Noga Sklar é escritora, editora e arquiteta. Foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004, se dedica exclusivamente à literatura.
Como editora da KBR, é pioneira na publicação de livros digitais em português. Tem 7 livros publicados.
Vozes da Flip
"A razão disso ser interessante é que é verdade."
Shalman Rushdie, sobre o livro que está escrevendo, descrevendo seus tempos de fatwa.
"Tudo bem querer dizer as coisas da melhor maneira possível, mas a verdade é que na maioria das vezes uma escolha funciona tanto quanto a outra. O mais importante é pôr o trabalho na rua."
Lionel Shriver, autora de Kevin.
"Passou perto de dizer que seria melhor a organização do evento ter homenageado Sérgio Buarque de Hollanda."
Sérgio Rodrigues sobre FHC no nosso Todoprosa (como enviado especial de Veja, chique)
"As palavras também podem ser atos."
Barack Obama, citado por Simon Schama
"Desde criança, eu tenho a experiência de um olhar duplo, de enxergar as pessoas e ao mesmo tempo me ver de fora. O resultado dessa duplicação é que mesmo ao viver as experiências mais banais há em mim uma voz anterior especulando sobre a melhor maneira de contar essa experiência. Isso muitas vezes chegou a ser uma barreira para o gozo sexual, porque acredito que no sexo deve haver um abandono de si que nem sempre consegui ter."
Catherine Millet,
autora de A vida sexual de Catherine M.
"Terminei o projeto com um papagaio que engoliu a carta." Sophie Calle, seríssima, explicando ao vivo na Flip, frente a frente com seu ex, a exposição "Prenez soin de vous"
"Literatura brasileira: uma das cotações mais pífias da Bolsa Internacional de Valores Literários." Sérgio Rodrigues
"Um chinês quando casa com uma ocidental vira uma desgraça para ela, porque somos muito machistas." Ma Jian, escritor chinês radicado em Londres, que se sente como "um peixe fora d´água, uma árvore cortada" tanto na Inglaterra quanto
na China.
"Você pode passar a vida indo a conferências de escritores e sabe Deus o que mais. E aí não faria nenhum trabalho. Eu digo não para tudo."
Tom Stoppard, dramaturgo inglês
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela.
Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte.
Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia: "Não há mesmo por que banir a subjetividade da escrita, já que a terceira pessoa e sua pretensão à neutralidade e à acuidade não são, em si,
garantia de absolutamente nada."
Paulo Roberto Pires, para a Folha de São Paulo
"Quando o autor é casado, o ensaio brilha de contentamento."
David Brooks, para o NY Times
"Um bom judeu não pode estar satisfeito. Se ele estiver satisfeito é porque não é um bom judeu.
O judeu está sempre querendo aperfeiçoar-se."
Simon Peres, presidente de Israel
"Os humanos são seres simbólicos."
Lídia Aratangy, na Revista da Cultura
"A palavra cantada deixa sulcos muito profundos na memória de quem a escuta."
José Miguel Wisnik, em sua coluna n'O Globo
"Bolsas despencam, Londres arde, mas chega uma hora em que é preciso tocar a vida: ler, escrever, amar."
Sérgio Rodrigues, Todoprosa
"A ideia é usar os recursos digitais como chamariz, criando uma aura cool e jovem em torno da boa e velha literatura. Aquela feita exclusivamente de palavras, uma depois da outra. "
Scott Lindenbaum sobre sua revista Electric Literature, via
Todoprosa
"Este pequeno país que inspira as maiores coisas, seus melhores dias ainda estão por vir. "
Barack O'Bama na Irlanda, e não é que é mesmo? (Quanto à segunda parte da frase, hummm...)
"Os formatos e canais de distribuição de livros continuam a evoluir, mas a publicação criativa começa com o relacionamento entre autor e editor."
Gina Centrello, presidente da Random House, no
NY Times
Como os demais ditadores, ele estava ocupado demais criando o problema para que pudesse apresentar a si mesmo como a solução.
Roger Cohen, no
NY Times, sobre a queda de Kadafi (estamos esperando)
Cantou seu repertório censurado, pegou seu saquinho de dinheiro comunista e saiu de fininho. Maureen Dowd, no
NY Times, sobre Bob Dylan na China: os tempos mudam.
Eu sou assim: quando ponho em palavras dói menos. Miriam Leitão,
em seu blog.
Adquirimos um desejo de tecnologia que ultrapassa a compreensão humana.
Mas a conta cobrada por tal desejo veio cara demais. Kazumi Saeki, romancista japonês, no
NY Times
A norma editorial de utilizar traduções prévias sem levar em conta o contexto e a finalidade da citação muitas vezes enfraqueceu – e algumas vezes anulou – os argumentos do próprio autor.
Denise Bottmann, via
Todoprosa
Vemos a comunicação digital instantânea como uma arma contra a opressão e, nas mãos de tiranos que acessam
seu poder, uma arma de opressão. Maureen Dowd, no
NY Times
Pessoalmente, acho que a liderança militar está com um pouquinho de medo dos jovens movidos a Twitter da Praça Tahrir. ainda Thomas Friedman, no
NY Times
Essa revolta é em primeira instância sobre um povo que está farto de ser deixado para trás, num mundo onde podem ver claramente com os demais avançaram. Thomas Friedman sobre a revolta no Egito, no
NY Times
Nas mãos de um escritor talentoso, o universo está contido no pessoal. Dani Shapiro, no
NY Times
Eu preferia um artista que transformasse seu tempo, em vez de refleti-lo. Patti Smith, via Maureen Dowd, de novo, no
NY Times
O objetivo de um artista não é resolver um problema irrefutavelmente, mas fazer as pessoas amarem a vida em todas as suas incontáveis, inesgotáveis manifestações. Leon Tolstoy, morto há cem anos, via David Brooks, de novo, no
NY Times
Se um partido vai se dar bem nas eleições, que seja pelo menos um partido que optou por ser modesto. David Brooks, de novo, no
NY Times
Mesmo que o público não te aprove, você tem que aprovar a si mesmo. David Brooks, no
NY Times nota desta redação: infelizmente, ele estava sendo irônico.
Van Gogh bem-sucedido só existe no banco Real, atual Santander. Marcelo Mirisola, no
Congresso em Foco
O sucesso hoje em dia não é somente produto da inteligência. É o cérebro e a tiróide trabalhando juntos: QI associado à energia e um desejo inacansável de ser o melhor. David Brooks, no
NY Times
A fonte secreta do humor não é a alegria, mas a tristeza. Não há humor nenhum no paraíso. Mark Twain, via
Todoprosa
Vida e obra andam, em muitos casos, coladinhas. A diferença entre os bons e os maus escritores é que uns sabem, outros não, como colocar isso no papel. Luiz Rebinski Jr, para o
Digestivo
Uma das grandes dádivas da diáspora: viajamos, nos mudamos, e continuamos a ser nós mesmos. Sam Kestenbaum, pescador, no
NY Times, sobre o Yom Kipur no mar
Não vejo diferença significativa entre a cartomante, o biscoitinho da sorte e qualquer uma das religiões organizadas. Woody Allen, sábio,
aos 74
O livro não é só o que escrevo, mas o que se passa à minha volta enquanto escrevo. José Castello, em
entrevista ao Prosa Online sobre seu novo romance, Ribamar
Os homens enlouquecem em bando, mas voltam à razão lentamente, um de cada vez. Charles Mackay, na coluna de
Maureen DowdA literatura, e não as escrituras, é que sustenta a mente e — por não existir outra metáfora — a alma. Christopher Hitchens para o
NY Times
Uma gafe é só a verdade transbordando. Maureen Dowd no
NY Times, sobre a derrocada das esquerdas
A realidade é inclemente: o encanto se quebrou. Fuadi Ajami no
Wall Street Journal, sobre o fenômeno Obama
Uma sociedade bem-organizada é aquela onde sabemos a verdade coletiva sobre nós mesmos,
não uma em que contamos agradáveis mentiras sobre nós mesmos. Tony Judt, um dos mais trágicos vira-casacas da modernidade
"Ser ameaçado de morte é bom para o humor." Salman Rushdie
"Obama pode não ser o político dos nossos sonhos, mas os inimigos dele, certamente, são o nosso pesadelo." Paul Krugman, no NY Times,
em tradução livre.
"The book is on the tablet." Equipe editorial da revista "Negócios da Comunicação", em excelente artigo sobre o livro virtual.
"Livre não é sinônimo de grátis." Jaron Lanier, em entrevista à Veja criticando a internet.
"Não colocaria nem um centavo no 'sobrenatural'." Marcelo Gleiser, na Revista da Cultura.
"O segredo da continuidade evolutiva de seu trabalho reside em uma aprendizagem, fria e desapegada, de como analisar a opinião publica." Vik Muniz, em entrevista a Luciano Trigo.
"Se eu quisesse curtir a vida, teria que ler bons livros. Mas como transformar isso em negócio, se as pessoas que escrevem bem não são bem pagas?" Andrew Wylie, um agente literário na era digital, via Verdes Trigos
"A única certeza, em todo caso, é que escritores são animais de hábitos e que a maioria deles têm um fraco por rituais e disciplina." Ezequiel Vinacour para La Nacion, via Blog da Flip
"Crônica: gênero do Eu e da confissão, mas também do mundo e da invenção." José Castello em sua coluna de sábado, que o Globo não linka
"Vou logo avisando: fico possesso quando alguém quer mudar um projeto meu." Jacob Goldemberg em Contocrônicas, na mesa de edição da KBR
"Dionisos será meu guia nessa viagem, que nada terá de teatral, mas será profundamente vital." Alberto Guzik em em seu blog
"Não tenho uma criança interior. Se tivesse, a esta altura eu já saberia." A.L. Kennedy em What Becomes
"Todas as pessoas de sucesso experimentam e realizam suas ideias na prática, sem medo do ridículo, sem medo de fracassar." Bertris Kurtz em Siga sua intuição, na mesa de edição da KBR
"No próximo episódio da Web, qualquer indivíduo pode ser um editor." carta aberta da Adobe em resposta ao ataque da Apple, também em carta aberta.
"Devo tudo que sou à minha mãezinha. O problema são os juros que ela cobra." Agamenon, politicamente incorreto em O Globo
"A psicanálise cura tanto quanto a homeopatia, o magnetismo, a radiestesia, a massagem do arco do pé ou o exorcismo feito por um sacerdote." Michel Onfray, em seu novo livro O Crepúsculo de um Ídolo, a Fábula Freudiana, via O Globo
"O impossível é o embrião do possível." Victor Hugo
"Vacinou-se com humor e ironia da seriedade bocó dos grandes intelectuais brasileiros." Paulo Roberto Pires, em seu blog, sobre Sérgio Buarque de Holanda
"O passado é a chave do presente." Bill Burton, vulcanólogo, para o NY Times
"Todo bom escritor é intransigente — contra tudo e contra todos, faz o que deve fazer. Escreve o que tem de escrever. Agarra-se a si mesmo e não se larga." José Castello, em seu blog n'O Globo
"Duvidar de si é fundamental." Tônia Carrero, no belíssimo Tonia Carrero - Movida Pela Paixão, da Coleção Aplauso, que estou convertendo agora
"Como aprendemos a duras penas, pequenas ficções podem crescer violenta e rapidamente na câmara de eco da mídia 24 horas." Frank Rich, para o NY Times
"A experiência da leitura é o mais radical contato com a solidão que já conheci." José Castello, em seu novíssimo blog no Globo
"A forma não só determina o conteúdo; a forma inventa o conteúdo." Gilbert Sorrentino, no NY Times
"Em termos de inteligência ecológica, a grande ideia é a transparência radical." Daniel Goleman
"Um terremoto como este destrói de uma vez velhas associações; o mundo, símbolo por excelência de tudo que é sólido, se move sob nossos pés como uma crosta sobre um fluido; um segundo de tempo implanta na mente uma estranha impressão de insegurança, que horas de reflexão jamais criariam." Charles Darwin, testemunha ocular do grande terremoto do Chile em 1835
"O grande e maléfico financiador do tráfico — e isso sim é uma revelação incômoda — é a proibição." Arnaldo Bloch, no Globo
"A autoestima nacional deveria brotar não do poder global, mas de realizações e valores culturais." Piers Brendon no NY Times, sobre a queda anunciada do Império Americano
"Qualquer um pode comprar ações. Administradores de fundos podem comprar os tubarões em conserva de Damien Hirst." Eduardo Porter, sobre O poder da arte, ops, o poder e a arte. No NY Times.
