditar que a existência se processa de outra forma, que há sempre alguém no controle, que é melhor aproveitar o dia hoje por não saber o de amanhã, beber até cair na terça-feira gorda, porque na quarta... todo mundo sabe: são cinzas, tudo acabado e nada mais. A verdade está bem longe disso. Enquanto vivemos, o amanhã não falha, e com alguma sorte, traz até boas surpresas. Por isso, hoje em dia, o único controle que aceito são os limites do corpo. Tratando a carcaça com carinho, vivo a vida num eterno carnaval sem samba*. É um dos bons efeitos colaterais do estado permanente de amor.


*isso, só porque prefiro outros gêneros de música, viu, gente?

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Equívocos de domingo

Em jornal de domingo de carnaval, todo mundo sabe: falta assunto. No blog também, também pudera. Ninguém por aqui. Aproveito pra jogar minha luzinha de lanterna sem pilha sobre algumas pílulas da edição de hoje.

;-) - Na contramão do bisturi, Preta Gil, de quem nem sou fã, quebra o estereótipo de rainha da bateria. Ponto pra ela. Existe normalidade no corpo de quem samba, fora um pouquinho de exagero nas curvas.

:-x - Camila Pitanga na pele de uma puta mau-caráter na nova novela das 8, hum. Não vou nessa de sexo profissional, mas gostei da simplicidade normal da linguagem: "é assim que elas se intitulam entre si."

:-( - Coluna médica da revista analisa o sexo anal, listando um decálogo de comportamento pra evitar a dor, o desconforto. Uai, gente, então pra quê? Já não basta de obstáculos no dia-a-dia não? Ainda mais esse? Trepar de um jeito que incomoda, afugenta mais que infecção intestinal?

:-o - Coluna de compartamento amoroso (ops. com-por-ta-men-to) afirma que os grandes amores não são caóticos, tem regras, limites e fronteiras, e algum nível de renúncia ao prazer absoluto. Ok, Senhor. Melhor perdoar logo, já que esse autor... etc, etc.

Por último, um sintoma cultural que parece sério, mas se é bom ou ruim... não sei. Mulher é eleita reitora de Harvard, famosa universidade americana onde, somente em 1999, o sexo feminino conquistou direito pleno, abalado, há pouco mais de um ano, pela declaração preconceituosa do reitor anterior: "mulheres têm pouco talento para as ciências exatas". À primeira vista, é :-D, certo? Mas, hum... A doutora é feminista... Criou uma tal de vigilância anti-sexista... :-( . Mundo bom mesmo, do jeito que eu vejo, será um onde exista, sim, diversidade: diferenças de corpo, de partido, de opinião... Onde, no entanto, nenhum grupo seja considerado melhor ou pior que outro, onde termos não sejam considerados pejorativos, nem ninguém precise de eterna vigilância pra exercer os seus direitos. Onde puta, preto, gordo, fêmea, homo e judeu soe igual a uva, banana, melancia e maçã. Uma questão de gosto. Mas isso é assunto pra outros carnavais. Quando, quem sabe, o samba enrêdo do sexo tiver como base o grande amor, muito mais amplo, caótico, surpreendente e delicioso que suruba por trás e meia dúzia de brinquedinhos. xxx

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Tiro de misericórdia

O porco a gente já conhece: é sinônimo de sujeira, abjeção, degradação absoluta na lama do chiqueiro. Pra judeus e muçulmanos, simboliza o proibido do proibido, impuro, venenoso para o corpo... e para a moral. Historinha sufi do grande Mulá Nasrudin equivale o estado de porco a um castigo, completo esquecimento da dignidade humana, embora lhe conceda o benefício do humor: óinc, óinc. Espírito de porco a gente sabe bem o que é: se confunde com a impiedade de alguns críticos, artistas frustrados, criadores recalcados.

Certo? Errado!


Pra quem quiser se lançar como escritor, não existe melhor primeiro passo: o espaço de crítica do Prosa & Verso - dedicado a livros inéditos - onde estive no mês passado. Num primeiro momento, submeter-se é duro. A gente sofre, esperneia, custa a reconhecer as falhas... mas depois que se acalma, se sente maduro, preparado. Mastiga a resenha e digere o conselho... um pouco de humildade que só faz bem, temperando a soberba habitual do criador. Ser escolhido e publicado lá é uma espécie de prêmio, o próprio convite já diz: "o objetivo deste projeto é avaliar livros - ainda não contratados pelas editoras - que mereçam a atenção do leitor do caderno. Com isso, o Prosa se volta para novos escritores de talento, mas ainda desconhecidos." Uau! Gozou? Pois é. Não foi sem uma pontinha de satisfação que li, esta manhã, a crítica ao romance do meu crítico, André Luis Mansur, que escapando ao clichê, é também escritor. Confere online o romance dele, Vera Lúcia. It has merit. Um dia é da caça... vocês sabem. O tiro de misericórdia do título se refere ao que nossas resenhas têm em comum: lamentam a falta de um final mais elaborado. Será o cansaço do autor? Ou piedade do leitor? No meu caso é mesmo opção do roteiro, no do Mansur... confere lá.

