Noga Bloga: a crônica cotidiana de Noga Sklar

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Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
O livro não é só o que escrevo, mas o que se passa à minha volta enquanto escrevo.
José Castello, em entrevista ao Prosa Online sobre seu novo romance, Ribamar





Ou muito me engano

Quanto mais o tempo passa mais me convenço: não foi Niemeyer o doce velhinho que encontrei na pizzaria, e sim um sósia pândego do famoso arquiteto, almoçando com sua filha chiquérrima e pronto: me fe(i)z de boba. De quadril rompido e ligações escusas o centenário humorista não tinha nada... e essa agora de apologia a Chávez, hum. Não sei não. Me dá vontade de morrer logo pra não ter que pagar mico quando for idosa, e ainda por cima ter que engolir em seco as geleiras derretidas, manipulada, vilipendiada pelo ideário corruptor de Bush. Vai ver que já estou idosa, consciente da inevitabilidade dos enganos e com uma certa vontade de morrer. Certeza desmoronada é bom pra isso mesmo: te joga na depressão. Pelo menos pagando mico eu já estou. Com meu texto metido a ousado passo por boba, ingênua, pra não fugir ao estilo empolado da casa: babaca. A vida está me deixando triste. No rastro da rejeição reviso o meu romance, pra descobrir a força inerente dele camuflada em cafonice, cacofonice injustificada e constrangedora, fala Mansur. Te ouço. Deixar-me abater, não me deixo. Confio no tempo, abro mão de saber tudo e meto a borracha: sem medo. Sem nenhum apego ao pretensioso equívoco: deleto. Delego a outros o papel de me julgar ridícula, no blog da Carlinha tem gente fazendo isso, embora desprovidos de argumento válido, enrascados na própria ignorância: postumamente deletados.
Não sei se atrai público esse público dar-a-cara-a-tapa. Pra isso mesmo é que fui treinada: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Me lavo no desabafo e saio... hum. (Des)lavada. Pelo menos de Pôncio Pilatos não me arvoro nunca.



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Devagar com a brasa

Neste ano eucarístico do aquecimento global causa espanto, nessa entrevista publicada hoje no Globo, o aparentemente frágil poder de fogo evangelista dos adoradores do apocalipse. Vejam:

O Globo: "Se as previsões do tempo feitas por cientistas hoje têm apenas poucos dias de acurácia e ainda assim são sujeitas a falhas, como é possível prever como será o clima daqui a 100 anos?"
Ambientalista: "Embora ambas sejam baseadas em modelos matemáticos, previsões do tempo e predições climáticas são muito diferentes em seu objetivo. As primeiras dizem respeito a áreas e períodos de tempo muito menores e específicos. Com isso, requerem precisão maior e qualquer diferença pode levar a erro significativo. O objetivo dos modelos a longo prazo é identificar tendências globais muito mais generalizadas."

O curioso é que o experimentalismo científico costuma esbarrar, justamente, nessa mudança de escala, do restrito ao generalizado. Tal afirmação se verifica em vários campos de pesquisa, como a física quântica, a teoria das cordas, a clonagem, a eficiência terapêutica de novas drogas. O sucesso no laboratório costuma apontar, não raro, na direção de um fracasso no macrocosmo da vida real, daí os milhões de dólares atirados regularmente com gosto na fornalha do conhecimento.

Diz o relatório do IPCC - Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas: "Na verdade, mudanças estão ocorrendo num momento em que fatores não-humanos, como a atividade solar e o vulcanismo, deveriam estar provocando um esfriamento, e não o aquecimento do planeta."

Hum. Não sei não. Em tempos de janeiro nublado e laranjais congelados, não sei se preciso ir mais longe: as evidências se contradizem por si.
Devagar com a brasa, gente, que essa sardinha tá parecendo bem fácil de queimar.

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O sorriso de Deus

Vocês aí eu não sei, mas eu não vivo nesse mundo pós-apocalipticotecnossexológico que o Jabor descreve. Não. Achou um palavrão? Porque é mesmo. Soa assim aos meus ouvidos esse retrato malsão da sexualidade humana, jogada no lixo não-reciclável das conas infláveis, dos paus à pilha desvairados. Exagerado, duplamente acentuado, é. Tudo em nome de um amor frustrado, tecnologicamente roubado, um valor romântico não em vias de extinção, mas já irremediavelmente extinto.
Fora do horário comercial, não conheço mulher nenhuma que exerça seu direito ao gozo portando um treco esdrúxulo desses. Quanto aos homens... Deus me livre dos que, solitários, se apegam voluntariamente a bucetas de plástico, compartilhando o prazer com o assobio pungente das amantes esvaziadas.
O Jabor, eu sei. Não importa o tema, é um alerta o palavrório fatalista dele: um jeito radical de recuperar a dignidade. O meu é outro. No entanto há algo de real, de cotidiano, no exercício destruidor da escrita. Eu sei, meninos. Eu li.
Tem quem use o idioma sexual pra inspirar, iluminar o caminho do verdadeiro amor. E há quem exerça sua liberdade online pra expressar, entre risinhos nervosos, o seu humor precocemente brochado, a falta endêmica de gozo que os aflige. Uma turminha do demônio, ou que no máximo mantém viva a associação, falsamente moralista e francamente anacrônica, do prazer sexual pleno às artes enganosas do demo.
Já quem toca o seu teclado pra arriscar, corajosamente, a ampliação consciente do universo amoroso, saiba: o orgasmo humano a dois é sim, coisa de Deus: é o sorriso de Deus, amplamente divulgado desde o início da palavra escrita. Sinal de que, se existe, esse Deus que tanta gente idealiza é mesmo um otimista... e ainda por cima, criativo. Taí um argumento incrivelmente criacionista, bem mais convincente que a negação doutrinária de Darwin, essa sim, fatalmente reducionista.
Se existe mesmo coisa do demo, gente, é essa mania viciante de pessimismo futurista: uma apologia pecaminosa do medo que não leva a nada. Muito menos ao gozo amoroso, que no fim das contas, é o que todo mundo quer.

PS ops. foi mal. caí mesmo. estive conversando com o Alan no almoço e ele me disse que nos Estados Unidos ninguém, nem o mais nerd dos nerds, o mais rejeitado adolescente, caíria nessa de boneca inflada, um retumbante fracasso de mercado: todo garoto aprende, bem cedo, os milagres prazerosos da "Five finger Mary". detesto ser feita de idiota, é. mas garanto, por outro lado - e desta vez com algum conhecimento de causa - que toda mulher que cede ao impulso publicitário das sex-shops não passa de idiota também, caíndo no conto do pior vigário, e ainda mais triste: pedófilo.

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Três cavalheiros

- E então, Noga? Recebeu as fotos que mandei?
- Recebi.
- Gostou?
- Pra falar a verdade não. Detestei. Fiquei parecendo um monstro.

Ops. Um mínimo instante depois do enunciado já dá pra sentir a mágoa dela. Não sei se foi o ângulo, a luz, o vestido branco. Nem muito menos sei porque eu disse isso, se "monstro" pode até traduzir o que se vê na foto, mas dificilmente refletir a realidade. Quem liga. Meus quinze minutos de fama já passaram mesmo, e longe, bem ao largo da Ilha de Caras.

- Não tenho culpa. Tem roupa que engorda mesmo.
- Claro, nem eu disse que tinha. - me apresso em corrigir - Mamãe saiu muito bem, e a qualidade da imagem, perfeita.

O diálogo cai perfeitamente no meu sentimento de culpa - ainda presente - por ter largado a academia. A Lia não, continua firme. E cada vez mais forte. Musculosa, quero dizer. Presa voluntária dos apelos do marketing da aparência. Eu gosto de exercício, não me entendam mal. E também de manter a forma. Apenas, tendo atingido inexoravelmente a meia idade, resolvi optar pela maior liberdade: de padrões, de neuroses, de frustrantes vaidades. Dizer que já consegui estaria aquém da honestidade. Meu incômodo remanescente salta dos comentários, francamente desnecessários, contra quem me critica o que se vê de fora. Fotogenia nunca foi meu forte, nem muito menos beleza exterior.
Não sou Terezinha de Jesus nem nada, mas de quedas fora do padrão bem que eu entendo. Fui muitas vezes ao chão, a maior parte delas por carência, ou solidão. Dentre os muitos cavalheiros que acudiram, oficiais mesmo eu citaria três. O primeiro não foi meu pai, que saiu da cena sensual muito antes que eu chegasse nela. Foi meu primeiro marido, um cara oscilante: às vezes no ponto, às vezes fora dele, gordo, depois magro, depois gordo, bom-de-cama, depois ausente, a moral sempre hesitante. Traiu. Mentiu. No final, foi quem acabou caindo, com outras damas menos exigentes disputando o privilégio de levantá-lo.
O segundo não foi meu irmão. Esse aí, apesar de criatura excelente, não vai fundo nos mistérios da minha mente. Além do mais, os olhos são verdes, e não azuis como os do legítimo segundo, um sujeito já maduro mas sempre em forma, corpo atraente, e entre os muitos vícios nomeáveis, uma mania permanente de controle. Dos filhos. Das posses. Entre elas a segunda esposa recente, uma rebelde enrustida sempre a postos pra qualquer boa causa libertadora. Não deu outra. O mais belo controlava tudo, bem, quase tudo. Escapava ao jugo dele a rigidez do pênis, que teimava em só despertar no meio da noite, quando carente, tardiamente exigente, me provocava: ai, não. Agora não. Estou dormindo, espera até de manhã. Amanheceu... ele tentando igualar minha neurose à dele: como eu "só pensava em sexo", fui convidada a me retirar.
E agora o terceiro, ah, o terceiro a quem dei a mão. Amiga minha outro dia garantiu: o terceiro é o que vale. E valeu. Vem valendo a pena. Chegamos ao clube pra almoçar, refrescados pela languidez gostosa que só o sexo bom nos dá, e mamãe, que mal consegue elaborar uma frase, vai logo encarando ele - com a franqueza involuntariamente ofensiva das crianças... e dos dementes -: "o cara mais feio do mundo, parece ter duzentos anos."
Não fala assim, mãe. É esse o cara que me faz feliz. E voltando pra casa abraçados, ladeira abaixo no Alto Leblon e ainda presos no assunto da foto, e da reação da Lia, (o português de mamãe, graças a deus, ele não entende) me pergunta: - Você me acha gordo? Eu ri. Bem. Acho. E daí? Em tempos de liberdade de escolha, a maioria de nós escolhe mesmo é não escolher nada, boiando manipulados por estereótipos impossíveis. Nem gordo, nem magro. Nos limites do amor, digamos, da sanidade. Do desejo bem satisfeito, deveria ser esse o nosso critério de sensualidade.

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Gerânios

Em sua crítica ao Hierosgamos no Prosa & Verso, André Luis Mansur lamenta que eu não dedique ao encontro real, do ponto de vista dele o verdadeiro clímax do livro, mais do que meia página. Embora eu tenha concordado com o Mansur em vários pontos, e esteja até revisando novamente o texto por causa disso, minha opção pelo corte abrupto da história, na passagem do virtual para o real, persiste. Explico.
Apesar de acreditar no amor em geral, e mais especificamente, no amor que existe entre Alan e eu, pode ser que nossa vida real nem sempre inclua o excepcional, a exceção, o maravilhamento único que faz qualquer relato valer a pena. Tem seus altos e baixos, seus momentos de alegria e de crise como os de todo mundo. Seus momentos de tesão, de revelação, e seus momentos de tédio, de conflito. A vontade de superar... e a vontade de desistir. Como todo mundo.
Nada disso altera, no entanto, o efeito profundamente transformador desse romance em minha vida. Nem importa se daqui por diante a gente permaneça junto, envelhecendo em paz, ou se separe num explosivo divórcio. O que valeu, valeu. E é o que estou querendo aceitar. Não quero dizer, gente, que eu esteja à beira da separação. Não. Mas que estou enfrentando uma dessas crises passageiras e dolorosas de fim de semana, é fato. E busco as melhores armas para superar isso... Uma delas é retrabalhar o livro. Reviver a magia do amor que ele contém, e que além de todas as dúvidas, angústias e batalhas existenciais humanas, existe. Existe sim. Não importa se no real ou no virtual, afinal de contas o efeito de ambos no cérebro é semelhante, e todas as disposições em contrário, mero preconceito. São os pequenos momentos preciosos, com sua alta e rara dose de alegria total, que nos permitem continuar vivendo.
Coisa difícil é a gente ter, nessa vida, controle sobre tudo: o que fazemos, o que escolhemos, e mais que tudo, sobre as conseqüências inesperadas dos nossos pequenos atos. Como esse vaso de gerânios despetalados aqui do lado, por exemplo: os comprei no supermercado, cuidadosamente selecionados como os mais brilhantes, atraentes, saudáveis e frescos, embalados em celofane brilhante. Mas ao chegar em casa e desfazer o embrulho, liberando do aperto as flores unidas pelo papel, percebi que escondiam galhos mortos, folhas secas, pétalas caídas. Com muita paciência fui cortando os galhos, sacudindo as pétalas, arrancando as folhas. Cheguei num resultado mais ou menos satisfatório, uma dúzia de flores viçosas num vaso mais vazio, e quem sabe, mais efêmero. Se há culpa de alguém nisso, descontada a intenção puramente comercial de quem embalou a planta, é da minha percepção limitada das infinitas possibilidades da planta no vaso. Em termos mais diretos e menos metafóricos pode-se dizer, simplesmente, que não olhei direito. Me resta agora ficar feliz com duas ou três flores a menos. Não tem importância. O vaso continua lindo, e bom domingo.