"Não deixe a magia escapar, ou você vai se afundar na areia movediça da trivialidade." Elena Gorokhova, em Um monte de migalhas
"A página era o lugar onde eu poderia refletir sobre o que havia acontecido." Brian Turner, "poeta de guerra"
"Se você pode não escrever, não escreva." Chekhov, citado por Elena Gorokhova, cujo livro de memórias, Um monte de migalhas, vem fazendo sucesso de crítica e está na fila do meu Kindle
"Há uma paz maravilhosa em não publicar. Publicar um livro é uma invasão terrível da minha privacidade. Eu gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo para mim mesmo e para meu próprio prazer." J. D. Salinger, citado em seu obituário n'O Globo
"Só um par de messias fazendo algumas cestas e trocando histórias de homem-do-povo." Maureen Dowd, no NY Times, fazendo pouco da nossa fome de milagres [políticos]
"Não nos habituamos ainda a viver num belo mundo novo, é preciso algum tempo para se acostumar com isso." Karen Bishop, em seu site "Anjos emergentes" sobre a "nova terra", meio delirante, certo, mas tem muito a ver comigo em minha nova vida na Serra
"Esta não é a história de um desastre da natureza. É uma história de pobreza. É uma história de edifícios mal construídos, de infraestrutura ruim e de serviços públicos terríveis." ainda David Brooks, no NY Times, sobre a tristeza reinante no Haiti
"O sucesso tecnológico de Israel é a fruição do sonho sionista." David Brooks, no NY Times
"Algumas pessoas têm uma habilidade inata para criar um espetáculo, algo inerente que não pode ser ensinado." Neil Waldman, professor e ilustrador, em artigo do NY Times
"Uma vez livres das algemas da tecnologia impressa, novas maneiras de contar histórias fluiram no início do século 21 numa explosão extraordinária de criatividade." Alun Anderson, imaginando uma entrada futura de wikipedia, na edição 2010 da Central de Perguntas da Edge
"Transformar problemas práticos em cataclismas cósmicos nos afasta cada vez mais de soluções reais." Denis Dutton, em excelente artigo no NY Times sobre nossa mania de catastrofismos globais
"Realizei um mundo de leituras — todos os russos, Balzac, Flaubert. Nunca pude engolir Dickens — engraçadinho demais" John Updike, em O riso dos Deuses, conto de "My Father's Tears and Other Stories"
"O jornalismo costuma atrair os tímidos, que adoram o trabalho de reportagem porque lhes dá um roteiro que lhes permite conectar e conversar com outras pessoas." Judith Miller, em sua coluna de despedida no blog Domestic Disturbances, do NY Times
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte."
Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura
"O que realmente nos sustenta é a família, a liberdade, e as belezas da natureza"
Stanley Fish em, imaginem, resenha do livro de Sarah Palin, para o NY Times
"Não parece que a literatura brasileira viva momentos esplendorosos, mas este é sem dúvida um romance muito bom."
do espanhol Jorge Díaz em seu blog, sobre a Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy
"A diferença entre o místico e o louco é que o místico pode voltar, emergir do estado de graça e encontrar uma linguagem humana para descrevê-lo." Benjamin Moser in Why this world, biografia de Clarice Lispector
"Nunca acreditei que tudo acontece por algum motivo. Mas tenho a profunda impressão de que tudo acontece para ser transformado em coluna de jornal."
Gail Collins em incrível coluna sobre os "avanços da medicina" no NY Times
"Depois do 11 de setembro, metade da América foi à guerra e a outra metade foi às compras."
Roger Cohen no NY Times
"Quando autores modernos reclamam da intolerável solidão da alma, é apenas prova de sua intolerável vacuidade."
Karen Blixen
"...aí você vai dar tanto trabalho quanto Joyce."
Thereza Christina Rocque da Motta, editora da Ibis Libris, sobre meu sonho precoce de traduzir meus livros para o inglês e publicá-los no Kindle
"O casamento está mais vulnerável do que nunca à corrosão da política: ataques partidários, decepção com iniciativas fracassadas, a tentação de utilizar em público o que antes era completamente privado."
Jodi Kantor para o NY Times em entrevista exclusiva com o casal Obama
"Realmente um marco no mundo editorial, o leitor eletrônico de livros. O Kindle é algo prático, de fácil uso. Que venham os livros, os jornais, os folhetos."
José Olive, leitor de "O Globo" no Kindle
"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."
José Saramago, o escritor do momento
"A vida sem a escrita é uma vida de vazio, tédio, amnésia e suicídio; ao mesmo tempo, escrever exige que eu enfrente sofrimentos e desastres sem fim."
Liao Yiwu, escritor chinês, em emocionante depoimento no Prosa Online.
"Diverti-me bastante, mas sobretudo gozei com o facto de ter podido meter a ironia e o humor num tema em princípio tão dramático."
José Saramago sobre Caim, seu novo romance, em entrevista ao Prosa Online.
"Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si."
Tibor Moricz, em seu blog.
"A diferença entre você e eu é que você tem tudo que o dinheiro pode comprar, e eu tenho tudo que o dinheiro não pode comprar."
Roger Cohen, em artigo do NY Times.
"Se alguém lhe disser que isso é neurótico ou mórbido e você lhe der ouvidos — então perderá sua alma —, porque neste livro está sua alma."
Carl Jung, em conselho a uma de suas analisandas.
"O telefone chama, o bebê reclama, na tevê o guru da dieta engana." Alice Randall, em traduição livre.
"Pode parecer ridículo na minha idade pensar que ainda não realizei o quadro que queria fazer. Mas também é bonito, porque te ajuda a manter-se ativo." Antoni Tàpies, pintor catalão nascido em 1923, em seus 80 anos.
"Temos no Brasil hoje um governo moralmente frouxo e um congresso apodrecido." Fernando Gabeira, político brasileiro.
"O mais curioso [em se tratando de dinheiro] é como algo tão real pode ao mesmo tempo ser tão ilusório." Simon Critchley, filósofo.
"Não posso tweetar. Me sinto com 82 anos dizendo isso, mas não posso." Julie Powell, em entrevista no YouTube: quando eu retroceder quero ser ela, é sério.
"Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário."
de Sérgio Rodrigues, bem a propósito, em seu blog Todoprosa
"De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
do "blogueiro" José Saramago sobre o Twitter, em entrevista ao Prosa Online
"Não deixemos jamais de explorar/ E o fim de toda exploração/ Será chegar onde começamos/ E conhecer o lugar pela primeira vez."
T.S. Eliot
"Se você fez de seu marido a sua carreira e você perde o seu marido, perde a carreira também."
Maureen Dowd, imperdível pra variar.
"Como viver para sempre? Faça o que gosta e goste do que faz."
Ray Bradbury, 88, em entrevista ao NY Times
"Toda arte é autobiográfica."
Gloria Vanderbilt, 85, a respeito de "Obsessão",
seu novo livro explicitamente erótico
"A vida artística não tem a placidez de um lago suíço."
Sérgio Rodrigues, em um de seus geniais "Sobrescritos"
"Nada nos restou dizer. Vivemos tudo antes que a mão avara nos cortasse ao meio."
um inédito de Thereza Christina Rocque da Motta em seu livro de poemas em andamento, O mais puro amor de Abelardo e Heloísa
"o iídiche pode ser uma língua moribunda mas é a única que eu conheço bem.
O iídiche é minha língua materna e uma mãe nunca está realmente morta." Isaac Bashevis Singer no
Digestivo
"Os livros são tão baratos e tão acessíveis, aparecendo no Kindle em questão de segundos, que a gente termina comprando-os impulsivamente e quase indiscriminadamente." Charles McGrath no NY Times
"Issy, Shem e Shaun adquiriram, com maior ou menor facilidade, perplexidade ou humilhação, a sabedoria prática que se oculta sob o verniz da cultura." Philip Kitcher em Joyce Kaleidoscope - An invitation to Finnegans Wake
"Trata-se a arte de um sentimento acima de todos os outros: ser amado." Walter Kirn em sua autobiografia, resenhada no NY Times
"Ao enterro devem, através de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançamentos de livro: nada mais parecido com um velório do que isso." Zé Rodrix, em seu autonecrológio, escrito em 2004
"Lá, tudo é ordem e calma/ Luxo, beleza e volúpia da alma" Charles Baudelaire, in"Convite à viagem"
"Acho que o ensaio mais pessoal e menos acadêmico tem grandes chances de prosperar no Brasil." Matinas Suzuki, editor da "Serrote", em
entrevista ao "Digestivo"
"Havia outro modo, percebeu Lobo Antunes, de preencher o mundo com novas existências: personagens podiam emergir completamente formados
do cérebro de seu criador, em vez de empreender sua fuga do útero, manchada de sangue." Peter Conrad, em "Médico e paciente",
perfil de António Lobo Antunes na "New Yorker"
"A última palavra em contrafação de histórias." James Joyce, Finnegans Wake [desVelar Finnegan]
"A concisão é a alma da sagacidade." Biz Stone, 35, criador do Twitter, entrevistado por Maureen Dowd, em bem mais de 140 caracteres
"Os três juízes e virtualmente todos que assistiram Susan Boyle no teatro (e provavelmente também no YouTube) estavam inicialmente cegados por arraigados estereótipos de idade, classe, gênero e padrões ocidentais de beleza,
até que o livro dela foi aberto, e todos viram o que havia dentro." Letty Cottin Pogrebin,
escritora feminista, sobre o fenômeno musical da internet: 30 milhões de views and counting
(sobre Al Gore e James Hansen em Uma verdade inconveniente) "A dupla desvia a atenção do público de perigos mais imediatos e sérios para o Planeta." Freeman Dyson, 85, o "herege mais civilizado do mundo" em artigo no NY Times
"Sou assim mesmo: faço artigos em blog que podem virar livro." Reinaldo Azevedo em seu blog
"Agora que somos melhores na observação, podemos dizer que o cérebro de suicidas tem uma aparência péssima." Peter D. Kramer, em depoimento ao NY Times
sobre o suicídio de Nicholas Hughes, filho de Sylvia Plath
"É uma coisa de que eu sinto falta na literatura brasileira contemporânea, trabalhar mais o humor."
