Noga Bloga: a crônica cotidiana de Noga Sklar

Noga Bloga recomenda:



Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
O livro não é só o que escrevo, mas o que se passa à minha volta enquanto escrevo.
José Castello, em entrevista ao Prosa Online sobre seu novo romance, Ribamar





Parábola

Aí tem coisa, só pode. Quando finalmente consegui sentar pra trabalhar, peguei pela frente esse trecho do livro que estou revisando, o meu "Eu, Xamã", ex-Fases da Lua. É uma parábola iniciática, e acho que aparece também naquele livro de Clarissa Pinkola Estés, "Mulheres Que Andam Com Os Lobos." À primeira vista parece um conto de fadas comum, mas vejam bem se não tem tudo a ver com o que discutimos hoje: as vantagens e problemas da tecnologia, a defesa da ecologia e as manipulações da midia moderna. É meio longo, mas vale a pena. A versão a seguir é minha tradução, livremente adaptada. Essas parábolas servem mesmo pra tudo, lá no livro tem mais:

A donzela sem mãos

“Era uma vez um moleiro, que vivia com mulher e filha numa terra inóspita. Sem descanso em seu moinho, moía o trigo o moleiro, mas os ventos da prosperidade pareciam não chegar nunca. Eis que um dia se aproximou dele o diabo, disfarçado de gente, e lhe prometeu glória e riqueza pedindo em troca, nada mais nada menos, que o que encontrasse por trás do moinho. O moleiro conferiu, e por trás do moinho tudo o que o olhar alcançou foi uma macieira, carregada de frutos.
- Está bem - respondeu ele ao diabo - aceito a sua proposta. Que mal pode haver, pensou, em ceder ao estranho forasteiro nada mais, nada menos... que uma árvore carregada? Firmado o acordo, o diabo ensinou ao moleiro a tecnologia do moinho d’água. Em pouco tempo o negócio se expandiu, e o moleiro passou a produzir toda a farinha da redondeza, acumulando ganhos. As mulheres da casa, deslumbradas, compravam roupas e jóias, delegando aos empregados o serviço doméstico. Quando o moleiro - agora próspero negociante – ficou rico, apareceu o diabo para cobrar a dívida:
- Fiz o que prometi, moleiro. Estás rico e aqui estou, para levar o que me prometeste.
- É toda tua - respondeu o moleiro. - Aproveite bem as maças maduras.
- Que maçãs? - estranhou o diabo. - Olha bem, moleiro. O que é que vês por trás do moinho?
O moleiro se virou e por trás do moinho, para sua tristeza, viu a própria filha. Compadecendo-se dele, o diabo prorrogou o prazo:
- Amanhã, a esta mesma hora, volto para buscar o que é meu.
O moleiro se desesperou. Como poderia? Entregar sua filha ao próprio diabo? Não lhe restava, no entanto, outra saída, e contou finalmente a verdade à esposa e à filha, explicando a origem da súbita abundância. No dia seguinte, à mesma hora, voltou o diabo para cobrar sua dívida. A filha do moleiro, inconformada, traçou um círculo ao redor de si, para impedi-lo de se aproximar.
- Que ardilosa - exclamou ele. - Uma esposa ideal para o diabo! Pode deixar que amanhã eu volto, à mesma hora, para cobrar minha dívida.
Por mais que pensasse, a família não encontrava uma saída. Foi então que, desalentada, a menina sugeriu:
- Corte as minha mãos, papai. O diabo não há de querer uma esposa maneta.
Mas o pai hesita:
- Cortar as mãos da minha linda filha? Como? – se desesperou ele. Mas sem outra alternativa, acabou fazendo o que ela pedia. No dia seguinte, à mesma hora, voltou o diabo para cobrar sua dívida. Um diabo que se preze não desiste nunca, nem aprende com a experiência. Vendo no centro do círculo sua noiva maneta, o diabo se enfureceu.
- Que ousadia! Essa moça me pertence! Mesmo sem as mãos, vou cobrar minha dívida. E para a infinita tristeza dos pais, o diabo lhes levou a filha.
Na floresta, convivendo com o diabo, a moça tentava como podia contornar a infelicidade. Com o tempo, se conformou, estabelecendo com ele uma relação cordial. É preciso uma estratégia, pensava ela, para abandonar um homem desses. Conquistou a confiança do marido, que saia todo dia e a deixava sozinha na cabana. De volta à noite, o diabo sempre a encontrava quietinha em casa, e acabou deixando de lado as precauções. Um dia, anunciou que ia passar uma semana fora. A filha do moleiro não perdeu tempo: juntou seus poucos pertences e fugiu, à procura do destino. Por muitos dias e muitas noites vagou pela floresta e, depois de algum tempo, tornou-se difícil distingui-la da vegetação: seus cabelos se desgrenharam, as roupas se rasgaram, folhas e raízes se entranharam nos trapos e lhe cobriram o rosto. Numa noite, já desanimada, se deparou com um castelo enorme, iluminado pela lua cheia que revelava, no pomar carregado, uma pereira com pêras gigantescas, todas numeradas. É assim que somos: limitamos a realidade, com nosso hábito de contar e numerar tudo. Faminta e cansada a moça se aproximou, e com seus tocos de mão levou vorazmente uma fruta à boca, sem perceber que o jardineiro real a vigiava:
- Quem vem lá? – perguntou ele. - És mulher ou espírito?
- Um pouco de cada - respondeu ela. Compadecido, o jardineiro a deixou ir e no dia seguinte contou tudo ao príncipe, descrevendo o estranho ser - meio gente meio árvore - que andava roubando as pêras catalogadas. O príncipe ficou curioso e na noite seguinte, junto com o jardineiro, esperou a mulher aparecer. Por volta da meia-noite, com a lua bem no meio do céu iluminando tudo, viram chegar a criatura, com seu disfarce feito de mato.
- És mulher ou espírito?
- Um pouco de cada - ela respondeu.
Intrigado com aquele mistério todo, e fascinado pela ousadia da moça, o príncipe se apaixonou e lhe propôs casamento, mas ela recusou:
- Não posso, meu príncipe, casar-me contigo, porque não tenho mãos. Já pensou na reação do povo? Uma princesa maneta!
- Só o seu caráter importa, bela princesa – respondeu ele. - Tudo o que desejares, terás; no castelo, não precisas de mãos, terás criados para servi-la. Te darei mãos de prata e o povo te amará.
Prometendo pensar, a moça saiu correndo. Seria esse o seu destino? Uma rainha com mãos de prata? E decidiu aceitar o que o príncipe lhe oferecia. O casamento foi comemorado com uma grande festa, e o noivo presenteou a noiva com belas mãos de prata. O tempo passou, e no reino a harmonia imperava. A rainha era justa, gentil e delicada, e seus súditos a amavam. Com as mãos de prata ela bondosamente atendia a todos, alimentando os famintos e curando os doentes, até que um belo dia comunicou a seu rei que o amor deles, em breve, daria frutos. Durante a gravidez o reino foi atacado, e o rei, desolado, partiu para a guerra, deixando a amada aos cuidados da sogra.
- Assim que meu filho nascer, me envie uma mensagem – pediu à mãe.
Quando a rainha deu à luz um belo garoto, a mãe escreveu ao filho: “Querido rei, vosso filho nasceu. É um menino, um bebê saudável e bonito.” Aconteceu que a caminho do acampamento o diabo - furioso por ter sido enganado - interceptou o mensageiro, fazendo-o dormir com seus encantos, enquanto adulterava a carta: “Meu filho, a criança nasceu. Infelizmente é um monstro deformado, que está crescendo assustadoramente rápido e ameaçando engolir todo mundo.” O rei leu a carta tomado pela dor, mas prontamente respondeu: “Não importa, minha mãe. Seja como for, é o meu filho, e hei de amá-lo da mesma maneira. Por favor cuide dele e da rainha até a minha volta.” Mais uma vez, o diabo interceptou a carta e a adulterou: “Esse monstro não pode ser meu filho. Mate-o imediatamente, não quero vê-lo quando chegar.” Como seria de se esperar, a avó mal pôde acreditar no que leu. Escondeu da nora - encantada com a maternidade e ainda convalescente - o conteúdo cruel da carta, mas advertiu:
- Meu filho enlouqueceu, querida. Pegue a criança e fuja daqui imediatamente, antes que ele volte.
Sem compreender muito bem, mal se conformando com a nova tragédia que se abatia sobre ela, a rainha retomou seu velho traje em pedaços e se embrenhou com o filho, em prantos, floresta adentro. Profundamente consternada a mãe, no palácio, mandou matar um porco e guardou o coração numa caixa, para provar ao filho que fizera o que lhe fora ordenado. Enquanto isto, vencida a guerra, o rei triunfante se dirigia ao castelo, antecipando o momento de abraçar sua amada esposa e consolá-la por ter dado à luz uma criança anormal. Ao chegar, foi recebido pela mãe, ainda perturbada, e perguntou ansioso:
- Onde está minha esposa? E meu filho?
- Monstro! Enlouqueceste! – respondeu a mãe. - De acordo com as instruções que recebi, matei vosso filho... E aqui está a prova - afirmou ela, com o coração de porco nas mãos. - Tua esposa, ameaçada e assustada, fugiu.
Algo andara muito errado, perceberam ambos - incrédulos - ouvindo os absurdos que diziam um ao outro. A dor que expressavam era, sem dúvida, genuína; e compreenderam, num átimo, a manha do diabo ressentido, distorcendo os caminhos do destino. Consternado, o rei foi informado de que seu filho nascera lindo, perfeito. E que aconselhada pela própria sogra a rainha fugira, para evitar o mal maior. A mãe ouviu, pela boca do próprio autor, o teor verdadeiro das mensagens afetuosas que enviara, mesmo sabendo que o filho era um monstro. Afogado em sua dor o rei, na mesma hora, se despojou da coroa e partiu, em busca da família perdida.
De volta à floresta a rainha, pouco a pouco, se integrou à vegetação como já fizera antes, deixando que a natureza lhe curasse as feridas. Numa aldeia do caminho encontrou abrigo e por lá ficou, trabalhando numa taverna. Consolou-se, e se ocupando do filho, se manteve viva. Observou o garoto crescer, cercado de carinho, sob a sábia tutela da mãe. Descansavam ambos num domingo, à beira do rio, quando o menino saiu correndo e se atirou, sendo levado pela correnteza. Desesperada e impotente, a mãe jogou longe as mãos de prata e caiu n’água, concentrando-se em salvar o filho e ignorando as mãos que lhe faltavam. Ao se aproximar do menino, sentiu que dos braços lhe cresciam novas mãos. Resgatou o filho e voltou à taverna, onde guardou, cuidadosamente, as mãos de prata.
Anos depois apareceu na aldeia um homem já velho, desconsolado, alquebrado e roto, perguntando a todos que encontrava se haviam visto por ali uma rainha com mãos de prata, acompanhada do filho pequeno. Na taverna a filha do moleiro, ao ouvir a história, se emocionou: alimentou o homem, limpou-lhe as chagas e reconheceu, por trás das rugas e da dor, o belo príncipe por quem um dia se apaixonara. Ao saber da interferência maligna do diabo, entendeu o que se passara e sentiu contrair-se, de pena e saudade, o coração. Correu até seu quarto e voltou com a caixa contendo as mãos de prata, envolvidas em puro linho branco.
- Seriam estas as mãos que procuras? - perguntou ao velho. Imediatamente os olhos dele, mortiços, se acenderam, reconhecendo nelas as queridas mãos de prata.
- E a rainha que as usava? - perguntou ansioso. - O que aconteceu com ela?
A filha do moleiro, com lágrimas nos olhos e as mãos gastas do velho entre as suas, afagou-lhe o rosto cansado:
- Não me reconheces? Sou eu a tua rainha. Vem. Abraça o teu filho! Minhas mãos cresceram de novo, que saudade senti de ti, meu amor! Basta de dor, vem! Me abraça!
E foi assim que rei, rainha e príncipe, reconciliados, voltaram para casa. O diabo foi derrotado e a alegria do povo, finalmente, restaurada.”

