Noga Bloga: a crônica cotidiana de Noga Sklar

Noga Bloga recomenda:



Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
O livro não é só o que escrevo, mas o que se passa à minha volta enquanto escrevo.
José Castello, em entrevista ao Prosa Online sobre seu novo romance, Ribamar





O futuro visto da janela


Coisa de trouxa

Começou em Paris, e maria-vai-com-as-outras... fomos. Virou moda nesse fim de ano entre os intelectuais dizer que a virada é bobagem, coisa só pra trouxas. Será? Coisa de trouxa é acreditar que na mudança de calendário a vida toda muda, de uma penada só, uma assinatura no livro da posse. Chove lá fora e dá até pra ponderar: se existe Deus, vai ver que o cara encarou mesmo uma faxina. Resolveu lavar da pele, da terra e da memória o que foi de ruim no(s) ano(s) que termina(m). Mas não dava pra esperar mais um dia não, Senhor? Acho que Deus anda meio de mau humor, a paciência dele se esgotou. Deve ser por isso que não vai dar praia nesse 31 de dezembro, mas entraremos no ano que vem de alma lavada, já que, como o Paulo Coelho, eu também não acredito em coincidência, coisa pra trouxa.
Quem não é nada trouxa, em nenhum dos novos significados atribuídos por Harry Potter ao termo, sabe: é o símbolo que interessa, e o sentido de revisão, de renovação, de morte e renascimento é essencial à vida. O jeito moderno bem que tenta, mas não consegue acabar com essa besteira de tempo, de alternância de estações: uma bobagem inescapável, entranhada bem no fundo em nosso modo de ser. Não importa que data, que ciclo, que duração, esses sim, dados formais, pra facilitar o encontro, a comunicação global. Nada mais. Mas é de ciclo, data e duração que o cérebro humano vive. De padrões, e de transcender padrões. De limites e de transcender limites, e é por isso que essa história de cancelar o ano novo não vai dar certo nunca.
Eu até poderia - e posso, e quero - deixar pra lá o controle, a caretice, as ilusões. Mas o desejo de mudar e crescer permanece, e dele eu faço questão. Avalio o que passou, e entre ascensões e quedas chego ao plano, um plano bom. Bom pra ser mudado, transcendido, reavaliado a qualquer momento, e ainda assim, um plano. Ao longo do ano renovo o espírito em muitos anos-novos: o astrológico em março, o judaico em outubro, o ocidental em dezembro - e last but not least, no meu aniversário, um ano-novo particular. E mais tivesse, mais renovaria: que venha o chinês, o árabe e o hindu. Que em 2007 - ou 55, 5767, 4643, 1427, 1928 - possamos todos, na mais ampla e aceita diversidade, encarar plenamente a nossa humanidade. E pra todos os gregorianos espalhados pelo mundo, pra todos que entram, ou que quiserem entrar num novo ciclo de tempo hoje, vai meu voto de feliz ano novo.

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Copo meio cheio

Cara Cora,
Eu já ia terminando o ano bem descrente, deprimida mesmo. Sendo capricorniana, me acostumei a encarar esta época de festas como inferno astral, coisa que bem sei, nem existe, assim como a maioria das minhas aflições: sobrevivem só na cabeça, e jamais passariam por um crivo mais apurado da realidade. Corri os olhos pelo jornal bem desatenta, envolta na lembrança das muitas frustrações, e como estou mesmo de férias auto-impostas, sem me preocupar nem um pouco em encontrar assunto. Foi quando bati na última página do último caderno, no seu conto carioca de Natal... e no seu aviso: final feliz.
Todo mundo merece, neste fim teórico-cronológico-e-nada-mais de ano, uma nota de otimismo. E a sua me comoveu. Se andei pensando em entregar tudo a Deus - sem acrescentar muito capricornianamente que o armário d'Ele lotou - e em treinar a psique teimosa a confiar um pouco mais... sua crônica me deu alento, Cora. Seu final feliz, com a honestidade e bondade humanas que descreve - coisinha pouca, ao alcance de qualquer um - iluminou nessa última quinta o buraco negro do drama impresso a que a gente tão mal se acostumou. E quem sabe, afinal, a mera esperança de que haja mesmo uma ordem superior benéfica será suficiente. Pra que a gente mude, pra que a mudança comece com a simples capacidade de reconhecer o lado bom das coisas. Obrigada.

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Voto em mim

Já faz mais de um ano que decidi sobreviver como escritora, mas nem pagando eu consigo publicar. Frequentei feiras, festivais, e todas as pilhas de originais. Falei de sexo, de fracasso, de trauma de infância. De moda, mãe judia e romance online, em prosa, verso e implicância. Vi meus temas na lista de best-seller... mas nem cheguei na lista de espera. Revisei e reescrevi, meus textos e os outros que li. Mas nem carta de recusa eu recebi.
Por sugestão de um leitor, mudei de imagem. Mudei de design, de domínio e até de linguagem. Postei comentário em todos os blogs. Reclamei, elogiei, e pra me destacar... me equivoquei. Mandei email pra todo mundo: editor, assistente e eleitor. Brinquei, arrisquei, mas quando dei pra rimar, desafinei.
Cutuquei a paciência de muita gente, mas do Xexéu, coitado, abusei. Dele, dos clones dele, e até de quem tentou, um dia, fingir que era ele. Persegui, critiquei e aborreci. Perdi a noção e ainda por cima, o prazo da eleição. Agora me diga, espelho meu: pra mala do ano, existe candidato melhor que eu?