Sérgio Rodrigues, em entrevista ao Prosa & Verso
sobre seu novo livro Elza, a garota
"Essas emoções em outra pessoa se dissipariam com o tempo, mas no caso de Sylvia eram escritas no momento de intensidade para se tornarem indeléveis como um epitáfio gravado numa lápide." Aurélia Schober Plath, mãe de Sylvia: carta citada em
A poética do Suicídio em Sylvia Plath, de Ana Cecília Carvalho
"Nunca sei o que penso sobre alguma coisa até que eu leia o que escrevi a respeito dela." William Faulkner
"Encare o Ulysses de Joyce como um pastor batista analfabeto encara o Velho Testamento: com fé." William Faulkner
"É um homem sozinho, a canção diz, durante o dia é farmacêutico, mas gostaria mesmo de ser escritor." Joca Reiners Terron em seu blog Sorte & Azar S/A
"Quem assim sabe rimar, ordena o mundo como um jardineiro." Mia Couto em O fio das missangas
"Persistir na literatura é um milagre. Você depende da bondade de tantos para continuar escrevendo, de amigos, da mãe, do pai, dos amores, e de todo mundo." Nélida Pinõn em entrevista ao Prosa Online
"Escute, cara, a maioria de nós provavelmente concorda que as coisas estão pretas, e burras, mas será mesmo que precisamos de uma ficção que nada faz além de dramatizar quão pretas e burras as coisas estão? "David Foster Wallace
"Deixe-me viver, amar, e dizê-lo bem em boas frases." Sylvia Plath, em The Bell Jar
"Bem, não importa. Somos feios, mas temos a música."
De Janis Joplin, por Leonard Cohen (oprimidos pelas formas da beleza): Chelsea Hotel
"A melhor maneira de explicar uma obra de arte é com outra obra de arte."
Roberta Smith, sobre Edvard Munch, no New York Times
"Todos escreveram livros. É a mais recente doença dos poderosos e bem-nascidos. Na verdade eles não querem escrever, mas querem ser escritores. Querem ver seu nome na capa de um livro."
V.S. Naipaul em Meia vida
"Todo mundo precisa de editor."
Lúcia Guimarães, em entrevista ao Digestivo, que não linka pra nós
"Tenho certeza de que os blogs serão para a literatura o que os campos de várzea foram para o nosso futebol. Parece pouco, mas pergunte onde é que todos os craques brasileiros começaram a jogar. E quem pensa que existe muita diferença entre escrever e bater bola, está redondamente enganado (sem trocadilho). Num jogo como noutro, só se aprende suando a camisa."
Paulo Markun (do site de Mario Prata, em 2004)
"A partir de hoje, a gente se levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima para reconstruir a America."
Barack H. Obama, discurso de posse (tradução livre)
"Quem divide a vida com grandes criadores sabe que o personagem jamais lhe pertencerá inteiramente" do blog do Paulo Roberto Pires
"
A mente é claramente um produto do cérebro, e velhas noções de almas e espíritos vem soando cada vez mais absurdas, mesmo assim... são ideias quase universais, entranhadas em racionalizações sobre a vida após a morte, derradeira recompensa e castigo, e em nossos conceitos do existir." P.Z.Myers, biólogo
"The edge", 2009
"Leonardo sempre teve uma propensão a escolher a liberdade. O problema é que não aceitava bem o preço de ser livre." Arnaldo Bloch, em "Os irmãos Karamabloch"
"John, George e eu costumávamos colocar anúncios pessoais no Mersey Beat, um jornal de Liverpool, só para ver nossas palavras publicadas, sabe?" Paul McCartney
"Quem aceita menos do que merece, acaba aceitando menos ainda." Maureen Dowd, colunista do NY Times
"Enquanto houver bambu, tem flecha." Evandro Mesquita, da eterna Blitz "A literatura de natureza confessional está ganhando espaço." Cristóvão Tezza, grande premiado do ano com
"O filho eterno"
"O homem sábio não fornece as verdadeiras respostas; faz as verdadeiras perguntas" Claude Levi-Strauss, 100 anos hoje (28/11/08)
"Um escritor precisa ganhar dinheiro para que possa viver e escrever, mas não deve de forma alguma viver e escrever para ganhar dinheiro." Karl Marx
"Ser na vida comum e normal, como um burguês, para ser no trabalho violento e original." Gustave Flaubert
"À sua meia-irmã permitia a leitura de jornais, mesmo assim com pelo menos um mês de atraso: sem poder destruidor, poéticos já." Thomas Bernhard, Perturbação
"Não acredito em Deus mas sinto falta dele" Julian Barnes
"Nenhum inverno arrancará/ as sementes de seu seio/ Permanecerão imóveis/ esperando a primavera." Thereza Christina Rocque da Motta, Lilacs/Lilases, 2003
"Uma coisa boa de começar mais tarde é que o que os outros vão achar ou deixar de achar, nessa altura da minha vida, não me importa." Antonia Mayrink Veiga Frering, ex-socialite acusada de estar brincando de atriz na próxima novela da Globo
"A falar por falar, preferia o silêncio. Ou o riso de si mesmo — que é a forma mais bela de desnudar-se." José Castello, sobre Jonathan Swift
"A possibilidade de lutar com palavras, em vez de lutar com armas, constitui o fundamento da nossa civilização." Karl Popper, no livro de citações de Eduardo Gianetti
"Dez mil pessoas chamando um cachorro de vaca não faz do cachorro uma vaca."
Alan Sklar d'après Abraham Lincoln, em Tzadik
"Eu sou um homem de dores públicas. Oculto só os meus gozos, mas até onde eles podem ocultar. Agora eu peço licença, mineiros, para vos informar de meus gozos e minhas dores."
Rubem Braga
"O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos." William Faulkner
"Só um bobo ri do que não tem graça." Jean Dominique Bauby
jogando nas onze
não, não resolvi viajar na última hora. chegou o dia do eclipse e eu resfriadíssima, mesmo que eu tivesse a passagem... teria sido difícil, ou então continuei resfriada pra me sentir menos triste. o Alan é que com seu pessimismo perdeu a aposta e eu não perdôo. não choveu em Natal e eu já disse pra ele: pra perdoar, só se estivermos juntos daqui a onze anos no dia 21 de agosto ao meio-dia sob qualquer céu ensolarado americano, para ver o próximo. pelo sim pelo não acordei cedinho pra ver o sol nascer da minha varanda e lá estava ele, lindo, na versão parcial carioca: um sol mordido de leve, parcialmente encoberto pelas nuvens. eclipse parcial, sucesso parcial, desejo parcialmente satisfeito, porque se a gente não pode ter tudo na vida o melhor é se contentar com o que se tem, certo? sei lá. acho que não está certo não, mas paciência, foi este o efeito do eclipse esta semana em minha vida. vou conseguindo o que dá, deixando um pouco de lado meu sonho de dedicar-me totalmente à literatura. daqui pra frente, sigo jogando nas onze (espero que por menos de onze anos), deixando a literatura me ocupar como o eclipse do sol no Rio: em versão parcial, embora no coração a dedicação seja total. tomada a decisão parece que acordei de um longo - ahn, pesadelo não - estupor. eu tenho esta mania de ser radical, desde criancinha é tudo ou nada. ou sou isso, ou sou aquilo, mas a vida real nunca acontece em alto contraste, sempre em meio tom. ou, de acordo com a nova era da fotografia digital, em milhares de tons e ainda por cima quase instantânea. quanto ao Diário... sosseguei o facho. entrei em todas as filas editoriais e me preparei pra longa espera, fazer o quê? enquanto espero vou esmaecendo as sombras, ajustando o amor, afinando a comunicação. quando for pro prelo prometo estar pronta e não haverá eclipse que apague o meu brilho... enquanto isso vou satisfazendo parcialmente a minha fome de audiência, e é por isso que o Manual do Orgasmo está virando e-book. Divirtam-se!
ética
não entendo nada de política. não tenho a menor paciência de ler as páginas de escândalos, planos econômicos, corrupção. eu deveria me restringir a escrever sobre o que eu sinto, meu cotidianozinho, minhas trepadas, minhas escapadas. minhas receitinhas de bem-viver. acontece que hoje acordei incomodada. incomodada ficava a sua avó, dizia um comercial, antigo, antigo, de absorvente íntimo. verdade. vovó ficava incomodada com os processos da natureza, com a criação dos filhos, com a manutenção do lar. sem muita consciência da sua condição feminina, que dirá da sua condição de cidadã, vida fácil, aquela. mas a consciência se expandiu, a informação vazou e fica difícil não participar, não arriscar-se a dar palpite em tudo. tem alguma coisa me incomodando e é justamente num assunto sobre o qual o meu conhecimento é mínimo: a ética. eu entendo um pouco de bom senso, de boa vizinhança, mas reconheço que a vida contemporânea é bem mais complexa. tão complexa que vem se afastando da verdade íntima de cada um e vamos ficando todos meio tontos. a queda do Palocci, por exemplo, me deixou tonta. concordo com os artigos que li esta manhã, o sujeito agiu com competência, segurou a peteca da economia, melhorou a posição do Brasil no quadro da confiança internacional. de repente, a gente descobre que ele mente. que confiabilidade é essa? mente talvez porque existe um conflito crescente entre o conforto íntimo e o conforto das instituições. e é isso que eu acho que está dando errado. ninguém mais sabe como ser, simplesmente, honesto, sincero, bem-intencionado. um bom coração e uma mente ágil já não bastam. um teste sobre ética na revista Veja desta semana também me deixou pasma. eu sempre me julguei honesta, consciente, bacana. mas esse aqui é o espaço absoluto da verdade e eu confesso: muitas daquelas regrinhas eu transgredi, e transgrido. já pedi pra pagar consulta médica sem recibo. os jeitinhos que eu encontro pra sobreviver não são declarados no imposto de renda, incluída uma mesada da mamãe aos 54. não engordo a bolsa de traficantes mas reconheço que muita gente boa que conheço precisa de uma ajudazinha alucinatória para continuar vivendo. não costumo comprar de camelô mas não consigo considerar a pirataria de cds e softwares tão grave quanto um assalto à mão armada. conviver com dois pesos e duas medidas não é fácil. mas o edifício das instituições, das regras e leis foi ficando complexo demais e se afastando da escala humana. o pior de tudo é que se presta a desvios escusos. gente bem mais desonesta que nós sabe encontrar espaço pra tirar o seu naquinho. o nível de informação à disposição do indivíduo cresce mas a dúvida sobre como usá-la nos deixa perplexos. eu estou. na minha tentativa de ser sempre impecável já me enganei muitas vezes, e na minha pequeníssima empresa se eu for atender a todas as minhas obrigações, sufoco. desisto, pra não morrer deste jeito. melhor eu me limitar a ser artista e contratar um especialista pra cuidar das contas. e pagar o salário dele? como? acho simpática aquela antiga idéia transgressora de desobediência civil, uma estratégia pra adaptar a lei ao cotidiano real. mas confesso não saber mais o que está certo, o que está errado em termos de convivência social. quando eu sinto que existe um abuso, cometo o crime da autodefesa. e pago a conta com desconto porque meus recursos são parcos. uma idéia seria estabelecer um limite mínimo para a obrigatoriedade de prestar contas, um território livre. eu sei que isso já existe, mas na prática, por exemplo, uma pessoa como eu não tem direito a isenções. tenho um imóvel no meu nome que não me pertence. sou empresária de faturamento mínimo mas estou sempre resvalando pra fora dos limites por motivos alheios ao lucro insignificante do meu negócio. acho que a qualificação deveria ser voluntária. eu, por exemplo, me candidato a viver com menos de x contanto que eu tenha liberdade de ação e nenhuma obrigação a declarar. o que certamente demandaria um nível de honestidade mais alto do que existe por aí... quem sabe isto se desenvolve espontaneamente se houver oportunidade... e alguma vantagem. a máquina do estado ficaria bem mais leve, mais barata. no nosso país acredito que uns 80% da população se encaixa abaixo deste mínimo. o que a gente ganha ou paga pouco influencia as grandes movimentações financeiras... calma, gente, é só uma idéia. porque certamente a nossa noção de ética anda francamente abalada com o que a gente vê. o brasileiro médio, praticante do jeitinho, é em geral um cidadão de bem. a gente merece viver com a consciência em paz.