E voltando ao assunto porco que abre o post, que enrêdo enredado é esse, mais pirado que samba do crioulo doido? (ops) Será o carnaval? Atravessando a harmonia no blog? Nada disso, gente. É que começa amanhã, na China, o ano novo do Porco, considerado, de todos, o mais afortunado. Porco, na China, é bem mais que um prato acridoce: é o signo dos sortudos, dos inteligentes, alegres e pacíficos, gente assim como o Mansur e eu, entenderam? E como este ano, associado ao ouro, traz também o sinal da prosperidade, numa conjunção astrológica que só se repete a cada 600 anos... Pode se animar, Mansur. Será o seu ano. E se Miss Piggy quiser, o meu também. Um tiro de misericórdia no nosso ineditismo, isso sim: da lama comunista para o pódio olímpico do lucro, chinês vem provando que sabe mesmo das coisas. Esse ano pelo menos, vale o porco deles, que ainda por cima, é o mais que benéfico 18. Pode apostar, vale o nosso escrito, e os revisionistas do fracasso que se virem. Uma boa chafurdada para todos nós.

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Um grande, gritante dor de cabeça

Não é que eu tenha adiantado a folga do carnaval nem nada, que não sou do samba. Mas dentro da minha cabeça esta manhã, o sangue batucava mais que bateria da Mocidade, do bumbo à cuíca pulsando nos vasos, caramba! Estou melhor agora, mas numa ressaca... e lá se foi o dia.
Estou aqui, nestas precárias condições, por dois motivos:

1- pra bater meu ponto, inda que doa.

2 - pra comunicar o upload do HierosGamos renovado, revisado, editadíssimo, so help me God. Está online, gente, em versão integral. Em breve disponível como blog, estou trabalhando nisso.

A gente se vê por aí.

Sem fantasia

Não é por tudo acabar na quarta-feira que a gente deve viver sem fantasia. Não. Imaginem. Sem a imaginação criativa, poderosa o bastante pra afastar cotidianamente a certeza da morte, jamais sairiamos da cama. Mas há fantasias... e fantasias. E não há época melhor que o carnaval pra discutir isso. No reino do Momo emagrecido, a mulher produzida é rainha. Hum, exibida, digo. Transformada, ou melhor dizendo, transtornada. Um transtorno, isso sim: beleza com data marcada, uma ansiedade estética que, no fundo no fundo, não muda nada, somente a ilusão de existir. Se marcar presença no mundo é o que se pretende, é preciso bem mais que um fotoshop cirúrgico, se é que você me entendem. Pra quem curte outro tipo de fantasia, segue uma da minhas. No link poético aí do lado tem mais.


Se eu quiser - um dia - te vestir
(e porque faria isso
em nosso encontro erótico?)
Não há de ser fantasia
a roupa que elegi

(que mal há na fantasia
se em nosso sonho mais raro
és meu príncipe e eu, tua escolhida)

Se eu quiser te vestir um dia
que seja de sol, de ventos, tempestade
que teu raio deflore meu gozo
incendiando de brilho o meu portal

E se acaso fores tu, um dia, a me vestir?
que seja de beijos, carícias
perfumes voláteis
me despindo do medo, da dor
do preconceito

Que seja teu amor a desnudar-me a alma insana.

E se decidimos juntos, vestir a fantasia
que seja a de tornar
mais próximo esse dia...

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O belo Antonio

"The barge she sat in, like a burnish'd throne,
Burnt on the water;
the poop was beaten gold,
Purple the sails, and so perfumed, that
The winds were love-sick"

W. Shakespeare - Antony and Cleopatra

A fantasia é clássica: uma peruca preta, muito lisa, a franja reta dividindo a testa, contrastando com os mais belos olhos que o cinema já viu, cor de violeta escuro, o corpo coberto de jóias, dominando a cena em sua liteira - irresistível devoradora de homens - lúbrica, pele branca à força de leite... De Shakespeare a Elizabeth Taylor, imortalizada em sua beleza flamejante: até os ventos sopram lânguidos de amor.
É isso, gente. Cleopátra e Marco Antônio são considerados um dos mais poderosos, românticos, sensuais, e... belos casais da história, ops. Belos? Confiram aí em cima, nas fieis efígies da época, a beleza estonteante dos dois...
Esse mito que associa sensualidade extrema, poder e carisma à beleza física é nada mais... que mito. Fantasia desmontada, a três dias do carnaval. À posteridade, revela-se a inteligência, o talento poético, uma realidade ideal retratada em verso por quem domina a pena, a mente, o imaginário da vida. Taí o imenso poder da literatura. Do erotismo registrado em letra emana, como um fumo inebriante de ópio, a imagem de curvas perfeitas, seios como os de gazela, os olhos líqüidos da amada... puro marketing, e a gente aqui, tentando a força de agulha dominar a forma rebelde, o cabelo enrolado, as dobrinhas de gordura. Em vão. No oco da alcova, a sensualidade real não tem nada a ver com isso: é crua, nua, feita de sangue e fluido, humores, lençóis manchados. Depois do gozo, bem-amada, relaxada na cama, qualquer mulher se sente linda, como a Cleópatra ideal. Mesmo que a vida real mostre apenas o outro lado da moeda.