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Conversa mole

Não sei, gente. Tem alguma coisa me incomodando, uma pedrinha quase imperceptível no meu sapato. Quando escrevi o primeiro post do dia, eu tinha visto metade do filme do Al Gore. Só agora terminei. Não é que eu não concorde com as diretrizes da dieta de carbono. Concordo, até linkei. Mas esse filme... Não sei não. Eu odiei, gente. E quando eu souber porquê, prometo contar. Acho que me revolto contra toda essa grana gasta pra estressar mais ainda as nossas cabecinhas já a ponto de explodir. Tudo bem que é coisa de americano. Ora. Eles que poluem, eles que se ocupem de despoluir. Quero distância da disputa política deles, e ainda por cima velada desse jeito. E vem cá: quando o Al Gore mostra o gráfico igualando o crescimento populacional ao aquecimento global ele quer dizer o quê, mesmo? Matem os pobres que eles são poluentes? Porque crescimento demográfico, todo mundo sabe, é coisa de pobre. De terceiro mundo. Quanto a mim, quero ser deixada em paz. Me poupem. Melhor ficar quieta antes que eu exploda algum conglomerado químico desses que convencem a todo mundo que sem tarja preta, não há solução. Já chorei de me acabar hoje. De um lado, a minha catatônica mãe anulada pelos terríveis anti-não-sei-o-quê que tratam a esquizofrenia. Uai, gente. Não era alzheimer que ela tinha? E com a falta da droga - que a essa altura já comeu o cérebro da pobre mais que os beta-amilóides - ela passou três dias chorando sem parar. Eu também. Pela miséria dela, e pela minha própria com esse marido que saiu de férias na terra da mente anestesiada,
HELP! Abaixo as drogas legais!
Periferia, sorry. Um mundo desses que nos faz sentir péssimos 98% do tempo deve ter alguma coisa errada. E agora essa iniciativa milionária do lobby verde: vejam o filme! Comprem o dvd! Comprem carro híbrido! Comprem a absolvição a crédito, ou o apocalipse, inevitavelmente, virá!
C H E G A.
Enquanto eu via o filme, fiquei pensando nos africanos de zilhões de anos atrás, vendo a terra rachar e se afastar... irremediavelmente em direção à futura América do Sul. Nossa. Deve ter sido um drama assustador. Ainda bem que naquela época não tinha satélite, vai ver que os estúpidos neandertais nem perceberam que o mundo deles was about to change.
Gente. Eu mesma duvido de mim quando me sinto tão revoltada com esses eco-alarmistas, mas é que estou num psicolimite. Não vejo muita diferença entre os catastrofistas pseudo-apoiados pelo conhecimento científico e os demais, sério. Quando mamãe era garota, já era assim:

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Beijei a boca de quem não devia...
Peguei na mão de quem não conhecia...


Pois é, gente. Vai beijar um pouco que faz bem, e pára de achar que a vida é uma merda. Porque se a gente pensar bem, vai ver que na maior parte do tempo... é mesmo. Que a gente é responsável pela própria miséria é fato, já pelo resto... Não sei. E pernas pro ar que ninguém é de ferro. Falar nisso, o mundo, até hoje, não se acabou. E graças a Deus que o blog é meu e ninguém tasca: nesse pedaço de pensamento aqui sou eu quem mando, e nele escrevo o que bem entender.

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Já é Natal...

Enquanto me sento pra escrever tem uma criança no prédio ao lado se esgoelando, quase pra morrer de tanto chorar. Tô feito ela, juro. Mais um pouco, e vou me esgoelar também. Que bom ser criança e poder se expressar assim tão livremente, não é? Uma tristezazinha e logo se ver cercada de mãe, babá, carinho. Eu não. No meu caso só ouviria um "manteiga derretida" e pronto. Deve ser por isso que sou assim, tão abusada. Carente.
Fora isso, tô com a Cora. Não tem nada mais alentador que morar na zona sul do Rio, cercada de belas vistas por todos os lados. A árvore da Lagoa acesa ainda não vi, só a feiosa com as bolas grotescas, mas tá certo: nem tudo é o que parece, e uma boa luz dá jeito em quase tudo. Quanto ao caos aéreo, Cora, é uma questão de consciência. Enquanto a gente desconhecia, viajava tranqüilamente e, na maioria das vezes, nada acontecia. Na vida é igual, eu acho. Acredito que Deus (se existe) protege os inocentes. Ou protegia. A época não está pra ingenuidades, e forçados a saber de tudo, só nos resta aprender a lidar com isso. É duro, eu sei. Que saudades, meu Deus, da minha infância querida... da aurora da minha vida... dos anos alienados que não voltam mais... E por falar em consciência, botei ontem no player a propaganda ecológica do Al Gore. Achei chato e moroso, e aquela fala lenta - como se fôssemos todos, na audiência, criancinhas retardadas - me irritou, sério. Infelizmente pra ele, a temporada dos furacões não se repetiu, manchando a reputação de profeta que ele tanto persegue. Continuo eco-cética e passo muito bem sem esse catastrofismo todo, mas... poluição é o fim. Tá certo. Aquecimento global ou não, dou a maior força para combatê-la. Dieta de carbono nela, gente. Respeito à natureza é bom, e eu gosto. Endosso.
Pois é. Estou mesmo macambúzia, e se você não sabe o que é isso, faço minhas as palavras do Veríssimo no Globo de hoje: melhor parar por aqui. Mas se é da turma bipolar, que sofre mas segue em frente, esclareço: quer dizer carrancuda, sorumbática, taciturna, triste. Tá no Aurélio, e não é pra menos. Tudo ia muito bem, até o Alan resolver tomar de novo a maldita pílula azul. Não suporto essa droga, e quem me lê, sabe. Personalidade alterada, libido abalada, rima adulterada. E não é viagra não, é do valium que estou falando: o inferno não é vermelho, gente. É azul, garanto. Praga da civilização, e fabricado aqui mesmo. No laboratório.
Só me resta declarar o Natal, esperando que a luz dê jeito. Adia tudo pra depois que a hora é essa, vou pra Parati e tchau procês. Lá sou amiga... da paz. Deixo os problemas todos para trás. Ou pra 2007, antes que eu desista de vez.

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Apesar de vocês

"Apesar de você, amanhã há de ser, outro dia..."


Não sei se um dia o computador vai deletar a humanidade, como escreve Arnaldo Jabor em sua crônica de hoje. Mas que vai mudar o mundo, isso vai. Já mudou. E isso não inclui bobagens milionárias como o Second Life não, mas uma revolução profunda nos usos e costumes, na cultura, na memória. Como uma tsunami, não destruindo, mas simplificando tudo: a vida toda resumida numa tela portátil. Porque disso ninguém duvida: fadado ao desaparecimento, o PC está para o laptop como os primeiros computadores para os compactos de hoje - eletrodoméstico quase tão comum quanto a tevê.
Nem sei porque comecei a falar no assunto, quando queria mesmo era escrever sobre outra coisa. Tá vendo? É por isso que os guias, mestres e anjos não conseguem realizar os meus desejos mais caros: sou confusa. Aproveito esse espaço de desabafo pra clarear o pensamento, juntar os meus anseios todos num foco único, mais exato que laser:

QUERO SER LIDA.

Dissolvidas na luz incluo todas as sub-rotinas dessa intenção, como escrever todo dia (e cada vez melhor) e ser publicada, seja o que for, e como for.
Ouviu? Ô lá de cima?
Na minha vida vai tudo muito bem, obrigada. Tenho escrito... e publicado. Pelo menos aqui no(s*) blog(s*). E continuando o exercício futurista: apesar de vocês, editoras, o mundo literário está de mudança, e radical. Chico Buarque já previu, vocês vão se dar mal, etcetera e tal, se não pegarem o bonde do novo. E rápido. Já estou me preparando, publicando online, divulgando no google-books e onde mais couber. No último domingo minha cunhada, espantada, perguntou:
- E como é que você vai ganhar dinheiro?
Não sei, gente. Mas a solução virá. Dona Karen reafirma: na New Order ninguém precisa de dinheiro não. Como? Ainda não sei. Logo saberemos. O que sei é que, sob esse aspecto, ando moderna pra caramba. Faço tudo o que quero, trabalho alucinadamente, e não faturo nada. Quanto ao lucro divino, não duvido. Quando a gente menos espera, ele virá.

*a lista tá aumentando, pode conferir:

em português:

Noga Lubicz Sklar
464 postagens, última publicação em 28/11/2006

Eu, Xamã
77 postagens, última publicação em 28/11/2006

Culinária Clipfit
16 postagens, última publicação em 28/11/2006

Artigos
10 postagens, última publicação em 28/11/2006

em inglês:

The Moon Shaman
3 postagens, última publicação em 28/11/2006

Noga Lubicz Sklar
7 postagens, última publicação em 28/11/2006

Articles
5 postagens, última publicação em 28/11/2006

Clipfit Cooking
9 postagens, última publicação em 28/11/2006

sobre o Alan:

Alan Sklar, escultor
6 postagens, última publicação em 28/11/2006

Tzadik, cartoons by Alan Sklar
4 postagens, última publicação em 28/11/2006

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Segunda-feira, a síndrome

Tô devagar quase parando hoje, e nem sei porquê. Acordei com vontade de escrever sobre meu obsceno bom humor de domingo: com todos os problemas, falta de grana, mãe doente, livro não-publicado, crônicas não lidas... Ainda assim. Na nossa mesa os meninos desligados, a cunhada amuada, a Zila - anjo-da-guarda de mamãe - machucada... É, gente. Mamãe atacou a pobre. Tem gente que já nasce com vocação pra santo, sério. Ninguém me convence que o que fazem é por dinheiro, já que tudo tem limite, menos a tendência pra amar. Gente, bicho, paciente. E com tudo isso eu rindo à mesa, contando meus causos que ninguém mais ouve, descendo a ladeira abraçada com o Alan, feliz da vida. Deve ser o sexo. A gente nem percebe, mas o hábito do gozo mexe com o cérebro, só pode. Melhor que valium. Contamina o dia de felicidade e embaça a importância de tudo, tudo o mais. Muito bom, ou então tô mesmo é ficando boba. Cansada de guerra.
Mas devo ser das poucas, segundo o Joaquim: o prestígio da guerra só aumenta. Jornalista de segundo caderno, ele diz, é pária (e eu sonhando...), perda de tempo, escrevendo o que ninguém mais lê, todos os olhos voltados pra "cabeça" do jornal. Só drama e tragédia, conflito e escândalo é que dá prestígio, prêmio, dinheiro. Eu, hein, Joaquim? Leio notícia por obrigação, sério. Leitura dinâmica de ocasião. Mas é na crônica que me deleito, no alento cultural. Não sei quem foi que inventou, na mídia, essa divisão de classes... mas lamento. Passar o dia mamando na miséria alheia, eu hein? Tô fora. E pelo que tenho visto, um bocado de gente também. Tá todo mundo migrando pra blogosfera, e não é à toa.

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Externet

Gente, acho que devo uma explicação. Foi ontem eu recomendar o namoro online, pra hoje o Alberto Goldin na Revista do Globo - com o trocadilho infame do título aí em cima - pintar a opção como enviada por sedex pelo demônio. O assunto é controvertido. Essa semana, na HBO, está em cartaz "Erro Fatal", um filme sobre o mesmo tema, onde a protagonista encarna vários personagens pra envolver o interlocutor. A coisa chega às últimas conseqüências e a vítima, (coitado do cara!) acaba mal.
Mas quando eu falo bem, me refiro à minha experiência de encontrar o Alan. No nosso caso estávamos, os dois, em busca da verdade e, com sorte, do verdadeiro amor. Não mentimos, nem mandamos fotos falsas, nem fingimos ser quem não éramos. É claro, gente, que namorar na internet demanda alguma cautela. E agora vem cá: nos bares, nas festas e na rua, é diferente por acaso? O mundo moderno demanda cautela. Ponto. E, por falar nisso, Dr. Goldin: acho que o sr, de alma gêmea, não sabe nadinha. Alma gêmea não quer dizer clone não, doutor. Quer dizer justamente "complementar". Confere o mito de Platão, pro senhor entender.