Companheiro Palocci
ainda não foi desta vez que o milagre aconteceu. caiu o último soldadinho de Lula. desta vez me decepcionei mesmo, achei que o cara era íntegro, mas ele se vai deixando no seu rastro um cheiro ruim. a tsunami da corrupção petista segue em frente levando as suas vítimas, ou melhor, os seus agentes, e vai deixando a praia cada vez mais deserta. o Brasil está ficando seco. toda a água disponível está sendo gasta absurdamente pra apagar este incêndio infindável que o fenômeno Lula ateou às instituições. com a falta de líquido o país emperra. pára de fluir. pelo menos o organismo seco é menos susceptivel a infecções, mas às vezes morre desidratado. o coração seca também, cauterizando as ilusões. o que pelo menos nos protege de paixões inflamadas como a que levou Lula ao poder, uma festa tão bonita, que pena. daqui pra frente pensar melhor no voto, o povo ficando maduro, adulto. resta a esperança de que a corrupção arraigada acabe completamente revelada, desmontada, como uma fratura exposta. porque a gente não agüenta mais. eu, pelo menos, não. e olhem que eu adoro este país... não houve green card nem promessa de primeiro mundo que me tirasse daqui, acabei importando o meu gringo. quem sabe chegamos ao ápice deste tormento... tchau, companheiro Palocci. companheiro meu é que não que eu não compactuo com mentiras.
camarão com gergelim e queijo
ingredientes: 1/2 kg de camarão fresco miudinho aferventado com cebola, meio tomate e sal; 1 tomate fresco com a pele e as sementes; 2 colheres de sopa de cream cheese; 1/2 cebola; 1/2 limão, 2 colheres de sopa de gergelim, sal e páprika doce a gosto, shoyo; um marido apaixonado o quanto baste* modo de fazer: descasque o camarão com cuidado para não deixar nenhum resíduo. suje as mãos caprichando nas cascas enquanto você sente o seu marido se aproximar por trás, sem fazer nenhum ruído. continue descascando o camarão enquanto ele te beija o pescoço, te acaricia as costas, os cabelos - tuas mãos firmes trabalhando - alguma coisa crescendo junto ao teu shorte velho. o volume nas nádegas e as mãos acariciantes te envolvem. você diz: - acho que vou ter que lavar as mãos. mas não tem importância, cheiro de camarão... vocês dois começam a rir. esqueça os camarões meio descascados na pia e vá para o quarto. ligue o ar condicionado, dispa-se apressada, deixe o arroz cozinhando em fogo baixo. língua, cona, pau, gemidos, beijos, em meia hora volte aos camarões cheia de energia. misture o suco de um limão, gergelim, temperos. pique bem picadinhos a cebola e o tomate - com a pele rubra e as sementes molhadinhas - e refogue no shoyo. acrescente o camarão e deixe cozinhar no fogo baixo. acrescente o cream cheese e mexa com a colher de pau até dissolvê-lo completamente no molho. monte os pratos com arroz integral clarinho e sirva num domingo ensolarado. um bom vinho e muito amor acompanham a tarde de gozo. camarão com queijo rima com desejo. com o meu, pelo menos, rimou, e olhe que foi numa segunda-feira.
*caso não tenha este ingrediente disponível acrescente confiança no futuro e amor próprio. se o prato evocar energia suficiente pra acordar o teu desejo, satisfaça-o. nada melhor que explorar os caminhos do teu próprio gozo enquanto você espera por um amor de verdade
vaso ruim
mamãe chegou da praia cambaleante naquele dia. sala perigosa, tapetes persas com pontas enroladas no chão, cerâmicas e bibelôs espalhados... mamãe tropeçou. a acompanhante amparou, mas lá se foi o vaso esmaltado que veio da casa chique de Belo Horizonte, obra feita à mão por um decorador famoso que a mamãe apreciava, pra mim 80 centimetros de cafonice em gomos. joga o vaso fora, eu disse. mas meu irmão, apegado, não quis. esta manhã fui lá colar o vaso com araldite. mistura a cola, encaixa, adere, a forma foi recuperada. mas o trabalho ficou péssimo, cheio de rachaduras e marcas, bom pro lixo. uma alma alquebrada, como a da mamãe. aliás a casa dela espelha bem a decadência da dona: a fórmica dos armários está solta, algumas portas caídas, sem dobradiça. o piso sob a forração está podre, parte das torneiras fora de uso, algumas descargas, quebradas. o sofá, puído. como se uma névoa fosse invadindo, engolindo a vitalidade e vomitando desânimo. esta batalha está perdida. uma força de mulher, uma beleza de apê. vaso ruim quebra. quebra sim.
militante
o problema com estas militâncias todas é o tempo. as listas do ...camente correto nos colocam num estado de carência similar aos gerados pelas penitências medievais para salvação da alma. será que realmente salvam alguma coisa? fui vegetariana por dez anos, quando era difícil pros militantes do verde comer fora de casa. parecia bonito, poupar os animais, alimentar os famintos, proteger a natureza, cuidar da saúde, etc. eu me sentia bem, me exercitava, trabalhava, alto nível energético. moda nova na parada, comecei a correr. foi um deus nos acuda, um tal de lesão que não curava, um cansaço que não passava... paro de correr ou começo a comer? dilema. alguns artigos no jornal diziam que o homem foi feito pra correr. bom. estou correndo. outros afirmavam que a carne faz mal. bom. não estou comendo. mas a mistura não me caiu bem. continuei correndo, deixei o vegetarianismo de lado, porque o tempo é um problema e ninguém sabe o que vai acontecer com certas práticas depois de um prazo de análise suficientemente longo. por um ano ou dois, everything goes, a máquina se sustenta... mas depois... vem daí - eu acho - um dos motivos para os cotidianos desmentidos da imprensa médica. Linda McCartney morreu de câncer e nos chocou a todos. e a cadeia alimentar na natureza é lei. a verdade é que a gente sente culpa, e esta culpa é inoculada e reforçada em nós todo dia. agora mesmo com a ameaça do aquecimento global: nota no jornal de hoje afirma que no próximo século a terra vai estar treze graus mais quente e TODAS as florestas estarão destruídas. será? só o tempo dirá. eles podem dizer qualquer coisa porque provavelmente daqui a cem anos ninguém de nós que lê hoje estará por aqui pra conferir. ou então com a afirmação numa outra nota de que cintura acima de 80 cm (para mulheres) é risco certo, ameaça de obesidade. fui medir a minha, deu 85! (pesquisas afirmam que em geral a cintura aumenta nas menopausadas) e olhem que eu estou bem em forma para uma mulher de cinquenta, corredora e tal. mas já fui me sentindo culpada, suja. a um passo de me tornar consumidora de mais alguma dieta idiota. porque hoje em dia tudo acaba em marketing e ser culpado virou moda, então a gente se priva. se penintencia. se priva de certos alimentos, de certos prazeres... e se sente herói. quando eu era vegetariana eu me sentia superior! vejam, sou capaz de me privar, não como isso, não faço aquilo, sou o máximo. uma justiceira. o problema é que a privação leva ao excesso num ciclo nada virtuoso e a gente fica rodopiando eternamente neste carrossel, à deriva de nossas próprias sensações, jogados pra lá e pra cá pelas tendências vigentes. a única saída para esta situação é o velho bom senso, o calejado caminho do meio, o consumo moderado e lógico que não faz a fortuna de ninguém. sou a favor do ambientalismo local, da conservação da vizinhança, que inclui o nosso próprio corpo. de descobrir pela gente mesmo o que nos faz bem e quais são os limites do bem-estar do outro. eu acho esta propagação de verdades de hoje em dia muito abusiva. é por isso que eu ando optando por ser incorreta. como diria o Alan, nishbar li*.
*hebr. nishbar li - me enchi
Lady (lei de) Murphy
(para Stella Florence)
tá certo. o cara é gatinho, a mulher um sucesso... mas sinceramente assim não dá. eu já passei por isso e sei. não há amor que resista. ou melhor, do meu ponto de vista 20 anos depois, não havia amor e ponto. p o n t o. meu primeiro casamento foi exatamente assim. nos primeiros três meses, um furor. sexo aos montes, muito grito, muito gozo. isto é, pra ele, porque eu, vocês sabem, só gozei muitos anos depois. pra ele principalmente à base de muito mandrix, eram os oitenta. depois foram sete anos de tormento e o sexo, quase nenhum. meu primeiro casamento foi exatamente assim. diferente do casalzinho vinte, ele me traia. e como não ganhava dinheiro, eu tinha que pagar a conta do motel - no resumo do cartão de crédito - pra não prejudicar a contabilidade da firma. diferente do casalzinho da mídia, não tivemos filhos. por um lado foi bom, me livrei dele de vez e não precisei (nunca mais) compartilhar o fio dental. por outro, acabei sem... a childless woman. não deu mais. mas no divórcio, eu garanto, não sofri. só senti alívio. vesti uma roupa nova e fui ao cinema, primeiro de maio de oitenta e cinco. não era pra menos, depois de eu ter passado 2 anos repetidamente assassinando o amor antes do golpe final: - fora daqui já, senão vou trocar a fechadura! ele foi. me encontrei com ele no fim do ano passado, 26 anos exatos depois do nosso casamento. ele fazia 50, a mãe me convidou. arrependidos os dois - ele das traições e mentiras, ela das maldadezinhas mesquinhas de sogra - me homenagearam na hora do bolo. vai ver sentiram falta foi do prazer que poderiam ter tido caso o relacionamento tivesse se salvado. caso ainda me tivessem na família como alternativa. quanto a mim me salvei do atoleiro e não me arrependo. eu gostei. e perdoei. ainda bati com a cabeça mas fui aprendendo aos poucos e hoje, sábado, depois de um gozo daqueles, com um novo marido que nem é assim tão novo nem tão recente, afirmo: não é uma questão de sexo. é uma questão de integridade humana, e de amor. um amor adulto que se expressa (também) através do sexo. porque sem isso não dá. e não há Lady (lei de) Murphy* que resista a um amor de verdade.