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Emburrecimento global

Alvo mais recente dos irados e catastrofistas ambientalistas ingleses, sempre em busca de seu pedacinho de pânico, não sei se a indústria da moda colabora realmente com o enlouquecimento do clima, mas que contribui, regularmente, para o emburrecimento global, não resta dúvida. Vejam a pérola filosófica profunda, tratada exatamente como tal pelo repórter de o Globo no Fashion Rio:

"Entre os monarcas absolutistas que inspiraram seu inverno, Gloria Coelho tem um preferido:
- É Henrique VIII. Gosto mais dele porque matou todas as mulheres."

Pode até ser que, contaminada pelos eflúvios tóxicos que emanam da nossa dose diária de informação, eu também esteja ficando burra. Ou perdendo o humor, porque fala sério, gente. Só pode ser piada, e nem assim vale a publicação. Sinceramente, não tem graça nenhuma. Por trás dessa máscara de conteúdo que engana até gente muito bem intencionada, essa indústria do descontentamento mostra estar passando por grave crise de criatividade, que ainda por cima vem fazendo mal à saúde. Física. Mental. Espiritual. Nada mais fútil e perdulário do que uma coleção de roupas que ninguém pensaria em usar, só pra fazer pose cobrindo um corpo impossivelmente esquálido. Saudosismo à parte, bons tempos os de Balenciaga, St Laurent, Dior... e mais chinfrinzinha, pé-no-chão, de roupa usável, gostosa e bonita nas vitrines. Tenho berço, vocês sabem. Vovô ditou moda nos anos 60 em Beagá e fui muito mal acostumada, verdade seja dita: naquele tempo, era bem mais difícil optar pela simplicidade e manter um armário discreto de 3 ou 4 peças, porque a tentação da vaidade era grande. Ah. Certo. Agora entendi. O que a magnânima e generosa indústria da moda vem fazendo, sem que ninguém perceba, por baixo do pano: nos convencendo, com todas as armas, que o que propagam é justo o oposto do que se deve fazer. Militando pela sanidade futura do mundo com a sabedoria dos contrários, é. Mais ou menos como o glamour do cigarro e do uísque nas telas de cinema.
Dito isto. Grande Mestre Zuenir, no Globo de hoje, defende belamente o meu ponto de vista ambiental, que devido ao alto grau poluente da minha constante revolta não tenho sido capaz de enunciar, nos meus textículos sempre nublados por essa raivinha de pobre. Bem além do medo injetado em nossas veias pelos arautos nomeados da destruição do planeta, o que vale mesmo é uma atitude consciente na nossa vidinha caseira. Vai lá e lê que não estou aqui pra corta-e-cola de sanguessuga intelectual, e fecha logo essa torneira enquanto escova os dentes, falou?

PS grande Carlinha, te admiro. obrigada pela visita. me fez sentir que estou, finalmente, virando gente grande. qualquer exagero na crítica não passa de mera deformação profissional.

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Saindo do armário

Quando eu já dava o assunto por encerrado, o telefone tocou:
- Oi, Noga. É a Isabela. Desculpe eu te ligar outra vez.
- Oi, tudo bem? E então, falou com a minha amiga aí em Sampa?
Isabela é uma leitora do meu primeiro livro, Fases da Lua, disponível agora online com o novo título, "Eu, xamã". Me ligou há coisa de 2 semanas, querendo que eu fizesse pra ela uma das jóias mágicas que o livro mostra. Mas eu não pude. Cogitei, mas não tive como, porque, sinceramente, não acredito mais que algo material tenha o poder de mudar a vida de alguém, a não ser como um recurso de automotivação e, pra isso, qualquer objeto serve. O sagrado está nos olhos de quem vê, no coração de quem sente. Em todo o caso, a Isabela insistiu, e recomendei uma amiga paulista que faz jóias sob encomenda.
- Falei com ela, obrigada, mas tive que te ligar. Avancei mais no livro, e quando cheguei ao Sul... Nossa. Admirei muito a sua coragem de se expor assim... Me identifiquei demais com o teu relato, tão pessoal...
- Obrigada. A intenção era essa mesmo.
- Todas as mulheres se parecem, não é? Se preocupam com as mesmas coisas, e você se abrindo assim é de grande ajuda...
Me despedi, prometendo manter contato, e esta manhã, caminhando na praia, me peguei pensando sobre o que o capítulo do Sul teria de tão especial. Desconfiava, mas não tinha certeza, e quando conferi... Não deu outra. É no Sul que falo sobre os traumas de infância... e sobre a descoberta do sexo. Como era meu hábito naquela época, associo o sexo no livro a rituais e compartilho, com franqueza, as estratégias pra superar os limites, a dificuldade de gozo, a falta do companheiro ideal.
Tá certo, gente. É esse o assunto que mobiliza todo mundo. Tenho a impressão de que nós, mulheres, sofremos de ignorância aguda com relação ao corpo, à verdadeira sensação do orgasmo... Afinal? Como é que é? As mães não contam, as amigas também não: fica estabelecido o mistério, e limitada a capacidade de realização, na cama e na vida. Conspiração.
No meu caso, vocês sabem... durante anos lidei com a superação de uma maldição que mamãe me impôs, no dia em que perdi a virgindade:
- Porque você fez isso? Se não vai praticar?
Se o Alan estivesse aqui do lado, já ia reclamar. Contando essa história de novo? Pois é. Com mamãe doente e tudo, acho que é este o ponto nevrálgico, que não consigo perdoar. Não vou praticar... e fiquei com a impressão... de que não ia gozar nunca... Fui logo me acreditando frígida, incapaz...
Foi procurando resolver isso que me enfiei em dietas, terapias, rituais... Mas gente. Confesso. Não foi o vegetarianismo, nem a malhação pesada, nem o ativismo ambiental, nem as xamânicas buscas de visão... Nem foi guru, conselho, sucesso profissional... ou a boa vontade dos amigos com a minha inabalável neurose que me ajudou. Tentei de tudo, sempre me achando feia, gorda, antipática e anti-social. O que me transformou mesmo, e nisso penso ser igual a quase todo mundo... foi um orgasmo de verdade. E não pensem que foi fácil. Não. Quando encontrei o Alan levei junto essa bagagem toda, de anos e anos de trauma. Não sei o que ele fez. Não sei o que eu fiz, o jeito que dei. Deve ter sido o amor, a confiança, a paciência, porque um belo dia, na Flórida... aconteceu. Foi simples assim. Do nada. Uma revelação maravilhosa que acabou virando rotina, hoje em dia é um dois três... Pronto. Um milagre que sempre se repete.
Por mais que eu tente enganar a todos, tecer teorias, advogar mudanças de hábito, esforço e reza, o que mudou mesmo a minha vida foi descobrir, pelas mãos desse homem que hoje mora comigo, que eu era apenas... normal. Capaz de gozo, riso, alegria... e muito mais. Um clique na cona, no cérebro, no coração... sei lá onde. Só sei que aconteceu e até hoje não sei como. Só sei que a minha vida, finalmente, mudou de verdade. Estou de volta a mim mesma, de onde nunca deveria ter saído. Passar receita não sei se consigo... Mas vou tentando, Isabela. Entendeu agora?

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Assinando em baixo

Não é que eu tenha acordado com a vó atrás do toco, mas abobrinha não é comigo. Durante meses freqüentei o blog da Carla no NoMínimo, o "Contemporânea", e participei, como toda boa internautinha comportada, deixando lá os meus comentários. E, pasmem, sob o meu nome verdadeiro. O tema me interessava: mulher, comportamento, internet e outros vícios moderninhos. Tô nessa. Até que, há alguns dias, o post publicado lá acendeu um alerta: afirmava que estar conectado é fazer, do próprio texto, um pastiche organizado de citações e links. Bem, mais ou menos. Não consegui localizar o post pra ser tão fiel quanto ela gosta de ser aos textos que usa em sua colagem diária, cuidadosamente evitando a interpretação pessoal. Me lembro de ter pensado, ao ler, que um blog não é nada disso; é na verdade, o contrário disso: um novo jornalismo nada imparcial, onde a opinião, além de valorizada, é obrigatória. Mas o que tenho visto acontecer, na vida e no ciberespaço, por trás do anonimato reducionista dos apelidinhos, é que ninguém põe o cu na reta por nada. Nadinha. Acaba qualquer assunto empastelado pelo reinado soberano da sem-gosto abobrinha. E como no caso do sexo, das nervosas piadinhas. Um estado de coisas que não posso, não quero aceitar. E não vou. Dane-se quem não gostar.
Desde jovem já tive meus problemas por acreditar, plenamente, nas propostas inovadoras. Começou na agência de publicidade em que eu trabalhava, quando a nossa chefe, muito bem-intencionada, contratou uma psicóloga de grupo (gente! alguém aí ainda sabe o que é isso? terapia de grupo?) para aumentar a criatividade - e, provavelmente, a produtividade - da turma. A psicóloga - hoje famosa - todo mundo conhece: Regina Navarro Lins. E a proposta dela achei boa. Comprei no ato. Cada um no círculo deveria dizer o que pensava, abertamente, dos demais, e com isso se esperava aumentar a coesão na equipe. Fui com tudo, e me revelei com gosto, sem menores apelidos. Gente. Que desastre. O mal-estar resultante foi tão grande que acabei saindo da agência, uns poucos meses depois. Pouca gente está preparada para a verdade pessoal - sua e dos outros - mas não se enganem. Porque nesse nosso mundinho plugado, ela certamente virá.
O que tenho reparado é que as pessoas, muito bem informadas, se apegam cada vez mais a clichês, mas refletir sobre eles que é bom... Outro dia tive um arranca-rabo irritante com uma prima, engenheira de petróleo muito bem fundamentada, aos 25 anos, num salário multinacional. Bom pra ela. Fala sério, gente. Implico tanto com essa menina que só pode ser inveja. Mas estava eu lá muito animada no papo, quando veio à tona o aquecimento global. Fui logo despejando certezas, controversas, quanto à insignificância do comportamento humano sobre os destinos do planeta... e assinando, como sempre, em baixo. A menina virou bicho.
- Mas como?
- Você está influenciada pela mídia, não pensa no que está dizendo.
- O quê? Mas que idiotice! Eu sei do que estou falando! Sou engenheira! Estudei sete anos e sei tudo sobre o assunto! Não tem nada a ver com a mídia!
- Ah. Certo. Estudou... Engenharia de petróleo... E agora posa, com seu apelidinho de ambientalista, como salvadora da humanidade... Mas me diga: qual é mesmo o maior agente poluidor, vilão causador da emissão de CO2? Não é a queima de combustíveis fósseis não? O nome disso não é petróleo não? Primeiro passo no verdadeiro ambientalismo: extinguir a sua rentável profissão.
Pois é gente. Citei o diálogo por ver nele um sintoma da dissociação inconsciente que temos sofrido. O mundo acontece lá fora e nós aqui, destacados dele, emitindo sem responsabilidade nenhuma nossos palpites inchados de slogans. Apesar de eu não ser ambientalista, nem vegetariana, nem militante gls, e assinando em baixo, não endossar nenhuma dessas muito populares palavras de ordem politicamente corretas, reflito, e muito, sobre o que acontece na Terra. E não tenho medo nenhum de emitir opinião, mesmo que seja na contramão do corta-e-cola corrente. Não tenho nada contra essa cultura sampleada que está nos contaminando, mas ceder a ela não cedo. Se sou dona e senhora de alguma coisa, é do meu pensamento, e como conseqüência, da minha opinião a respeito de tudo. Uma opinião que muda, que vai da água pro vinho se for preciso e se for provado que estou errada.
Não aprendi nada com a Regina, naquela fatídica reunião. Continuo me arrebentando pra dizer o que penso; exponho sem travas a minha verdade e ainda por cima assino em baixo, arriscando a rejeição. E pra esclarecer, o assunto do post que motivou esse desabafo foi o livre comércio de esperma para fins de reprodução manipulada, mas isso já é outra história. Se me sobrar energia depois do vômito prometo voltar ao tema, mas enquanto isso... Reflitam. Tomem uma posição. Sejam livres. Nosso admirável plugado mundo novo é pra isso e é a gente que decide pra onde o mundo vai. Assinando em baixo e escapando aos clichês cada vez mais repetidos. E cada vez mais ocos.
Certo, certo. Esse assunto não tem nada a ver com sexo explícito... Não tem não? Tem tudo a ver, gente. Quem se entrega, se aprofunda e goza, goza mesmo de verdade sem meias atitudes, leva pra vida essa força plena de viver, e tem a capacidade de mudar tudo em volta. Dá até medo o poder que a gente tem. Vai ver é por isso que andam nos entupindo de slogans vazios sobre o sexo também, tentando nos estereotipar numa mesmice devastadora de seres malhados, siliconados e desprovidos de conteúdo: corpos sem mente, numa maratona entediante de marias-vão-com-as-outras. Enquanto o verdadeiro orgasmo da liberdade de existir vai correndo por fora.
E propósito, um link para o meu guru favorito, o Tzadik:

quem não toma partido de nada acaba sendo vítima de tudo

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Sexo oral

Mulher não vive sem sexo oral, taí uma boa verdade. Homem também não.
Com quem acha que isso é muito mais do que uma questão de língua, sou forçada a concordar. O tema anima, apesar das restrições habituais em contrário, qualquer conversa. Dá pra sentir o interesse, a curiosidade... e a falta desconcertante de vocabulário. Mas com a exigência de ser moderna, que do extremo recato em público nos empurra, em pouco mais de meio século, a um permanente vulcão exposto, ainda discuto. Essa onda explícita, arreganhada, afogando o mistério brochante (e abocanhante) por trás dos grandes lábios, não passa mesmo de informação malhada: o desfecho esperado de um release bem ruim, composto timidamente por um redator sem prática.
À primeira lambida na xoxota, confesso: mudei para sempre a minha relação com o sexo. Me surpreendi, me revelei, me umedeci, mas se eu dissesse que gozei, estaria me antecipando em pelo menos três décadas... e bem mais do que trezentas páginas, porque o orgasmo pleno é muito mais que cunilíngue. Tem que ter entrega, abertura, intimidade: o idioma despudorado do deleite a dois.
Sexo oral se pratica ao pé do ouvido, e rendido à falsa moral sai, muitas vezes, banal:
- Meu amor, minha flor. Vai, minha linda, diz pra mim: me fode.
- Adoro tua pele na minha. Vem. Te quero todinho, duro, dentro de mim.
Sexo oral, do bom, é raridade. Se a língua deslizando do pescoço até bem pra lá do umbigo excita, a franca troca de idéias segue eternamente virgem, inabaladamente pudica. Parecer sexy, hoje em dia, é obrigação. Mas falar do assunto... parece apelação. Pela cintura deslocada da saia quase dá pra vislumbrar a vulva, mas chamá-la pelo nome, este termômetro sensual do corpo, não se engane: é socialmente reprovado. E considerado, no mínimo... vulgar. A descrição em prosa ou verso da prática do amor, o que no território livre do encontro é, mais do que desejo, uma aspiração comum, desperta em que lê o gordo censor interno, fartamente alimentado pelo preconceito verbal. Da "sensação impossível de descrever" à "coleção constrangedora, repetitiva, de clichês" o texto sexual, em geral, intimida demais o escritor. Atrai e trai quem por ele se arrisca, e enfrentando o pânico se expõe temerosamente à crítica.
Perdi online a virgindade do erotismo poético e como aquela outra, pelo menos no começo, sangrou. Depois me fez chorar. De amor, de alegria. De pura emoção. Em 45 dias de troca sensual intensa o que não faltou foi tesão, que resultou, não raro, em orgasmo quase total. Verbal. Genital. Cerebral. Porque por mais que a vagina se ofereça ao pênis, e a fricção pulsante culmine em prazer intenso, o grande norte sexual humano é mesmo a mente, que se excita exatamente como os demais portais do toque erótico: pela língua. Lúbrica. Lasciva. Desbravadora.
Pra começo de conversa sexual, e com tanta transparência ao nosso alcance - de roupa, teclado e tela - espanta que a repressão falada, transcrita envergonhada em patéticos apelidos, ainda persista. Passa pela riqueza da língua o caminho da descoberta, em nossa espécie, do sexo pleno: do leitor ao autor, com muito gosto, um desafio. A cada geração literária que o deflora, o hímen complacente da obra é restaurado enquanto a sensação de tabu, sofisticadamente negada, se mantém. Ao transgressor mais ousado, o prêmio publicado do gozo liberador.

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Crepúsculo do macho

Se o Batman não passa, na realidade, do amante homoerótico de Robin, ao supermacho ultrapassado só resta mesmo um papel: o do vilão Coringa, estuprando o mercado livre do sexo com esse maldito substituto mecânico de si mesmo. Arnaldo Jabor em sua crônica de hoje até reconhece, mas não nomeia, o verdadeiro autor desse patético artefato, co-responsável, como ele diz, pela derrocada inapelável do sexo com amor: o vibrador. As mulheres, em geral, garanto que ignoram. Convencidas pelo onipresente departamento de marketing sexual e se acreditando, agora sim, senhoras do seu prazer, as pobres fêmeas da espécie se aceitam, de bom grado, como marionetes da moderna sexualidade... enquanto lá de cima, convenientemente oculto pelo urdimento enganoso da liberdade de gozo, o CEO Mascarado, às gargalhadas, manipula impiedoso os seus pauzinhos. Obscenamente durinhos... mas nem por isso, menos sórdidos e infantis.
No crepúsculo amplamente divulgado da falocracia, é o pastiche da natureza humana que estrebucha, no embate brochante do pinto rígido contra a xoxota frígida. Do divã pouco amoroso de Freud à neurotizante sex-shop à domicílio, o princípio disfarçadamente humilhante permanece o mesmo: histeria, teu nome é mulher. E lá vamos nós, vacas de presépio insensíveis, seguindo animadas pro abatedouro da nossa própria identidade. Avançamos no ataque desse jogo do contente, embaladas pra presente pela trilha sonora, mas falsamente ardente, de meia dúzia de eletrônicos gemidos. Azar o nosso.
Esse comércio debochado do orgasmo, travestindo em brinquedinho a pilha o desejo frustrado pelo macho, não nega fogo à sua origem espúria. Não tem cala-boca melhor pra esse gênero incômodo, eternamente curioso e insatisfeito, que uma eficaz coceirinha autônoma na tão misteriosa (e desconhecida) periquita. Mulher, todo mundo sabe, nunca é vítima de estupro. É conivente. E com esse sexismo explícito, desvairado e mal dirigido, é o que estamos conseguindo provar. Deprimente. As maduras de verdade, as gostosas, as que se entregam a seu homem amorosamente e gozam, passam bem longe desse badalado modelo reducionista. São mornas e macias, naturalmente cheirosas, doces e oferecidas. Não têm nada a ver com as armadilhas vibratórias, práticas e frias, típicas do mercado de consumo narcisista: rápidas, anti-sépticas e cruelmente invasivas.
Deu na tevê a cabo no outro dia que pimenta no cu dos outros não é mais refresco: virou afrodisíaco. Mas no meu, quer mesmo saber? Tem ardido demais ultimamente.

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Ascendente virgem

Mamãe nunca quis que eu namorasse o Júlio porque ele tinha loucura na família. Já não era o primeiro candidato a genro que mamãe rejeitava, e olhem que eu só tinha 15 anos! Loucura é pensar que uma garota dessa idade planeja casar com o namorado da hora e reproduzir... Com certeza era a projeção de um medo antigo, já que vovô e vovó eram primos de primeiro grau, receita certa, como se sabe, para problemas nas gerações seguintes. Para os padrões de mamãe fui transgressora desde pequenininha.
A verdade é que eu sempre fui louca, sim, louca para amar e ser amada, mas no momento só tenho quinze anos e contra a vontade dela estou namorando o Júlio, que é 30 cm mais alto do que eu e tem apenas treze, o menino mais lindo da turma, esguio, nariz delicado e louro, o cabelo caindo na cara. O meu problema é que o Júlio não sabe beijar... Nem eu, então resolvi pedir a um amigo pra me ajudar a corrigir a falha mortal do Júlio, me ensinando a beijar de língua. Não me lembro se deu tempo, porque logo depois do baile de debutantes - onde dancei a valsa com o Júlio e acabei com torcicolo, porque ele fazia questão que eu olhasse no rosto dele 30 cm acima do meu quando a gente dançava - estourou a Guerra dos Seis dias em Israel e eu fiquei séria, resolvi acabar com aquela bobagem de namorar garoto imaturo porque a vida não estava para brincadeira.
Acreditem, eu debutei. No meu tempo, em Minas, era normal. Primeiro foi a festa de quinze anos, que naquela época ninguém trocava por viagem. Meu vestido era de chiffon vermelho com um corpete bordado de alcinhas, o decote ridiculamente púdico pro meu gosto. Era pra ser sexy, mas acabou constrangedor por imposição materna, e vai ver que por vigilância paterna também. Meu pai tinha fama de bravo e os meninos diziam que ele ficava armado com uma espingarda atrás da porta, me esperando chegar em casa tarde da noite, mas lá em casa nunca teve outra arma a não ser a palavra. Livros proibidos eram vários: me lembro do Chocolate pela Manhã que nunca li, porque no fundo sempre fui bem comportada, uma boa menina que não ia a lugar nenhum, estudava muito, tocava piano, fazia inglês e balé e achava melhor ter namorado em São Paulo. Que eu me lembre meu único namorado em Minas foi mesmo o Júlio.
Paixões, tive várias: fantasiosas e não-correspondidas. Me apaixonei no ginásio pelo professor de física, um cara magrinho de óculos que ao falar de estrelas me fazia vibrar. Quis fazer faculdade de física mas mamãe não deixou, imagine se aquela era profissão pra mulher. No máximo, belas-artes, como se ser artista fosse alguma coisa leve, descompromissada, e que não afugentava marido. Tentei conquistar o cara mais bonitinho da turma dando cola pra ele no vestibular, sentada na arquibancada do Mineirão, porque o melhor que eu tinha pra dar na época era mesmo a inteligência. Antes dos onze fui apaixonada pelo Rique, que morava a poucas quadras lá de casa mas era um Montecchio, filho da facção judaica errada. Freqüentava o clube dos "outros" e foi o primeiro candidato a genro que mamãe rejeitou. Guardo desse amor até hoje uma cicatriz, resultado de uma simpatia que fazia sucesso entre as meninas da época: a gente colocava um pano fininho sobre o dorso de uma mão e arranhava insistentemente, com a unha do indicador da outra. Se ferisse, significava que o menino que a gente queria queria a gente também. Difícil era não sair ferida e no meu caso... pior: mamãe proibiu o namoro, que acabou antes de começar. Lá pelos nove fiquei viúva: o menino de quem eu gostava - e cujo retrato trazia na lancheira - morreu de repente em acidente e foi mesmo triste. Chorei muito, mas rasguei o retrato... e enterrei meu grande amor no vaso sanitário; nunca fui de colecionar memórias, mas até hoje me sinto cruel por causa disso.
Mamãe rejeitou meus pretendentes, mas sobre o amor nunca me ensinou nada. Resultado: eu ignorava o assunto, e se desejava tanto algo era sem saber o quê. O que ficava bem claro era o risco de ficar "falada". A gente ficava falada em Minas só por ter ido na lanchonete de tarde com os amigos... e apesar de ainda ser bem virgem quando saí de lá, não traí o meu destino: segundo um primo mais velho - e careta - falavam de mim. Falavam sim. Em Minas já falavam de mim mas graças-a-deus acabei no Rio, cidade moderna de gente livre onde não se controlava a vida de ninguém. Quanto aos meninos paulistas, acho que o que os deixava tão atraentes era a ilusão da falta de controle... e a chance de estar longe de casa... Meu self carioca de hoje não ousa confessar, mas antes de sair pra sempre de Minas o que eu queria mesmo era ser paulista. Pelo menos duas vezes por ano eu viajava pra São Paulo, pra participar de alguma reunião do movimento juvenil judaico que freqüentava. Tinha quatorze anos quando entrei naquele ônibus indo pra Campos de Jordão e conheci meu primeiro poeta, primeiro grande amor: o primeiro homem - e segue a longa lista - que me fez sofrer de verdade. Por amor.