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O Natal faz muito mal

Dez entre dez escritores de sucesso confessam uma infância difícil. Me incluo entre eles. Ao terminar o interessante "Em Nome do Pai" de Hanif Kureishi, publicado pela Companhia das Letras, comento com o Alan, rindo: "Não sei se tenho talento suficiente para sobreviver como escritora, mas as qualidades negativas tenho todas. Incluindo a (in?)capacidade de resistir à frustração."
Às vésperas de completar 55 anos, tenho enfrentado angústias adolescentes que me deixam sem dormir, multiplicando o incômodo das ondas de calor. Me deixei levar pela generosidade publicitária da época de festas; mas os encontros familiares que promovi, buscando exclusivamente a paz e o amor, acabaram inesperadamente num buraco negro de inadequação e culpa. Deve estar aí a explicação para os livros que escolhi ler nessas férias, e principalmente para os aspectos deles que comentei aqui. Lentamente, começo a entender o que se passa.
No Globo de hoje, a pesquisadora Miriam Abramovay traça um retrato conhecido - e nem por isso menos espantoso - dos relacionamentos familiares modernos: muita permissão e pouca compreensão. Os jovens compartilham com os pais o espaço físico, mas não o emocional, o da intimidade. "63,6% afirmaram não conversar sobre sexo, 57,1% não falam sobre seus sentimentos, 54,6% se calam sobre política e 51,9% sobre drogas." Que ninguém estranhe se meus temas preferidos aqui no blog forem exatamente esses.
Kureishi afirma que todo escritor estreante morre de medo de ofender os pais com seus textos. E pelo que se vê, ofende mesmo. Espaço amoroso que deveria ser aberto e franco, a família acaba sendo é um aprendizado de repressão social, microcosmo de um mundo que nos esmaga com suas restrições morais e regras sempre ultrapassadas.
Na mesa do almoço, compartilho com minha tia octogenária a impressão de ter vivido uma infância séria demais, sem muito tempo pra brincadeira. Ela se choca: "Pára com isso, Noga. Estive com você a maior parte do tempo e sei que não é verdade." A mesma tia já sofreu comigo há apenas três dias, quando confessei a ela meu inconfessável desejo de que mamãe morresse, pra se livrar dessa praga de doença que tanto a faz sofrer. Na família, aparentemente, o consenso é de que mamãe está "bem", bem tratada e bem cuidada e levando a vida, senil e demente, na boa; mas o que eu vejo me faz desejar até mesmo a minha própria morte, caso daqui a alguns anos me encontre na mesma situação. Tomara que até lá a eutanásia se torne uma forma legítima e legal de por termo à vida. De minha parte, já vou assinando a permissão. A questão é que as versões que cada um formula a partir de uma realidade comum diferem demais, e é essa incompreensão generalizada, essa falta de abertura para os verdadeiros sentimentos e impressões, que elimina pela raiz a chance de nos rendermos ao amor e à sensibilidade, fazendo de nós, numa certa medida, monstros ressentidos. Uau, Noga. Pegou pesado mesmo. Quando eu era adolescente, tentando escapar do amor controlador de mamãe, essa tia parecia me oferecer o território da livre expressão, da modernidade: era a carioca morena, bonita, arrojada, a que saiu de Minas e desbravou o território mágico do Rio de Janeiro. Forjou-se o mito. Na vida real já me chamou de egoísta porque não tive filhos, e de fracassada quanto tive que fechar a Pólen. E agora faz com que eu me sinta mal-educada, grosseira e ingrata. Vai ver que sou isso mesmo. Foi nisso que deu minha luta interior, minha insatisfação endêmica e minha capacidade limitada de expressar os sentimentos sem resvalar na culpa. Foi isso que aprendi com eles, ou melhor, foi esse o resultado do confronto do amor deles com minha carga genética maldita e renegada, vinda sabe-se lá de onde. Dessa família amorosa, normal e comportada é que não foi.
Nossa, gente. Natal faz mesmo muito mal. Tô pior do que o Jabor, deve ser a maldição das terças. E preciso confessar: toda vez que escrevo algo, seja post, seja livro, seja crônica, resenha ou crítica, tenho a íntima certeza de estar ferindo alguém. Minha rotina de trabalho é assim: meia hora de deleite criativo pra cada 40 minutos de culpa.
No modo de ser das famílias alguma coisa andou muito errada, sério. E está na hora de mudar, só que como, não sei. Compartilho com a Cintia Moscovich a impressão de que foi por isso que não tive filhos: pra não perpetuar a dor dessa incapacidade de expressar amor e liberdade. (Falar nisso, Cintia, liberdade em idish é "frayheyt". Pode até não existir nas famílias, mas na cultura e na filosofia judaica, existe sim. O conceito é básico, e abençoado por Deus desde a fuga do Egito.) Mas hoje, Cintia, a verdade é outra: me arrependo de não tê-los tido, pra poder experimentar essa abertura, essa capacidade de amar sem limites da qual me imagino capaz, enquanto firo gravemente a todos que me rodeiam.
Pelo menos aqui em casa, desde que encontrei o Alan, é o que venho aprendendo a expressar. Tomara que um dia esse amor me cure. Essa liberdade de expressão, o prazer, o gozo. Nem que pra isso eu tenha que abrir mão dessa nefasta matéria prima de literatura.