* o trocadilho não é meu, mas da Stella, em "O Diabo que te Carregue" - Rocco, 2006
à espera de um milagre
tendo sido rejeitada e fazendo muita fé no meu livro já estou especulando a possibilidade de autopublicar. então andei conversando com outros autores na mesma situação pra saber o que é que rola. um deles, poeta simpático de Beagá, me escreveu: - a editora é ótima, a produção bem cuidada, agora, o tempo todo você está por sua própria conta. como eu não tenho pique pra batalhar venda, fico à espera de um milagre. à espera de um milagre estamos todos. no país, à espera de que Palocci se prove honesto. no estado, à espera de que Rosinha se reconheça uma fraude. na cidade, à espera de que a violência urbana se esgote por si. ou pelo menos, de que o calor arrefeça. aqui em casa, à espera de que o dinheiro apareça. o milagre da popularidade todo escritor espera. e ser impresso por uma grande empresa não é a condição sine qua. eu já experimentei uma destas e o livro não emplacou, nos meus esotéricos tempos de Madras. tenho uma certa experiência em milagres. dizem por aí que o que conta mesmo é reconhecê-los, pois eles certamente acontecem. no meu caso reconheci o milagre do amor, do fato que a alma gêmea - ou seja lá que nome se der pra um companheirismo um pouco mais que bom - realmente existe. a vida inteira convivi com esta impressão de que um grande amor me aguardava, e que quando viesse, mudaria a minha vida. pode ser não mais que ilusão romântica, educação de mocinha em Minas, mas acabou vindo, e no bojo deste milagre o da literatura... sai da aventura com um companheiro e um livro. já que um está dando certo, tenho esperanças de que o outro também... e que a minha mudança possa ser completa. vou ser escritora. e vou ter sucesso. escritora, bem, acho que já sou... por via das dúvidas e pra convencer a todos passo os meus dias escrevendo... e pelo menos aqui no blog, publico.
expulsa
dizem que da terceira vez é pra valer. pois ontem, pela terceira, mamãe me expulsou de casa. sei que ela está doente, quase inconsciente, blablablá, blablablá. mas não adianta. dói. vou visitá-la toda sexta-feira porque eu sou assim: uma mulher de hábitos. quanto à mamãe estou sempre com este mix de culpa e amor atravessado na garganta. chego lá, oi mãe, que que há de novo? saiu hoje de manhã? e ela muda. nunca abre a boca nem pra oi enquanto eu fico lá religiosamente 2 horas toda sexta conversando com a acompanhante, às vezes vendo tv. às vezes muda, também, porque este exercício de falar amenidades me cansa. gostaria de tomar uma decisão: não faz diferença mesmo, não vou mais, vou parar de me atormentar. mas sexta vai sexta vem estou lá batendo ponto na minha depressão, nesta certeza de que mamãe nunca gostou de mim, quem sabe na esperança vã de que num breve instante, antes que se apague completamente, ela ainda me prove que eu estou enganada. porque uma vida inteira de convivência não foi suficiente para desfazer esta impressão. da primeira vez eu tinha vinte e quatro. andava contente comigo mesma, formada em arquitetura, escritório próprio e namorando um pintor famoso. ensaiava alugar um apê e sair daquela casa de vez, me sentindo inteira depois de anos de luto pela morte do meu pai. mas havia um problema, é claro. comigo sempre tem um problema. o tal pintor era árabe, e 20 anos mais velho. começamos a namorar na casa dele de Teresópolis. cheguei lá pra visitar com duas amigas e acabei ficando por três dias, romanticamente com a roupa do corpo e sem escova de dentes. eu gostava de transar com ele, gostava das horas calmas no atelier, ele pintando, eu observando. porque tinha isso: ele fazia questão de ser observado. e se levantava imediatamente depois do gozo pra se limpar, o que eu achava bastante esquisito - mas agora com mais de cinquenta às vezes faço. enjoamos ao mesmo tempo, eu querendo movimento, ele me trocando por uma mais jovem, mas antes disso mamãe descobriu que a gente transava ali perto, na casa de uma amiga que nos emprestava um quarto. foi puta pra cá, vagabunda pra lá, roupas jogadas pra fora do armário, some daqui, você não é mais filha, etc, etc. fui. sai pela porta da frente e levei outros vinte e quatro pra voltar... ...acabada, destruída, depois do meu divórcio de Brasília. mamãe sempre teve esta mania de maldições. pode ser que do ponto de vista dela isso era amor, preocupação. mas do meu sempre foi falta de sensibilidade, mania de controle. ela sempre quis ser minha amiga, então quando perdi (finalmente) a virgindade num fusca aos vinte e três contei pra ela, toda feliz, o parceiro era lindo e eu não agüentava mais o cabaço... mas ela só pôde: você está louca! porque foi fazer isso? uma coisa que você não vai praticar!!!???!!! ih, acho que já contei isso, vai ver que uma vez não foi suficiente pro desabafo. a questão é que a frase colou em mim e eu fui infeliz no amor até há pouco tempo, quando encontrei o Alan. meu marido em Brasília me disse: sai. não te quero mais. nossa, que crueza. meu apê alugado, voltei aos pedaços pra casa da mamãe, que também não me quis... me botou pra fora de novo mas desta vez eu não fui. chorei. chorei bastante e acabei ficando, a doença avançando. eu seria desonesta se dissesse que ela nunca demonstrou me apreciar. no seu último ano de lúcida, quando ela teve a herpes e eu incansavelmente cuidei dela, ela agradeceu. não fosse você aqui comigo, eu teria morrido. e agora de novo, pela terceira: vai embora, você está me incomodando. pode ser que ela tenha descoberto que eu escrevi desejando a morte dela...(paranóia) o que eu quero mesmo é que ela morra ainda com um resto de consciência... poupá-la de um sofrimento inevitável... sei lá. não gosto dela. mas a amo profundamente e este amor ainda hoje domina a minha vida, para o bem ou para o mal. e ainda por cima me sinto culpada porque ela anda me ajudando financeiramente sem saber. dizem que para uma mãe o filho nunca deixa de ser criança. mas eu desconfio que para um filho a mãe nunca deixa de ser... a MÃE. o que eu mais lamento é não ser capaz de fazer para a minha um discurso bonitinho, carregado de bons sentimentos, como muitos que eu escuto por aí. ainda sinto raiva, ainda sinto mágoa. que formas estranhas pode assumir o amor...
to be or...
por duas vezes nos últimos dias me deparei com uma descrição de Hamlet como a quintessência da indecisão. não sendo uma estudiosa de Shakespeare minha posição a respeito é mera opinião de espectadora teatral, mas indeciso... não sei. esta definição me incomodou. perguntei pro Alan, que como vocês sabem é professor de literatura inglesa e ah! indeciso também. fiquei sabendo que realmente existe esta visão de Hamlet como, digamos assim, um cartoon da indecisão (ênfase dele). mas para mim, o "to be or not to be" foi sempre o resumo da profundidade, da capacidade humana de refletir, de ponderar sobre a própria condição. Hamlet é o símbolo do contraste entre a ação planejada e a simples reação, entre guerreiro e guerrilheiro, entre o intelectual e o animal em nós. talvez no mundo de hoje uma atitude como esta de esperar, debater consigo mesmo, amadurecer, possa ser confundida com indecisão: vivemos na era do fast thought*, um perigo se levarmos em conta a tendência dente por dente que anda por aí nos atos fundamentalistas. um paradoxo, se levarmos em conta o amplo espectro de conhecimento humano civilizado à nossa disposição em qualquer google. uma visão simplista das questões que nos afetam não deveria nos bastar... acho então que acabei de descobrir qual deveria ser o próximo passo pra gente começar - ou continuar - a mudar o mundo: readquirir o hábito da reflexão, de exercer o espírito crítico, de não simplesmente acreditar em tudo que a gente ouve ou vê, mas de acrescentar a isso o amplo espectro de conhecimento humano que a gente traz acumulado no DNA. to be or learn to be, that's the action!**
*pensamento instantâneo **ser ou aprender a ser, eis a ação
quero ver sangue
tenho lido bastante ultimamente, querendo descobrir o que há por trás dos critérios seletivos das editoras. encontro muita coisa bonitinha, enfeitada com alguma criatividade original, o formato tradicional levemente transgredido, algum humor. mas alguma coisa anda muito errada e acabei de descobrir o que é: eu quero ver sangue! não sou exatamente uma autora jovem. quer dizer, em última instância eu já não sou jovem de jeito nenhum, mas o fogo dentro de mim não se apaga. minha prosa, que pode até ser poética, acredito que quanto à forma seja assim mesmo: formal. mas gosto de pensar que o conteúdo é capaz de provocar terremoto. eu escrevo sobre a minha verdade e a minha verdade não é bonitinha nem redondinha. não rima, nem deixa de rimar. acontece. não tenta ser original. explode. quanto eu tinha trinta e ilusões eu já era assim: passional. tudo na minha vida é muito, mas meu português é apenas bom. eu exagero na dose do assunto mas é tudo real. não é este exagero forçado, quero parecer escandalosa. não quero. quero parecer capaz. correta. talentosa. morninha? JAMAIS. eu escrevo sobre a minha verdadeira vida, não os pequenos fatos, os quartos visitados, mas a vida de verdade que acontece na minha mente. minha versão das coisas. meu português é bom mas mesmo assim faço concessão à linguagem das ruas. porque na literatura sou meu próprio reality show, que eu dirijo como quiser. e eu gosto mesmo é de sangue. se eu abro as pernas é pra gozar, não pra ceder. eu gosto é de furacão, de paixão rasgada, de me arrebentar. me entrego. hoje em dia estou na meia idade, corpinho mais seco. mas dentro de mim o fogo não se apaga. dei sorte de encontrar um depósito de lenha... porque tenho gás encanado mas adoro uma fogueira crepitando, e na minha maturidade encontrei um fogo igual. a gente arde. a gente goza cotidianamente e não abre. depois registra, e se vocês quiserem ler, a gente publica.