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A verdade é uma faca

Não vou cair na besteira de usar um clichê desses, afirmar que a verdade é uma faca de dois gumes. Não. Que a verdade é cortante e destruidora, lá isso é. Mas, sendo, está mais praqueles cortadores de tomate: se a gente for com cuidado, corta aquelas fatias fininhas, bonitas, que permitem comer a fruta polpuda civilizadamente de garfo e faca, sem escorrer o sumo pela boca. Agora, se pesar a mão... esmaga. Tritura. Transforma a fruta madura numa pasta nojenta, imprestável.
Eu, que tenho mania de verdade, convivo com os dois momentos. Num primeiro, sigo a voz da consciência, uma espécie disfarçada de esquizofrenia que fica de dentro pra fora me empurrando às neuroses: acho que sim, estou ajudando, sendo sincera, aberta, transparente. Me concentro em mim e deixo de lado o alvo, derramando o verbo sem controle nenhum, que nem leite fervendo no fogão. (ih. plágio. dona Elvira Vigna já usou isso) Começa a subir e pronto. Inevitável.
O problema é no depois. Olho o tomate no prato e tudo o que vejo é o estrago. Me culpo. Me arrependo. Me arrebento inda que tarde. Fica lá, a culpa, suspensa no ar, inútil e anacrônica: o mal está feito, e o alvo, coitado, mais que atingido... mortalmente ferido. Overdosado.
Na verdade (olha a pretensão aí de novo) o que acontece não é uma coisa nem outra. Nem a abertura é tão sublime, nem o resultado tão corrosivo, como já pude poucas vezes constatar. É tudo produto extremista da mente doente, bipolar... fazendo, de um mero escorregador de praça, uma montanha russa muito louca. Por boa parte do tempo, aqui no blog, cedo intermitente aos meus impulsos civilizatórios de pregadora. Tudo bullshit. Na vida real não sei de nada, nada. E muito menos sei algo de mim.

Chego hoje aos 55 e sou insegura pra caramba.

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Falando nisso...

Ventania global

Ventou no Rio. Ventou na Europa. Ontem, no nosso mundo, ventou; um vento forte que ameaçou varrer para longe o edifício das nossas convicções, nosso mundinho tecnológico que eu prezo tanto. Nossa memória, ou, pelo menos, alguns registros dela: os meus, de contato com o mundo, foram interrompidos, e me perdi temporariamente na bruma do não-saber, o hábito revolto - ou melhor, revoltado - tampando a minha cara. Que o vento inevitável da mudança varra pra longe a nossa hipocrisia.

Dear webstats4u user,

Due to a power failure caused by the current storm in Europe our servers have experienced some technical problems on January 18... The measurement of the statistics has not been interrupted at any time and the display on the statistic pages and the top lists will been showing the updated statistics again in the next hours. We are sorry for any inconvenience this might have caused you.
Mit freundlichen Grüssen / Best regards / Atentamente
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Tá certo, gente. Eu deveria estar reconhecendo o meu erro, aceitando finalmente a ameaça premente do aquecimento global, que também por aqui soprou enérgica ontem. Pelo menos é o que a mídia está nos empurrando hoje, varrendo outros perigos para baixo do tapete, mas não adianta. O vento da verdade leva o tapete pra bem longe e quero falar mesmo é de outra coisa. De atitude. De falsa moral. De sexo mal expressado, é. Da mentira global e da manipulação inequívoca do desejo. É assim que a gente se deixa levar pelo vento alheio: pela ignorância. Pela emoção cotidiana negada. Reprimida. Disfarçada.
O que é o sexo, afinal? Por que é que temos tanto medo dele? Por que a aura em volta dele do proibido, dos risinhos nervosos, da timidez indevida? Brochante? Ressecante? Não há nada mais básico, mais fundamental nessa vida do que ele. O sexo. Tem quem tente eliminar essa função vitalizante: já existe até quem nasça sem passar pelo crivo energizante dele, que apesar de tudo, não perde a graça. É. A qualidade de nos aproximar da graça, quero dizer. Não conheço nada mais próximo da noção espiritualizante do estado de graça - digam o que disserem os que separam o crente, do fervoroso - do que o sexo aberto entre os amantes. E no entanto, ressaltam-se dele os piores aspectos: o risco da doença, a raridade do gozo, a exiguidade de parceiros. Entre nós, mulheres, o gozo é descrito de um jeito que - não me espanta nada, nada - o transveste em ato heróico e raro, quase impraticável. Mas gente, a coisa é simples, cotidiana. É só um mecanismo amoroso, e complicações sociais à parte, muito engenhoso. Vocês já pararam pra pensar no tamanho do gênio que inventou isso? Um fica duro, uma se umedece. Penetra o um pela cavidade deslizante da outra num ajuste que é tudo, menos raro. Uma pulsa em torno do um que expulsa, ordenhado, o conteúdo essencial. E num momento, intenso e breve, o calor abundante em volta derrete tudo: mente, corpo, medo. E a mais sentida solidão. Da tempestade de hormônios que se segue, sai qualquer um lavado; e a força que circula é tão imensa que pode até produzir vida nova. E produz. Se não der em filho, dá num potencial enorme de energia vital que eu não sei porque se evita tanto. Pinto-na-cona é coisinha simples, gente. Qualquer adulto normal passa por isso centenas de vezes, e com alguma sorte, milhares. Tá na hora de falar claro sobre a coisa, cortar pela raiz o falso pudor. É o que eu faço, e fiz. E continuarei fazendo, sempre que me for dada a oportunidade: o que (d)escrevo no meu romance não é clichê literário não. Nem candidato do ano ao Prêmio Constrangimento. É o bom, puro, amplo e desmascarado relato do sexo amoroso entre dois humanos. Coisinha simples, gente. Ao alcance online de qualquer um.

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D.E.U.S. ajuda a quem

Pois é. Meu dia começou cedo, hoje. Cedo o suficiente pra me deixar esquecer que um dia começou. Antes das oito e já guardei as compras e li o jornal. Bem, quase. O suficiente pra me sentir motivada e preterí-lo pelo blog. Tem coisa séria rolando, gente, e não é o relógio do apocalipse se adiantando não, ou quem sabe até seja. Madruga entre nós o mais do que explosivo Caudilho Venezuelano, ai quem me dera já detonado pela inteligência do futuro. O Presidente pediu: "deixa o homem trabalhar". A gente deixa. Contanto que certos ingredientes da política externa brasileira, incompreensíveis para mortais comuns, não venham a atrapalhar. O Brasil vai bem.
Não, gente. Comércio global não é minha praia não. Mas antes de escrever li o que se diz com bastante atenção - do Editorial do Globo à Miriam Leitão - e embora não tenha me sobrado fé, rezo. Rezo muito pelo nosso Brasil, e pelo bom-senso no mundo. E pelas vias indistintas da minha franca comunicação com D.E.U.S. - explicitado no post aí de baixo - registro aqui o meu recado, metendo a minha já-mais-do-que-metida colher nesse piquenique ideológico do Mercosul:
- Presidente, não vá deixar que o olho gordo e oscilante de certos petrodólares* bananeiros pague - e uma mixaria de 10% - pelo que realmente pretende comprar: a liderança da América do Sul. Olho no mapa, Presidente... (veja o tamanho deles) Olho no mundo, e por favor, use bem hoje o seu terceiro. Olho, claro. Não mundo.

* melhor, no caso, petropesos - e pesam mesmo. uma energia pesada que não faz bem a ninguém.

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No Arnaldo Blog, o Supergoogle

Enviado por Arnaldo Bloch - 18/1/2007- 6:17
Russo

Estava uma beleza o calçadão sob o russo pré-matinal. Pedras portuguesas úmidas amplificando a luz dos postes, poças d´águas preenchendo a irregularidade das pedras, logo vai amanhecer mas ainda não há sinais além dos pássaros e dos passantes, primeiros velhinhos em passo acelerado, tem um que parece um fantasma emergindo da bruma, está mal a coluna do velho masa força está a mil, os braços balançam como se soerguido o homem da tumba, uns ciclistas equipados preferindo a pista dos carros ainda vazia, prefiro de meu lado as pedras mesmo já que a ciclovia começa a ser ocupada por gente que corre, e solto os braços, empino a espinha, a bacia para trás, á ponta dos pés nos pedais como se fossem estribos, e vamos lá.

Ps - Perdoem-me os que se revoltaram com o post anterior, compreendam que não se trata de ataque ao pobre moço, mas ataque a um discurso fatalista que cisma em escorrer dos nossos cérebros fazendo-nos fugir à verdade. Deus se existe é muito mais. Deus é a paz na madrugada, quando há. Não é morte nem salvação, não é graça sobre uns nem castigo sobre outros, é só amor, bruma fresca da manhã.


Arnaldo, vejo que o assunto te mobiliza, e é também um dos meus preferidos. O "nosso" Deus tradicional é, sim, um pai terrível, que premia e castiga (mais pro segundo que pro primeiro como qualquer pai repressor que se preze), e que me assustou por boa parte da vida. Quando enfim me desliguei dele, enquanto me debatia com o problema de não acreditar mais nele, e ainda assim invocá-lo involuntariamente - como você diz, escorrendo do cérebro - a cada suspirado (ou aliviado) 'graças a Deus', cheguei a uma colocação teórica que até hoje não me traiu: Deus é a consciência coletiva da humanidade, um conjunto ativo de mentes do qual fazemos parte e no qual podemos procurar respostas para nossas questões e, até mesmo, se houver habilidade suficiente, nos antecipar a algo, como fez, digamos, inconscientemente, o personagem-alvo da sua ira. Algo assim como um supergoogle espiritual. Quanto ao seu Deus amoroso - embora meio brumoso -, valeu pela poesia. E por um bom dia.

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Meu bloco na rua

Peço desculpas aos raros leitores aqui do Noga Bloga, uma turminha que cresce e, seguramente um dia, vocês vão ver que aparece. Mas acordei com a macaca do tempo, a convicção irrefutável de que as coisas um dia mudam.
E não estou sozinha. Em sua crônica carnavalesca de hoje, no Globo, Artur Xexéo - nosso editor favorito - vai bem além do mero apego saudosista à fantasia, fazendo um retrato sutilmente irônico da (r)evolução dos costumes. Calma, gente, nada de pânico. Só estou mesmo captando patrocínio para o samba-enredo da vez, no cordão fiel dos puxa-saco: o plural majestático e a nossa prosa, cada vez mais delirante, que o digam. Noga Bloga no Globo só mesmo quando o rato sem rabo roer, todinha, a rrenda da rrainha rrussa. Radha Ramana Hari Govinda Jaya Jaya e de volta ao Xexéo.
Há nem tanto tempo assim, lá por volta do ano em que nasci, televisão no Brasil nem existia. Começou com a p&b onde, de volta ao Xexéo, programa de carnaval era Clóvis Bornay x ... Evandro Castro Lima, ai, tive de recorrer à fonte que desse nome eu já nem me lembrava. Foi só bem depois que vieram a cor e a maionese pronta, pois no tempo da gente era a gema caseira, batida na mão com azeite e um gota de limão. De qualquer modo, naquela época, a fantasia - de luxo ou original - era mesmo para muito poucos. Telão LCD então, nem se fala. Levou mais tempo ainda foi pra elite subir no salto, contaminando a alegria do povo: na comissão de frente o Joãozinho* Trinta - com sua muito particular filosofia - nos condenando à futura mesmice e jogando pra cima de nós, escritores, o seu vodu:
"Quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta mesmo é de luxo."
Daí pra frente o reality show do carnaval cresceu, exagerou: virou Second Life na vida real de muita gente, um bom negócio de verdade, envolvendo política e milhões. Ultimamente é que esse hábito de fantasia cara ficou tão ridículo, tão lugar-comum, que até o Xexéo deu pra enjoar. Quem é da farra prefere sambar solto na rua, fazendo o seu próprio carnaval... E não é no bloco do eu sozinho não. É na base mesmo do estamos aí, em toda a cidade, pagando em suor a felicidade.