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X-R-I-X-C-X-R

De uns tempos pra cá cedi à insistência do Alan, preocupado com a condenação genética que paira sobre a minha memória: faço palavras cruzadas diariamente. No Globo, costuma ser meio fácil e tenho tirado de letra (sem trocadilho), mas hoje, empaquei. Fiz tudo rápido e deixei de fora apenas uma palavra daquelas, quase toda preenchida, faltando apenas 3 letrinhas que não vinham de lugar nenhum: atividade essencial para o bem-estar de uma criança. Ih! Não sei. X-R-I-X-C-X-R. Fiquei lá, de caneta na mão, pensa, pensa. É. Não sei mesmo. Não tive infância. Na minha era stress em cima de stress: aula disso, aula daquilo, compromisso de manhã à noite, me preparando para esse avesso de sucesso que sou hoje. Não tive filho, como é que eu vou saber o que é essencial para o bem-estar de uma criança? Nem sonhando. Não sei, gente, desisto. Vou ter que esperar até amanhã pra ver o resultado, 3 letrinhas apenas... Pensei: carícia, não, não dá. Caricar? O quê? Amar não. É curto demais.
Nesta manhã de Natal, como em todas as demais, não vou sair pra rua pra exibir os meus... opa! Brinquedos! Não, gente. Não é que eu tenha sido uma criança abandonada não. Apenas não sou cristã, sou judia e nunca ganhei presente de Natal. Não tenho tempo pra brincadeira e já nasci com essa seriedade toda. B-R-I-N-C-A-R. Não foi à tôa que custei tanto a descobrir, já que não pratiquei muito até conhecer o Alan e me soltar no mundo. No gozo. Quem teve uma mãe judia das boas, sabe. Como a Cintia Moscovich, de quem li de um gole só o "Porque sou gorda, mamãe?", lançamento de fim-de-ano da Record. Confesso: um pouco chocada. Tomara que seja mesmo meio-ficção, porque senão... Coitada. Da mãe. Dela. De mim, nem tanto, porque me identifico e por isso sei: o que tem de ficção ali é pouco. Sempre me achei gordinha, mas não tanto. Sempre me achei neurótica, mas nem tanto. E mamãe, bem. Hum. Sempre foi mazinha. Mas nem tanto.
Quando escrevi - e publiquei - meu primeiro livro, fiz uma revisão desse tipo entre mamãe e eu, com um medo danado da repercussão. Me senti culpada à bessa, confessando em publico as nossas misérias, mas perto da mãe da Cintia a minha era light, sério. A mãe de bruxa no "Eu, xamã" não chega aos pés da mãe bruxa real/imaginada da Cintia, apesar das muitas coincidências. Não sei se a Cintia perdoou a megera dela mas eu já, a minha. Tadinha. Como o trapo humano que virou, já pagou seus pecados todos - ela que sempre afirmou não ter nenhum - navegando em vida feito alma penada entre a carência afetiva inexplicada e a fantasia do abandono, ninguém merece. Mãezinha. Meu próximo livro, que escreverei ainda não sei quando, vai dedicado a você, querida: uma mulher apenas infeliz que teve tudo, mas perdeu o rumo da alegria. Se pelas páginas da Cintia me purifiquei, aprendendo a te amar, é só porque sou amada agora. Tudo deu certo no final, mamãe. Pode ficar em paz, você já fez por merecer. Custei. Mas te perdoei. Já posso ir lá fora brincar. Já posso crescer, mamãe. E vou. Prometo.
Não sei bem porquê, mas os escritores judeus que tenho lido entraram todos nessa, de purgar na literatura o passado, o desamor, o afeto familiar ressecado. Eu também. Diz o Alan que é por medo, medo de que um passado de perdas contamine a esperança de futuro. Mas agora chega, gente. Entupir as feridas de tanto sal não vai levar a nada mesmo. Freud estava errado, afinal, e ainda por cima comeu a cunhada, vê se pode, cobra criada. Não foi por mal, foi por pulsão sexual e pronto. O jeito dos pais não foi por mal. Foi o que deu pra fazer e pronto. Daqui pra frente é com a gente, e o melhor que a gente faz é levar na brincadeira, mudando pra gozo o estilo dramático dessa história: mais amor e menos mau humor. Melhor lavar a roupa e jogar a água suja fora. Não serve pra beber, e quem experimentou, sabe: pode até matar, por isso escreve aí. Bê. Ene. Á. Matei a charada, encontrei a palavra cruzada. Essencial pro bem-estar de qualquer um é ser capaz de brincar, de rir, de se alegrar. Como resolução de ano novo, cai bem melhor do que dieta radical, Cintia. Feliz 2007 pra você também. E por falar nisso, tanto na sua como na minha, a tendência pra engordar vem mesmo é do papai, do adorado, idolatrado, precocemente ausente, filho único de quatro irmãs que por imposição de mamãe não visitamos nunca. Pelo menos disso mamãe não tem culpa nenhuma.

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Cena literária carioca









- Mais algumas noites tempestuosas...
- Mais alguns tiros na noite...
- Mais algumas cartas de editores rejeitando meus originais!*

*nem isso, Snoopy, nem isso!

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Prazo vencido

Não sei porque foi hoje e não na próxima semana. Senti esse impulso de falar nas resoluções de ano novo, e detto e fatto, fui dar uma olhada nas do ano passado pra conferir a quantas andei.

- malhar menos, malhei. e deu muito certo, se vocês querem saber. no próximo pretendo malhar menos ainda até encontrar o novo modelito ideal "mulher madura", tô investindo nele. ainda corredora, porém mais lenta. devagar e longe, se Deus quiser.

- comer mais chocolate e mais pipoca*. mais chocolate, comi. um quadradinho por semana. adoça a boca e não dá pra engordar, ou pra alterar a proporção ideal de bactérias nas minhas tripas, uau. os relatórios científicos se aproximam cada vez mais da ficção, vejam.

- beber menos água, bebi. nada mudou. ou melhor, mijei menos. fiquei menos dependente de banheiro público, o que sem dúvida foi ótimo.

- ganhar mais dinheiro, ah! gente. fracassei miseravelmente nessa. sem comentários.

- não desejar emagrecer, tá certo. dei uma melhorada nesse quesito. ser amada contou bastante, eu recomendo.

- falar mais palavrão, coisa mais irrelevante. não presto mais atenção nenhuma nisso. quando um palavrão sobe à boca... o que é raro... deixo ele sair e pronto.

- ser menos responsável, médio. senti um pouquinho menos de culpa, mas ainda preciso melhorar muito.

- levar estas antiresoluções a sério. sério. como toda resolução de ano novo que se preze, esqueci destas cinco minutos depois. mas revendo hoje, até que não fui mal.

Quanto a me dedicar full-time à literatura... me dediquei. Tendo sido um ano 8, ralei pra caramba e não ganhei dinheiro, o que contrariou o espírito da numerologia. Mas me instalei de vez na nova profissão e daqui não saio. Gostei. Queira Deus que a solução material esteja à vista no ano 9 que vem. Uau. Tô me reconciliando com Deus, parece. Já citei o nome dele duas vezes só nesse post, ó de lá! Refleti. A coisa que eu sempre mais queria, agora tenho. Falta aprender a fazer dela o melhor uso, e esperar que toda a gratidão por meu sonho realizado de alma gêmea dê frutos, me faça sentir melhor comigo mesma. Dá uma energia tremenda, isso eu reconheço.
Para os próximos 525.948,766 minutos da minha vida, se continuar tudo como está estará pra lá de bom. Com um pouquinho de reconhecimento financeiro, ok?
Não dá pra terminar sem um pouquinho de ironia política. No post do ano passado citei Arthur Dapieve ..."dando a mão à palmatória e reconhecendo que os escândalos e decepções políticas monopolizaram a atenção neste ano". Quem diria que esse ano... mais ainda, mais ainda. Falta de vergonha política parece não ter limite, e no apagar das luzes do congresso ainda conseguiram se superar. Só frase feita e bem cafona pra descrever esse pessoal, gente. Para o caso de continuarem assim, sem representar nem mesmo em ínfima parcela os anseios de quem os elegeu, desejo que nos próximos quatro anos se tornem cada vez mais irrelevantes e sem poder**. E que os já extorsivos ganhos deles se limitem ao salário que recebem, o que já estará de bom tamanho. Abaixo a comissão e vigilância digital neles.

*quanto ao milho de pipoca na prateleira, esqueci. faz mais de um ano que não uso e deve estar com o prazo de validade vencido.
**ops. parece que estou querendo o fim do jogo democrático, tsk, tsk. não é nada disso, é justamente o contrário disso, mas por mais que eu pensasse não consegui refrasear, e me deu uma preguiça... então deixo assim mesmo, com ressalvas. o que eu queria mesmo era que surgisse uma nova geração de políticos, dessa vez do bem.