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Rito de passagem

Adolescente é assim mesmo. Mesmo o bonzinho, comportadinho, que não faz pega, não se droga e nem se prostitui, em algum momento da tempestade de hormônios acha que sabe tudo. Se tiver um pendor pro mágico, então, se sente senhor do mundo. Não sei se JK Rowling, em seu sétimo e último Harry Potter, será hábil o bastante pra mostrar, a seus ávidos seguidores, a realidade delicada da porta de entrada para o universo adulto. E que sim senhor, envolve sexo e algum roquenrol. Mais o necessário aprendizado do discernimento, da responsabilidade. Harry Potter, acredito, evoluirá bonito: é um cara do bem, não resta dúvida. Mas querer que Daniel Radcliffe passe o resto da vida deitado sobre os louros de varinha do bruxo, é querer demais, tampar com a peneira reducionista da ilusão a realidade simbólica do entretenimento. Já tem mãe bravia pretendendo excomungar o rapaz, que procura apenas corresponder, na arte, ao seu crescimento em vida. A varinha de Potter está virando vara em riste, um rito de passagem que seria de se esperar. Todo mundo vira adulto um dia, embora a maioria... faça o que pode pra evitar.

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Escanteio

Não sei nada de futebol, mas imagino que o termo, usado hoje na crônica do Jabor pra definir a literatura de Nelson Rodrigues, se aplique também a mim. Nunca fui uma especialista em Nelson; não sou, aliás, especialista em ninguém. Como Jabor, mais uma vez, explica, não sou uma "mulher culta". Há alguns dias tive que cortar um dobrado no blog do Sérgio, pra não ter que confessar a ignorância. (a discussão por lá, gente, é de alto nível, citações de famosos a granel) Embora eu sempre enfatize que escrevo de coração, ouvindo vozes que permanentemente me amolam, ultimamente ando plagiadora. Deve ser a gripe. Oscilei hoje entre dois amores: não sabia se plagiava o Jabor, ou o Ali Kamel. Se optasse pelo Ali, seria só pela metade. Em vez de citar o dele "terrorismo verbal", usaria no título "terrorismo intelectual", e acabaria no mesmo córner. Ou no mesmo cartão vermelho, sei lá. Expulsa de campo. Se fosse mesmo pra citar o Ali, deveria transcrever aqui o artigo inteiro, porque, gente, vai ser lúcido assim na... Certo, certo. O blog é explícito. Na puta-que-o-pariu. Com a habitual isenção de jornalista, a necessária pachorra pra conferir as fontes, e last, but not least, uma opinião de respeito, Ali Kamel em seu artigo de hoje no Globo corrobora, timtim por timtim, a minha tese ambientalista. E não me venham dizer que copiei dele o insight sobre as verdadeiras intenções do Al Gore, essa não. Arrisquei o chute pra fora antes, mas fico feliz quando alguém pega a bola, e prossegue com ela em campo. Principalmente um Ronaldinho desses.
Tatatá. Chega de clichê. Bastou com as metáforas por hoje, Noga. E de volta ao terrorismo verbal, dois episódios que lamento na mídia:
Dona STF-Ellen condena mudanças em clima de comoção - uai, gente. E eu que pensava que ações hediondas davam nisso mesmo: no despertar da sociedade dormente. Ela quer o quê, que todo mundo esqueça? Apague o horror no torpor do samba? E por falar em samba, chegamos na segunda.
Leitora confortavelmente domiciliada na Suécia reclama: "como pode uma nação séria passar da indignação à euforia num instante... esquecendo o brutal trucidamento de uma criança para se esbaldar na ilusão de algumas horas de fantasia?" Assim também não. Usar o carnaval pra protestar... não sei. A vozinha interior me diz: hum. não me parece bom. Pra quem gosta de folia, vai a recomendação do dia: se esbaldem, meus caros. Esqueçam a dor. O horror. Injetem nessa veia um pouco de alegria, o nome disso é vida. Momentos bons, momentos maus, palavras de ordem e vamos em frente. Seriedade não tem nada a ver com culpa, com cerceamento moral, com uma idéia de jerico que quem é jovem, nesse país, nem deve conhecer: patrulhamento ideológico não está com nada.
Se estou confusa hoje, peço perdão, só pra variar. Esse blog ainda acaba por isso: um amontoado de enganos, termos no ostracismo, clichês de antanho... e uma autora contrita, sem um pingo de humildade e ainda por cima, fingindo que não se enxerga: autoindulgente, rasteira que só ela. E pretendendo literatura, pensem bem... uma arte séria dessas, exigente, mentalmente elaborada e sofrida, que não tem nada a ver com realidade. Me derramando desse jeito, me distancio cada vez mais dela. Da literatura, digo, caindo de boca na realidade da vida. Como se existisse outra coisa.