* ops. perdão: Joãosinho, bem lembrado pela doce Cora

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A quarta via

Ou quarta dimensão, gente, sei lá. Mas, certamente, agente inexorável da mudança: o Tempo. Que segundo o conhecimento corrente, é via, além do mais, de mão única, apesar da mais do que disseminada ignorância em contrário. O fato é que, mais do que tragédia esperada ambiental, mais do que retrogradismo anacrônico de governos (e põe redundância nisso), a força do Tempo muda tudo e isso não há como evitar. Se para o bem ou para o mal é uma questão, digamos, de acessar... ou de como escolher participar, porque na abertura ampla e irrestrita que acomete hoje em dia a mídia digital, cada vez mais aberta ao pessoal, surge além disso - e impetuosa como nunca - a voz destravada do povo, essa aí, por seu lado, a quinta via: um desfecho otimista que quase ninguém previu. Dos búzios aos eflúvios, e apesar do catastrofismo recorrente dos nostradamus globais, quem manda na sua vida é, cada vez mais, você. Está na Times, no Google. Está no YouTube e no Skype, na novíssima, gratuita e inevitável: TV Skype. E o venezuelano Chávez que se cuide - com seu bloco antitudo obscuro -, porque em matéria de atravessar o samba do futuro, esse caudilho do absurdo é rei. Estatizar a informação logo aqui do nosso lado, como é que pode. Inclusão digital nele, gente, e sem fio nenhum. Com iPhone subvencionado e tudo, pois muito em breve quem quiser saber, saberá. E quem quiser ouvir, escutará.
Já dizia a profecia dos Maias, dos Hopis e dos Nerds: a quinta raça vem aí. E no seu bojo empolgante pressupõe, sem pudor nenhum, a auto-eliminação da quarta, dessa caótica, extremista, elitista e dividida quarta, e quase extinta, raça humana. É ela que se arrebenta mordendo o próprio rabo, gente, enquanto nós, os informados, os conectados, avançamos cada vez mais. Nem nos deixamos intimidar pela opinião de alguns, segundo os quais, a terra não tem mesmo jeito: pela mão destrutiva e imbecil do homem - esse potencial e retardado suicida - despenca, inabalável, rumo à inevitável destruição. Só se for a deles, porque do lado de cá, embora ainda discreta - mas sempre evoluindo - o que aparece é a liberdade, a criatividade liberta de qualquer censura ou conchavo. Tem quem afirme que entregue, à livre e escancarada produção, nossa arte de viver se nivelará por baixo. Não acho não. No exercício embrionário de soltar a própria voz espere-se que, de vez em quando, o tom da canção engasgue. Mas toda maestria é uma questão de prática, e mais uma vez, de Tempo. De oportunidade. E do que posso observar, é a inteligência humana, essa sim, que não parece reconhecer limite. Só custa às vezes um pouquinho a mais, pura questão de ajuste, pra conseguir plenamente se expressar.

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E mais política,

desta vez local, de Garotinho pra Garotão: melhor "República da Zona Sul" do que simplesmente República da Zona, né não?

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Totalmente do mal


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Mas... ahmenizando...

Alan, o especialista, afirma que a linguagem corporal de Lula é de quem quer mesmo distância.

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Hey, Óscar!

Em minhas mais íntimas fantasias, me sinto igualzinha a qualquer celebridade (celebridade verdadeira, digo, como Picasso, Fellini, Caetano. Pina Bausch e outros do nível, nada de Ilha de Caras, por favor, que dessas não chego nem perto. Haha. Vocês notaram. Deixei o Philip Roth de fora, porque aí já seria pretensão demais). Não vejo diferença nenhuma entre o talento deles e o meu, mas como personalidade, é óbvio que o buraco é mais embaixo. Não sei o que me falta, gente: talvez um pouco mais de loucura, de ousadia, de um não-ligar-pro-que- alguém-pensa-de-mim. Ainda não cheguei lá mas vou me arrastando, penosamente, nessa direção.
Já meu marido Alan — ex-ator de improvisação, ex-mímico, ex-poeta trovador, ex-terapeuta e ex-milionário americano — é diferente. Deve ser por causa da idade, ou da arrogante (por natureza) nacionalidade, mas ele não só pensa que é igual às celebridades, como age como se celebridade fosse. Constrangedor.
Foi por isso que hesitei no outro dia, ao ver passar por nossa mesa de pizzaria, no Shopping Leblon, o grande Mestre Oscar.
— Olha lá, Alan. Tá vendo ali aquele senhor idoso, de bermuda e boné? Pois é o maior arquiteto do Brasil, e um dos melhores do mundo.
— É mesmo? E ele fez o quê?
— Brasília... Sambódromo... e mais não sei quantas sedes de partidos comunistas no mundo todo... (sendo gringo, o Alan não conhece outras maravilhas, como a Igrejinha da Pampulha, por exemplo, em Beagá)
— Como é o nome dele? - Engulo a língua. Hum. Já sei que vai dar problema:
— Oscar. Oscar Niemeyer. Este ano vai fazer 100 anos e acabou de se casar, olha como é bonita a esposa dele. Ele a chama de "filha". Todo mundo diz que foi por causa do dinheiro, mas eu não concordo. Em primeiro lugar, o Oscar é comunista convicto e trabalha até hoje, vai todo dia ao escritório; e, que eu saiba, fez muito projeto de graça, trabalhou principalmente pra governos. Quem é que ousaria pensar no Mestre Oscar pro projeto do prédio, da casa de praia? Em segundo, e nem por isso menos: já pensou que emoção, ser casada com o grande Oscar Niemeyer? Um gênio, e ainda por cima, um adorador confesso de mulher?
— Hum. Óscar, he? Óscar! Hey, Óscar!
Nossa. Não deu outra. Quase me enfio de timidez debaixo da mesa, mas Mestre Oscar já vem vindo em nossa direção, respondendo ao chamado. Confere o Alan - procurando se lembrar de onde o conhece - e já vai estendendo, simpático, a mão direita com um anel enorme no mindinho, a esquerda com uma aliança grossa. Disfarço mal o meu constrangimento:
— Pois é, Oscar. Meu marido é americano, e eu disse pra ele que você é o maior artista do Brasil.
— Exagero... Bem. Obrigado.
E lá se foi o Oscar, com um sorriso, em direção à mesa dele. Que homem. Qual será a receita de longevidade dele, hein? Hein? Seja qual for, funciona: o homem está aí, lúcido, ativo, nem bengala ele usa. Deve ser a arte, o talento, a mente inquieta, só pode. Não tem receita melhor de vida longa do que esta: trabalho, e criativo. Ah, sim. Muito amor também.
— See? No problem. É assim que você deve agir, se quiser ser um dia reconhecida - demonstra didático o Alan, meu mestre zen cuja orientação cotidiana não sigo nem um pouco: santo de casa, etc, etc. Mas ele está certo, é isso mesmo. Somos todos iguais perante a humanidade, e artista então... Se for de coração, é tudo irmão. Mesmo que só uns poucos tenham aquele quê a mais, além de uma obra surpreendente e única, que faz deles verdadeiras celebridades.

Ops. Posfácio rápido. Descobri mais tarde que o tal de “Oscar” não era “o” Oscar, que na época convalescia em casa de uma fratura. Não passava de um velhinho bem-humorado, que resolveu tirar o dia pra me fazer de boba. Ganhou, ganhou.

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Meus motivos para otimismo

O ano é 1992, e a cena, a Feira Mundial de Sevilha. Mamãe e eu estamos deslumbradas com o tamanho e a qualidade da imagem dos telões de alta definição. Como expliquei pro Alan, de memória, as cores e detalhes do HDTV estão para a tevê a cores tradicional como uma trip boa de LSD está, digamos assim, para a nossa visão normal da realidade. Pelo menos é o que imagino, porque na verdade nunca experimentei - a viagem de ácido, quero dizer. Pois hoje, 15 anos depois, a Veja da semana mostra, em reportagem fascinante, os recursos da tecnologia já disponíveis no mercado: é coisa de encher os olhos e a imaginação. Na mesma feira vimos algo de que até hoje nem sombra: holografia em três dimensões, num balé de imagens sobre o lago, numa laranja enorme semi-descascada exibindo um globo terrestre dentro e num teatrinho sem atores - com uma raça de gente pequenininha atuando no palco - um realismo virtual impressionante a que certamente chegaremos em breve, só não sei bem pra quê. Saímos do teatro e mamãe, curiosa com uma dupla vestida de branco, virou-se pra mim e disse:
- Nossa, mas são tão reais! Até parecem mesmo gente!
- Mas, mãe, esses aí são gente...
De um jeito ou de outro o futuro tecnológico vai dando prova e mostra do que é que interessa mesmo nessa vida: o espírito ousado, a imaginação, a criatividade. O sonho. Porque em se tratando de cérebro humano, sabemos: entre o imaginado e o experimentado, mal consegue ver a diferença, e o efeito emocional sobre a mente é que importa. Tem quem veja nisso um cenário de pesadelo, mas eu não. Acho que é pura manifestação de magia, da capacidade humana de materializar, de comunicar, de criar pra crescer. De se extasiar. Humano é corpo, gente, mas infestado de espírito, de pensamento e de inteligência. Melhor a gente se lembrar todo dia disso e aprender a confiar. Em si, em nós... Ainda segundo a Veja, a indústria milionária de tendências para o futuro se baseia na capacidade de "reiventar o jeito de fazer as coisas, o que gera produtividade e eleva o nosso padrão de vida". Não há fundamentalismo nem catastrofismo que resista, mesmo que leve mais tempo do que se imagina. Ou menos.

E quanto aos apocalípticos do clima, vai daqui uma visão diferente, considerando o planeta como um organismo vivo, em perpétuo movimento de mudança: o temperamento global. Nos invernos menos gelados do hemisfério norte, tem quem ache muito bom mergulhar numa piscina aos 19 graus, enquanto aqui no Rio, embora a chuva esteja chata... não reclamo do verão ameno não. Quem não acha graça nenhuma é a indústria calendárica do turismo, dependente de extremos como trópicos tórridos e estações de esqui. Mas pode ser... que teremos menos contrastes no futuro, com zonas temperadas maiores. Da parcela de alterações climáticas inevitáveis, e pouco influenciadas pela atividade predatória humana resultarão, mais do que vítimas, beneficiados pelo rodízio natural de terra habitável. Poluição, pobreza e estrago não estão com nada, verdade. Mas tô achando melhor que eles apontem outros efeitos geradores de pânico, porque esse do aquecimento global não vai muito longe não. Pode ser bobagem, ilusão de gente desinformada e acomodada, mas hum... A conferir. Que ninguém se espante com a velocidade e falta de pudor que a ciência tem, hoje em dia, pra mudar radicalmente de opinião.