E ainda na Revista... a Martha. Querida: já rezei por essa sua cartilha de simplificar a busca, baixar o nível de exigência, aceitar o inaceitável em nome de encontrar um amor. Sinto muito. Não dá nada certo. Já fiz isso... E até me dei bem. Num primeiro momento, claro. Porque aceitar o inaceitável significa simplesmente abrir mão do que a gente realmente quer. E aquele cara que era meio chato, meio cafona, meio ignorante, num segundo momento fica ainda mais chato, mais cafona e mais ignorante. Não tem como. Quer encontrar amor de verdade? Não abra mão de nadinha, e se não gostar de algo... fuja. Quando a coisa é boa a gente sente, é inútil contemporizar. Antes só... vocês já sabem. Alma gêmea não é alma primo-distante e pronto.
Não sei o que me deu hoje, sério. Não é junho nem nada, muito menos Valentine's, mas tô romântica pra caramba. Até dei um presente online pro Alan, quer conferir? Vai . Ou clica no link "Tzadik" aí do lado. Prometo atualizar todo dia o novo blog, pode erressessar. E pra terminar, um minutinho pro comercial: descobri como fazer esses simpaticíssimos ícones, que o explorer mostra aí na barra de endereço: Claro que não basta o software, é preciso talento e prática pra eliminar da imagem tudo que for supérfluo. Quer um pra você? Clica no link aí do lado, ou manda email.
Bom domingo!

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Raridade

"Mas tem vezes que eu grito: 'Queria um homem!'. Mais especificamente quando o carro enguiça, ou o computador, ou o DVD. E quando tenho de fazer o imposto de renda. Coisas que só homens têm capacidade de resolver."
Danuza Leão, citada em matéria de capa da Veja desta semana

Sei não, gente. Depois de avaliar o tamanho da minha sorte (será que alguém diria azar?) por ter conseguido casar depois dos 50 - Veja garante que na minha idade somos menos de 10% -, lendo a citação de Danuza é que me senti mesmo uma atração de circo: aqui em casa quem conserta tudo sou eu. Tô muito bem trabalhando no sofá vermelho do escritório quando escuto: - Nóóóga!
É o computador que congelou no outro quarto, ou a tevê a cabo que desconectou. Imposto de renda? Faço o meu, o de mamãe, e se brincar o do meu irmão também. Fora instalar novos softwares, resolver todas as questões online e trocar as lâmpadas queimadas. Homem aqui em casa só serve praquilo mesmo... nisso, são absolutamente insubstituíveis. Calma, gente. Tô falando de amor, viu? De compartilhar tudo, gozar de uma intimidade absoluta e total, um viver totalmente à vontade com o outro.
Claro que isso pra mim é novidade, vem daí outro aspecto da sorte grande. Nos meus outros dois casamentos e meio, não tinha nada disso não. A ponto de eu dizer "morar junto nunca mais", como algumas entrevistadas da revista. Independente sempre fui, acostumadíssima à solidão. Afinal, mesmo casada, nunca antes do Alan tive alguém que me entendesse, que fizesse a mais leve idéia do que se passa na minha mente. Mas quando acontece, gente, é muito bom. Cada um em sua casa, eu hein? Quero mais é ficar juntinho o maior tempo possível.
Se demorei pra acertar no amor não teve nada a ver com dinheiro, ou com sucesso profissional. Foi incompatibilidade generalizada com o gênero masculino mesmo, pura falta de paciência. Agora, verdade seja dita: em se tratando de amor não tem ilusão, e essa pesquisa toda, esse amontoado de racionalizações sobre vida a dois perde todo o sentido, porque... ou a gente encontra, ou não. E quando encontra não tem regra nem limite, sai derrubando qualquer idéia preconcebida. Nesse caso, sinceramente, estatística não está com nada. Melhor fingir que nem existe, manter a mente aberta, o coração alerta... e procurar online, gente. Não tem lugar melhor pra tiro ao alvo de cupido. Garanto.

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Cinturinha de vespa

Vai ser um tal de pau-de-virar-tripa com silicone no quadril que nem te conto. Uma beleza. Será que dessa vez vai mesmo? Pois é. Deu, não lembro onde, que nas coleções em Paris a cintura voltou ao lugar. Ou melhor, o cós foi pra cintura, de onde nunca deveria ter saído, pensa bem. Basta uma olhada de leve na anatomia do corpo pra ver onde ele cai melhor. Ninguém me tira da cabeça que essa moda deletéria de cós baixo é em parte responsável pela invasão das anoréxicas. E as demais neuróticas, abominando qualquer gordurinha. Quem já experimentou uma calça horrorosa dessas, sabe. Tem coisa mais feia que barriguinha saliente, debruçada sobre o zíper? Não há piercing que disfarce o mal-estar, sério. Nem de brilhante. Aliás, se a promessa se concretizar, colocadores de piercings... Tchauzinho. Bom proveito na aposentadoria.... Já vão tarde.
Tudo começou - com meia dúzia de gostosas, em férias na Riviera - pra aumentar o sex-appeal, mas gente, coisa discreta: dois ou três dedos abaixo da cintura, mal revelando o umbigo no saint-tropez. Equilibrado pela bainha curta, uma graça. Brigitte Bardot era a musa. De lá pra cá a coisa piorou: acabou no extremo oposto porque, fala sério, não tem corta-barato pior na cama que barriga encolhida pra não dar bandeira. Liqüida qualquer orgasmo, vai ver foi por isso que passei tantos anos sem, pra conseguir com quem? Com o gostoso do meu marido, e sua gostosíssima barriguinha. Quem não tem não sabe o que está perdendo. Agora, convenhamos: na cama é bom, mas na calça baixa... é triste. E dá-lhe de lipo e vômito, arghh. Nem nas teens mais lindinhas fica bem. É um desespero só, um sucesso que não dá pra entender.
Biotipo de brasileira foi sempre violão, ondulante e cadeiruda, a cintura fina... Tanajurinha. Quando eu era jovem tinha uma amiga assim: por onde passava, derrubava. Me roubou vários namorados com seu molejo cor de jambo. Quadril largo, gente, sempre valeu ouro. Desde a pré-história, era sinal de mulher que dá no couro. E no bom parto. Mas hoje em dia, tudo isso acabou negado, pasteurizado pelo perfil reto, ossificado. Eu prefiro as curvas da estrada de Santos, sério. E homem que é homem, também. É ou não é? Vocês aí? Turma da testosterona?
Fiquei tão empolgada com a novidade que quase fui pra rua comprar roupa nova, coisa que não faço há um tempão. Cansei de pagar mico, vestir 40 e não sei quanto, pra conseguir uma elegância, no máximo, razoável. Pensando bem, hum. Não tô mesmo acreditando. Melhor esperar vitrine pra ver se a coisa rola. Ou cola.

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Minha vida de ficção



Eu sou mesmo muito louca, gente. Um editor certa vez me disse que a ficção é bem mais interessante que a realidade, mas no meu caso... é o ruminar mental insano e constante que condena a pobre da realidade a uma mediocridade pálida, beirando o insignificante. Nos muitos livros que li, não há personagem que se compare ao delírio rotineiro que o meu cérebro abriga. Quem diz que relato autobiográfico exclui a ficção não sabe o que diz, sério. E realidade é o quê? Além de um amontoado de entidades vibrando - incapazes de decidir se são onda ou partícula - onde o que predomina na verdade é o vazio? De duas uma: ou minha imaginação é fraquinha demais pra literatura, ou cai de boca na imagem, mais distorcida que uma cabeça de Picasso, que reflete meu jeito de encarar a vida. Em ambos os casos, pra ficção não sobra nadinha. E tome de fantasia pra prover de algum sentido essa paixão poética e exagerada: parece até vício.

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O especialista em Bach

A obrigação de ser intelectual, pra mim, foi sempre um peso. Lá em casa, todo mundo lia tudo. Eu também. Ah. Ia a todos os concertos, peças, balés, exposições. Reconhecia qualquer compositor clássico depois de dois minutinhos de melodia: Mozart. Hum. Bach. Schöenberg. Mais uma lista enorme de nomes: coreógrafos, diretores de ópera, filmes-cabeça. Curiosamente, Bach era considerado "hermético", só para iniciados. Existia um desses lá em Beagá. Reunia uma meia dúzia de aficcionados, num silêncio de igreja, para adorar fugas, tocatas, e nos feriadões, as Paixões, seis horas de música sem parar pra respirar. Ou pro cafezinho. Na vida "civil" era um babaca, tinha umas manias desprezíveis, mas ficou pra história como o "especialista em Bach".
Bons tempos. A gente ia a Paris pra ver um filme, a Nova York pra ver uma peça, a São Paulo só para um concerto. Não perdia uma. O setor "memória cultural" da minha cabeça era quase um google, gente. Eu citava todas. Dos dez aos 20 li todos os livros obrigatórios e mais os lançamentos. Não me lembro de uma pronunciada cultura de best-sellers. Papai escolhia e orgulhosamente, antes de começar a ler, tascava a prova da posse: Lubicz.
Depois não sei o que me aconteceu. Deu canseira. Papai morreu de repente. Me mudei pro Rio. Fiquei amiga de uns dois ou três artistas. Abri um bar de vanguarda. Uma insatisfação completa invadiu a minha vida e passei anos e anos lendo livros esotéricos, ou no máximo, científicos. E depois nada. Tevê. Roquenrol.
Mais ou menos por essa época comecei a me corresponder com o Gerald Thomas. Ah. É. Acho que o gosto pelo teatro de vanguarda - quanto mais hermético, melhor - era inato, e não adquirido. Pemaneceu, incluíndo no altar cerebral a Pina Bausch. No primeiro email o Gerald se declarava surpreendido pela minha inteligência e nível cultural, fiquei toda boba. Mas pensei: ih, gente. Isso não vai muito longe não. Já já ele vai descobrir que sou uma fraude, nunca li Nietzsche, ou Hegel. E muito menos... gulp. Beckett. Lamentei não ter conhecido o Gerald durante a adolescência. Naquela época sim, eu vivia up-to-date. Sabia tudo que se podia saber na minha idade. Mas ultimamente... Tsk tsk. E ainda por cima tendo que suportar a família fazendo pouco de mim, porque tinha virado "bruxa". Vivia às voltas com xamãs, pêndulos, terapias alternativas. Coisa ridícula, de gente fraca, que precisa de uma bengala pra seguir vivendo. Hã-hã.
Na minha cabeça eu estava mesmo era expandido, me deslumbrando com as coincidências, encontrando explicações mágicas para tudo e tentando me livrar da condenação de ter que acompanhar mamãe a todos os concertos no Municipal. Não é que eu não gostasse de música. Gostava. Não gostava era de aparecer em público com mãe a tiracolo, sem um homem pra chamar de meu. Aos 30, 40 e poucos, era humilhante demais, estragava qualquer Menuhin. Verdade. Eu era muito boba.
Depois conheci o Alan, escrevemos adoidado, trepamos (na tela e depois ao vivo), ficamos. Pela primeira vez na vida, gozei. É, gente. Já era velha, mas nunquinha... Podem acreditar. Resolvi virar escritora e tô aqui, ó, incomodando vocês com a minha produção desenfreada. O problema é que eu tento participar da comunidade literária, mas não consigo. Como desisti de bancar a intelectual - definitivamente, não tenho saúde praquelas citações todas - fico vagando numa terra de ninguém entre Paulo Coelho e Phillip Roth. (tem pior, tem pior. outro dia uma escritora publicada, e judia! me confessou não ter a menor idéia de quem era Phillip Roth).
Tudo isso agora, gente, por quê? Bom. Primeiro o Sérgio Rodrigues botou pra fritar na panela dele o trecho de um blog inglês, contando o caso de uma aluna de literatura que nomeou, como seu livro preferido, o "Alquimista" de Paulo Coelho. O pessoal caiu de pau, lógico. A intenção era essa. Paulo Coelho é a pedra no sapato dessa gente. Rico. Famoso. Internacional. E péssimo escritor, vai entender. Por outro lado, uma unanimidade nacional da turma intelectualmente superior acaba de faturar mais um prêmio: Milton Hatoum levou o Portugal Telecom, e esse pode? Como já expliquei com todas as letras que não sou intelectual, posso confessar sem medo de passar por burra: esse romance premiadíssimo é das piores coisas que já li. Voltando a Paulo Coelho, como é que é? Se eu gosto? Hum. Bem. Tem duas ou três coisas que eu li dele. Mas se o português eu acho mesmo chinfrim, pelo menos uma vantagem o cara tem: escreve de coração. Ou escrevia, né? Mais ou menos até Brida, antes de virar fórmula.
Agora vem cá: Bach é mesmo hermético? Não acho não, gente. Quando quero música, é muitas vezes o que eu escuto. Se minha cabeça der nó, sou capaz de me enroscar com fones no sofá e mandar o São Mateus todinho de uma vez. Mas isso é raro. Enquanto isso, que ninguém nos ouça, e esperando que papai não se remexa no túmulo lá em BH: tem muito Tchaikovsky que eu adoro. Ah, sim. Pra você que já sacou, mesmo sem entender muito do assunto, esse aí no meu tempo de garota era o Paulo Coelho da música clássica. Música de elevador, uma vergonha confessar que na intimidade eu curto. Coisa linda aquele concerto pra violino e orquestra, gente. É meu secreto Alquimista, mas por favor, não espalhem.