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Flagrante

Mais atrasada que verão carioca em tempos de aquecimento global, a gripe do ano passado me pegou, gente. Espero que seja tão breve quanto. É, as coisas estão mudando. Este ano é o verão que não passa de dois dias e eu, cansada de penar na dobradinha vitamina C-e-própolis, estou tomando Trimedal. A última vez que tomei esse remédio foi em 1992, em Madri. Acabava de aterrisar para dez dias de férias na Europa e ficar doente não estava nos meus planos, claro. Mandei a pílula, em dois dias estava livre. Depois disso, foram anos (e aí por volta de umas 14 gripes) na cartilha da homeopatia, que foge do antibiótico que nem... vocês sabem. Mas na sexta, gente, veio aquele corpo mole, a garganta arranhando, eu, hein, desta vez não. A medicina está aí pra isso mesmo, não é? Melhorar a vida da gente, proporcionar algum conforto: ainda acabo no valium, e mordendo a língua, huh, vade retro. É só um antigripal, um nariz desbloqueado à noite, não vai acabar comigo, derrubar o edifício alternativo das minhas arraigadas (ultrapassadas?) convicções.
Vai daí que com ou sem remédio passei a noite assaltada por episódios de tosse, dormindo pesado nos intervalos pela ação misericordiosa do anti-histamínico. Amanheceu, o corpo dolorido, resistindo, a chuvinha boa caíndo, sem caminhada hoje... fiquei na cama. Foi quando o flagrante aconteceu. A gente vive um casamento e sabe que é assim: um dia de amor pra vários de mau-humor. Ando ausente, reconheço, atraída pelo trabalho um pouco além da conta, o Alan quem sabe negligenciado... Sem paciência pra mimos... Irritado: dispara os gérmens pro outro lado! Por outro lado, me acalmando o mal-estar, a mão enorme espalmada no pulmão, mais eficaz que vick vaporub. Esticou o braço... conferiu minha presença na cama, gente! Sorriu, se virou. Vai ver faz isso toda manhã, sou eu que não vejo, com essa mania de levantar com o sol. Não sei vocês, eu sou assim: curto demais as entrelinhas sutis do amor. Ganhei o dia. Cofcofcof.

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Workchupe

Não sei bem pra quê chupei esse termo, chulo-porém-hilário, do Agamenon dos politicamente incorretos, em sua coluna dominical do Globo. Deve ser saudade das francas risadas de domingo - após semanas de ausência - francas só dentro de casa, bem entendido, que não vou sair por aí reconhecendo que, no fundo no fundo, sou crassa. Vem bem a calhar num domingo como hoje, quando o workshop global do 11:11 veste publicamente a carapuça que um amigo meu, das antigas, sempre teceu: o objetivo dessas reuniões esotéricas todas é arrumar namorado. Tá certo. Entra mito, sai ritual, não importa a vertente intelectual, todo mundo, no fundo no fundo, quer a mesma coisa: um amor pra chamar de seu. Só hoje, na revista do Globo:

Paulo Coelho descreve as quatro maiores esperanças do indivíduo (livro das Listas de 1977): encontro com o bem-amado; ausência de problemas financeiros; ausência de doenças; imortalidade.

Arnaldo Antunes: como vou me perder se eu já me perdi quando perdi você mas se eu já te perdi como vou me perder.

Nem preciso dizer, sou mais esse último, com uma romântica ressalva: quem aposta de verdade no amor nunca perde nada. Falar de amor ficou complexo, mais pra utópico que pra poético: uma espécie de droga, contra um explicitismo visual que mais confunde, que elucida. Mas de uma coisa tenho certeza: amor de hoje em dia inclui a língua. Falada. Escrita. Lambida. Por isso, companheiro-que-me-lê a tempo, às 11:11 do dia 11 em ponto, não poupe o seu amor e chupe. Chupe do cosmos, sem vergonha nenhuma, sua chance explícita de se sentir feliz. Amor faz bem à saúde, e segundo as últimas pesquisas, prolonga a vida: uma loucura que previne a demência. Bom domingo.

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Últimas notícias do front carioca:
a minicrônica do mar vermelho

a orla do Leblon está de luto, hoje
o manso mar poluído, tingido
pelas algas tóxicas da impunidade mirim

o inconsciente: um criminoso letal
aspergindo o sangue do menino morto

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Sexo selvagem

A gente percebe que está ficando velha quando curte, à noite na cama com o marido, um filme delicioso como o espanhol Elsa & Fred. Nunca é tarde pra amor de verdade, gente. Mesmo com a lâmina oculta da morte cortejando a jugular, é uma aventura que vale a pena: a da felicidade. Aqui em casa a gente sabe, vale qualquer tostão guardado.
Disfarçada de louca e inconseqüente, a velha Elsa sabe direitinho: quer um beijo na boca do velho Fred, dormir junto... abraçar o esqueleto antes que seja tarde. E hoje já é. Carpe diem.
Fala-se tanto sobre sexo, performance, apetrecho... o amor vai virando última página... quando deveria ser manchete. Um assunto que não cansa, sempre renovado... vale tudo, até garrafa à deriva no mar revolto da internet. (tem quem ache... que amor online é só pra nerd, do que veementemente discordo) Falar sobre sexo tudo bem, mas é quando a gente não tem. Esgotei minha veia erótica, com os picos poéticos todos... Depois disso até pensei: na cona real sou brocha. Que nada, gente. A prosa amorosa no chat me abriu, finalmente, a intimidade do gozo, e antes de virar - pra sempre - a página da conquista... dei sorte. Transei em um ano o que a média da mídia nem numa vida, e hoje em dia, graças a Deus, não preciso de teoria. Se insisto no assunto* é por dever didático: não vou deixar barato a peteca do amor.
Sexo selvagem acaba em cistite. Envolve. Diverte. Mas... uma vida inteira de 5 trepadas por dia? Não dá, companheiras... desistam. É mito. Bom mesmo é sexo com paixão, temperado com o antibiótico do amor. Ops. Péssima metáfora. Da carne crua ao boeuf bourguignon, cada fase do encontro amoroso é ótima: quem se limita à especulação, não sabe o que está perdendo. A cona molhada passa. O amor fica.