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Depois do temporal


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Procurando vaga

Em sua crônica de hoje no Globo o antropólogo Roberto DaMatta atribui a falta de cronistas como os de antigamente à dureza do cotidiano, à violência, à miséria que se expandiu para fora dos bolsões de pobreza e atinge agora a todos nós. Gulp.
Caro Roberto, acredito ter algo a dizer. É certo que estamos, mais do que nunca, conscientes da crise que nos aflige. Tendo a justificar essa ansiedade, pelo menos em parte, ao crescimento e abertura progressivos dos meios de comunicação. Em tempos de celular com câmera, computador portátil e milhões de blogs, todo mundo dá o seu recado, seu pedacinho de insatisfação online... sem muita reflexão. Mas a vida não acabou. Nem os bons momentos, como você mesmo diz - a visão pitoresca e leve do cotidiano - desapareceram. Estão aí, caro Roberto. A gente é que, por um motivo ou outro, deu pra acreditar que alegria e felicidade não interessam a ninguém.
Desde que foi inventada a sociedade está em crise: uma situação de carência perpétua que apenas muda de tempo e lugar. Não seria preciso reconhecer que, com todo o drama, alguma evolução existe? Se a saúde pública continua péssima, pelo menos a expectativa de vida se ampliou? Se a favela é pobre, pelo menos tem tevê, geladeira, fogão a gás? Que apesar dos interesses francamente monetários que a movem, a indústria da tecnologia beneficia a todos?
Pra não falar de matéria e consumo, meu caro: o amor ainda existe. No escurinho do quarto de casal, sem muito alarde, o abraço apaixonado ainda abriga. Apesar da forma humana dos amantes, da qualidade sem fogos de artifício do orgasmo, das barriguinhas, da flacidez. O mundo da mídia é um, e o da intimidade, outro. Nem sempre compartilhado, porém, presente. E se a nova geração não teve tempo de aprender ao vivo alguns desses segredos, vai o meu conselho. Ou alerta, sei lá. O amor é que vale, gente. Outro dia uma prima minha descrevia, para meu espanto, as prioridades da filha engenheira, já se aproximando dos trinta: hoje em dia as mulheres se preocupam é com a carreira, com o dinheiro... amor e projeto de família deixados pra depois; (e ela acha muito bom) não querem namorado, ou compromisso emocional de nenhuma espécie. Hum. Já estive lá. Fiz sucesso, aos trinta, como empresária e designer... Mas a falta de amor minava tudo, sério. Acabou jogando no fosso aquela fama toda. Fracassei.
No espaço cada vez mais público das idéias falta a poesia, isso sim: a perspectiva poética da realidade. Falha nossa, companheiro cronista, e a hora é essa pra gente se redimir.

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Parabéns, Poeta

Enquanto o Jabor se ocupa de enterrar a cultura contemporânea e jogar sal por cima, a revista Time elegeu VOCÊ a personalidade do ano. Você, eu e todos nós que nos ocupamos de por os pensamentos pra fora, de compartilhar idéias, poemas, crônicas e novos caminhos, sem cobrar nada a mais por isso. Nem a menos. Onde é que isso vai parar, não sei. Numa sociedade inteiramente nova, compartilhada e aberta... quem sabe. Curiosamente o endosso da Time Magazine (dá-lhe, Caetano) combina com a idéia esotérica de uma nova sociedade baseada em cultura, e não em dinheiro. Como a gente vai sobreviver, não sei. Parodiando uma das minhas frases cinematográficas preferidas: "Breve saberemos". (é de um filminho romanticamente intrigante sobre a vida e a morte - featuring Brad Pitt e Anthony Hopkins - que eu já vi umas mil vezes. É, gente. Na intimidade, sou rasinha, rasinha) Mas pra compensar, festejo o aniversário tardio do nosso poeta maior, o Manuelzinho, Deus lhe dê mais muitos:
"Uma ave me sonha/ uma brisa me garça/ o silêncio me pedra." Uau, gente, o que foi isso? Uma luz mais forte que tempestade solar afastando o bode? E o cara aos 90 é moderno, ah, é. Confessa viver de herança: "Sou vagabundo profissional. Comprei o ócio pra poder trabalhar." Hum, hum. Gostei dessa, claro. Purgou a culpa. Como disse muito bem uma amiga minha, o mercado não nos quer, dane-se o mercado. Quem nasce pra poeta nem sempre acaba em lista. (de bestseller) Já vamos adiante, em sintonia com a inexistência do tempo. Despejamos o coração e o que respingar... Brota.
Por essas e outras, parabéns, Poeta. Num mundo que se reinventa sem que os pessimistas percebam, nosso destino a gente é quem faz.

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Fim de tarde

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O amor não tira férias


Parece nome de filme. E é. Em pré-estréia especial nesse período de pré-festas, blablablá romântico adoçado pela beleza dos protagonistas. Gostei. Vou nessa.
Uai. E vocês não sabiam que sou romântica não? Por essas e outras estou dando uma palinha por aqui, mas continuo low profile. Esse ano não me indigno mais. Nem reclamo. Nem corro. Nem malho. Parati foi dez. Choveu. Mas como lua-de-mel foi dez mil. Valeu.
Foi voltar e ver que os mais recentes posts na Carla querem mostrar - e, se depender de mim, fracassarão - que mulher não tem senso de humor, e é mesmo um serzinho inferior que batalha pela igualdade dos sexos, mas nunca chega lá. Acaba sempre trombando numa Quebra-Barraco pelo caminho. Ah, bom. Pelo menos não precisa de expedientes mil pra aumentar o tamanho do pênis, certo? Quanta besteira... guajira quanta besteira... Adoro meu homem e adoro ser mulher, Deus me livre de ser diferente. No calor da menopausa e tudo. Temos nossos momentos de conflito, claro... e não são poucos... nem calmos... A gente até se embola. Mas quando penso na minha vida de solteira, não quero voltar pra ela não. Fui feminista, empresária, independente, ainda respondo aqui em casa pela grana... Mas esse casamento, sério, me faz sentir que cresci. Fiquei adulta. Tal é o valor humano indiscutível de um bom relacionamento, por mais que se diga tudo em contrário. Só tenho pena de não ter família, ficou tarde, com essa modernidade toda... Por isso, começando a desejar, é o que desejo pra todo mundo. Muito amor e nenhum mistério. Transparência total. E por mais que aquele amigo moderninho afirme que "se no seu livro tiver a palavra 'coração' eu não vou ler", sorry, gente. Daqui pra frente, não dá outra. Deixa o coração falar.