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Viver é uma arte (mal remunerada)

Verdade que ninguém ainda colou em mim o rótulo oficial de "escritora", apesar de eu ter publicado um livro em 2000 (1500 cópias vendidas, 1500 cópias!). Mesmo assim não pude deixar de me imiscuir na classe ao ler a crônica de hoje do Sérgio Rodrigues em NoMínimo, sobre a tendência cada vez mais insistente de escritores que decidem tratar como seu "subject matter" a própria vida.
Decidem? Foi o que eu disse? Bem, no meu caso não decidi nada, mas sinto com certeza esse impulso irresistível de entupir as telas dos prováveis leitores com minha ladainha auto-referente. Difícil saber se alguma vida anônima, no caso a minha, interessa a alguém. No caso de eu ter o que dizer... Hum. Vamos esperar que sim. Outro dia uma amiga me escreveu que a vida dela daria um livro, mas como não era escritora, não tinha como escrevê-lo. Bem. Daí entende-se que para ser escritor, além de ter uma vida como todo mundo, é preciso saber extrair dela algo que valha a pena para quem lê. Se é meu caso não sei. Mas o blog é uma ferramenta ótima pra testar isso: vai se jogando lá os ingredientes do jeito que aparecem sem cuidado nenhum com a receita final... e se der bolo, ótimo. Espero que o meu, além de comestível, seja gostoso e alimente. Do tamanho que está ficando, sério: daria pelo menos pra acabar com a fome na África. Enquanto não rola, vou satisfazendo a minha fominha de exposição e torcendo pra agradar o apetite cerebral de alguém. Já são 8 blogs na lista, é coisa que não acaba mais.
Outro problema que esse tipo de escritor enfrenta é a obrigação de viver uma vida sempre interessante, instigante, à altura do que todo mundo julga "hype". Aí é que a minha porquinha andou torcendo o rabo demais ultimamente. Apesar do meu segundo livro ser pura literatura, tipo prosa poética contemporânea inédita (confessional, é claro. recheado de sexo mas, para decepção da midia, sem um pingo de violência) o meu primeiro é um amontoado de baboseiras esotéricas das quais, por muito tempo, me envergonhei. Mas a vida era desse jeito, caramba. Tudo que conto lá aconteceu mesmo, e teve seus momentos de suspense e extrema emoção. Trabalhando no texto ontem, enquanto o transformo num interessante produto online do tipo "use como, quando e com quem quiser sem pagar nada a mais por isso" percebi o valor que aquilo tudo tem, embora pra mim, hoje em dia, soe como um passado distante, coisa de adolescente. Taí. Adolescentes de todas as idades, leiam o meu livro! Não engorda e o conteúdo ainda por cima faz crescer. Foi passando por lá que me tornei essa amante que sou hoje, essa mulher madura que goza, sim senhor, e consegue dominar com maestria e ritmo a poesia da paixão. Uau, Noga. Um pouco de modéstia cairia bem neste parágrafo, né não?
Bom. Assim esbarramos no terceiro, mas não menos crucial, problema do escritor autobiográfico, este pra mim, sinceramente, quase intransponível, embora no blog eu ensaie um bocado: a gente precisa se transformar num produto de marketing, se convencendo - e o que é pior, tentando convencer todos os demais - de que o que a gente faz tem o maior valor. Pode pegar que você vai curtir. Não perca tempo, aproveite que por enquanto é de graça.

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Não é mole não

"Banished forever was the idea that the brain alone was the seat of consciousness. Rather, it is an 'antenna' embedded in a hyperdimensional matrix. The depths of reality are only now being uncovered, but now the springs of imagination, intuition, abstraction and even pre-cognition are revealed... simply a clue to a superbly structured universe where mind is an integral component. Far in advance of the emergence of human consciousness, innumerable galactic civilisations had slipped into what we now call the Mortimer Manifold."

Mais uma patética teoria espiritualista? Não, gente. Trata-se de uma previsão de Simon Conway Morris, professor de paleobiologia evolucionária da Universidade de Cambridge, para daqui a 50 anos, a convite da New Scientist. Pode ir online que lá tem mais. E ele não está sozinho não. Na edição comemorativa dos 50 anos da revista, outro gênio convidado, Nick Bostrom, publica a hipótese - para ele, com boas chances de verificação - de que vivemos numa simulação de computador, (Second Life? O quêê?) criada por nossos avançados descendentes para estudar nosso comportamento atrasado e portanto, sem a menor chance de livre-arbítrio. Grande parte dos artigos, depoimentos e previsões - mais uma vez lembrando, tratam-se de cabeças pensantes 100% aceitas e subvencionadas pela ciência acadêmica - faria corar, pelo absurdo aparente das proposições, o mais ousado dos "trabalhadores da luz".
Pra mim, essa discussão cai bem. Tenho consumido toneladas de energia para me desembaraçar do meu próprio paradigma confuso sobre a realidade. Eu já vinha muito bem sendo racional, cética, uma crítica ácida apontando o ridículo das campanhas esotéricas da Nova Era. Com um pé, verdade, na lama: lendo uma vez por semana sobre sintomas de ascensão e deixando a presença do Alan aqui em casa me convencer de que sim, esse papo enganador de alma-gêmea faz algum sentido. Faz tempo que rotulei minhas pretensões parapsicológicas como "delírios de adolescente", doando todos os baralhos, amuletos, pêndulos, i-chings, runas e que tais para uma amiguinha na idade adequada. Mas agora, revisando o texto do meu primeiro livro e para alegria de todos - especialmente minha - trabalhando na transformação dele num jogo interativo online como ele quis ser desde criancinha... não sei se digo: "humm, interessante..." ou "caramba, que babaquice!".
Pois é. Uma coisa parece que vai ficando cada vez mais clara: nossa visão de realidade é limitada demais, muito chinfrim, megalômana e iludida, inadequadamente antropocentrada. Ou, ao contrário, menospreza nossas insuspeitadas humanas potencialidades, nossa vinculação instigante e óbvia a um todo maior, fonte de sabedoria e habilidades cognitivas excitantes. A conferir, e sinceramente, espero que seja no máximo em cinquenta anos, pra que eu possa curtir um pouco o resultado. Ou quem sabe até lá... centenários serão lugar-comum, né? Com metade da vida pela frente e órgãos vitais substituídos ou recauchutados.


Minha vida anda dificil, gente. Tenho que ler, refletir e tirar uma meia dúzia de conclusões sobre as últimas descobertas da ciência e os últimos relatórios disponibilizados pelos "canalizadores da Nova Realidade". Tenho que me acostumar aos novos softwares e possibilidades do meu computador. Tenho que terminar logo meu projeto "Eu, xamã" e botar a coisa toda online em duas línguas. Ufa. E ainda querem (vozes interiores subversivas, propagando culpa financeira) que eu arranje um emprego pra me sustentar. Não é pra menos que faz três noites que não durmo. Já sonhei com um ar-condicionado inteligente que variasse a temperatura de acordo com minhas ondas de calor, sério. Não está tudo ficando mesmo inteligente? Da geladeira à luz do banheiro? Às drogas maravilhosas, individualizadas de acordo com o perfil genético de cada um? Ai. Ser atualizado cansa. Ainda por cima tenho que ler as críticas literárias e passar um tempo enorme procurando adivinhar se o que escrevo é bom ou não passa de "pretensão narcisista auto-indulgente", que nem o autopromocional diário punk-humanista da Courtney Love. Ser moderno, definitivamente, não está mole não.

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Padrões

Da série: uma boa imagem vale muito mais que qualquer palavrabody-builder anoréxicaxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Marilyn na praia

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Goiabada com queijo

Ninguém discorda que os versos românticos de Shakespeare em Romeu e Julieta estão entre os mais belos da literatura. Mas ontem à noite, revendo "Shakespeare Apaixonado" na tevê, me peguei pensando: que história mais estúpida! Só mesmo o equilíbrio da maturidade pra acabar de vez com esse tipo de ilusão romântica extremista, que sempre acaba mal.
Não vou negar que já curti demais as múltiplas versões dessa trama, de filme moderno a balé, passando por uma meia dúzia de paixões na vida real. Mas acho hoje em dia que esse negócio de morrer de amor é imaturo, precipitado, irrefletido demais. O próprio texto mostra isso e Julieta, ao acordar e descobrir a situação irreversível em que se encontrava, deve ter crescido de uma hora pra outra e pensado, Deus! Como fui idiota ouvindo aquele padre! Deveria ter mandado a família à merda e saído de casa pra viver em paz com meu namoradinho!
Será que Shakespeare, anos depois, com a moderação discreta que acompanha a idade, olhou pra trás e rejeitou a mais popular de suas obras? Resistiu ao impulso de reescrever tudinho, dar um fim mais esperançoso, edificante?
Esse post já ia caminhando numa certa direção, mas lendo o jornal resolvi mudar. Vai ver foi a pobre Julieta, com sua total ignorância sobre os riscos de manipular o corpo e sua falta de limites para atingir um fim, que inaugurou essa prática macabra de explorar a energia da juventude como se não houvesse futuro. É isso, gente. A ameaça do futuro, e nesse caso, a supervalorização da aparência. Vendo a foto da mãe na primeira página dá pra entender a aflição anoréxica da Ana Carolina, não é? Acabou mal: em morte, em Julieta sem Romeu, apaixonada pela própria imagem.
Vocês devem estar achando que desta vez, fala sério, fui longe demais. Meu comentário foi cruel, e misturei assuntos que aparentemente não combinam, a doce ilusão da goiabada com o sal realista do queijo de Minas. Influenciada, quem sabe, pela revisão traumática do meu primeiro livro, que junta sem pudor nenhum temas díspares como busca da alma gêmea, medo da mãe, espiritualidade mística e distorção da própria imagem pra resultar num bolo ritual que me ajudou a crescer. Mas gente, todo mundo sabe, goiabada com queijo - sobremesa mineira popularmente conhecida como Romeu e Julieta - dá o maior pé. Ninguém pergunta se combina ou não e quando come, prova que é a maior delícia. No prato da vida tem lugar pra tudo e todos. E não, Shakespeare não tem nada a ver com isso, mas o Ministério da Saúde adverte: privar-se radicalmente de um prazer, por dinheiro ou por vaidade, influenciado pela moda ou pela opinião alheia, estraga a alegria de qualquer um. E em casos extremos pode dar em tragédia.