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Uma questão de dose

Que eu tenho um pé na jaca do esoterismo, todo mundo que freqüenta esse blog já sabe. Basta um olhar meio de esguelha aí do lado, e um clique singelo no quadrado acinzentado - coalhado de símbolos mágicos - que estampa sem discrição nenhuma o título mais do que explícito declarado: Eu, Xamã. Quanto à acusação do Mansur de que certos trechos do meu novo livro esbarram na retórica confusa da auto-ajuda... é meio barra. É verdade que meu marido e eu disfarçamos não muito bem uma certa mania de messianismo: ele viu Deus, aos 21, numa viagem de ácido que escapou por pouco das piores conseqüências; e eu, vagando de um realismo mágico para outro, busquei diluir no altar da nova era uma certa dor, ainda que materialmente injustificada, da infância mineira reprimida. No nosso encontro online, num primeiro momento, evitamos. Mas depois não houve como escapar, sucumbindo à magia muito humana do nosso encontro amoroso, a um certo fatalismo temperado de noções divinas que nos enfiou aos dois, maravilhados, no mesmo saco de gatos afortunado do destino. Aos intelectuais que eu porventura fizer vomitar, digo o mesmo que costumo dizer ao meu sobrinho hiper-realista de 19 anos, viciado no pragmatismo banalizante do aqui-e-agora: um pouco de magia poética não faz mal a ninguém, e dá de quebra o tom mais saboroso da existência. Sem exageros, é claro. Encaro certa dificuldade pra explicar - como se obrigação tivesse - minha atual convicção espiritual. Telefonou-me esta semana uma leitora tardia do Fases da Lua, muito animada com a possibilidade de descarregar num simples objeto suas expectativas de futuro. Por mais que eu repetisse que já não acredito nisso, e que sem pudor nenhum cortei do Eu, Xamã qualquer referência a este tipo de ilusão que sim, cultuei há mais de dez anos... não se deixou convencer, a pobre... Decepcionou-se, e muito. Por ela e por outras afirmo aqui no blog, lugar do meu compromisso absoluto com o momento atual, que a fila anda, o espírito cresce e a mente amadurece. Quem não tiver medo de mudar, de transformar crenças e mitos, de reformar verdades do passado sem vergonha nenhuma de ter nelas crido... junte-se ao clube que será bem-vindo: é tudo vida, e tudo jeito de gente, tentando o seu melhor lado a lado com a esperança.
Quanto ao lugar-comum do sexo no texto... meu marido Alan não concorda, gente, de jeito nenhum. Se indignou. Foi segundo ele a qualidade original, entregue e ousada do nosso falar erótico que definitivamente o conquistou. O vigor sensual que compartilhamos online mantém seu reflexo até hoje, 2 anos depois, na nossa atividade de alcova: um gozo poético mais eficaz que qualquer outro afrodisíaco à venda no mercado. Posso até ter minha cota de modéstia, mas ele não: recomenda. Sexo ou mística, é tudo uma questão de dose. Se a receita é boa, e a comunicação aberta, vem daí o toque único, pessoal e intransferível de uma história, que o público leitor se Deus quiser decidirá, vale a pena comprar pra conferir.

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No Prosa




Caro Mansur,
Obrigada por me descabaçar no leito da resenha. Até que nem doeu. Lá entre seus altos e baixos, acredito que o resultado tenha sido, digamos, da metade para cima, mais mental que visceral. Com os "diálogos por sinal muito bem escritos", confesso: gozei. Pelo tédio sexual que te causou, peço desculpas. E tomo a liberdade de não concordar com o mencionado: há mais vibrantes e menos clichês. Mereço aqui talvez certa indulgência, e quem sabe, um toque final de editor. Devido à aura quase sempre obscura, que cerca na cultura o sexo falado, a riqueza de termos se restringe. Transmitir no traço da letra tesão e emoção é um desafio e tanto, à altura da vulva inchada, do bico teso, do pau pulsando na cona. E pulsa mesmo, sentada em frente à tela. O que te asseguro é que o climax veio. E para o leitor - esse voyeur -, quem sabe lhe venha igual... Pois diferente do que se afirmou, não é realista o tal virtual: é real mesmo. Citando Capote: um romance de não-ficção. Quanto à sua sugestão de estender o final, discuto: o encontro curto, intenso e vago, foi mais do que ponderada opção. Do ensaio original guardei a sobra, reservada, é claro, para o "Hierosgamos 2 - A vitória" (risos). Porque este aqui, como a resenha (por sinal, muito bem) apontou, trata da expectativa, do durante. Não do depois. No que se refere à mãe "impulsiva", cumpre, por algum respeito, esclarecer: demente. Muito doente, grande pena.
Faltou ressaltar, do texto, o convite explícito à poesia, uma visão, quem sabe, mais própria à fêmea... e o humor, meu caro, a ironia... um pouco confusa... devido às circunstâncias do encontro amoroso profundo (duplo sentido sim, por favor).
No mais, fiquei feliz. Mais uma vez, obrigada, e me perdoe a redundância: vai daí algo de estilo... Ou não?
Grande abraço/ Noga Lubicz Sklar

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Geração Barbie

Eu poderia até estar me referindo ao carniceiro nazista Klaus Barbie, mas não, gente. O padrão de fascismo aqui é mais ameno e o grau de tortura, outro: trata-se do efeito infantilizante e frustrador da nova escala de tamanho nas roupas, tentando nos converter ao ideal corporal ilusório da boneca Barbie*, que como muita gente sabe, pode às vezes ser mortal.
Acho interessante que enquanto o corpo humano médio - apesar, et pour cause, das dietas cada vez mais malucas e radicais - se expande, a medida industrial da roupa pronta encolhe. No meu tempo de adolescente, manequim feminino de adulto começava em 40; gente normal era 42, e as mais fortinhas chegavam num 44; 46 já esbarrava na categoria obesa: na época, uma raridade. Agora não. Todo mundo, ao que parece, está ficando mais gordo - basta uma caminhada matinal pela orla para constatar - enquanto nas lojas, pateticamente abandonadas nos cabides da moda, só encontramos roupinhas apertadinhas, pequenininhas, com menos de dez centímetros do gancho ao cós. Me pergunto: fora as bem novinhas - nem todas, como se vê, magrinhas -, quem é que veste isso? Não é à toa que a anorexia anda à solta.
Procurando um short branco de verão que servisse pra mamãe, que agora doente, está um pouquinho maior que eu, passei por uma experiência surreal. Sou normal, gente, nem magra nem gorda. No auge da obsessão com dietas já vesti um 36, mas reconheço, durou pouco. Hoje em dia, numa escala de pequeno/ médio/ grande, costumo me encaixar no médio. Mas de loja em loja na tarde de ontem, pedindo "roupa pra adulto" sem muita esperança de encontrar, quase desisti ao me ajustar dentro de um 46, pra acabar comprando um 52!!
Não é que isso seja importante, e pra mim então, que compro pouquíssimo, muito menos. Apenas reconheço, na absoluta perda de bom-senso que acomete atualmente a indústria da moda, um componente a mais na fábrica de ilusões em que pretendem nos confinar. Qualquer mulher, depois de um trauma de consumo desses - 52, gente, 52! - acaba se convencendo de que é mesmo um monstro. É preciso um bocado de equilíbrio, muito amor de marido e um bom espelho, pra lá de benevolente, pra não sucumbir a uma histeria dietética qualquer. Agora me digam: quem é que está ganhando com isso? Será o comércio de moda? Duvido, e a auto-estima feminina é que não é. A indústria farmacêutica dos calmantes e moderadores de apetite, pode ser... e os cada vez mais florescentes negócios das academias e de comida pronta light, gigantes gulosos da compulsão contemporânea se alimentando do crescente stress urbano. Cuidado, gente. A prática do prazer de viver passa cada vez mais longe desses guetos extremistas, templos vazios da modernidade onde forma tem muito pouco a ver com função.
* e por falar em visual (de) boneca, essa nova "febre" Blythe mais parece filme de terror, parente próxima do Chucky: se eu fosse criança me esgoelaria de medo.

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Memória afetiva

Duas pedras no caminho do meu acalentado sonho de ser cronista: a falta de real qualidade afetiva nos links que mantenho com a mídia oficial, e a total incapacidade de elaborar listas do tipo "dez mais".
Por mais que eu tente, minha lista de preferências hoje em dia tem uma vida útil de mais ou menos, deixa eu ver... uma semana. Rata de cinema desde criancinha, sempre freqüentei festivais, endereços "cult" e gostos exóticamente intelectuais. Mesmo assim, a quantidade de filmes que eu via por ano oscilava em torno de duzentos. Hoje em dia, a coisa mudou. Juntando tevê a cabo e dvd alugado às cada vez mais raras incursões à verdadeira sala, a coisa passa, facilmente, de mil. É tanta porcaria, tanta fórmula, e tanta opção, que pelas verdadeiras jóias a gente corre o risco de passar batido. Fotografia deslumbrante ou qualidade cinematográfica virou lugar comum, enquanto a originalidade dos temas se estreitou. É raro o diretor que imprime, à sua obra, uma assinatura marcante: a alta qualidade técnica de imagem, som e equipamento uniformiza tudo. Resta a identificação afetiva com o assunto, o que torna as listas, em geral, bem parciais. E efêmeras, com a exceção bem rara dos sentimentos que duram e das questões que persistem, resistindo ao rolo compressor da novidade e do excesso de informação. Nada contra. Afinal, estamos na década, no século, no universo do "Eu". Do Eu que não reprime, não censura e nem edita nada, oferecendo ao mundo sua face nua e crua, num perpétuo reality show de diversidade humana: um espetáculo online gratuito, e por vezes mais interessante que a ponta do iceberg cultural acolhido pela mídia tradicional.
Olha, gente. Me perdi. Acabei de me descontrolar numa briga instantânea de casal, bati a porta na cara dele e embaralhei a ordem enfileiradinha dos neurônios que estava produzindo o texto. Bloguismo-verdade tem dessas coisas, a vida real produzindo ou superando a arte. Já estou pouco ligando se a inovação tecnológica é boa ou ruim pra qualidade do cinema, se a teoria sobre o valor filosófico da nova cultura online é mesmo válida, ou pro papel que a violência e as opções sexuais exercem sobre a real preferência do público. Não ligo nem um pouco pras preferências do público ou dos links com os quais mantenho real qualidade afetiva e não é nada disso que norteia a minha escrita, deve ser por isso que pra chegar ao meu sonho de ser cronista preciso passar por um caminho que tem muito mais que duas pedras. Não ligo nem um pouco pras listas de filmes, livros e objetos de consumo a não ser pros poucos que estabelecem comigo uma ligação passageira por causa disso ou daquilo ou de raiva ou de amor. O que me interessa mesmo é a memória afetiva das coisas, dos fatos e das mudanças, um rede subversiva, subserviva que vai tecendo, sem que a gente perceba, a vida real de quem está sempre online.

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Hipocrisia

Deu no Globo: "De acordo com o novo estudo, nos oito primeiros dias do ano, um cidadão britânico terá contribuído tanto para o aquecimento do planeta quanto um queniano ao longo de um ano." E é justamente esse pessoal da ilha que se arvora em líder da luta mundial contra o aquecimento global, assinando pesquisas e manifestos, patrocinando documentários catastrofistas e amedrontando todo mundo com os possíveis efeitos do mau comportamento ecológico... deles. Alô, súditos da Dona Bete! Pra que gastar milhões, bilhões, pra nos convencer que é preciso limpar o ar... aí no seu quintal? Comecem a faxina por aí mesmo e pronto, pois tapar o sol da vergonha local com a peneira da opinião pública mundial não vai resolver nada. Melhor botar fogo discretamente naquele seu móvel velho, infestado de cupim, do que jogá-lo no jardim do vizinho e exigir, numa ação burocrática milionária, que ele derrube a casa inteira numa tentativa - desesperada e tardia - de eliminar a praga.
E por falar em hipocrisia, Dona Cicarelli não fica nada atrás: incomoda todo mundo por causa da própria indiscrição e a emenda vai ficando, cada vez mais, pior do que o soneto. Será que ela, celebridade auto-imolada, não sabia que é foco de atenção seja aonde for, e faça o que fizer? Será que os valores não estão invertidos não? Em vez de tentar ridiculamente, por tortuosas vias legais, impedir o acesso ao vídeo online - peneira pouca é bobagem -, ela é que deveria ser autuada por atentado público ao pudor, isso sim. Não que eu me incomode com isso: sexo pra mim não tem nada de tabu, apenas faz parte da vida de todo dia, embora a maioria prefira, é claro, o clima gostoso da intimidade pra declarar sem restrições - e sem ser incomodada - o seu amor. Vá lá, o seu tesão. O que se faz em público é justamente de domínio... público. Mas gente, a culpa de tudo isso é nossa, desse indesculpável culto à celebridade que a gente mesmo alimenta, lendo as revistas, vendo os vídeos e falando sem parar sobre um assunto que deveria ser ignorado, por sua total desimportância. Já está mais do que provado que celebridade é aquela pessoa irrelevante demais pra ser qualquer outra coisa a não ser... celebridade, um neologismo vazio que não quer dizer, rigorosamente, nada. Uma categoria publicitária que nasceu pra ser exposta... e ridicularizada, não idolatrada como tem sido feito. Vai pra casa, Daniela, e cala a boca antes que seja tarde. Recolhe os advogados e enfia a viola no saco, que no meu YouTube quem manda mesmo sou eu.