*pra quem merece, uma explicação: minha crônica de ontem, motivada pela "profissional do sexo" de Camila Pitanga na próxima novela, e pelos comentários bobinhos e entediantes sobre... sexo, no blog da Carla... me deu um fastio... um tédio enregelante... por causa do orgasmo ao meio-dia, gente. comeu minha energia todinha, consumiu meu tempo de post. porque depois do almoço... vocês sabem... faço literatura...

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Ausente

Dando um tempo hoje, gente. Tudo corria muito bem, encontrei o gancho do post - sexo x comida - caminhei no gravador anotando as dicas, discuti sexo-com-amor no blog da Carla, plantando a semente... e pifei. O que deu errado, não sei. Fica tudo pra amanhã, viu? Quem clicar, verá.

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Desgraça pouca

Como se não bastasse a dor normal de uma velhice solitária, vem agora um novo estudo afirmar que a solidão dobra a probabilidade do Mal de Alzheimer. O que me chocou mesmo, no entanto, foi a afirmação de que o risco é proporcional "à sensação de solidão". Aí pegou. Não que pra mim seja novidade. A sensação, gente, é pior que qualquer realidade. Mamãe, por exemplo: dois filhos dedicados, nora, netos, um staff atencioso permanentemente em volta... não adianta. Está sempre "abandonada", "com medo de ficar sozinha". Desde que papai morreu, há longos 35 anos, ela se sente assim, e não há amor que remende o rasgo. Agora está aí, com o betamilóide lhe corroendo os neurônios.
Por essas e outras, a quem reconhece a chance, recomendo evitar ao máximo a falta de amor. Mas se for, de todo jeito, impossível, não se desesperem... Resta sempre a deliciosa companhia do "si mesmo"... Solidão é um estado de espírito, gente. Que muitas vezes vicia, persiste mesmo ao lado de um companheiro. O antídoto é uma vida rica, produtiva, temperada de otimismo e uma elevada auto-estima. Mesmo porque, hoje em dia, são quase infinitos os recursos de conexão. Não dê chance pro Alzheimer não.

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Terceiromundismo

Li esta semana no jornal sobre as maravilhosas vantagens da revolucionária tevê digital (que pelo preço, claro, vai custar um pouco a ser normal), entre elas a possibilidade do espectador programar-se à vontade: deixa de ser passivo e passa a mandar no pedaço, vê os programas que quiser e quando quiser. Com certeza, essa beleza virá com algum controle sobre o desejo censurável dos filhos, querendo avançar (no sexo) antes do tempo. Como se em tempos de internet censura houvesse. Pois na manhã de hoje, dedica o Globo uma página inteira a esse novo Manual de Classificação Indicativa para TV elaborado pelo governo Lula.

?

Meio fora de hora, não? Ainda atrasos de Lula: quer ser o "artífice do grande movimento contra o aquecimento global". Tsk tsk, presidente. Chegou tão atrasado nessa arena que periga caducar o slogan. Al Gore e Inglaterra correm disparado na frente, capitalizando a atenção da mídia. Foi mal. Vai ter que se conformar com a ação local, melhor recuperar um slogan mais velho ainda, mas ainda válido: Think global. Act local. E deixa a vaidade de lado.

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Eterno amor

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Entre aspas

Estou cansada de doutores em tudo, me dizendo o que fazer. Até pra passear o cachorro dependemos de "profissionais". Fosse eu partidária de alguma teoria da conspiração, e diria que há uma em curso, investindo bilhões na nossa crescente insegurança.

Quando mamãe, manifestando os primeiros sinais de demência, começou a evitar sair de casa, eu quis contratar para ela uma "personal walker", coisa que nem existia na época. Ela foi categórica: - Não enche, Noga, não preciso de babá. Pois caminhando hoje em dia na orla, canso de ver ex-colegas de academia com o personal ao lado. Fala sério. Deveriam aproveitar o breve interlúdio à beira-mar pra refletir um pouco - exercitar o pensamento independente - longe das garras manipuladoras da informação: uma reunião de cúpula com o próprio eu, esse desconhecido.

Não sei se a imprensa, ao comentar entre aspas na edição de hoje as violentas nevascas nos Estados Unidos - "apesar do repetido alerta quanto ao aquecimento global" - está sendo enfática ou irônica. É como se quisessem nos convencer da seca, enquanto lá fora chove torrencialmente há dias, "bad timing". Concluí que os cientistas do clima não estão errados, apenas "atrasados". Relatórios sobre o derretimento das geleiras se baseiam em observações datadas, quem sabe o quadro se reverteu? Até Al Gore, em seu badalado documentário, dá conta de uma mini-era-do-gelo ali pelos anos 50, e quem garante que não seja o caso? Considerem: quando o Hubble "descobre" uma nova estrela a mesma já pode ter morrido, no cosmos, há milhões de anos-luz. Melhor deixar claro, não vejo nada de mal nos bilhões investidos em novos combustíveis e energia limpa. Entre os benéficos efeitos colaterais dessa terapia do desenvolvimento, figuram o fim do terrorismo, e quem sabe um futuro barato, acessível a todos. O que não posso aceitar é esse estilo perverso de vida, em permanente estado de alerta e com medo de tudo, dependentes da "expertise" alheia.