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Minha república

Segunda-feira, 15 de novembro

Bom dia! Apesar do feriado, acordei cedo. Antes de sair pra correr ligo o computador, só pra baixar emails. Opa! Tenho mensagem do JDate*! Será que o gostosinho do Leblon me respondeu? Não custo a descobrir que pra ler a mensagem tenho que gastar 35 dólares, pagar pelo mês inteiro de uso. Hesito... Meio cética, meio seduzida pela esperança fraquinha de melhorar o futuro... Gasto ou não esta fortuna? Decido arriscar, digito os dados do cartão e... estou dentro! A ilusão, porém, dura menos de 5 minutos: o email é de outro cara, um americano... Achando graça no meu perfil insignificante, só pode ser maluco! Além do mais, fui clara: NÃO QUERO ME MUDAR. Será que ele não sabe ler? Em todo caso, já que estou aqui, não custa dar uma olhada no tal de Isaac. Hummm. Nome judeu pra caramba, o olhar na foto é estranho, meio de banda. Mas de imbecil ele não tem nada:

Muito, très inteligente... Formado, literatura inglesa. Mestrado no deserto do Neguev... Morei em Paris, Amsterdam... Joalheria em Waikiki durante 10 anos... O pacífico sul, visão beatífica, quintessencial, natureza em sua máxima beleza. Fui comerciante, atacadista de pedras preciosas... Em 85 fui ao Taiti comprar pérolas negras, negociei pedras em Bangkok... Comprei 30 alqueires no meio do mato - o lago de Walden e seu mito romântico - meia milha de estrada de terra, floresta, riacho, lagoa, etc... Vendi... Invernos de Indiana, a morte da alma (ou de como a realidade e o mito raramente coincidem)... Dois filhos lindos... Sou naturalista, um filósofo romântico. Fiz teatro de improvisação em São Francisco no verão de 68, vivi no alto de Telegraph Hill... Violão clássico, ex-mímico... Falo francês, hebraico, sou mestre em inglês, dei aulas por alguns minutos... Poeta, artista, sutilmente irônico... Mench... Bom pai... Um esteta... Vivo de forma consciente, determinado. Vivi a vida do jeito que quis, fiz quarenta antes de ter meus filhos... Que conferem à minha existência um significado profundo... Um norte, o centro da alegria interior. As mulheres de minha vida foram pintoras, artistas, inteligentes, criativas, brilhantes. Ennui... O tédio chegando... Tempo de levantar âncora, cruzar o horizonte.

Huummm, interessante. Vou em frente.

Par perfeito: inteligente, irônica, poeta, artista, forte, viajada, equilibrada, em forma, espiritualmente desenvolvida... consciente do judaísmo.
Relacionamento ideal: um toque de graça, inteligência, baseado em força e não em carência... autônoma, que não dependa do outro... hierosgamos, tão verdadeiro... o transcendental, a beleza possível entre um homem e uma mulher. equilíbrio, equivalência, mútuos centros de gravidade... no centro da consciência... o tantra... a manifestação da graça, luz compartilhada... sem sombras... abertura total... sem medo.

Gente! Sou eu! Resolvo abrir a janela do chat e... Coincidência: o estranho está online.

- Oi. O nome é Alan. Meu email é aisaac. Hotmail.com.

Dou o email também: meu nome é Noga. Não falo quase nada, mesmo assim ele se anima:

Noga: existir em estado transcedental... (transcender o mundano, o urbano... as coisas feitas pelo homem) O Eu em relação ao orgânico, ao que está vivo, o universo e por conseqüência o universal... Deus... Viver em estado de êxtase... O beatífico... O idílico... Que criação do homem chega aos pés da maravilha de um riacho? De uma salamandra? De um recém-nascido, que graça... Na vida, na natureza. Estar no Haleakala (casa do sol), o ponto mais alto da terra em relação ao fundo do mar... O que a gente pode fazer de importante? Já está tudo feito. Viver aberto para o amor... Em harmonia na eternidade... Limpar a cabeça da idiotice do ter, do consumir... Vislumbrar o aqui, o agora, a beleza extasiante do todo... São estes alguns dos elementos que caracterizam o naturalista filosófico... O romântico idealista... O poeta/ artista. A primeira universidade que freqüentei foi a UCLA... Fiz o curso básico de medicina e aos 17 trabalhei no laboratório de neurofisiologia dissecando invertebrados, achei tudo tão sem sentido... Era a poesia, a filosofia, a literatura que despertavam meu interesse. Me formei em literatura... Um existencialista: somos o que fazemos... E depois Paris... Amsterdam... Jerusalém... A vida para se viver, o amor... Conhecer o amor para conhecer Deus...

Embarco na conversa dele. Penso muito em Deus. No amor... Em energia. Deus pra mim é isso, Alan, um mar de energia com a consciência humana mergulhada nele. Melhor: Deus é a consciência, nossas mentes conscientes fundidas numa só emitindo energia. Quanto ao amor... É a energia mais forte de todas, o prazer magnético, o sentido da vida consciente. Deve ter sido por isso que a gente se achou no meio desta vasta rede humana... Me pergunto também sobre a realidade... Bem, mas isso é outra história. Como você, gosto de refletir, de explorar, de descobrir... Trocar idéias só pra curtir.

A questão da realidade é auto-evidente. Você sabe o que é quando a experimenta... É estar no centro do universo... No eterno momento do óbvio... Do que se manifesta. É estar na presença de Deus... A inteligência por trás da mera aparência... E mais extraordinário é quando o despertar conjuga o princípio feminino: o Eu testemunhando o Eu. O caminho da meditação, o Satori... Muito estranho chegar ao centro do universo sem estar preparado... 1996... Chegando de Paris, numa galeria de arte em Los Angeles às 3 da manhã... Nada pra descobrir... Tudo tão óbvio... A dúvida nos isola, separados do todo vivemos no sonho. Como cientista, passei os 7 anos seguintes tentando entender a experiência, do ponto de vista lógico, acadêmico... E me encontrei no deserto do Neguev, numa meia-noite qualquer de dezembro, sob um vento de 130 quilômetros... Fui entrando no redemoinho até ser cercado de temporal por todos os lados. Molhado, derrubado, gritei: heinani! - Estou aqui. O que queres de mim? Tentei ouvir... E no silêncio da tempestade não escutei nada... Fiquei agradecido, porque toda esta metafísica me cansou demais, algo que não pode ser compreendido pela mente, só pelo coração... Há que entregar-se a mente, o intelecto... Um ato de fé: entregar o eu para receber de volta o Eu... Assim como o amor, outro ato de fé. É se rendendo ao eu que atingimos o Eu maior.

extraído de Hierosgamos: um romance quântico de Noga Lubicz Sklar


*pra quem quiser se inspirar... embarcar na energia mágica do dia

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Nada é para sempre

Pra quem sentiu a minha falta ontem aqui no blog já vou logo avisando: tô ocupada, preparando um novo e-book. Mas hoje apareceu assunto e dou uma palinha rápida, nem que seja pra mandar meu recado das terças pro Arnaldo Jabor:
- Nada é para sempre, amigo. E se tem alguma coisa que já passou da hora de acabar é esse seu pessimismo todo.
Tá certo que enquanto a gente já ia se conformando, e até achando que Lula tinha tomado jeito, o cara botou de fora as manguinhas autoritárias no palanque de Chávez. Gente, o que foi aquilo? Lula fazendo a maior questão de marcar território no eixo sub-desenvolvido do mal? Fala sério, presidente!
Mas como não há nada que a gente possa fazer de imediato, melhor mesmo é apontar as baterias pro futuro. Pena que o Jabor já deu um jeito de nos convencer que a vitória democrata nos Estados Unidos - onde ele acha que os estragos dos últimos anos jamais serão desfeitos - não foi grande coisa. Quem passou por uma guerra mundial, por massacres, por miséria e destruição sabe que isso não é verdade. A Europa está aí mesmo, Alemanha incluída, pra contrariar as evidências. O tempo conserta tudo e para os mais atentos, ouvi dizer que Barack Obama estará hoje à noite na Oprah. A Lusitana roda. Vale conferir.
Cá do meu lado, dando força à ladainha da esperança, terminei ontem um relacionamento fracassado de 7 anos. Foi fácil. Calma, gente. Não estou falando do Alan, que como todo mundo sabe conheci há exatos dois anos, foi, no 15 de novembro em 2004. Falar nisso, ultrapassamos amanhã a barreira da paixão cravada pela ciência e o nosso fogo continua. Só pra chatear. O que rompi foi o contrato com a minha editora, a Madras, gigante do mercado esotérico onde me deixei rotular. Divórcio sacramentado, corri ao texto pra revisar. Gente! Que constrangimento! Fiquei morrendo de vergonha por ter escrito certos trechos e fui logo metendo o corte, com um certo cuidado para não impor ao original minha atual persona meio cética. Afinal, o tempo decorrido demanda um certo respeito com a fidelidade histórica, e o livro tem seus pontos de interesse... Sem falsa modéstia, muita coisa legal, apesar do português, em certos momentos, capenga. Mesmo assim foi publicado, o que vem a provar que os critérios editoriais deixam muito a desejar.
Apesar de ter vendido mais de 1500 livros - o que há pouco descobri, em termos de mercado brasileiro... é bastante bom - esse casamento também deixou a desejar. O nome - Fases da Lua - inventado por eles, acho ruim. Nivela o assunto bem por baixo. A capa, com minha bagagem de designer, sempre achei cafona. Mas tal qual noiva meio madura ansiosa por perder a virgindade, eu disse amém a tudo... Não é que me arrependa, mas nada é para sempre, né? Pois é. Daqui a pouco vou botar a cara (renovada) a tapa aí do lado pra vocês julgarem, uma edição totalmente revista e melhorada, vestida de e-book grátis, como eu já disse lá em cima, enquanto não encontra marido novo. E na busca frenética de leitores, quem sabe adoto a nova moda da Organização: pago um real pra quem quiser baixar e claro, ler até o fim.