Cara Cora
você lamenta a atitude da Anita "Body Shop" Roddick ao vender a companhia para a L'Óreal, aparentemente a vilã dos maus tratos a animais, e a qualifica como hipócrita por pretender auferir lucro com seu idealismo. acho que a gente precisa aqui parar de se iludir, de acreditar na imagem pública das organizações. eu também admiro a Anita e acredito que tenha chegado para ela a hora de seguir adiante, de parar de se preocupar com as miudezas da vida de empresária. li que ela será consultora da L'Óreal, que neste caso terá interesse em manter a imagem da Body Shop, senão pra quê investir neste segmento? analisando por um outro lado, digamos que esta venda significa uma vitória da filosofia ambientalista. já as grandes organizações eco-ativistas que a gente costuma admirar (eu não mais) não desconhecem a hipocrisia. elas tem em comum um interesse: dinheiro. não se iluda, Cora. não se iluda, Millôr. hoje em dia tudo acaba em business. o que mais, além de muito dinheiro rolando, poderia explicar e justificar a estrutura milionária que sustenta os Greenpeaces da vida? você mesma, uma pessoa que parece honestíssima, totalmente consciente e amiga dos animais confessou usar Lancôme, porque cá entre nós, é mesmo bom, e vai ver que você nem sabia que pertencia à L'Óreal. by the way nem eu. mas será que você jogou fora aquele creminho depois do alerta? para tudo acho que é preciso encontrar a medida do bom senso. sou da paz, mais ainda do amor, mas não quero mais ser enganada. faz parte de ser consciente hoje em dia saber que quase tudo que vemos e ouvimos nada mais é que informação maquiada, manipulada. mais do que ninguém você que está na mídia, apesar de soar (e acredito, de ser) sincera e bem-intencionada, deve saber disso. o confessional está na moda, eu mesma o pratico cotidianamente, mas até onde arriscamos ir? até onde publicamos a nossa verdade, seja sucesso ou fracasso? é uma questão que tem me ocupado. o fracasso, apesar de não ter mérito, talvez leve a uma sinceridade, a uma abertura maior, porque as pessoas de sucesso tem um compromisso consigo mesmas e com o mercado que as sustenta... então não adianta, nossa realidade é basicamente viciosa. para permitir às pessoas de bem a abertura total, a falta total de hipocrisia, o total desapêgo dos resultados materiais, faz-se necessária uma profunda mudança estrutural na sociedade em que vivemos. topa começar? grande abraço, Noga Sklar
confissões viróticas
semana passada me peguei pensando no sucesso da Raquel na bienal. eu sei que a inveja é uma merda, mas confesso, andei me roendo. ela tem hoje tudo que eu gostaria de ter e ainda pretende influenciar a qualidade erótica dos casais, campo a que eu também gostaria de me dedicar... ela já está lá com seu recém-lançado audiobook. e apesar de eu desconfiar de que literariamente enquanto ela vem com o milho eu já vou com a pipoca ela está no top e eu acabei de ser recusada pela Rocco, porque segundo eles o público não aceita o formato diálogo pela internet – um formato que hoje em dia faz parte do cotidiano de qualquer um. enquanto eu me envolvia, ou melhor, me envenenava com estes pensamentos nada nobres, o castigo quase chegou: recebi por email um convite para entrar na comunidade da Raquel no orkut. sorri interiormente da coincidência e... ops! quase cliquei no link... mas vi a tempo que era vírus, um ponto exe destes. portanto, gente, cuidado com o vírus Raquel. aliás, tenho certeza de que com este a Bruna não tem nada a ver. escapei dele mas não do outro que me derrubou e me mantém no estaleiro até hoje, já lá se vão 5 dias inteirinhos... vai ver que foi a depressãozinha que me bateu com a recusa, pois a minha esperança na editorazona era grande, alimentada pela apreciação do editor que me leu: ele me aprovou mas mesmo assim não deu, dona Vivian não me quis. bola pra frente depois desta gripe, a segunda só este ano... pelo menos dei sorte na Record e não me jogaram na lista de espera. o prazo estimado para a resposta é de 3 a 6 meses devido ao acúmulo de originais, eta país intelectual este nosso! tem mais escritor tentando a sorte que jogador de futebol, contra todas as expectativas! aproveitando que eu já estava pra baixo mesmo - e vendo o mundo através de uma névoa mais espessa do que esta que se levantou do mar hoje de manhã - fui levar a mamãe no psiquiatra. conversa daqui, testa dali, um debate rápido sobre as novidades da indústria de drogas (não vale a pena fazer nossos doentes de cobaia), ele me oferece um tête-à-tête pra me esclarecer sobre os caminhos da doença. eu sou curta e grossa, chocando até a mim mesma: “doutor, quando é que ela vai m o r r e r?” porque dentro de mim é esta a pergunta que não quer calar e não tive medo de confessar, não ando com ânimo para hipocrisias. segundo ele o sofrimento dela está prestes a terminar – quando a consciência acabar de se apagar - agora o meu... ele não faz idéia... a doença costuma levar de 10 a 12 anos... pelo menos desabafei, me expressei. reação diferente tem a minha cunhada que encara a decadência da sogra como coisa natural, algo assim como a queda do preço da laranja na feira quando chega a safra, descrevendo como em breve ela vai precisar de fisioterapia, cadeira de rodas, alimentação por tubo... gente, desculpe, eu acho tudo isso de um terror que não dá pra encarar. não tem nada de politicamente correto em desejar a morte da mãe, mas eu desejo a da minha. e se rezo todo dia por alguma coisa é pra que o fim deste tormento chegue na nossa casa antes do aparato hospitalar. estou fúnebre demais hoje, mas ontem, depois dos dias de cão - vírus, rocco, psi - olhei pro Alan ali na cama ao meu lado e me encantei. eu com uma cara péssima, com a respiração bloqueada, enjoada e tossindo sem parar e este homem ainda tem tesão por mim, pode? transamos e eu ri muito, dancei, cantei, tudo enquanto a gente transava, antes do gozo. derrubei de vez o mito de que riso corta tesão, um mito que até o Alan cultivava. corta nada. depois de ter experimentado várias vezes o riso no beijo inventei na nossa cama o riso na transa, bom demais. outro mito derrubado é o de que não se pode namorar com gripe... o mundo pode estar caindo em volta de mim que eu não deixo de me espantar com esta intimidade gostosa entre nós. e por falar em mundo que cai quero last but not least escrever sobre aquele outro vírus que tem assolado a nossa existência: a mídia do medo. o Greenpeace declarou no Globo desta manhã que 90% das espécies de peixes que conhecemos já foram dizimadas. gente!!! 90%??? será que eles não estão exagerando não? vai ver que é porque eles conhecem poucas espécies de peixe, não? ando com um pé atrás com este pessoal e depois do Michael Crichton não dou nadinha pra eles, nem minha doação, nem minha crença no catastrofismo deles. mesmo porque na mesma página uma matéria tão grande quanto afirma que no ritmo que a coisa vai, o Brasil vai levar OITOCENTOS anos para mapear a biodiversidade! vai ver que 90% das espécies de peixe que existem ainda não foram mapeadas e eles nem sabem...
amor e casamento
volta e meia fazem sucesso na midia testemunhos de mulheres a respeito da dificuldade de se encontrar o amor no casamento. ou de se encontrar o amor, ponto. livros, palestras, debates, se empenham em condenar esta tradicional forma humana de socializar e garantir a sobrevivência da espécie. sei que o casamento já foi o celeiro da exploração feminina, da subserviência. eu mesma, da geração de 50, fui educada pra casar e passei a vida combatendo o que, para mim, era uma condenação: a idéia de que só casando a mulher poderia encontrar a felicidade e a realização. neguei, lutei contra isso, convencida do absurdo que me havia sido imposto, mas agora que estou num casamento bom reconheço o valor que tem, me vejo transformada a cada dia pelo fato de ter um amor em minha vida. e a convivência, o partilhar cotidiano tem um papel importante na intimidade, fator fundamental para o bem-estar de um casal que só agora eu experimento. então lamento, amigas. só posso afirmar que casar é bom. de preferência morando junto, porque esta história que eu já advoguei de cada um na sua casa é balela pura. e me desculpem as feministas e independentistas de plantão, só reclama do amor quem não tem um de verdade, e casamento bom é raro, eu sei. não é a instituição que não dá certo... são as pessoas que não vem dando certo em sua busca de par. mesmo depois que a gente acerta no parceiro resta um longo caminho pra trilhar na busca do equilíbrio, da satisfação, um caminho que demanda paciência, compreensão e claro, muito amor. por bastante tempo depois que encontrei o Alan - com aquele deslumbramento todo - penei. às vezes peno ainda mas pra mim tem valido a pena; não existe comparação possível entre o antes e o depois na minha vida. no epílogo dos Diários contei as dificuldades, mas acabei cortando o material por necessidades editoriais. um pequeno trecho, no entanto, faço questão de não perder e por isso transcrevo aqui: "...finalmente quando consegui me levantar me vesti e sai pra caminhar. Cruzei a ponte pênsil como sempre fazia, com planos de chegar até a praia em Anastasia. Na metade do caminho, no descampado onde eu costumava observar os golfinhos, vi uma coisa diferente no meio do mato: três gladíolos brancos se destacavam, perdidos na grama alta permeada de ervas daninhas. Lindos. Com certeza não estavam ali ontem. Fiquei pensando se alguém teria se dado ao trabalho de plantar gladíolos naquele terreno baldio e decidi pegar as flores, levar pra casa comigo. Durante todo o trajeto de volta lhes senti o caule junto às minhas costas por dentro do shorte. Dava pra ficar tonta com o perfume doce que emanava delas. No Brasil, os gladíolos são chamados de Palmas de Santa Rita - dedicados a Santa Rita de Cássia - porque se parecem com o galho seco que floriu por milagre quando a santa se recolheu ao convento de Santo Agostinho na Itália. É claro que eu não sabia de nada disso, ainda mais sendo judia sem nenhuma cultura cristã; só sei que o nome brasileiro da flor ficou martelando na minha cabeça até que cheguei em casa e fui pesquisar Santa Rita no Google, pra descobrir que ela era a padroeira das esposas de maridos violentos... E o 22 de maio era o dia dela... Fiquei tocada com a história e planejei voltar à praia no domingo para uma oferenda à santa. Foi assim que hoje de manhã o aspecto mágico da vida se reconciliou comigo. Não deu pra considerar como coincidências a minha identificação com Santa Rita, o meu conflito recente com o Edward e as palmas brancas florescendo na minha mesa. Me senti protegida, abençoada, envolvida num contexto especial, único. Decidi que meu lugar era junto do Edward, e que não me faltaria força para domá-lo nos momentos de cólera usando o meu amor, a minha compreensão. Fizemos planos de visitar a família no Rio para o bar-mitzvá do meu sobrinho e eu tive a sensação vaga de que ali saberíamos o que fazer para nos manter unidos, para manter este amor profundo, a intimidade, a nossa história agora muito real, este precioso compromisso com a felicidade." é isto. até devota de santa rita eu virei tentando acertar no amor. os fins justificam os meios, não? pelo menos até agora, tenho usufruido de um final feliz e não acho que a expectativa do amor romântico seja falsa, ou que o casamento esteja falido. pelo contrário, acho que foi um ganho, uma vitória da mulher acrescentar amor à ideia antiga de compromisso baseada apenas na união de interesses e na preservação da família. o ser humano é por natureza social e seu sucesso como espécie baseado na convivência com o outro. somos capazes de amor, porque não praticar? acho que basta de tentar transformar em teoria universal os nossos fracassos. eu mesma já fiz muito isso. hoje em dia prefiro reconhecer as limitações, sem jamais aceitá-las como definitivas, e é assim que eu me vejo: uma mulher que erra e acerta sem desistir de tornar-se ilimitada. mesmo que nunca passe de um sonho...