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O sonho a(ssa)ssinado

. Existe razão para otimismo. Até o velho Millôr, quem diria, desistiu do mau humor. Começa o ano com esse sopro assim, digamos, de energia positiva: "Você e eu, como a maior parte da humanidade, temos uma vida particular e devemos zelar por ela. Acordamos e a cabeça não dói. O telefone toca e não é o anúncio de nenhuma catástrofe pessoal." Tá certo. A maior parte de nós não é flagelado, nem miserável, nem doente e não há motivo pra reclamar tanto da vida, pensem bem. Atende logo o telefone aí que pode até ser notícia boa.

. Paulo Coelho não entende nada de capricornianos. E acho que nem de gente, só desse blablablá místico de bom combate que ele mesmo inventou e em que nem ele acredita mais. Ou vocês acham que a vida pra ele é uma batalha? Vai dizer pra outro que a condição de paz, de maturidade, de realização profissional é sintoma de sonho assassinado, de guerreiro derrotado. Nunca ouvi absurdo maior, sério, mas que essa forma distorcida de encarar a vida existe, lá isso existe. Eu mesma estou tentando me livrar dela e me dei um prazo: até o dia do meu aniversário, quando vou me declarar finalmente, para minha glória absoluta de cabra da peste, velha.

. Pois dizem que o capricorniano já nasce velho. Passa a juventude olhando no espelho e sonhando com o tempo das rugas, dos cabelos brancos, do sonho já perto ou quem sabe realizado. Numa época onde o bonde da obsessão vai na direção contrária, buscando o mito da eterna juventude, o capricorniano é, antes de tudo, uma espécie exótica. Com a tranqüilidade externa e falsa do bode montês, sobe o morro e até se cansa, mas não desiste nunca. Por mais que tente, não consegue desistir, é assim uma espécie de doença, entenderam? Tem gente que acredita que ao chegar lá em cima - no auge, na maturidade - começa a descida ladeira abaixo, mas quem é capricorniano sabe: não é nada disso. No topo o terreno é plano, a planície vasta: a velhice - que com sorte, será saudável, lúcida e longa - dura para sempre.

. E está chegando o dia do juízo, pelo menos pra mim. Como toda profecia, esta vai ter que ficar no mistério, pelo menos até que aconteça e a gente diga: ah! era isso! Enquanto isso... calma. Segura a onda que por aqui estou tentando me manter cool.

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Eu não sou cachorro não

Notícia do fim de semana no New York Times informa que foi lançado, nos Estados Unidos, um medicamento para evitar e curar de vez a obesidade... nos cães. Enquanto isso, o próprio New York Times, em dois artigos, se encarrega de iniciar um processo ambicioso para acabar com os excessos da cultura medicinalizada que ameaça o nosso bem-estar e sanidade mental: "A Dieta dos Cosméticos" e "A Epidemia dos Diagnósticos". Vale a pena conferir.
Essa campanha restauradora do bom senso tem tudo a ver com as resoluções de ano novo e com as mudanças na rotina diária que têm me deixado tonta nesse início de janeiro. Sempre me preocupei com a longevidade, com a boa saúde e com a tendência a engordar. Mas por um motivo que me escapa, nunca confiei muito na sorte genética: vovó morreu dormindo e em bom estado de conservação aos 90 anos, e minhas tias já lá se vão, ativas e lúcidas, bem além dos 80. A estratégia de preservar corpo e mente assumiu para mim um tom de batalha, onde o inimigo - por isso mesmo implacável e quase invencível - era eu. O rosário de restrições foi crescendo, apoiado em pesquisas e nas recentes descobertas da ciência, associando a dieta vegetariana e outros radicalismos à malhação diária intensa. A ficha caiu há pouco quando li, ainda no New York Times, um artigo sugerindo soluções para as lesões que se tornaram comuns nos baby-boomers, primeira geração a crescer e amadurecer malhando: a minha. Ops. Vocês pensam que o artigo sugeria moderação? Ao contrário, gente. Afirmava que era preciso malhar mais, associar diferentes técnicas e outras loucuras teóricas sem sentido. A coisa se complicou a tal ponto que a gente começa a se perguntar o que há de verdadeiro nessa guerra midiática do consumo sofisticado, nessa premissa absurda de que nosso corpo é um instrumento frágil, potencialmente doente, que se quebra a qualquer soprinho. Passa-se tanto tempo estressado e preocupado com a longevidade e a boa forma que não sobra muito pra se viver. Foi essa a questão que me coloquei: esse esforço todo pra viver bastante... e vou começar a viver quando?
Não sei a resposta ainda, mas tenho refletido muito. E enquanto penso, já vou me dando o direito a um longo descanso, proporcionais aos 40 anos - sem férias - de histeria corporal a que me condenei.

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Verdade fora de lugar

Quando eu era adolescente, na primeira visita ao ginecologista, ouvi uma surpreendente definição de higiene íntima da qual nunca mais me esqueci: "sujeira é o que está fora do lugar". Pois recentemente, tentando entender o porquê do caso de amor da mídia com um clima de insegurança e insatisfação, cheguei à seguinte paródia: ironia é uma verdade fora de lugar. Uma forma de afirmar verdades perigosas que às vezes ajuda, às vezes atrapalha, como hoje na coluna de Ancelmo Góis. Não me entendam mal... eu gosto muito do Ancelmo, do estilo mordaz, das observações exatas, mas acho que hoje a coluna pisou na bola, e com a melhor das intenções, confira:

"O Iraque é aqui
Deu no site da BBC que houve 12.320 mortes no Iraque ano passado - uma média de 53,5 assassinatos por cem mil habitantes... Agora veja se o Iraque não é aqui. Nos três estados brasileiros com maior proporção de homicídios... foram 50,7 por 100 mil em Pernambuco, 49,4 no Espírito Santo e 49,2 no Rio."

Gente, peraí! Pensem um pouco antes de falar. A violência no Brasil é fruto da preguiça política, da corrupção policial, de alguma injustiça social e da falta de educação, coisa a ser resolvida, pra começar, com uma polícia eficaz e honesta. Não se trata de guerra civil ou violência religiosa fundamentalista, nem de luta pela sobrevivência de um povo. Quem acreditar nessa falsa premissa - e Caetano Veloso que me perdoe com seu Haiti - que se mude pro Iraque, já que a vida lá é bem melhor e mais segura, porque eu, tô fora. Um tipo de extrapolação engraçadinha dessas só pode nos fazer muito mal, e acho que está na hora de parar com esse blablablá gratuito de identificar o Brasil com a vanguarda do atraso e da ignorância mundial. Não só faz tempo que abandonamos essa turma como na verdade nunca estivemos realmente lá.

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Na contramão

Li esta manhã no jornal que ele vai dirigir e cenografar desfiles no Fashion Rio. Outro dia lançou livro e deu entrevista à Gabi, meio envelhecido, desajeitado (pelo menos no vídeo), obsessivo e agitadíssimo. Dirige ópera, show e - se não ainda, em breve - cinema. Ufa. Cansei só de ouvir.
Conheci o Alberto Renault no metrô, uns dez minutos antes da Estação Botafogo, quando eu era dona de bar. Tentava na época me livrar da minha própria obsessão, não com o trabalho, mas com um amor que não rolava mais. Uma amiga me recomendou: arranja outro. Era nisso que eu pensava no metrô, naquele fim de tarde, viajando da Cinelândia até o Graal, quando olhei pro lado e vi aquele cara lindo, o cabelo longo e liso escorregando pra cima do olho, o pescoço meio inclinado pro teto, com um ar romântico de Príncipe Danilo dos trópicos. Fui lá, aquela ousada, uma baixinha abusada que eu mal reconhecia.
- Posso me sentar do seu lado?
Conversa-vai-conversa-vem descobri que a intuição não se enganava. A beleza dele extrapolava o físico e tinha talento, o príncipe, assistente da Bia Lessa, a quem eu adorava. E nenhum tostão: perfeito. Contei que tinha o bar, com proposta cultural etc e tal. Convidei, mas se ele apareceu por lá depois, não sei. Não lembro. Do encontro no metrô não me esqueci jamais, e sempre que vejo o Alberto na mídia o que me lembro é daquela mão comprida, os dedos finos, afastando o cabelo do olho no banco do metrô. Falar com ele, nunca mais falei.
O tal amor perdido, que eu na época apenas fingia não querer, se dissolveu. Bem depois. O bar fechou. A dona viajou, tentou a sorte na Europa e voltou. Trabalhou na Fundição Progresso quando o Maurício Sette era vivo, foi joalheira, terapeuta e comerciante: sonhadora profissional, acabou desaparecendo da mídia.
Nessa manhã nublada de janeiro, inspirada ao contrário pela diversidade do Alberto - só de ler fico enjoada - decido focar a mente num objetivo só. Dar a ele tudo de mim e, no tempo livre que me sobrar, experimentar - antes que seja tarde - a única coisa que a vida atribulada não me deu: tempo livre. Na contramão do muitas-mídias Alberto, e do jeito mais contemporâneo de ser, tudo o que quero - seja qual for o tamanho do futuro - é mesmo dedicar-me a escrever.

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Um motivo para otimismo

Pra quem lê inglês, acabei de postar no meu blog versão english um dos depoimentos publicados na edição especial da Edge sobre o otimismo. Ainda não li tudo, mas costuma ser massa. Algumas das minhas razões para otimismo aparecem volta-e-meia nos posts daqui do blog, e fico feliz ao ver minhas suspeitas confirmadas pelas melhores cabeças do mundo. Vale conferir.

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Derrubando tudo

Nossa, gente, não sei o que foi que me deu. Estou que nem louca furiosa derrubando tudo: certezas, mitos, dogmas e mais meu amplo estoque de idéias e coisas que não servem mais, de matéria prima do meu antigo negócio a hábitos compulsivos e estressantes. Preciso até tomar cuidado, sério. Desde que virou o ano estou aqui matando a paulada sites antigos e arquivos sem uso de computador sem pena nenhuma, dá até medo de eliminar sem querer algo importante, e quando descobrir... já era. É um tal de apaga-e-desfragmenta que não acaba mais. Tô me sentindo leve.
Como parte desse processo me menti (ops. Freud explica. eu quis dizer me meti) até o pescoço nos comentários de idéias polêmicas no blog da Carla. Tem gente lá que não me conhece, e deve estar me achando careta, reacionária, maluca e sei-mais-lá-o-quê. Mas calma, calma. Não sou nada disso. Apenas por algum motivo esotérico-espiritual-existencial que me escapa me enchi até o topo de regras, falsas verdades e moralismos deslocados, ocupando o espaço das verdadeiras questões que poderiam, se abordadas, nos levar a um novo patamar de compreensão e abrangência.
O que estranho é a minha total irrelevância. Ontem à noite, já bem cansada depois de doze horas seguidas deletando e refazendo, hesitei um pouco antes de meter a mão no buraco de tatu: discutia-se o atual estado de degradação do mundo, de decadência da humanidade, e as negras perspectivas de futuro, com certeza influenciadas pelo multimilionário negócio da preservação ambiental que desde Al Gore avança com suas garras gulosas pelo nosso bem-estar cotidiano afora. Me entendam bem, queridos: não sou contra a preservação da natureza não. Adoro meu verdinho, meu planetinha lindo, meu marzão e minha praia; faço tudo ao meu alcance para que tenham o melhor: reciclo, separo lixo, modero o consumo, sou voluntária da simplicidade e do bom-senso e nem tenho carro. Ah, sim. E pratico amor. Mas esse blablablá falsamente humanitário que tem como único objetivo implantar o medo e a insegurança, preparando nossas alminhas virgens para a imposição de necessidades supérfluas e conhecimentos desnecessários que só fazem atravancar a mente e nos convencer de que não sabemos nada, nadinha, e tome de comprem isso e comprem aquilo e façam milhões de exames anualmente e escaneiem seu corpo todinho procurando câncer feito agulha em palheiro pra alegria e lucro da indústria médica... ufa. Basta. Como eu ia dizendo lá em cima, o que estranho é a minha total irrelevância. Despejo o meu discurso, aliás, direto e otimista, e neguinho passa batido pra continuar na ladainha da negra destruição. Acorda, gente!
O que venho sugerindo é muito simples: deixem de se submeter a qualquer teoria propagada pela mídia por interesses escusos que a gente mal consegue reconhecer. Vamos inaugurar uma nova era de otimismo, de pensamento positivo, que só poderá nos fazer bem. A energia que consumimos (desperdiçamos) no stress de tentar acertar - e de nos saber errados, enganados e ignorantes - seria bem melhor aproveitada na colaboração com o próximo, nos relacionamentos saudáveis, no respeito ao outro, coisinha assim simples, brinde de vizinhos. Vamos reabilitar aquela velha máxima meio-pós-hippie de "act local, think global". Traduzindo, pra quem acha que saber falar inglês é o câncer da globalização: aja local, pense global. Por local, por enquanto, quero dizer local meeesmo. Trate com respeito a sua mente e o seu corpinho, que a gente não é lixo pra ser atirado sem dó no aterro sanitário da exploração comercial.