É tudo uma questão de aprender a "olhar em volta", gente. E nada melhor para isso que um passeio solitário pela praia de manhã, imersa na realidade do sol, do mar, dos pássaros negros contra o céu azul. No ritmo que quero, quando e onde quero. Infelizmente, pra isso é preciso - condição sine qua non - ser adulto, independente e razoavelmente saudável. E saber o que se quer, apesar de tudo o mais.

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Obituário

Pra qualquer hora das próximas 24 horas, é esperado o falecimento do meu site de jóias terapêuticas, o Clipfit.com. Essa energia magnética, e francamente alternativa, tem andado doente desde o final de 2005. Nos últimos 2 meses, agonizou na UTI. Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar e sem violão. Pra quem quiser merecer a comida que ela pagou pra mim, o domínio e o conceito se tornam públicos a partir desta data.
Não sou Giselle Bündchen nem nada, mas caminhando pela praia hoje me vi buscando, nos recados moldáveis da numerologia, alguma consoladora coincidência oculta. Há exatos vinte anos, ao cerrar no Shopping da Gávea as portas da Pólen, meu artisticamente bem-sucedido - mas comercialmente fodido - projeto de design da juventude, passei pela mesma coisa. Naquela época, me deprimi demais. Fiquei completamente perdida. Por dois anos ainda insisti na mesma trilha: abri um bar, fui a Londres para um estágio com Ron Arad, voltei, desenhei jóias. Em vão. Tive a opção de mudar radicalmente mas inaugurei, em vez disso, um segundo ciclo de nove ocupado com o design... e o comércio, disfarçado dessa vez de virtual, e mais uma corzinha terapêutica de espiritualidade: o Clipfit.com.
Sob o ponto de vista histórico-esotérico, eu diria que a minha transformação começou na Convergência Harmônica, em 1987 - segundo a Wikipedia "um despertar global para o amor e a unidade através da transformação divina" -, embora na época, claro, eu não soubesse de nada disso. No evento celestial seguinte, a abertura do primeiro portal 11:11, eu já estava convenientemente instalada na minha espaçonave de lightworker, desenhando jóias cerimoniais que visualizava em sonhos e desligada da intenção comercial. De lá pra cá fui ficando cética, me envolvendo progressivamente com a literatura, diminuíndo o crédito concedido ao paradigma mágico e - ao mesmo tempo mas sem conexão direta - à criação visual. Chego à minha nova encruzilhada enquanto vai sendo armada em Mallorca, na Espanha, a abertura do mais importante portal, o oitavo, dedicado, como eu já disse antes, ao novo mundo do amor.
Não me apresento mais como autora esotérica, uma opção estilística que limita, encolhe o leque filosófico da reflexão: tô fora. Mas num mundo regido pela soberania do amor acredito apaixonadamente, ainda que o saiba utopia. Vale a pena dedicar energia a isso. O tal portal 11:11 se abre no próximo dia 11, prometendo a realização plena dos nossos sonhos mais selvagens, ousados e loucos. Pretendo, desta vez, embarcar sem hesitar no trem das minhas mais acalentadas esperanças. Aos que estranharem, nessa funérea despedida, o meu soluço ritual, peço o benefício da paciência: são os últimos estertores de uma mente mística, que em seu mergulho pelo universo lógico da literatura, não pode deixar de ser poética. Onde o misticismo ilusório separa, o pensamento simbólico conecta, expande. Nos faz mais plenamente humanos. Não pretendo jamais me desfazer dele.

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Caderninho invisível

daily trekking no Alto Leblon

O título do post de hoje tomei emprestado ao Joaquim Ferreira, cronista gente boa do Globo. Não é que me falte assunto, muito até pelo contrário, me sobra... e é este justamente o meu maior problema. De todas as mazelas do envelhecimento, uma já vem me aporrinhando há algum tempo: a incapacidade de focar a atenção simultaneamente em mais de um assunto, coisa que eu antes fazia sem pensar duas vezes. Se durante a caminhada de rotina nada me distrai - enquanto passeio, despreocupada, pelas mais gritantes prioridades do dia - consigo manter na mente o pensamento firme. Mas vai que encontro alguém, ou troco uma palavra ou duas na caixa do supermercado... e pronto. Lá se vai a fonte de inspiração mais recente, deletada sem piedade do arquivo temporário de impressões. Num toque involuntário, pressionando o botão vermelho da memória, adultero para sempre o material original da fita... mais pra gravador antigo, sério, peça descartável de museu no arsenal moderno da tecnologia .

Gravador? Pois é. Há mais de um ano comprei um discreto, digital, com plug de headset e tudo, faltando um bluetooth, claro, que meu bolso ainda não dá pra luxo excessivo de última geração. Mas bem ao estilo de quem, tendo a pílula contra o esquecimento não se lembra de tomá-la, só ontem, assistindo no dvd ao protagonista do último filme de Wim Wenders - Land of Plenty, ótimo por sinal -, um paranóico veterano da guerra do Vietnã, autonomeado agente antiterrorista gravando pra seu próprio registro o que vai coletando de (falsas) suspeitas... resolvi colocá-lo em ação. Portanto, se um dia desses na orla você cruzar com uma mulher estranha - discreta e envergonhadamente plugada num microfone - murmurando palavras soltas ao sabor do vento, não se espante: sou eu, blogando em linha direta do inesperadamente moderado calor carioca desse verão.