swing
domingo, dia de ler jornal e comentar as notas, principalmente quando está (graças a deus) menos quente e meio chuvoso. não costumo ler colunas de conselho sentimental mas desta vez a do Alberto Goldin na revista do Globo me pegou pelo tema: swing, da fantasia à tentativa. acho que agora depois de Dina Z ninguém mais pode me acusar de caretice. pratico muito sexo e ainda escrevo e descrevo com todas as letras o assunto, mas sou do tempo em que amor e sexo andavam próximos, quando não juntos, e não endosso de jeito nenhum esta tentativa moderna de aumentar o gozo com brinquedinhos e abusosinhos da maior e mais antiga fonte de prazer humano. reginas à parte o sexo pra mim é da competência do amor e pronto. meu corpo não é computador pra ficar agregando periféricos cada vez mais ousados e meu plugue de carne só aceita pino exclusivo e do mesmo material: de carne, com sangue circulando e muitos nervos. e uma cabeça pensante e sensível do lado de cima. tratar o sexo como objeto de consumo, o que também se estende à recente valorização na midia das "profissionais" do sexo, eu acho que combina com este vício de só ver no mundo o que há de pior, com o hábito de reclamar o tempo todo das misérias, dos males da civilização, da mediocridade, da destruição global, da falta de tudo. é um pacote só, patético e maniqueísta, de uma idiotice que leva invariavelmente a um tédio depressivo, a uma incapacidade crônica de apreciar a riqueza de estar vivo. uma doença. o que me leva às páginas seguintes da revista que por sua vez me transportam às páginas viradas do meu passado, à Síndrome de Brokeback Mountain: mulheres que se relacionam com gays. gente, eu já estive lá. dez anos da minha vida eu passei lá. não sei da parte deles o que se passa, não justifico nem critico, só sei de mim e da dor que eu tive, do meu vício, do meu sofrimento auto-inflingido. eu evito falar sobre isso devido à delicadeza do assunto, e porque não dizer, com vergonha da minha burrice. ontem este meu ex veio almoçar aqui e trouxe junto a carga de negativismo e desprezo que o cerca. já achei engraçada, charmosa mesmo esta mania de criticar tudo e todos, mas agora estou em outra e foi o amor que me levou a isso. discutimos sobre deus, sobre sexo, sobre amor também e eu pude ver a diferença entre o Alan e ele, entre meu eu de 20 anos atrás e meu eu hoje. pude perceber a que ponto o amar e ser amada me transformou. pude sentir a força que me dá a prática cotidiana do sexo com amor e encarei de frente este meu caso do passado. fui. sei que sexo com amor e amor com sexo são raros no mundo de hoje; nem por isso acho que a gente deve derivar para pobres substitutos. mesmo que a gente esteja só sobra sempre o amor por si mesmo, o prazer da nossa própria companhia, o aprofundar-se no pensamento, num bom livro, num bom filme. e porque não dizer, um orgasmo gostoso sob a nossa própria mão, bem mais excitante do que lançar-se em aventuras vazias que acabam levando a isso mesmo: ao vazio. não tenho medo de parecer careta. adoro brilhantes mas não uso zircônia cúbica nem morta... prefiro usar prata e com o amor é igual. uma jóia preciosa que se a gente puder, banca. enquanto não acontece existem muitos outros meios de se viver o prazer de ser humano. não se enganem com estes jogos de amor moderninhos: a embalagem pode ser uma graça, mas acreditem, na maioria das vezes a caixa não traz nada dentro. pra fechar, uma pérola do Alan, encarando o ceticismo ácido do meu boyfriend: o sexo sem amor é uma caricatura triste. e dane-se quem me achar retrógrada e politicamente incorreta.
escrever é fácil
difícil é encontrar um tema palpitante, uma forma ousada, capazes de atravessar o deserto de novos autores para aportar no oásis de uma grande editora. esta travessia eu pretendo fazer, espero ter talento suficiente. sou do tempo em que a gente aprendia português na escola mesmo. já nos bancos do Colégio Estadual de Minas Gerais eu era considerada cobra em redação, mas por razões que hoje me escapam acabei optando pela arquitetura, sendo péssima desenhista. naquela época não se aceitava erro de gramática não. era bomba direto. hoje em dia confesso alguma insegurança - depois desta última reforma ortográfica que eu já não tive paciência de conferir - mas o Aurelião está aí pra isso mesmo. agora, concordância de verbo e sujeito é o básico, qualquer jornalista pratica. todos os dias leio o Globo e a redação flui fácil, nada incomoda, ritmo bom. até as cartas dos leitores passam incólumes, por isso afirmo: escrever é fácil. isso não parece no entanto ser verdade para autores novíssimos que aproveitam a possibilidade da auto-publicação e já vão se julgando best-sellers antes dos vinte e cinco. meninas, eu li um deles, que não cito por enquanto por solidariedade, mesmo porque eu garanto, não vale a pena lê-lo. mas se um dia ele cair aqui por acaso e a carapuça servir, aí vai o meu conselho. que por sinal serve pra qualquer novato e até pra mim mesma, beabá de qualquer escritor: antes de mais nada, aprendam português.
ciência moderna
como se não bastasse a tragédia das aves vítimas deste tal de HNI5 resolveram agora pegar pesado com os gatos. coitadinha da Cora, já pode ir preparando o luto. vai ver que é o começo de uma disfarçada caça às bruxas porque bruxa sem gato, onde já se viu, só eu, bem, mais ou menos. quando morei em Pirenópolis na casa da Elsa tive gato, não um, dois. e um deles doente com desinteria, nem por isso acreditei que deveria eliminar o pobre. chamei o veterinário e ainda me lembro do meu apuro pra dar o remédio. pra falar a verdade, um gato certa vez me salvou a vida... em Columbine (Colorado), antes do massacre, num workshop de xamanismo. eu estava prestes a sofrer um ataque energético quando o gato da minha mestra adentrou o quarto num escândalo, prevenindo o desastre, um alívio. (naquela época eu era assim, supersticiosa) não dá pra negar o valor do avanço científico dos últimos anos, mas a gente sabe que o interesse econômico polui tudo. é um tal de tira e põe de verdades na mídia laica que deixa qualquer um doido. mas não fica triste, Cora. pelo menos ficamos sabendo no The Guardian de ontem que o sol não faz mal, faz até bem. pra falar a verdade é essencial para a produção de vitamina D - uma prioridade - e dos cânceres que a gente acreditava provocados por ele 95% eram benignos mesmo, quer dizer, não poderiam sequer ser chamados de câncer. imagine o tamanho do lucro dos fabricantes de filtro solar... só nos resta muita cautela, muita análise racional em cima destes alarmismos todos, vide o aquecimento global, que hoax*. e muito cuidado com a internet pra não cair em ridículos como o tal do Dia do Pulo, confiram aí ao lado nos antilinks.
*ing. hoax - trote, alarme falso, boato mal intencionado
Dia da Mulher
verdade que eu já escrevi sobre este assunto antes, no dia 3. mas com esta midia toda e mais as amigas mandando mensagens com rosas e tal fiquei pensando no que é que eu gostaria de dizer sobre a mulher neste dia de hoje. ou quem sabe não dizer nada, ou ainda nomear um dia qualquer pra ser Dia do Homem porque a humanidade deixa metade pra cada um e mulher sem homem... bem, é tão ruim quanto homem sem mulher. na verdade eu estava sem assunto, mas ontem à noite o Alan pegou o saco de argila e foi pra sala enquanto eu via um filme alemão na tv sobre as dificuldades do orgasmo no despontar da vida sexual feminina, filme curiosamente igualzinho a um outro americano que eu tinha visto antes, será que o orgasmo feminino é assim tão sem imaginação que nem dá pra dois filmes? o Alan ficou lá umas 3 horas e eu no quarto pensando: - acho que desta vez ele está fazendo uma escultura de mulher. dormi. no meio da noite me levanto com aqueles já clássicos suores e vou até a sala, vejo em cima da mesa uma tenda feita de perfex molhado. levanto a pontinha pra ver e bingo! um torso de mulher, isso é, todo jeito de mulher, bundinha macia, cintura curva, mas chapada. pescoço longo, mas seio que é bom, nenhum. vai ver que é difícil descrever uma mulher, reproduzir uma mulher de memória sem mulher nenhuma pra olhar... então veio o dia eu trabalhando como de hábito, cozinhei, almocei e nada de inspiração pra um novo post, que diabo de dia especial é este? retomo a revisão do meu livro. em alguns momentos chego a pensar nossa, quanto erro, acho que não emplaca não, mas de repente parece que virei outra e quando começo a descrever o sexo a cortina cai e um texto maravilhoso modéstia à parte aparece eu sinto, que delícia! que delícia ser mulher e ainda por cima descrever tão bem o que sente uma mulher no momento de ser essencialmente mulher, no alto do gozo do amor... vou pro quarto comentar com o Alan e quando eu chego lá encontro de novo a tenda de perfex que desta vez ele mesmo desvela... os seios! gente, os seios... que maravilha os seios redondos com mamilos saltados torneados perfeitamente no torso onde antes não havia nada agora aquela maravilha e começamos os dois a rir de puro gozo e rimos e rimos... que presente no Dia da Mulher. que poesia... mulher é isso: curvas, sensações, mistério, poema... uma ferramenta que alimenta e excita, convida ao toque e adora ser tocada... uma mulher fica muito mais mulher do lado de um homem. porque no fundo no fundo, com duplo sentido, a mulher é isso: um ser que goza. que delícia ser mulher.
a rede na varanda...
...ou a varanda na rede, ou da arte de fazer o que eu digo mas não o que eu faço. eu jurei que ia ser uma dama, ia ver a entrevista quietinha e não ia comentar nada. não deu. desde que participei há uns 15 anos de uma terapia em grupo conduzida pela Regina Lins que eu estou de olho nela, com ouvidos bem abertos para os absurdos que ela diz com relação ao futuro do amor e do sexo. pra começar que basta um pulo no Aurélio pra ver que androginia não é nada do que ela afirma ser e por mais que bastar-se ou masturbar-se possa trazer deliciosas sensações acredito que nada, nunca, vai substituir a relação a dois baseada na diferença e na complementaridade, que é a antítese de androginia, a conferir:
andrógino [Do gr. andrógynos, pelo lat. androgynu.] Adjetivo. 1.Biol. V. hermafrodito (1). 2.P. ext. De aparência ou modos indefinidos, entre masculino e feminino, ou que tem traços marcantes do sexo oposto ao seu
e eu lá quero ser indefinida? ou arrombada no sexo grupal? fazer o que com meia dúzia de paus eretos à minha disposição se mal dou conta de um? sou a favor da clareza, da explicitação poética, do compartilhar de experiências eróticas no campo das idéias, mas no meu corpinho não. meu corpinho não quer saber desta patética mecanização do estímulo sexual não. só quer saber de uma intimidade gostosa e docemente temperada de muito amor, porque depois de muita desventura acabei descobrindo o que é mesmo bom. a figura legal do casamento pode até estar em cheque, mas nunca o casamento verdadeiro entre o homem e a mulher, o hierosgamos por excelência. mesmo que um dia esta interação se torne irrelevante para a sobrevivência da humanidade o prazer dela permanecerá, a qualidade do estímulo erótico intersexual dificilmente será superada. mesmo que a gente descubra que se trata de nada mais do que uma inundação de prolactina*... bem, eu pelo menos não estarei aqui pra ver o gozo concentrado numa pílula de hormônio. e se estiver não endosso. quanto a estas teorias sobre casamento aberto, poligamia, etc, declaro ter encontrado um parceiro que apesar de não me satisfazer em tudo, na cama não me deixa desejar nada mais. a gente se encaixa e se completa e pronto. eu sei que dei sorte. sei que isto é dificil de acontecer e é por isso que muita gente por aí fica advogando estes paliativos, como o próprio som da palavra sugere, pálidos. digamos que o sexo sem amor é uma carroça de boi e o seu primo rico, o com amor, uma ferrari na fórmula um correndo em direção ao gozo. que alegria para nós mulheres ter amor adicionado ao que há poucos anos parecia ser uma triste e invasiva obrigação... e tem gente querendo estragar a festa! o que me lembra a impossível afirmação de que o orgasmo feminino só apareceu quando se começou a falar em orgasmo feminino???!!!??? puro nonsense esta entrevista. quer dizer que a anatomia feminina mudou? que o pênis ereto roçando na vagina úmida antigamente não provocava espasmos involuntários espalhando ondas de calor pelo corpo??? que o orgasmo não é a estratégia máxima da natureza pra incentivar a reprodução da espécie e facilitar o trânsito do espermatozóide em direção ao óvulo? (em outras palavras: antigo como o homo sapiens e talvez até mais?) pra completar o desastre ficamos sabendo que a rainha do sexo aberto está casadinha com o co-autor do seu último livro, modestamente intitulado "O Livro de Ouro do Sexo", um casamento recatadamente descrito como "bom" (risinhos nervosos). deus me livre deste sexo de ouro. prefiro o meu, de carninha cor de rosa intumescida mesmo.