E pra não dizer que meu trator não faz distinção, quero desdizer aqui o que já disse contra a Oprah: achei lindinha a foto dela, toda de rosinha, inaugurando a escola caprichada que criou com grana do próprio bolso para as meninas na África. Se tem uma coisa positiva sendo propagada por quem tem muita grana é a filantropia ampla, mesmo que não seja tão desinteressada assim. O que importa é o resultado, e se cada um agir de acordo com seu talento e possibilidade já estaremos bem. E vai daqui o meu apoio inesperado ao novo governador do Rio, Sérgio Cabral: começou bem e esperamos que continue assim; sobre os seus ombros bem dispostos paira a esperança de milhões de cariocas de todas as procedências e partidos.
Viram só? Tem coisa boa acontecendo aí também, quem sabe nem tudo seja corrupção, manipulação e preguiça política.

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A dieta de Judas

Como atesta aqui a Carla Rodrigues, começo de ano é data certa no calendário para a obsessão das dietas. Somos todos bulímicos, gente, uma geração inteirinha de bulímicos embora apenas uma meia dúzia assim se reconheça. No carnaval e nas festas de fim de ano abre-se a porteira da boiada: bebemos, comemos - se for possível, beijamos e tudo o mais - transgredimos todas as regras pra depois vomitar no vaso: regras, comida, álcool e arrependimento.
Este modo obsessivo de vida, que só faz piorar com o tempo, é um jeito infantil, imaturo e inseguro de tocar pra frente. Mudamos de pais e mestres, mas não de atitude escolar. Está na hora de crescer, gente, de encarar a vida adulta. Eu, pelo menos, estou tentando.
Por quarenta anos foi assim que vivi: de dieta em dieta, de academia em academia, de uma obsessão pra outra. Nunca funcionou. Sobrevivi como pude, caminhando não sei pra onde porque o fim do tormento não chegava nunca. Pois agora decretei: chegou.
A maratona da insatisfação começou aos quinze anos, quando, devidamente ajudada pela opinião dos outros, me declarei gorda. Naquele tempo, a dieta da moda era bife grelhado com salada, acompanhada de ginástica calistênica três vezes por semana. Daí por diante, se eu descrevesse o que passei, sairia um livro inteiro de experiências mal-sucedidas, uma malhação sem fim do corpo, como Judas em sábado de aleluia. Um programa negando o outro, e tudo que fazia bem no ano par, declarado nocivo no ano ímpar. Minha última estratégia de (in)sucesso incluía 6 refeições ao dia + 3 horas de malhação + a impressão de que se eu transgredisse um pouquinho, comesse um docinho ou deixasse de malhar uma semana, meu corpo explodiria feito um balão e pronto: eu me transformaria no monstro que o destino me condenou a ser, caso abandonasse a disciplina férrea.
Sei que é exagero, gente, mas no meu caso eu garanto: é tudo verdade. Sou de acreditar no que dizem e quando me proponho a fazer algo, vou às últimas consequências. Sei que as matérias cada vez mais numerosas sobre boa forma, as mirabolantes regras cada vez mais difíceis de seguir tem um só objetivo: a dependência psicológica da impossibilidade. Quem as cria só pensa nos lucros e quem as segue, encara como penitência. Para pecados que não dá pra deixar de cometer... Como criancinhas desobedientes e travessas, aprontamos todas pra depois lavar a alma no castigo. Pois agora decretei: chegou.
Vou fazer 55. Se não começar a viver como adulta agora vou começar quando? É o que tenho pensado, é o que tem me atormentado desde dezembro passado, quando declarei férias. Férias de quê, mesmo? De dietas? De malhação? De aporrinhação? Do trabalho, pelo menos, não preciso de férias. Faço o que gosto de fazer e disso nunca me canso. E quanto ao resto, me decidi: as férias continuam até não sei quando, deixando a bulímica dentro de mim perdida, em pânico total. Mas até agora não ganhei um grama, ou melhor, um centímetro, já que há anos não me peso, pelo menos isso. Doente de excesso-de-civilização, sou uma viciada em observação, com todas as crises de abstinência a que tenho direito: estou há 37 dias, um dia depois do outro, totalmente à vontade, sem me obrigar a nada. Não sei se descobri o ovo de colombo, mas adotei um programa de doze passos que até agora, como o da Carla, só tem sete, a arriscadíssima dieta da boa vida, radicalmente não radical:
- comer de tudo um pouco.
- pelo menos uma vez por dia, comer comida gostosa de verdade, a condenadíssima comfort-food, que satisfaz por mais tempo o corpo e o espírito.
- não pensar em comida e comer quando sentir fome.
- tomar um bom vinho quando der vontade, ou quem sabe uma cervejinha gelada no calor.
- dar uma volta a pé por aí, e sempre que possível, curtir a beleza e a natureza.
- sexo só com amor, sem maiores expectativas e desde que haja um ser amado.
- praticar intimidade, com o outro e consigo mesmo.
Por enquanto é só, gente. Se parece simples, se parece pouco, é porque é mesmo. Acho que está na hora de parar com os exageros, eu pelo menos estou tentando. E se você já é assim, levando a vida do jeito que dá, parabéns. Se atormentar demais é o que mais engorda e obsessão não está com nada. Se até Judas foi reabilitado, que tal agora nosso corpinho tão maltratado?

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O ano do amor

Deixa eu contar pra vocês: já comecei o ano frustrada, chorando de raiva. Cai naquela de novo de procurar o paraíso na voz de algum guru, alguém que com certeza, melhor do que eu, conhece o caminho da felicidade. Ouvi daquela americana, com um jeito danado de se colocar bem na fita, que esse é o ano do amor, do encontro entre casais sagrados, onde o Rei dos Reis encontra a Rainha das Rainhas. O problema é que ela, abelha-rainha, não encontrou ainda o seu zangão, e portanto, escolheu mistificar o caso. "Está no cosmos", ela diz. "E eu aqui na terra garanto o espaço dele. Continuo chamando por ele." Em outras palavras, convocando o maior comício do mundo pra ver se o único eleitor que interessa se interessa em comparecer. Tomara que sim. Há milhões de anos que todo ano é o ano do amor, e se for esse o ano do seu amor, sorte sua. Porque não há nada tão bom no mundo e quanto mais gente se dando bem, melhor. Gente que ama e se sente amada vai aos poucos deixando de lado a raiva, o stress, o desejo de vingança.
É claro que isso não acontece de uma hora pra outra. Como tudo na vida, é um processo lento, seguro e gradual. Eu disse seguro? Não tem nada de seguro nisso. Deixar pra trás uma existência inteira de opressão, de tristeza, de insatisfação é um trabalho duro, e ao soltar as amarras do futuro a sensação é de pânico total. A gente nem percebe que mudou, que não precisa mais se atormentar. Que o único jeito de ir pra frente é deixando tudo pra trás, e que um dia vem sempre depois do outro.
Se tem uma coisa que estamos mesmo precisando esquecer é essa mania de que só o outro sabe melhor o que é melhor pra nós. Todo sucesso tem um monte de fracasso por trás. E toda alegria muita lágrima não confessada. Todo escolhido se cansou de ser pisado e só não liga pro que não tem quem já conseguiu tudo que queria. Não tem nada de mais a gente se inspirar na realização alheia, afinal de contas, ver alguém que se deu bem até que anima. Mas todo mundo tem seu tempo de dor, de busca, de desânimo. O que está na hora de encarar é que somos todos gente, e por trás da cortina pública revelar os bastidores da intimidade. Basta de deuses, de guias, de receitas.
Talvez porque pra mim o amor tem sido, ultimamente, mais certeza do que meta, declaro ser este o ano da transparência absoluta, da estrutura exposta, da discussão aberta. E pra começar já vou escancarando a porta. Correr atrás de quem declara qualquer coisa é que não está com nada.

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O último enforcado

Não é que o facínora filho-da-puta não mereça, mas passar uma corda no pescoço de alguém pra depois abrir o cadafalso abaixo dos pés francamente, está aquém de nosso nível civilizatório. Mais que revoltada, fiquei surpresa, ao constatar que nos últimos cinqüenta anos não foram poucos os executados por motivos políticos. Todos filhos-da-puta merecedores, mas nem por isso. No entanto, observar ao vivo a execução nos mínimos detalhes, sentada na poltrona da sala ou em frente ao computador, parando a cada frame pra observar o estertor de uma alma que se parte, foi demais. Espero que suficiente pra insuflar em nós um terror, um horror intrínseco à tortura, ao abuso, à exploração do homem pelo homem, à coisificação do ser humano que continua sendo regra logo ali, pertinho da nossa casa. Que nojo.
A vida nesse planeta anda muito louca, e não tem dado pra gente se esconder dela. A barbárie quase absoluta convive com a tecnologia e mundos distantes, antes estanques, a todo momento se tocam, se roçam, se contaminam. Eles lá e euzinha aqui debaixo do meu cobertor de lã já não rola mais, e minha cabeça está dando um nó. Até trepando eu sou duas. A que se entrega, geme e goza e aquela outra: a que se preocupa e não pára de pensar, cheia de culpa e obrigação.
Vai daí que nesse primeiro do ano eu não sei mais quem sou. Só sei que não sou ela, que já saí fora dela e ainda não cheguei a lugar nenhum. Não quero ninguém ditando regra, e pensando bem, nem eu, que até hoje acreditei ter nascido exatamente pra isso: cagar regra. Tentando escapar ao caos só identifico o que me dá vontade de fugir, e é desse mundo disso e não daquilo, da polarização, do contraste. Do "diga aos outros o que deve ser feito que você mesmo nunca faz". Da lista de resoluções, da lista de contratações e dos estados ansiosos de consciência. Quero ser livre, adulta e solta e só querer o que há de bom, o que há de errado nisso? Vou mudar de pele, mudar de gosto, mudar de vida. Mudar de vontade de estar sempre mudando, sempre esperando a mudança e permanecendo radical.
Rasgo o rótulo da garrafa que me contém pra poder enchê-la com o quê e quando me convier. E esvaziar, se quiser. Com 30 anos de atraso vou me graduar na faculdade da vida: já sou formada em mim, mesmo que a tese de doutorado de mim não termine nunca. Por isso entro de sola no ano como defensora dos direitos humanos todos, e pra começar, dos meus. O que inclui a confusão, a confissão, o silêncio: até quando for preciso vou ficar pacificando no quintal aqui de casa mesmo. E se for bem-sucedida, vai ser agora que aposento pra sempre o meu carrasco interior. O olhar vazio do último enforcado acabou comigo. Que nojo.
Não há dor maior do que a dor do abandonado: à própria sorte, à própria morte, à sua própria impiedade e falta absoluta de próprio amor. No pescoço quebrado do enforcado, jaz pra sempre desesperançado um ser humano que já não pode se aprumar. Mas com a gente é outra história, e embora tentem nos convencer de que já nascemos assim, condenados, temos todo o tempo do mundo pra recomeçar do zero. Agorinha mesmo que o hd, de tão carregado, começou a ratear, jogo a memória na rede e boto o mico no youtube pra chocar o mundo, enquanto eu... Ah, tá bom. Não sei quem sou, não sei pra onde vou. Só sei que não vou por aí.

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