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Papo nerd




Lendo as páginas amarelas de Veja essa manhã não consegui chegar à conclusão se é sonho ou pesadelo o futurismo de Ray Kurzweil. Devido ao meu interesse antigo por longevidade eu já tinha descoberto as idéias dele faz tempo, associadas ao conceito de trans-humanismo: a evolução da raça humana pela fusão com a tecnologia. Pra ser sincera, perdi o interesse pelo assunto quando Natasha Vita-More (atenção ao pseudônimo sutilmente significativo), uma das porta-vozes do movimento, apesar de seus projetos e cuidados revolucionários com a saúde sucumbiu (manifestou? contraiu?) ao cancer. Não, gente, ela não morreu e num google rápido deu pra ver que continua com a aparência jovem. Vai ver já é um clone de si mesma, afinal de contas é por aí que funciona o cérebro desse pessoal. Pra chegar à Veja, Kurzweil torna seu pensamento mais aceitável pelo mainstream, sem abrir mão de seus conceitos mais caros: nanotecnologia e inteligência artificial. E tome de pílulas e porre de suplementos pra se manter em forma, será que o jeito é esse mesmo?
O que achei coincidência foi na entrevista ele ressaltar dois temas que tratei recentemente aqui no blog: a tendência do cérebro humano a buscar padrões (olha a prova aí) e a possibilidade de regeneração do corpo de dentro para fora. Kurzweil confia nas máquinas, nos mini(nano)-robôs circulando pelo sangue para ligar ou desligar circuitos. Aflitivo, arghh. Acho a idéia das células-tronco muito mais simpática, orgânica, e... viável. Vejo o ser humano cada vez mais consciente de seus mecanismos internos, cada vez mais apto a manipulá-los... sem no entanto tornar-se meio máquina como quer Kurzweil. O homem não quer tornar-se máquina. Quer tornar-se deus. Ser senhor do mistério, não do mecanismo. Afinal de contas, o que distingue humano de máquina é algo de que Kurzweil não fala: a emoção. Eta coisa complicada, difícil de replicar.
Tô achando esse post meio confuso. Deixa eu ver se esclareço os motivos pelos quais esse exercício científico de ficção futurista me atrai. É que vejo a coisa se aproximar cada vez mais de conceitos espiritualistas. A capacidade de migrar, como quer Kurzweil, do mundo real ao virtual parece a materialização tecnológica de viagens astrais. A prática mental de encontrar padrões, atribuindo uma sequência lógica ao passado e dessa mesma forma especulando o futuro, desvenda o mistério aparente da sincronicidade. E a internet, como versão já universalmente aceita da extensão tecnológica dos sentidos, dá forma e funcionalidade ao conceito da mente ampla unindo numa só as mentes humanas. O google, gente, parece nascido diretamente dos arquivos akáshicos.
Pra quem não entendeu nada do que escrevi nesse post, sugiro que comece a fazer uso das capacidades futuristas de que já dispomos. Tá tudo na internet, estiquem suas mentes lá que eu cá tô com preguiça de entupir o post de links. E agora me digam: como é que a gente vivia antes do google, do celular, do notebook? Da banda larga? Extrapolando um pouco e fazendo uso da nossa habilidade pouco explorada de enxergar longe, dá até pra imaginar o futuro de Kurzweil sem grande espanto.
E vocês pensaram que eu só ocupo meu tempo com sexo e abobrinha? Deu pra ver o tamanho do engano. Essa semana já dei meu passo evolutivo, me alonguei um bocado incorporando o Explorer 7 e o Blogger Beta e mudando meu jeito de ver as coisas, ou pelo menos, a aparência da minha personal tela. Agora licença que vou mudar de canal pra mergulhar no domingo. Felizmente por enquanto a nossa praia não tem nada de virtual, e muito menos o prazer de um chope geladinho refrescando a vida goela abaixo. Se fosse no robô saia emperrando tudo.

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Liquidificador

Como se não bastasse a tendência dominante no cinema, o gosto pela violência explícita invade agora a literatura brasileira. Crítico mordaz da sociedade contemporânea que, segundo ele, nos condena à escravidão de um emprego e à moradia em caixas de concreto longe da nossa selvagem natureza, o Alan filosofa em cima, me explicando na mesa do almoço o efeito purgatório dessa prática da qual procuro manter distância.
Tentam submeter a inteligência e a sensibilidade humanas ao triturador de emoções pra ver se resulta num suco mais palatável que a realidade (já cotidianamente violenta). Tô fora. Sou da paz e do amor, na vida, no vídeo e no papel. Dá vontade de recomendar com destaque na capa, parodiando o vídeo aí de cima:


NÃO TENTE ESSE TIPO DE COISA NA SUA VIDA REAL.
VOCÊ PODE SAIR FERIDO.

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O direito de morrer

Uma vitória dos direitos humanos, é o que eu penso. Cientistas consomem tempo e recursos tentando entender um dos rituais mais intrigantes da natureza: o suicídio coletivo das baleias. Para nós, acostumados a investir bem além do razoável para preservar uma vida que decidiu se extinguir, salvá-las do extermínio parece correto. Mas quando se trata de pacientes terminais, condenados ao prolongamento doloroso e sem esperança da doença, a liberação do direito à morte digna cai como uma benção. Ou não? É da condição humana apegar-se à vida e temer sua extinção. Há quem afirme que o paciente em coma profundo mantém contato com a realidade que o cerca e valoriza a preservação da vida. Será? Situações extremas como essa permanecem quase tão misteriosas quanto o suicídio das baleias a cada verão. Não se sabe bem quando insistir ou em que ponto desistir. Nos poucos casos em que ao paciente é permitido escolher ou nos quais não resta dúvida do fim iminente, o desligamento dos aparelhos e a licença para uma "boa morte" aprovada pelo Conselho Nacional de Medicina é uma boa notícia. Para o paciente e para sua família.

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Foi de graça







"Na Praça Clóvis, minha carteira foi batida
tinha vinte e cinco cruzeiros, e o teu retrato
vinte e cinco eu francamente achei barato
pra me tirar do meu atraso de vida"

Chico Buarque em "Praça Clóvis"


Longe de mim ser a favor de violência urbana, mas Andréia Elisandra (Globo de hoje pág 23) deveria agradecer ao ladrão, sério. Vai ver o meliante foi a materialização do desejo inconsciente dela de melhorar o visual. Faltava coragem, gente. Mas acabou dando certo, não foi? Ela ficou tão mais bonita, mais moderna com o novo corte chanel! Deixou a baranga para trás e espero que nunca mais a recupere. Tem momento em que só a providência divina pra nos tirar do marasmo acachapante, do atraso, da acomodação. Mas polícia, aqui, ó: pega o ladrão, (de cabelo e de galinha também) mas não mata não. Pena de morte é pra depois do julgamento, e no Brasil nem tem.

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Até tu, Momo?

Mais uma estocada do lobby bariátrico. Até o rei Momo entrou na faca pra emagrecer. Onde é que vamos parar? Só falta agora o Papai Noel. Será que sem poder nunca mais comer e passando para sempre mal ele continua com energia suficiente pra reinar no carnaval? Vamos combinar: quem é gordo, geralmente, não só gosta de comer como come e não se envergonha. E daí? Rei Momo sempre foi gordo - aliás, ser gordo era condição sine qua non pra imagem dele de alegria - e nem por isso havia epidemia de obesidade. O equilíbrio da diversidade se mantinha. Acho que estão batendo na tecla errada, gente. É tudo uma conspiração por dinheiro, vejam só que rotina perversa a nossa: como a gente precisa cada vez mais de mais dinheiro, sai pra trabalhar o dia inteiro quando não pega jornada dupla. Como consequência, não tem mais tempo de cozinhar e muito menos de curtir uma boa refeição... e a família que se vire. A indústria, muito esperta, põe à disposição uma quantidade convincente de comida pronta "tradicional, saudável e saborosa", ocultando em suas moléculas traiçoeiras conservantes de todo tipo e cor e um vício de açúcar em potencial . A gente engole e nem sabe o quê, engorda sem saber como pra acordar na mesa de operação e recuperar a forma gastando o suado dinheirinho que engorda a nossa culpa e fome de aceitação. Ufa.
Precisamos rapidamente parar com esse círculo vicioso. Moderação é uma boa, simplicidade à mesa: comida fresca e cardápio variado, nada de aditivos, e um mínimo de movimento pra não deixar o corpo enferrujar. E pra subsidiar os casos perdidos, as raríssimas intervenções bariátricas que se justificam, e matar pela raiz a indústria da obesidade, proponho uma política fiscal diferenciada: isenção total de imposto pra produtos da natureza e uma carga extra de 1% do valor do alimento para cada item de aditivo estranho no rótulo. Vai ficar todo mundo em forma num instante. Produtos da natureza, eu disse, e não aqueles que se intitulam "produto natural". E antes que eu me esqueça, boicote ao diet e light com sua falsa liberalidade de consumo. Não há corpo que agüente essa conspiração química, sério.

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O portal vem aí

Não é que eu tenha assim, gente, um assunto. Já escrevi hoje e estou tendo um dia cheio: compras no Zona Sul, visitar mamãe e compartilhar o mutismo e a rigidez dela por umas duas horinhas, explorar o novo explorer (iih, essa soou bem mal). Mas não deu pra resistir; é muita novidade junta, deve ser a proximidade do grande portal 11:11, (ih, gente, errei de fonte, é muita escolha. Eu quis dizer PORTAL 11:11) data prevista para um novo salto conjunto agora que a humanidade atingiu a massa crítica ( o que será afinal que isso significa?). O fato é que migrei para a versão beta do blogger!!! Tinha que experimentar logo! Ficou massa, muito mais recursos, deu pra ver daí? Espero que não me venham com bugs, mas que ficou melhor, ficou. Agora, se você quiser saber mais sobre o tal portal, pergunta pra Karen, ela é que é especialista nisso. Quanto a mim, só tô esperando pra migrar também, no dia 11, pra uma realidade bem mais excitante e relaxante que essazinha daqui. Vejo vocês do lado de lá, falou? Tomara que até lá eu tenha dominado os novos recursos de linguagem pra não ter que publicar essa bagunça. Esqueci de contar que a publicação agora é instantânea, outra característica da nova realidade pós-ascensão: pensou, ganhou. Sacou? O Blogger sim.

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A vida preto no branco

Outro dia a gente discutiu longevidade aqui no blog, e a impressão de alguns de que a vida só tem graça perante a perspectiva da morte. Pois perguntei à minha tia octogenária, que completou mais 365 dias na maratona da sobrevivência, o que achava disso. Ela abominou a idéia, claro. Principalmente por estar chegando lá, se pudesse, escolheria adiar o encontro com a maldita para nunca mais. E nesse caso poderia, daqui a alguns anos, injetar alguns milhares de células novas e regenerar a visão já caidinha, coitada. Ninguém mais duvida de que o caminho da vida longa e da saúde extraordinária é pavimentado pelas pesquisas com células-tronco. Ainda bem que os democratas venceram ontem nos Estados Unidos: vem de lá, quem sabe, uma grana extra pra apressar os resultados.
Figurinha fácil dos sonhos e viagens astrais da Nova Era, a possibilidade de regeneração do corpo de dentro pra fora, como se a gente fosse lagartixa, vai deixando de ser delírio. Saiu publicada hoje essa experiência, relatando a restauração da visão em ratos cegos de nascença. Pra mim, foi a notícia do dia. Da semana. Do ano. O que achei curiosa foi a informação, na versão do Globo, de que a retina tem dois tipos de fotorreceptores: os que vêem colorido e os que vêem em preto&branco. Mais um dito popular encontra assim respaldo científico e "la vie en rose" ou "la vie en gris" deixam de ser meras figuras de linguagem. Vai ver que em períodos de depressão a retina escolhe enxergar tudo descolorido mesmo, mas durante o amor... transmite uma realidade resplandescente, ao vivo e a cores. Quem sabe daqui a algum tempo vai ser possível transplantar alegria, já pensaram nisso, hein? Hein?
Quero só ver quem vai achar graça na morte podendo viver bastante e bem do jeito que escolher. Porque no futuro da humanidade nada se perde, tudo se conserta.

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A salvação do mundo

Não sei se é a convivência com as esculturas emocionalistas do Alan ou se é velhice mesmo. Caretice. A verdade é que meus conceitos sobre arte mudaram.
Não faz muito tempo eu seria incapaz de faltar a uma Bienal de São Paulo, mas hoje, lendo a crônica do Xexéo no Globo, sinceramente, não me deu a menor vontade de gastar grana e energia com o que me pareceu um enorme vazio. Conceitual ou criativo, sei lá. Ou ambos.
Não é que essa concepção do artista como um colecionador de fatos, imagens ou coisas não possa proporcionar emoção. Ainda me lembro do impacto da exposição de Artur Bispo do Rosário no MAM, plasticamente um amontoado de trapos, colheres tortas e sapatos velhos capaz de provocar lágrimas na alma mais empedernida.