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Merry tudo

Minha persona pública acha esse Shopping Leblon um absurdo. Não sou nada original. Muito já se escreveu nos últimos dois dias sobre o caos do trânsito, sobre o "Rio Sul que invadiu o Leblon" e até sobre o desprezo devotado pelo shopping aos vizinhos pobres da Cruzada. Hum. Será o comércio do bairro responsável pelo bolsão de pobreza que aflige a vizinhança? Ou será que é o Dom Élder Câmara e seu assistencialismo bem-intencionado? - vou ser sincera aqui, gente. pensei que era o Carlos Lacerda mas fui conferir no google... ah. Lacerda é responsável sim, mas é por outro absurdo urbanístico: a Selva de Pedra, não, a novela não. os espigões cinzentos, favela de rico que substituiu a do Pinto, erradicada numa época em que não se discutia tanto. não, não sou a favor de jogar os pobres pra escanteio. mas já imaginaram o Leblon hoje, entre Cruzada e Favela? - Segue o link, gente. A Favela tem memória, mas os demais moradores, não. O que quero dizer é que tecido urbano é assim mesmo, como um organismo vivo: evolui. Aconteceu em Londres, em Nova York e nas melhores famílias. E o Leblon evoluiu pra ser o melhor bairro do Rio, do país, e quiçá do mundo. Ops. Quem não for bairrista que me perdoe. E os erradicados, também. Gostaria que tivessem vendido seu patrimônio por uma boa grana e se mudado, com o lucro, pra algum lugar onde fossem bem mais felizes. Gostaria que no Brasil... fosse todo mundo feliz. (registra aí um desejo de ano novo) Gostaria que não houvesse pobreza. Ponto. Mas aí... bem. Aí a gente acordou. E o tráfico dominou. Tá tudo dominado, não se preocupem. O bolsa-família vai dar jeito em tudo, e o shopping, quem sabe, uma mãozinha. Dando emprego. Pagando imposto. Esta é minha persona pública, claro. Aquela que tem solução pros males do mundo, contanto que não me amolem nem me façam contribuir. Que critica tudo e todos, mas não sugere nada. Não tem idéias brilhantes e é contra "tudo isso que está aí". Um cenário que só pode acabar no apocalipse, no após-calipso das areias de plástico de Copacabana em 2046.
Agora eu vou contar pra vocês - e que ninguém nos ouça - o que fez ontem em seu primeiro dia de férias a minha persona privada. Fui ao shopping. A pé, não perturbei o trânsito. Olhei vitrines maravilhosas pela primeira vez em anos. Adorei a nova Travessa, nunca vi tanto livro junto e fui muito bem atendida. Faz tempo que eu não fazia uma farra consumista literária dessas, só compro pela internet: comprei o "No Colo do Pai", do Kureishi, para ler na viagem. Comprei também: um biquini novo, grande o suficiente pra cobrir a minha cinquentenária bundinha; uma lindíssima camisa de linho branco da Richards, em seis vezes sem juros, pra garantir o sexo na minha segunda lua-de-mel. E terceira, quarta, quinta, centésima, se Deus quiser. Almocei lá mesmo, com uma vista linda pro Cristo e pras montanhas em redor. E last but not least, mandei pro espaço a dieta do carbono alugando um carro pro fim de semana que ninguém é de ferro. E completei o dia com o Alan emergindo do inferno azul dele. E meu. Até chorei, gente. Vou ser sincera: sou simples. Tenho 2 ou 3 vestidos, de malha e baratinhos. Mas vendo outro dia os estilos femininos na Revista do Globo, ah! Que vontade de ser dourada! De usar um brinco bem grande, salto alto e roupa nova! Pois é, gente. Consumo equilibrado faz parte da vida e alegra a alma, até de quem não confessa. E se eu cruzar um dia nos corredores do shopping com todos esses detratores públicos da mudança, prometo contar procês, ó. Juro. O que vai ser difícil, já que depois dessa overdose só pretendo ir ao shopping umas duas vezes por ano: depois de meia hora, acho uma chatice.
É isso, gente. Eu disse que estava de férias, não foi? Pois é. Estou de partida pra Parati, e não sei quando volto por aqui. Se conseguir controlar minha compulsão pelo trabalho, só em 2007. (começou mal, se na primeira manhã já estou aqui, de blablablá). Por isso, meus melhores votos pra vocês. De consumo. De saúde. De sucesso. Tudo bem equilibrado. Merry tudo e tudo de bom. Inté.

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Equívocos afetivos

O problema do enfoque divertido e original de Luis Fernando Veríssimo no Globo desta quinta é um só: inquilino não liga pra apartamento alugado. Deixa tudo de qualquer maneira, e na hora de devolver o imóvel dá uma guaribada bem matada pra enganar o proprietário. Quem aluga, sabe. Mas a idéia de tratar afetivamente a Terra como a nossa casa sim, é válida. Casa própria, digamos. Porque a Terra é nossa, e se a gente não cuidar bem dela... o azar é nosso.
Por trás desse movimento ecológico todo está um dilema que vem nos corroendo por inteiro, em todos os aspectos da vida moderna: o confronto dinheiro x afetividade. No blog da Carla a discussão não é nomeada, mas aparece, e ocupada demais pra deixar um depoimento lá, faço desse post a minha participação. Encarar casamento como adversário do sucesso profissional não tem nada a ver, gente. A família anda em baixa porque nosso estilo de viver tem nos tornado egoístas, fechados em nós mesmos e viciosamente materialistas. Sempre trabalhei, e nem por isso deixei em segundo plano meu desejo intenso de amar e ser amada. Muito pelo contrário, fiz disso o meu lema. Ops. Tema, o assunto do meu trabalho. Já reclamei com a Carla a falta recorrente da palavra amor nessas discussões sobre relacionamentos, e ela me respondeu que o amor é condição básica, então... Será mesmo? O que vejo é a família cada vez mais tratada como um utilitário, a afetividade esquecida. Amar é duro. É preciso compreender o outro, aceitar, orientar, ceder e ser compreendido, aceito, orientado. Alguém aí topa? Quem se julga independente não anda topando não. Mas o imaginário do amor continua aceso, e desviando um pouco o foco: a turma gay está louquinha pra se casar, constituir família. Nada contra. Sou a favor da liberdade civil e pronto. Mas não deixo de pensar sobre o assunto, agora que estão todos querendo filhos. Tá certo. É direito deles. E é também direito de uma criança ser criada por um pai e uma mãe, o que no caso é impossível... Dois pais e duas mães não serão jamais uma expressão da natureza, o resultado de um encontro amoroso pleno. Serão, no máximo, a vitória do materialismo sobre a afetividade. Uma geração de laboratório. Desculpem, se sou careta. E olhem que nem filho eu tenho, mas se tivesse... ia querer que fosse feito no calor energético de um orgasmo bem gostoso. Ninguém me tira da cabeça que uma criança, ao olhar para papai e papai, ou mamãe e mamãe, sentirá no âmago uma sensação inexplicável de inquilino. E morando na casa errada.
Ah. Deixa pra lá. Eu nem deveria ter escrito nada hoje. Em vez de aproveitar a temporada natural do amor que o verão e o fim de ano traz, tá todo mundo sofrendo de caos: caos aéreo, caos no trânsito, caos político, e caos afetivo também. Pode ser que eu ande influenciada, dez anos depois, por estar trabalhando num texto esotérico, com os dois pés enfiados na jaca da espiritualidade, onde a palavra amor aparece 114 vezes. É, gente. Eu contei. Foi pouco, pra quem passa a vida tentando fechar as contas.
Com o avanço da tecnologia, não vai demorar muito pra gente descobrir o verdadeiro sentido da vida, um conjunto de valores que realmente valha a pena. Num planeta cada vez mais plugado, as pernas da mentira estão cada vez mais curtas. Pode até levar alguns séculos... Mas o que são séculos, numa história de trilhões de anos? Se as mulheres vem de Vênus, não sei. Parece fantasia. A idéia de que os homens vêm de Marte, no entanto, vem ganhando força: até água já acharam lá. E só pra terminar, deixa eu esclarecer: apesar da mulher ter sempre mandado no mundo, o termo "homens" abriga o coletivo dos quatro gêneros, viu? Uma sociedade terráquea, que soa cada vez mais marciana.