E por falar em excesso de assunto, em terrorismo, em desvio de opinião... gostei de ver, nas cartas dos leitores do Globo esta manhã, que não estou sozinha contra a paranóia dominante do aquecimento global. Tem mais gente no meu bloco e com samba no pé, abafando com o cobertor do bom-senso o fogaréu ecológico do pânico. Somos contra a emissão de gases sim, a favor do trato carinhoso e reciclador da preciosa terrinha, em nosso próprio e inteligente benefício. Mas quanto à capacidade humana de causar desastres hediondos alterando o clima, agente equivocada do auto-revelado apocalipse... duvidamos. É arrogância demais pra nossa óbvia insignificância cósmica, no máximo um sintoma de mania de grandeza: a certeza de que no mundo tudo gira ao redor e ao (dis)sabor do desejo predatório do homem. Como diz lá o leitor: a espécie passa e o planetinha fica.

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Mito

Com a reportagem de capa da Veja, e em seqüência temática perfeita para a epifânia de ontem do Arnaldo, eu deveria falar sobre a adaptação biológica do cérebro humano para a fé. Fui sôfrega à revista - o assunto me apaixona - mas... nada de novo. Já sei que a maioria dos fenômenos sobrenaturais (e emocionais) são explicáveis por interações elétricas e descargas químicas. E daí? Parafraseando Jobim, o que é felicidade? Hein, meu amor? Tatatá. A sorte não existe, nem o azar: são manifestações do acaso, reconhecidas e reforçadas pela fome de padrão do cérebro, uma estratégia de sobrevivência que nos permite superar a desorientação causada pela consciência da inevitabilidade da morte, algo intrínseco ao DNA. Sim. Mas que esse funcionamento sofisticado do organismo humano parece milagre, parece. Explicar tintim por tintim a tecnologia da televisão de plasma não faz a imagem menos deslumbrante, e se tem uma coisa que ajuda mesmo a viver, é a prática intencional do maravilhamento. Com o sabichonismo científico todo, é o que inunda o nosso corpinho de hormônios do bem, prolongando a cada descarga um adiamento consistente do fim.
O que eu gostaria mesmo de saber é porque ninguém aplica essa simplificação didática da natureza (humana) ao mito do orgasmo feminino. Isso sim, seria útil, e eliminaria de uma penada só a prolífica indústria da frustração sexual, derrubando de uma vez um dos pilares do capitalismo selvagem. Gulp. Entendi. As outras mulheres eu não sei, mas eu cresci e amadureci sabendo que orgasmo é feito difícil, raro, conseguido pela estimulação mágica e única de um tal esponjoso, hipersensível e ninguém-sabe-onde-fica ponto G, deflagrando uma orquestra esfuziante de sensações: meio parecida com as luzinhas piscantes de um ovni, chegando à terra pra abduzir. Passei trinta anos de vida adulta absolutamente convencida de que não experimentaria nunca um daqueles tremores incendiários, e mais raro ainda, a dois: gozar ao mesmo tempo que o outro. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir, num caso de amor com uma Jacuzzi, o significado prático da palavra mais banida e vilipendiada da literatura erótica mundial: latejante. Pior: vagina latejante. Pra latejar a minha com um companheiro na cama ainda demorei um bocado. Mas consegui. Fazendo uma pesquisa de apoio à revisão do Hierosgamos, o Alan encontrou ontem esse artigo sobre a fisiologia do orgasmo (preguiça de traduzir, sorry). Segue trecho:


"...This localized area of bulbar vasoconcentration contracts strongly in a regularly recurring patterns during the orgasmic expression. The contractions have onset a 0.8 second intervals and recur within a normal range of a minimum of three to five, upto a maximum of 10 to 15 times with each individual orgasmic experience. The inter contractile intervals lengthen in duration after the first 3 to 6 contractions of the orgasmic platform and the measurable intensity of the contractions progressively diminishes. The duration of the orgasmic platform’s recurring contractions and the degree of the contractile excursions vary from woman to woman and within the same individual from one orgasmic experience to the next. These recurrent contractions in the outer third of the vagina are the only physiologic responses of the vaginal barrel that are confirmed entirely to the orgasmic phase of the sexual cycle."


Taí, gente. Cientificamente explanada a misteriosa e pouco divulgada vagina latejante. Imaginem se mamãe, nos meus quinze anos, tivesse me contado essa historinha assim, simples e empolgante: uma descarga energética involuntária, culminando num inesperado efeito calmante, relaxante. Teria me poupado milhares de reais, anos de divã. Tatatá. E daí? Pra desvendar mesmo o mistério - e superar o trauma da ignorância - precisei encontrar um amor de verdade, e acreditem: é a melhor maneira. Por essas e outras, vou parar de culpar mamãe por tudo... e começar a aproveitar a vida. Bom domingo.

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Acordei cedo

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A pedidos...

estou dando upload, esta noite, à parte 1 revisada do HierosGamos.