Alma. É esse o ponto. Talvez por ter sido considerado louco, e ter passado quase a vida inteira encarcerado na Colonia Juliano Moreira, Bispo tivesse acesso irrestrito e irrefletido à própria alma, com uma capacidade única de transmitir essa energia a qualquer espectador de sua obra. Uma alma sem mente, enquanto os artistas descritos por Xexéo parecem exibir, sem pudor nenhum, uma mente sem alma: uma arte planejada, com toques de marketing, perfeita para releases porém... vazia. Pode ser, quem sabe, uma falsa impressão. Afinal de contas a arte contemporânea vendeu a alma por um urinol e eu sempre achei instalações e "ready mades" o máximo.
Essa jornada artística invertida do tesão ao tédio não é novidade nenhuma. O comércio contaminou as galerias e transformou a busca pelo novo num coquetel insosso de tendências. Se o artista foi um dia um antenado, na era digital deixou de ser sagrado: deu ruído na comunicação. A video-arte acabou no YouTube e a expressão... no lugar-comum.
Mas, gente, nem tudo está perdido. Confiram essa exposição que deu o que falar em Londres, no mês passado:


"Artista exibe galeria vazia". Uma boa obra de arte vale mais que mil palavras, é ou não é? O mundo ainda tem salvação, e Bispo do Rosário, lá do céu da criação onde deve estar morando, certamente anda orando por nós.

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RSS Esperança

"The same divine Source that gave me the book is watching over it and guiding it into the right hands and hearts for the right purpose. All is indeed well."


Precisando de uma força? Dá um olhada nesse site, quem sabe você encontra um alento por lá. Embora eu ande afastada dessa turma, quando o calo aperta vou de vez em quando em busca de algum consolo. Foi o caso essa semana, quando recebi por email a programação mensal da World Puja, estação de rádio alternativa online. Passei uma hora ontem à tarde escutando a entrevista do escritor de "livros inspiracionais" e guia espiritual Alan Cohen. Me surpreendi com a linguagem direta, sem frescura, pouco comum em "gurus"... e resolvi investigá-lo mais a fundo - se é que dá pra se chegar a fundo nesse universo de chavões de auto-ajuda. Nas perguntas e respostas do site, mais surpresas. Me espantei com a quantidade de questões similares às que venho enfrentando, como essa "afirmação" aí de cima enviada a um aspirante a escritor. O estranho conceito de "folha divina de pagamento" foi no mínimo capaz de me proporcionar uns quinze minutinhos de paz. Agradeci.
Já briguei e me reconciliei com a "Fonte Divina" um bom número de vezes. Por outro lado, já estive na posição de "escritora inspiracional" e guia espiritual e sei alguma coisa sobre isso. Num mundo onde a diferença é politico-corretamente aceita, porém completamente rejeitada na prática, o papel do consolador espiritual é reforçar para o "paciente" o seu valor pessoal, valorizando todo tipo de busca da felicidade. Pelo menos pra renovar a esperança, funciona.
A idéia de que a realidade externa corresponde aos pensamentos e intenções de cada um parece, na maioria das vezes, provável. É possível que nosso cérebro conspire a favor do fracasso daquilo que a gente conscientemente já não quer, numa auto-sabotagem retroalimentada. Quanto ao efeito do pensamento positivo sobre aquilo que se deseja, hum. Nesse caso favoreço a dúvida, a falta de fé, digamos que atribuída à minha tendência bipolar. Inclinada com maior freqüência para o polo depressivo, é claro.
Em todo caso resolvi investir um pouquinho na confiança, não custa. Me inscrevi no "feed" da esperança divina e colei a afirmação aí de cima na parede do escritório. Se é que meu livro teve um toque de "inspiração divina", como em certos momentos ousei pensar, quem sabe apesar do pessimismo ele está mesmo "sendo assistido até chegar nos melhores corações e mãos, a caminho de cumprir o seu correto propósito". Ironias à parte, Alan Cohen afirma que a paixão inerente à obra de arte transparece e conquista o público, que não é atraído pela forma, mas sim pela energia que a obra emite. Acredito. E se paixão é que não falta à minha literatura... vai tudo na verdade muito bem. O resto é uma questão de tempo.
E se você achou que neste texto exagerei um bocado nas aspas, merece um esclarecimento. É que tendo sido, até há poucos anos, espiritualista convicta e xamã praticante, deixei finalmente o aspecto racional da mente assumir o comando. Mas no fundo, no fundo, ainda rezo pela mesma cartilha, apesar de, como intelectual de araque, negar qualquer resquício de crendice e pensamento mágico no meu dia-a-dia. No publicado, pelo menos.

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Clareza

Nada a ver, mas vem cá: se você baixou o Explorer 7, já reparou na clareza da tela? Quando o indicador na margem inferior direita indica "100%" a gente enxerga tudo bem melhor que antes. Quer dizer que por mais que a gente acreditasse já ter o máximo, só agora vemos a realidade da imagem como ela é. Hum. Faz a gente pensar e fazer metáfora.

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Radar

De vez em sempre depois de publicar um post fico com a impressão de ter falado besteira. Ih. Será que fui inteligente? Moderna? Esclarecida? Ou preconceituosa, iludida, e pior ainda, ingênua? No mínimo pretensiosa, como afirmam alguns que me lêem, na calada da noite, por trás de identidades falsas? Se por um lado confio no meu radar, por outro sou sistematicamente perseguida pelas críticas familiares exageradas que sofri na infância, quando nada do que eu fazia, falava, ou pensava, era brilhante o suficiente. Quem é que está com a razão?
Isso posto, vamos aos (arte)fatos. Não é que eu seja a favor de um controle restritivo no território livre da internet. Deus me livre, odeio controle, censura, patrulhamento ideológico. Mas aqui no blog, sinceramente, isso não me afeta em nada. Me apresento com meu próprio nome, dou número, endereço e digo o que penso. Mesmo que arrisque uma bobagem. O que as pessoas precisam entender é que privacidade em si não está com essa bola toda não. O reinado absoluto da transparência, inexoravelmente, virá. E mesmo gritando nas ruas palavras de ordem, contribuimos para isso, escrevendo em blogs, participando de comunidades, e até mesmo, pasmem, vivendo uma "second life". Por trás dos inúmeros disfarces a verdadeira personalidade aflora. E cada vez mais fica difícil a gente se esconder. Desistam. O melhor é relaxar.
E você que se julga livre, independente, dono absoluto do seu nariz e da sua opinião partidária, fique sabendo: você está sendo manipulado. Você e eu e todos os demais, digo. Aconteceu faz pouco, nas apaixonadas eleições: publicitário da campanha Lula confessa que todo aquele barulho contra as privatizações foi manipulado à la carte para impressionar eleitores, fazer falar o inconsciente reprimido de cada um transmutado em voto. Nesta farsa caímos todos. Todinhos. Do lado de cá ou do lado de lá, manipulados. Renego todo o blablablá político que publiquei aqui no blog e o mesmo têm feito os jornais, impressionados ou aprisionados pela sensatez demonstrada por Lula no discurso pós-vitória, melhor assim. Mas vem cá: porque é que sensatez e simplicidade de raciocínio não conquistam voto? Porque seria preciso a grandiosidade forjada dos temas para nos mobilizar?
No quesito "aquecimento global" a mobilização manipulada (e monetarizada) é flagrante. O aquecimento existe, gente. Mas o humanozinho aqui de baixo tem muito pouco a ver com isso. Trata-se na (minha) verdade do movimento climático cíclico do planeta, como parte de um universo que ninguém sabe bem se está em expansão ou contração, se começou com explosão ou lenta e deliberada invasão, se foi obra do acaso ou da mão de sei lá que deus. A gente especula e é só. Fica a impressão. Não quer dizer que estou me lixando pra conservação da natureza e atirando meus detritos pela janela. Não. Aqui em casa gostamos de separar o lixo, reciclar o que é possível, cuidar da saúde, consumir alimentos naturais, dar uma banana pro consumismo e favorecer a bondade e o amor acima de tudo. Sem esquecer a transparência, claro. E a verdade cotidiana, mesmo que seja só a nossa.
Somos todos humanos, com qualidades e falhas. Como o Palocci, por exemplo - recente objeto de sutil reabilitação pública - que salvou da estreiteza ideológica a economia do Brasil, mas por baixo do pano fazia das suas. Ou os envolvimentos sexuais que esquentam as eleições americanas. E por acaso político não tem tesão? Ao que parece a rigidez moral pública se equivale em igual medida (ai, Noga, o pleonasmo doeu) à devassidão privada. Tudo isso, gente, é fruto de manipulação, mentira e tentativa infrutífera de ocultação da verdade. No mundo de hoje, cada vez mais, a verdade acaba aparecendo, frequentemente a tempo de causar um estrago. Manipulada ela também.
Faço questão na minha vida nada privada de manter a transparência em todos os níveis. Não tenho nada a esconder, nem mesmo os meus fracassos, os meus enganos, meus falsos julgamentos. Ou, por outro lado, meus prazeres, meu gozo, minha tentativa cotidiana de me sentir feliz. Tudo na primeira pessoa sim, por favor. O que penso e escrevo se aproxima o máximo que pode (que posso) do ponto de vista íntimo e muitas vezes não compartilhado da pessoa comum, média, correndo por fora da estatística.
Como ferramenta pra conseguir isso só tenho o meu radar interno. Nos meus tempos de esotérica eu o chamaria, pouco modesta, de "canalização", conseguindo assim tirar o meu da reta. Não mais. E que o Alan lá do quarto não me ouça, nessas eleições americanas de hoje estou democrata até a raiz dos cabelos, e por algum motivo que me escapa, sou contra a execução de Saddam Hussein. Que o cara é criminoso não resta a menor dúvida. Como também de que deveria viver pra aproveitar ao máximo sua própria decadência e humilhação. Pra um fulano malvado desses a morte instantânea parece prêmio, tanto pra quem enforca como pra quem é enforcado. Calabouço nele(s).

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Invasores de corpos

Meu computador andava estranho. Bem. Faz tempo que venho tentando me acostumar a estranhezas, como uma desconfiança total quanto à minha capacidade de discernir a temperatura ambiente, reações alienígenas à exposição da pele ao sol na adolescência, bolhinhas suspeitas do lado esquerdo do pé, e uma tristíssima e dolorosa protuberância óssea próxima ao dedão, contando os dias para o fim da minha carreira de corredora senior. Mas o computador estava demais. Sempre lento, num ramerrame enervante, que há meses venho atribuindo ao Norton - puta neurose essa, antivirus, antispy, firewall e outras armas irritantes - procurando não me desesperar. Injusta.
Pois ontem, lendo não sei onde, tive acesso à lista de sintomas da invasão da máquina por algum espião, hacker, ou sei lá o nome que inventaram pra essa praga nova da civilização. Desconfiei. Esta manhã, seguindo uma dica, resolvi instalar o Explorer7, que eu nem sabia que existia. Gente! O computador voltou ao normal! Além do quê, gostei do novo design, apesar de ainda estar me sentindo meio estranha no ninho. Sensação agravada pela impressão insistente de ser a única no universo internauta que estava desatualizada.
Como vantagem adicional, agora existem alertas para tudo, vamos ver quanto tempo vai levar até que os invasores aprendam os truques novos. Mesmo porque, como eu já disse, procuro não me entregar à neurose, mas confesso: num taxi ontem à noite, a caminho da Barra, evitei o tunel, tive medo de tiroteio, olhei pra todos os lados esperando o sequestro, e tudo isso tentando parecer normal pra não assustar o Alan. Fui e voltei a salvo, depois do prazer de assistir àquela perfeição ousada e colorida que é o Cirque du Soleil. O que puxa mais uma confissão: comprei os ingressos há 3 meses e passei todo esse tempo com medo de não poder ir: esperando ficar doente, ou que o Alan desistisse do Brasil, ou que o casamento tivesse terminado, ou que o mundo tivesse se acabado. Só pra confirmar. Não sou nem um pouquinho neurótica. Hoje em dia isso é tudo normal, dá pra chamar de vida?