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Transformando a dor em humor: um delírio literário

Limpei do meu armário a memória de gorda e dei tudo que pudesse me servir com dois quilos a mais. Eliminei maldições, coisas que mamãe impôs, lembranças tristes de dependência; roupas de que não gosto e uso porque ganhei e preciso agradar, agradar sempre. Agradar a quem?
Comprei passagem para o inferno e embarquei com meus demônios, eu e minha culpa inútil, mas agora rompi mesmo o cerco, não é? Estou a quilômetros, milhas, anos-luz de distância dela, na minha vida e não mais na vida dela mas depois do fórceps, não abri direito os olhos e ainda acho que estou no útero e que os ferros todos não passam de um sonho mau. Meu nariz não acredita que a qualidade do ar mudou e que os cheiros são agora outros. Abro o olho direito um bocadinho, vejo que a luz está mais forte e o Sol, opa, meio quente. Faço o caminho ao contrário e vou nadando pra dentro do útero em vez de sair dele, só mais um pouquinho, pra comprovar a cor dos ferros malditos e provar que não me ameaçam mais. Limpei do meu armário a memória da mulher que não goza, porque não há jamais de aproveitar a boa vida. Mas me enganei, porque ao entrar de volta, voluntariamente, no útero - com objetivos puramente científicos - calculei mal a minha fraqueza e a força deles, dos ferros malditos. Já não quero estar no útero, agora que voltei lá e finalmente voltei de lá, vivendo e vendo as criancinhas com as carinhas sujas, abandonadas pelo leite materno enquanto me entupi de leite e o Mateus me contando que depois de forjado o ser humano maduro, duro como aço, o leite fica corrosivo e a gente precisa se enferrujar um pouco, sim, com uma fina pátina de ferrugem que, dizem, protege da corrosão, mantendo a integridade do corpo que nunca mais vai tomar leite ou buscar o seio da mãe: o seio não está mais lá. A mãe engordou, ficou velha e meio desligada, o peito murchou e caiu. Ela não manda mais em mim e o leite que tem lá agora é muito indigesto e por causa disso esta manhã cortei o leite do café já que adultos maduros, forjados em aço e ácidos demais não tomam leite nenhum, só suco de grapefruit que, dizem, queima gorduras no novo comprimido israelense de ilusão que eu tomo seis por dia, só pra não gostar de leite e mel procurando em outros leites o meu deleite, muitos outros nessa terra que não engordam e fazem crescer muito, dizem, espiritualmente. Ainda vou convencer a todos de que sexo com amor é o melhor deleite. E não corrói. Quando eu puder – se Deus quiser - entrar em Sephoris, liteira dourada de mulher pra sempre magra e linda e nunca mais como Hércules lutar: os trabalhos terminarão. Minha própria deusa eu serei, no corpo dourado endeusada que não se deforma mais. Engulo a mim mesma e no autofágico ato de me engolir, vou finalmente me digerir, escrevendo comédia sem soltar mais gases. Foi nesse momento que abri os dois olhos, bem abertos depois do fórceps e se entrasse de novo no útero, seria de novo um parto de fórceps porque a bacia é muito estreita e ao enjoar dessa história de estar sempre nascendo, sempre um bebê faminto, pode ser que eu descubra que é o leite materno que dá gases e o desnatado da Parmalat não. Evoluí. Estou ficando rápida na espiral processual, os anos são agora dias e o leite acabou, o peito caiu. Os seios que não amamentaram nunca e leite nenhum verteram são... para o meu amado, da gazela os gêmeos olhos, e gazela para sempre? Será que eu posso ser? Esguia e livre correndo no prado os gêmeos seios numa taça onde o melhor vinho se bebe, moderadamente, é claro. Melhor que uma vaca pesada, vaca leiteira com as tetas inchadas e quanto é que custa em Israel? Tecnologia avançada pra tirar o leite, faturar com a tal história do leite e do mel sem contar pra ninguém que corrói os dutos do curral e o fígado de quem bebe? A vaca é gorda e ainda por cima, louca! Louca sou eu com essa imagem pesada de leiteira (esta mulher é uma vaca) e não contaram mesmo pra ninguém, não é? Gazela é mesmo um negócio bem melhor. Com os seios gêmeos e tudo, olhos azuis de Salomão engolindo salmão e comendo a amante num leito de cânticos. Em dia de semana. O tal Jeová do Velho Testamento sim, é mesmo esperto: iludiu o povo por uns 6 mil anos com aquela história de exílio, culpa e extermínio... Agora imagine. Se o gozo de Salomão e aquele mito de como era boa a Sulamita tivesse vazado, quem é que aceitaria ficar rezando? Servir para sempre a um único senhor?

Gostou? Está online, no "Eu, Xamã". Vai que tem mais.