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Palavras cruzadas

O que há após a morte para o ateu: nada. Definitivo, não? Mas há quem veja a morte como a última fronteira do corpo, nada mais. Quanto a mim, só terei opinião definitiva sobre o assunto depois que eu morrer. Prometo escrever de lá uma última crônica, gênero literário belamente defendido por José Castello no Prosa de hoje. Sou fã desse cara. Quanto à opção pela leveza em crônicas... Não sei. São certamente uma reflexão crítica sobre o cotidiano, passadas a limpo pelo filtro das impressões do autor. Mas desde que crônica virou blog, e passou de semanal a diária - às vezes até horária - tal reflexão ganhou em contundência, em paixão de improviso: não há tempo de rever e o sangue acaba pulsando ali, no texto, registrando uma visão espontânea de momento, apurada e efêmera como foto sem retoque. Certo. O blog, com raras exceções, é uma crônica sem retoque, vomitada no calor nauseante do momento.
Que a palavra escrita tem o poder de transformar... ah, isso. Quando eu era jovem tinha mania disso: esse livro transformou minha vida. Da maioria deles nem lembro, mas um ficou: Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas. Pra ser sincera não me lembro o que contém, mas o título continua me afetando, sugerindo algo assim como o valor da consciência expandida - um conhecimento esotérico - nas lides práticas e lógicas da vida. Meu apreço pelo caráter mágico da existência, como as marés, vem e vai. Mais vem, esburacado por ocasionais lampejos de ceticismo. Foi por isso que gostei tanto da crônica de hoje de Arnaldo Bloch, um cara declaradamente cético e que, faz poucos dias, enunciou seu franco desprezo pela astrologia e outras visões supersticiosas da realidade. Inspiradamente poético o texto narra, em detalhes, a passagem do autor pelas névoas delirantes da ayhuasca indígena, uma viagem ao estado alterado de consciência que deixou seqüelas: a certeza do etéreo, eterno, vasto espírito humano. Transformou meu sábado, Arnaldo.

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Efeito Obama


Eu já disse aqui no blog que a gente ainda vai ver um preto (morro de medo de soar racista, mas o jeito de descrever a inevitável minoria política gosto assim, na simplicidade, aprendi com Caetano*) na presidência dos Estados Unidos. Espero que seja logo. Olha aí "o primeiro afro-americano importante que é articulado e brilhante e limpo e bonito"** e me diz: não é um colírio para a esperança? O primeiro americano importante em anos que é articulado e limpo e brilhante e bonito? Compensa qualquer Chávez, gente. O mundo não está perdido, ainda não. Preto ou branco ou amarelo ou vermelho, o cara tem esse olhar de bom, que tranqüiliza a gente. A mídia engana, eu sei. Mas lê o que ele publica, vê o que ele faz: a gente se anima. Não vejo nada de mal nisso. Só pra variar.

*se eu fosse fã da Hillary diria "mulher", e não seria preconceituosa... mas lamento, companheiras. não sou.
**o escorregão racista não é meu, mas de um concorrente dele na convenção democrata, cagou logo de saída.

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Dilema

O problema do editor é expressar, no dia-a-dia, a sua raiva existencial, que pra falar a verdade, nem sei de onde vem. O do autor, engolí-la. Se a análise do livro gera alguma discussão - e quando o assunto é controverso, como o erotismo explícito, é que a coisa pega mesmo - um comentário desses, no máximo, circularia por email dentro da empresa, porque o autor, quando recebe um parecer, não passa de um não-recomendado-para-publicação lacônico, quase sem energia para escapar do buraco negro que engole, inconsciente, os originais. Certo. Meu problema é outro. Tendo sido sumariamente recusada - e sem parecer nenhum -, e resolvido enfrentar uma terceira revisão... Nossa. Me constrangi tanto com o texto. Com a tesoura na mão saí cortando, cada vez mais envergonhada. Pretendi, sim, fazer literatura com L maiúsculo. E acabei num amontoado amorfo de vulgaridades que julguei um dia - por mais de 365 dias - e sem falsa modéstia, brilhantemente poético. E agora? Tenho trabalhado com a sensação de tirar um monte de esterco de cima de uma florzinha, coitada, lutando pra sobreviver. O pior é a minha culpa por ter obrigado algum pobre estagiário de editora a ler aquilo. Luto contra o meu impulso de enviar uma carta de desculpas. E então? Vocês acham que devo?

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Sweet Valentine

Os nacionalistas que me desculpem, mas fevereiro não é só mês de carnaval, não. Pra quem não sabe, é o mês dos namorados nos Estados Unidos, do aniversário do Alan, da celebração esotérica máxima do amor: algo apelidado de "Lotus World", que apesar de não fazer muito sentido lógico, inspira. Ah, isso, inspira. Mais do que sucesso, amor é o que todo mundo quer. Sucesso no amor.
Mas este breve post, abrindo os portais otimistas de fevereiro (só nos resta o otimismo, como força transformadora de qualquer coisa) não tem nada a ver com isso. Pretende, simplesmente, celebrar a criatividade científica, que acaba de transformar o paradigma do açúcar, leiam só. Muito em breve poderemos ligar ou desligar a saúde com uma colherinha desse pó branco (e não do outro). Me inspirou, sério, um futuro doce. Melhor mesmo só comentário de fã logo de manhã, e esse aí, ó: me fez chorar*. Um doce dia pra vocês.


*lamento, galera, mas é privado. pra divulgar só com permissão.

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