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Mau exemplo

Não é que eu queira estar insistindo no assunto, gente. A midia é que não desiste. Tô aqui na boa, com a minha cervejinha, consegui acordar mais tarde (ah, não, foi o novo horário) e vem a Veja com mais uma história de sucesso bariátrico.
Aliás e a propósito, do Aurélio:
bariatria
[De bar(i)- + -iatria.]
Substantivo feminino.
1.Med. Ramo da medicina que se ocupa do excesso de peso corporal.

Eu até entendo a animação do Nizan, cabendo pela primeira vez na vida na poltrona do avião. "Embora a cirurgia de estômago só seja recomendada para casos muito graves, Guanaes acredita que se enquadrava na categoria." Na categoria compulsiva, isso sim. O próprio paciente confirma isso, sem no entanto se animar a enfrentar uma boa terapia para corrigir o problema. Preferiu entrar na faca, via "do menor esforço" preferida, aliás, por 10 entre 10 iludidos da civilização tecnológica. Vocês já pararam pra pensar, ou comparar, os riscos e custos das duas abordagens? Não seria mais seguro, embora não certamente mais cômodo e nem mais rápido, enfrentar a raiz da questão, isso é, o comportamento compulsivo*? E por tabela debelar os efeitos colaterais da neurose que não sei quais são, mas certamente existem? Vejo esses pacientes bariátricos como um granada cujo pino é o tal anel que restringe o estômago. Ninguém sabe quando, mas mais dia, menos dia, acaba arrebentando. Como o próprio Nizan admitiu, ao afirmar que aprendeu "a enganar o balão" numa tentativa prévia de violência contra o organismo. Os casos que não deram certo dificilmente acabam na midia, gente. Como os mortos que citei num post anterior.
Artigo do Guardian lamenta a atual opção da psiquiatria pelo ilusório caminho mais fácil das drogas. Tem razão. Essa lei moderna do menor esforço ganha mas não leva, e quem perde é quem a adota. Como no caso da busca de satisfação sexual nas sex-shops, assunto de Carla Rodrigues no nomínimo de hoje. Acaba em trauma, gente. Na ditadura do consumo, engôdo da civilização. Melhor manter distância.

* não é que eu queira estar puxando a brasa pra minha sardinha. já nem estou pescando mais, pra proteger a fauna marítima e evitar a extinção anunciada. mas a verdade é que na clipfit.com tem um produto alternativo (argh) muito legal pra tratar compulsão. pra mim deu certo, e que alívio. nem estou usando mais. não precisa cortar nem furar nada, prometo. e não vão vocês estar pensando que é por isso que condeno as cirurgias e apetrechos. os produtos da clipfit ajudam, mas não resolvem. soberana mesmo só a força da vontade saudável.

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Filet mignon com arroz de brócolis

Descongelado, o pedaço de carne decepcionou. Pequeno demais para dois. O acompanhamento pronto, arroz de brócolis, resto do almoço de sexta, acabou sem prato principal. Mesmo assim temperei, precisava aproveitar o resto do vinho no fundo da garrafa. Sal. Pimenta. Cebola. Alho torrado. Alecrim fresco. Deixei marinar. Resolvi o almoço de sábado com uma pizza.
Definitivamente, nossa cultura não encoraja a realização de sonhos. Não sei como isso foi acontecer. O que há de mais importante na vida do que um sonho realizado? Nos acostumamos a pensar que só o dinheiro materializa o sonho, mas a gente nunca chega lá. Passa a vida envolvido e iludido pelos meios pra não chegar jamais ao fim. Acaba desistindo pelo caminho, esquecendo, sei lá. Lendo hoje um artigo sobre longevidade cheguei foi nessa afirmação absurda: a vida só tem graça por causa da perspectiva da morte. Elimine-se a inevitabilidade da morte e puff! Lá se vai junto a emoção de viver. E vocês? Acreditam nisso?
E por falar em sonho de uma vida, no fim da tarde recebi o filme da locadora, exatamente sobre o tema: Neverwas, um drama adulto com toques de fábula infantil ou uma fábula adulta com toques de drama infantil. Eu e o Alan nos divertimos, nos deixamos envolver, e quando o filme acabou ele fantasiou um steak, uma taça de vinho... essa foi fácil. O vinho estava guardado, reservado pra não sei quando, mas pensem bem, nada como realizar um desejo de quem a gente ama... Fui pra cozinha, passei o mignon temperado no azeite, abri a garrafa e voilá! Um sonho realizado! A cara de espanto dele compensou a limpeza do fogão depois... Um sonho pequeno, certo, mas a gente vai treinando. O engraçado foi a preparação progressiva e confiante das partes bem antes de vislumbrar o todo: exatamente, aliás, como na vida real. Ops. Essa é a vida real.

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Imperialistas do alarme falso

Planejando uma boa moqueca no seu aniversário em 2048? Esqueça. Até lá os peixes e frutos do mar estarão praticamente extintos e o fundo do oceano será um deserto. Ainda bem que eu já vou ter 96 anos. Melhor servir papinha de arroz... mas calma, gente. Nada de pânico. O desmentido certamente virá.
Embora obviamente não estejam sozinhos nessa - a pesquisa aí de cima foi coordenada por uma universidade canadense, de todo jeito ex-colônia - os britânicos têm tomado a dianteira e feito o que podem pra assumir a liderança no quesito "denúncia da destruição da terra". Por falta de melhores armas pra recuperar o poder imperial irremediavelmente perdido, tentam invadir o inconsciente da civilização pelo flanco mais desprotegido: o medo do desastre iminente. A tacada mais recente, e muito bem sucedida, foi a contratação do ex-futuro presidente americano Al Gore, cujo portfolio, "Uma verdade inconveniente", está a partir de hoje nas telas do país, pra quem quiser ver. De minha parte vou esperar pelo dvd.
Os ecoleitores que me perdoem, mas depois que li o Estado de Medo do Michael Crichton aprendi a ver com desconfiança qualquer estudo alarmista do tipo destruição radical. Na maioria das vezes uma observação mais apurada torna a urgência desnecessária, como no caso do derretimento das geleiras na China ou a extinção das baleias na Islândia.
Não sei porque ainda leio esse pessoal. Deve ser pra alimentar meu vício de ser do contra. Na New Scientist dessa semana a poluição ambiental é apontada como um dos 10 fatores responsáveis pela epidemia de obesidade. O mais recente estudo sobre o clima estica os tentáculos do catastrofismo para atingir a economia, ah, essa sim, prioridade absoluta. Essa insistência na ecologia futura do planeta me parece mais uma estratégia para aplacar a culpa dos mais ricos - e maiores poluidores - através de uma meia dúzia de polpudas doações. E o dinheiro serve pra quê? Vocês sabem? Para pagar o salário dos profissionais da conservação ecológica, gente. E pra pagar o aluguel das sedes caríssimas que essas organizações ocupam. Não sobra nadinha pra atuar contra os verdadeiros problemas. Na esfera pessoal também, esse tipo de atitude facilita a tarefa. A gente esbraveja contra o aquecimento global, aplaude os filmes que alertam contra a catástrofe e pronto. Fizemos o dever de casa. Mais eficiente seria enfocar a questão do ponto de vista da vizinhança, que diretamente nos atinge. A poluição da cidade onde moramos, o lixo nas ruas do bairro, a ocupação invasiva dos morros, a sujeira na praia ali na esquina. No caso dos cariocas, fica fácil: vamos começar evitando o cocô de cachorro nas calçadas. Aqui no Alto Leblon, pelo menos, a gente sofre. Aproveito pra ressucitar um slogan velho, mas justo, abafado pela grandiosidade dos temas internacionais: pense global, aja local. Funciona. Ou deveria.

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Dorianas

Antigamente seria classificado como filme de terror, não recomendado para menores de trinta, mulheres grávidas e pessoas sensíveis. Como o Retrato de Dorian Gray, lembram? Pois hoje virou regra: versão feminina do pesadelo de Oscar Wilde, o que é isso, companheiras?
Liguei na Oprah atraída pelo assunto - "grandes mulheres e seus segredos anti-envelhecimento - e pela reputação de Nora Ephron, diretora de comédias gostosamente românticas e há várias semanas best-seller na lista do NY Times com o livro "I feel bad about my neck". Eu não aprendo. De onde tirei a idéia de que ela seria da minha turma? Me enganei, gente, pra variar. O programa começa com as quatro candidatas (com exceção talvez da cinqüentona Geena Davis, caçulinha do grupo) a Miss Freaky sentadinhas no sofá, seus infalíveis escarpins de bico finíssimo, impecavelmente cobertas do joelho ao queixo, com suas testas lisas, bochechas infladas e expressão impassível... ou melhor, impossível expressar qualquer coisa através da máscara amendrontadora. Diahann Carroll - assim mesmo, com enes e erres - aos 71, Nora aos 65, e Oprah... bem, não dá pra dizer, de tão cirurgicamente transformada, empenhadas em abrir seus segredos de envelhecimento exemplar. Exemplar? Execrável, isso sim. Publicidade grátis do horrendo hábito de corta-e-enfia que nos assombra cada vez mais. Heroínas de uma beleza faz-de-conta, falsa como o inverno permanente no estúdio da Xuxa, essa também, ainda jovem e já esticadíssima, com suas bochechinhas infantis. Com certeza o excesso de pano é pra esconder bem escondidinho o espetáculo da inevitável decadência, traduzido em braços flácidos, cotovelos enrugados e pescoço de peru, como confessa, tentando a via do humor, a constrangida Nora Ephron. Eu disse constrangida? Que nada. É que com tanta plástica ela mal consegue mexer o rosto.
Trata-se da novíssima mulher-margarina, gente. Margarina, vocês sabem, o pesadelo da manteiga. Aquela coisa insossa, de consistência plástica, criada e altamente recomendada para a sua saúde pelo lobby químico da civilização, um pseudo-alimento que mal derrete e não envelhece... exatamente como essa geração plastificada que está aí. Querendo tomar conta, a qualquer custo, da nossa maturidade saudável. Dorianas. Você ainda vai ser uma.

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Safadinha

Mais uma no Globo: "MP proíbe venda de boneca por induzir a erotismo"
Gente. É a boneca "Assadinha", para crianças de 3 a 5 anos. Quando a criança passa água morna as assaduras somem e a boneca ri ou chora. O problema é que as crianças apresentaram "comportamentos estranhos" ao descobrir que, massageando as "partes" da boneca, ela ri.
Nossa. Que mentes mais doentes. E daí? Duvido que haja carga erótica no tal comportamento. E se houver, é por causa do tratamento caricato que a midia dá ao assunto. Criança não produz hormônio sexual, gente. Acho que nem pensa nisso, morte a Freud. E se pensar, tudo bem. É bem melhor tratar o sexo como parte normal e prazerosa da vida, na base da brincadeira, do que ficar escondendo o assunto pelos cantos. É essa neurose provocada pela culpa e pela ânsia de controle da sociedade que acaba produzindo comportamentos horrorosos, como pedofilia e abuso infantil.
E quem foi que disse que sexo é assunto sério? Aqui em casa não é. É uma brincadeira relaxada, deliciosa, e a gente ri muito sim. Principalmente ao massagear habilmente as "partes".
Costumo dizer pro Alan que a grande contribuição dele para a minha felicidade é que vem me permitindo ter infância. Já não era sem tempo. Porque quando eu era criança, vivia acossada por não-podes e ocupada a cada minuto com aulas de inglês, francês, ioga, balé, pintura, natação, piano. Acho que era pra eu não pensar besteira e cuidar bem da virgindade, virtude mineira na época obrigatória. E castradora. Como se pode ver pela literatura que produzo, pouco adiantou. A tradicional familia mineira deve estar se remexendo no túmulo.

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