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Da janela, de manhã

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Totalmente demais

Pra quem se aborreceu com a minha raiva no post de hoje, ou se emocionou com meus draminhas dos últimos dias, aí vai um refresco, tipo suco de abacaxi com menta e tudo: My date with Drew.
Não sou fã de Drew Barrymore, gente, e by the way, de nenhuma celebridade. Jamais gastaria um tostão ou um minuto de tempo perseguindo um sonho bobo desses. Mas tenho que admitir: o filme que resultou é totalmente, totalmente demais. Adorei. De montão, meeesmo. Nem sei se é verdade ou se é fake, a qualidade parece demais pra uma câmara alugada, mas o roteiro é ótimo, os garotos uma delícia de simpáticos, e a dose de sonho realizado... bem... uma colher de mel bem cheia a mais! Deu a maior esperança! E nada de prazo, gente. Esse negócio de prazo é totally fake. Prazo bom é prazo vencido, e nunca é hora pra se desistir do que se quer. Vai fundo. Eu vou. Beijinhos beijinhos e tchau. Ah, já ia esquecendo. No dvdclubonline, tem.

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Fuck you, machos

Essa não dava pra deixar passar e não deu mesmo, nossa. Nem gastei muito tempo procurando assunto, a coisa saltou aos olhos logo na primeira passada, uma tristeza. Que retrato de época, que desalento. E logo uma paródia de um dos meus textos preferidos, quase uma bíblia - me desculpem a heresia - coisa de cabeceira, mesmo. De inspiração erótico-literária, reduzida a pastiche, mesmo risco que corre a nossa vidinha virtual se a gente não der um jeito. Rapidinho. Pobre Molly Bloom, deu em nada. Nadinha. Em diminutivo carinhoso atirado pela janela, chupar aquele pau gordo, eu hein? Mercado? Dando no mercado, é, puta grátis com a cotação em baixa, é o que ele quer dizer. Uma tristeza. Melhor levar facada, gente. Prefiro morrer esfaqueada, vítima da frustração machista que conduz os caminhos do nosso texto cotidiano, é sério. Pelo menos sai de dentro de uma paixão, uma paixão destrutiva virada pelo avesso, é certo, melhor que viver esmagada sob o peso desse conformismo, do avesso, isso sim, de uma revolução que - querem nos convencer - não deu em nada. E logo ele, pena inteligente, e dizem, arauto do novo amor. Amor é prosa, sexo é... Vocês se lembram. Poesia. Música. Best-seller. Uma tristeza. Troféu de uma geração de Rubens Fonsecas que eu não leio, não li, e me desculpem os colegas de profissão, mas não de sexo, nunca vou ler.
Sugiro uma dieta ambientalista, gente. Não de carbono dessa vez, mas de idéias tóxicas, deprimentes. Essa onda de nova literatura mal-disfarçada de modernidade sim, é uma facada inclemente na nossa sensibilidade, dessensibilizada, isso sim. Nascida de fórceps num rio poluído de imprompérios, afogada logo de cara em nádegas malhadas a ferro, peitos duros de silicone, face endurecida de botox e a gente aceitando tudo, baixando a cabeça conformada com a pressão e dizendo sim, sim, eu chupo o seu pau gordo só porque você me quer, boneca, droga malhada que não dá barato nenhum. Nem tesão.
Eu não sei o que acontece com os homens de hoje, gente. O céu azul deles é o nosso inferno, um tiro pela culatra. Pau duro de carne e nervos, porém mais frio e químico que polietileno de vibrador. Literatura feminina neles, porque da verdadeira femme, da mulherzinha doce mas vulcânica que emergiu da nossa revolta eles não sabem um décimo. Preferem viver nesse limbo ilusório, cheio de bundas, fotoshops e anoréxicas, eles que se fodam. Porque a mim é que não hão de foder. Nunca mais.

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Update

Quem acha que manter um blog é fácil, se engana. Muita gente boa já embarcou nessa aventura e, sem resistir muito, desistiu. Outros deixam o webespaço meio largado, dando uma palinha ocasional e pronto. Mas honrar o compromisso de comparecer todo dia ali, ó, chova ou faça sol, rindo ou chorando... não é pra qualquer um não.
Pois hoje só tô dando uma passadinha rápida, empenhada em botar o "Eu, Xamã" no ar inteirinho antes da voagem. Ops. Viagem. Falar nisso, gente, o livro já vai formando uma reputação decente, sendo quase tão visitado quanto esse blog aqui que vos fala. Fico feliz porque o conteúdo, apesar de esotérico, é bem legal.
Mas não é nada disso que eu quero contar. Quero é compartilhar que o Alan, graças a Deus (e à minha ousadia) melhorou. Me xingou um bocado, se desesperou porque joguei fora as preciosas pílulas dele (é o que ele pensa), mas hoje acordou bem mais forte, a voz normal e agora... glória das glórias... acabou de sair sozinho pra caminhar na praia e aproveitar a tarde. Ontem saímos juntos, ele arrastando a perna e se lamentando como se estivesse doente, e muito. De certa forma, vamos combinar, estava. Tem doença pior do que as da mente? Na Visconde de Albuquerque encontramos uma amiga da academia, que há dois anos acompanhara o nosso emocionante namoro na internet... Imagino ela morrendo de pena de mim, tão feliz por ter casado e agora amarrada àquele velho acabado e ainda por cima, manco! Essa foi de lascar, gente. Mas tô otimista e pra quem rezou... vai o meu abraço. Amanhã a gente se vê. Prometo.

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Amar é...

...não olhar um para o outro, mas olharem ambos na mesma direção


Eu sei, gente. Não existe nada mais cafona do que isso. Mas aqui em casa essa manhã foi uma questão de interior design. O Alan já vinha reclamando que a sala parecia um labirinto de rato, e eu teimosa dizendo que não havia outra solução estética. Passei os últimos três dias matutando sem chegar a conclusão nenhuma, mas hoje, numa situação de extrema emergência, comecei a arrastar os móveis de lá pra cá e resultado: ficou bacana. Sei que o apê é pequeno. Mas é no Alto Leblon, e cabe no nosso bolso... Bem. No que sobra do bolso da mamãe. E tem aquela maravilhosa, iluminada e inigualável vista do Corcovado, vocês sabem. Pois do jeito que ficou, a mesa de jantar, de um lado, é virada pro Cristo, e é por isso que a partir de hoje eu e Alan sentamos no mesmo lado dela. Olhando na mesma direção, entenderam? Na direção da beleza, de alguma esperança de futuro.
Porque a coisa aqui ficou feia hoje, gente. Pensei que ia perder o prumo. E o juízo. Eu já vinha reclamando que o Alan estava lerdo, a fala meio pastosa, mas pensei: é a primeira semana da droga do valium, depois melhora. Essa noite ele gritou comigo, tive que dormir na sala, mas pensei: ele está nervoso, o filho querido dele passando o fim de semana no Havaí com a mãe, está com ciúme, sei lá. Quando acordei, ele ainda dormindo, resolvi procurar as caixas do remédio, e só encontrei uma, completamente vazia. Depois mais uma, completamente vazia. A terceira não encontrei. Gente! Entrei em pânico! 60 comprimidos em cinco dias! Comecei a chorar, balancei o cara até que ele acordou, fiz um café bem forte e me preparei pro hospital. Pouco depois ele me trouxe duas caixas fechadas do remédio, tinha tomado uma e a outra era antiga, que estava guardada. Ufa. Mas no filminho da minha cabeça, era o malsucedido suicida, e tão infeliz assim, gente! Porque? Uma coisa inacreditável. Há menos de uma semana um homem forte, cheio de energia e talento, superpotente, e agora esse trapo humano. Até o pênis encolheu, sério. Quando me acalmei, li no jornal o depoimento da mãe que prefere ser mala a deixar a filha freqüentar essas raves de traficante. Tá certa ela, gente. Eu também, prefiro ser mala a ser viúva, e ainda por cima culpada. Ensaiei jogar a droga fora, mas não tive coragem. Escondi. Tenho medo da minha própria fraqueza, isso sim. Que num momento de amor benevolente eu acabe devolvendo a caixa pra ele. Mas Deus é pai, gente. Ele vai melhorar, e teremos nossa lua-de-mel em Parati. Quando a gente voltar, vou pegar o touro pelo chifre e ver se encontro uma solução para a tal da dor na perna neurológica que incomoda tanto a ele. Aceito sugestões... Rezem por mim. E por todos os viciados em drogas legais do mundo, gente. Olhemos todos na mesma direção que essa vida não tá mole não.

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Efeitos colaterais

email enviado essa manhã a americanos residentes no Rio:

From: "ACS, Rio"
To: undisclosed-recipients:
Subject: Warden message: Violence Picks up in Rio de Janeiro
Date: Fri, 1 Dec 2006 09:30:40 -0300>U.S. Consulate Rio de Janeiro, Brazil

Dear U.S. Citizens,
This Warden Message is to alert American Citizens living in or traveling to Rio de Janeiro that over the past week, the level of violence has escalated in Rio de Janeiro. Armed gangs have engaged in numerous shoot-outs and taken over one luxury building in Ipanema, robbing several apartments. On November 22, teenage bandits on bicycles attempted to rob and subsequently shot dead a fifty-eight year old Brazilian woman driving in Leblon. On November 26, assailants armed with automatic rifles and grenades held up a bus of sixteen British tourists on a major thoroughfare. Americans are urged to exercise caution and carry a minimum of valuables while traveling in Rio de Janeiro.
For the latest security information, Americans traveling abroad should regularly monitor the Department's Internet web site at http://travel.state.gov where the current Worldwide Caution Public Announcement, Travel Warnings and Public Announcements can be found. Up to date information on security can also be obtained by calling 1-888-407-4747 toll free in the United States, or, for callers outside the United States and Canada, a regular toll line at 1-202-501-4444. These numbers are available from 8:00 a.m. to 8:00 p.m. Eastern Time, Monday through Friday (except U.S. federal holidays).
American citizens traveling or residing overseas are encouraged to register with the appropriate U.S. Embassy or Consulate on the State Department's travel registration website at https://travelregistration.state.gov In case of an emergency, please contact the American Citizens Services of the U.S. Consulate in Rio de Janeiro at Avenida Presidente Wilson 147, Centro, telephone 021-3823-2022, after-hours telephone 021-3823-2029.

Sincerely,
William J Weissman - Chief Consular Officer

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Dioniso e eu, ou Dioniso também sou eu

Depois de dias meio anestesiada dirigindo pelo país, minha consciência despertou em Zipori, o sítio arqueológico mais importante de Israel, recém escavado. Num sonho, há seis anos, eu recebera instruções para criar uma coleção de jóias rituais, composta de 10 ou 12 "séforas"; ver escrito o nome Sephoris - versão de Zipori para o grego - foi um choque, e identifiquei imediatamente o termo. Em janeiro de 1992, logo depois do sonho, eu tinha começado a praticar espontaneamente no altar rituais surpreendentes: o primeiro deles, de liberação sexual, era vinculado a Dioniso, o deus grego do êxtase. Os rituais se repetiram e fui aos poucos, com dificuldade, liberando a tensão, travando contato íntimo com o corpo e experimentando sensações. Agora de volta à verdadeira Sephoris, com seus maravilhosos mosaicos, evoco mitos dionisíacos e os efeitos positivos do álcool, consumido com moderação. Numa parede observo o confronto entre o deus Dioniso e o humano Hércules, testando os limites com a bebida. Enquanto o forte Hércules sucumbe e cai, o pândego Dioniso continua invicto. Será esse um embate entre força e prazer? Entre trabalho duro e lazer? O amor em disputa com a obrigação, a paz com a luta? Longe dos pais, Dioniso foi criado por uma cabra – capricorniano, como eu? -, a leite de cabra. E para se esconder, se transformava em cabra. Procuro descobrir, no mito, a mensagem simbólica: recomendava a ausência completa de culpa? Independência? Liberdade? Prazer total? E esse leite? Seria afrodisíaco? Na minha busca, acabei deixando Dioniso meio de lado... é preciso recuperá-lo, não? O que significou para mim ter sido criada no kibutz, longe da mãe? Criei o trauma para superá-lo, revivendo o mito de Quíron, o curador ferido? Ou desejei a liberdade, o jogo livre do corpo, o prazer total? Fosse qual fosse, esse aprendizado, ou plano original do espírito, sofreu um súbito desvio quando fui para o Brasil, com um ano e meio de idade, caindo na rotina familiar comum. As idéias se atropelam, confusas, na minha mente: associo ao sonho de Sephoras, e ao ritual de Dioniso, o desejo de escrever poemas e receitas eróticos, ilustrados pelos belos desenhos sensuais de Mateus, numa colaboração profissional concreta entre nós. Penso em criar rituais neo-dionisíacos, me aprofundando na pesquisa de receitas vinculadas ao prazer sexual. Com moderação, é claro. Será que assim eu conseguiria emagrecer mais? Ser realmente mais bela? Parar de me autodestruir, me autodepreciar e começar finalmente a aproveitar a vida?
Extraído de "Eu, Xamã". Para ler mais: www.xama.notlong.com

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