* Está na “Biological Psychology”: o orgasmo numa relação sexual dá 400% a mais de prazer que na masturbação. Suíços e britânicos concluíram isso após descobrir que a relação sexual aumenta em 400% o nível de prolactina no sangue. Porém, o mesmo não ocorre na masturbação. O hormônio prolactina é essencial para o prazer. O Globo - 05/03/2006
oito de março
vem aí o Dia da Mulher, uma homenagem internacional a este ser inquieto, monumental, misterioso e mutante. e normal, comum, mais ou menos 50% da humanidade, essencial - por enquanto - à sobrevivência da espécie. é o tema dominante no jornal de hoje. ontem à noite vi o candidato ao Oscar "Terra Fria", e põe fria nisso, o relato chocante do nascimento do conceito de assédio sexual. não pude deixar de pensar que alguns poucos anos depois estou aqui com essa pretensão de publicar um relato cru dos gozos sexuais, um dos poucos jamais escritos por uma mulher, apesar de não o único. me peguei duvidando: é uma conquista, uma ousadia, ou uma vergonhosa e dispensável incursão de mulherzinha num assunto predominantemente masculino? por falar em mulherzinha, é este o assunto da Martha Medeiros no Globo de hoje: mulherzinha imatura, dependente, vaidosa e futil, espécie em extinção graças a deus, desembocando na mulher liberada do século 21, que é o que eu pretendo ser. posso me encaixar se quiser nos vários estereótipos pós-feministas, sou independente, ousada, trabalhadora, sexualmente liberada. educada pra casar virgem e ser recatada, dei nisso: escritora erótica. mas dentro de mim a romântica não morreu, apenas oscila entre sonhos de paixão e pesadelos de abandono. gosto de ser amada e isso pra mim é uma grande conquista; até hoje procuro dentro e fora de mim uma forma mais feminina de viver, de mergulhar na minha própria essencia, de fazer valer o meu desejo da forma que ele vem. acho que a mulher ainda não se equilibrou, apenas jogou a gangorra pro extremo oposto. já me senti muito "macho" nos meus tempos de empresária, me sinto responsável pela sobrevivência econômica da família, não me entrego e não peço ajuda pra ninguém. mas, sinceramente? não gosto disso. continuo em busca de um jeito mais feminino e pra encontrar o orgasmo tive que me desarmar. gostaria de ser mais soft mas rejeito certos exageros da ditadura da aparência tipo botoxes e silicones. ainda vou conseguir acabar mansa e limitar a ferocidade à literatura, numa exploração teórica da falta de limites. no cotidiano gosto de cozinhar, manter a casa em ordem, cuidar do bem estar do maridinho. na cama gosto mesmo é de papai e mamãe, de ficar por baixo... diretamente embaixo da cornucópia só recebendo os lucros... sem precisar ir à luta, cansada de lutar. não uso lingerie erótica e detesto brinquedinho pornô. como mulher da geração de 50 fui criada pra uma coisa e acabei em outra. me formei em arquitetura e acabei nas letras. confesso meus momentos de franca confusão mas sigo em frente sem abrir mão do meu desejo. minha dificuldade financeira credito a essa dubiedade, criada pra ser sustentada e vivendo pra sustentar, educada pra ser dependente mas reagindo com aventuras demais. e no amor então me debati por anos, acreditando no fundo no fundo que alma gêmea existia e na vida real sempre só, ou pelo menos decepcionada. agora que o amor chegou (será que alma gêmea existe? duvido!) aproveito, mas não consigo relaxar, será que é bom dar a ele esta prioridade toda? acho que a mulher moderna é assim: uma contradição constante e por isso mesmo uma grande oportunidade criativa, um ser querendo se recriar a todo instante, acertando aqui, errando ali e aceitando isso, sem deixar de evoluir. é assim que eu me vejo e não tenho vergonha de confessar minhas fraquezas. me ofereço como um espelho à trajetória heróica da mulher e não tenho certeza nenhuma pra declarar, a não ser que homem em casa é bom e eu gosto. parabéns pela homenagem, guerreiras! agora relaxem que esta batalha acabou, tá na hora de arrumar o quarto. acharam este post confuso? está mesmo e é assim mesmo que eu estou. na menopausa eu deveria estar madura, certa do que quero e sabendo o que fazer, mas não rolou... tô pagando pra ver aonde vou parar...
Daqui a 11 anos
já perdi duas boas oportunidades e parece que vou acabar perdendo a terceira também. bem, talvez desta vez não seja tão boa assim. tenho este sonho antigo ainda do meu tempo de esotérica de presenciar um elipse total do sol. todo astrólogo sabe que um eclipse é sempre marcante na vida da pessoa, então imaginei: estar ao vivo sob a influência de um deve marcar mais ainda... tenho esta fantasia constante de que algo virá para virar de cabeça pra baixo a minha rotinazinha, me içar do fundo constante de algum poço para as glórias da abundância. mas apesar de ter tido uma vez a grande coragem do salto quântico, quando conheci o Alan, pareço ainda ser incapaz de fazer do salto um modo de vida e provavelmente vou continuar por aqui quietinha esperando, em vez de ir pra Natal arriscando uma chance de 1 ou 2 por cento de observar o eclipse total do dia 29, principalmente porque o feiticeiro todo poderoso que mora aqui em casa já vaticinou: vai chover. da primeira vez foi o eclipse de 94 em Santa Catarina. pensei, pensei, este era fácil, só 18 horinhas no ônibus, que preguiça, que inéercia... não fui. depois em Aruba, eu quis de novo, mas a grana estava curta, não deu. desta vez, pensei, tá tudo em cima. tenho passagem grátis de milhagem, custo razoável de hotel, marido pra acompanhar e tudo... mas a totalidade vai ser às 5 e meia da manhã, possibilidade de nebulosidade no mar, simplesmente o dia amanhecendo mais tarde sem o contraste da noite ao meio-dia... acho que não vou. vai ver não sou tão fanática assim, ou então acabei acreditando que o máximo de mudança que vou conseguir nesta aventura será um par de dias afastada da rotina. mas no próximo... acabo concluindo que o mais importante mesmo são os planos, que nos levam pra frente. a realização deles na verdade não importa. descubro então este espetacular eclipse no futuro, em 2017, que vai cobrir grande parte do território americano e como o Alan quer, ao meio-dia. hummm, onze loongos anos... e onde será que eu quero estar daqui a 11 anos? vejamos: - se possível, estar ainda casada com o Alan tendo mantido em alta o nosso amor e em baixa as nossas rusgas - famosa, escritora publicada - e de preferência lida - ativa, trabalhando como nunca, uma saramago tardia de saias - saudável, corpinho bom, ainda correndo 2 vezes por semana e trepando com frequência, com pelo menos 3 espasmos - financeiramente independente e sem ansiedade, ah deus, tomara - e last but not least, é claro, com o Alan no Oregon ao meio-dia debaixo de um eclipse sem nuvens derramando uma lagriminha de emoção atrasada: antes tarde do que cedo demais - pra não posar de insensível espero que o mundo esteja em paz e a fome erradicada... no mínimo que os Estados Unidos ainda estejam lá, intactos e poupados pelo terrorismo e pra dar um refresco nesta loonga expectativa, ouvi dizer que em 2010 vai ter unzinho na Patagônia, quem sabe... mas deixa pra lá, que onze* é, este sim, um número mágico, e 4 anos é muito pouco pro tamanho da minha ambição de conseguir finalmente me realizar.
*vira daqui e dali a gente sempre acaba conseguindo um jeito de encaixar um sentido numerológico na vida, mesmo que não faça sentido lógico nenhum.
estado de medo
sempre me recusei a ler estes best-sellers com receita de sucesso, mas um prêmio de jornalismo nos Estados Unidos e o assunto palpitante me fizeram comprar este último Michael Crichton publicado no ano passado, Estado de Medo. descontando os exageros e inverossimilhanças - um dos personagens já "morreu" 3 vezes e sempre acorda, sacode a poeira e segue em frente sem nem trocar de roupa! - o ponto de vista dele sobre o estado de medo em que vivemos é interessante e encontra eco em minha próprias idéias. tenho pensado um bocado ultimamente no papel do homem em todos estes catastrofismos ecológicos e cheguei por mim mesma à conclusão de que algo anda muito errado e nós não estamos com esta bola toda, exercendo o poder de alterar profundamente o equilíbrio natural da terra, que segundo Crichton e muita gente boa nunca existiu... a natureza é o caos!!! a questão que o livro aborda é que este estado de medo em que vivemos - coroado pelo pânico do aquecimento global - é fabricado, e que o planeta simplesmente segue seu caminho atravessando diversas fases. muitas fontes afirmam que em vez de aquecimento há resfriamento, e que mesmo se o aquecimento acontecer corre o risco de ser benéfico para a maioria das nações, ao contrário do que se publica por aí. a idéia perigosa escolhida por vários cientistas na Edge aborda também este ponto de vista que vai contra o mainstream: é ilusão pensar que o ser humano tem todo este poder e o que acontece na vida real contradiz as campanhas da mídia. hoje mesmo no Globo li este artigo sobre o novo satélite que vem demonstrando as perdas da cobertura de gelo na Antártica e o avanço dos desertos na África. o problema é que antes destes poderosos não havia como medir com precisão a camada de gelo! comparar então com que? nosso bom senso na verdade nos faz acreditar que a terra está mesmo é esfriando, com as recentes tempestades de gelo no hemisfério norte e tal... e de acordo com Crichton o Saara está ficando verde! o importante aqui é que todos estamos contaminados pelo medo. como o livro afirma, vivemos numa época onde a saúde pública nunca foi tão boa, a longevidade avança, a comida é abundante (descontando, é claro, os bolsões de pobreza). e em vez de aproveitar a oportunidade e se sentir feliz a gente vive com medo de tudo, acredita que comida faz mal, os germes estão em todo lugar, a terra está esquentando, a água do planeta vai sumir em breve e tudo, com toda certeza, vai acabar muito mal. ainda por cima com todas estas aves doentes, a gente não escapa... outro dia me peguei admirando a beleza dos pássaros em formação no céu e me lembrando ao mesmo tempo que podiam trazer a morte... sabem, acho que a gente tem que se livrar desta síndrome. reaprender a encontrar o caminho da alegria, curtir a vida e deixar um pouco de lado este catastrofismo todo. a ecologia é importante para manter o nosso bem estar, numa atitude micro de preservar a vizinhança - algo assim como não deixar o cocô do seu cachorro contaminando a calçada, não fumar em ambiente fechado ou não engarrafar o trânsito viajando sozinho no seu carro - mas os ativistas macro tipo Greenpeace semeiam o pânico hoje em dia com um objetivo bem maior: o de arrecadar fundos, e muitos, sem se importar tanto assim conosco e nosso futuro; o meio ambiente virou um negócio bem lucrativo às custas da nossa insegurança... e esta sensação permeia tudo... a gente vive com medo de tudo: medo da solidão, medo de engordar, medo de ficar doente, medo de ficar na miséria, medo de morrer. e pior, medo de viver... a sabedoria oriental ainda não desbancada afirma que toda mudança começa dentro de nós... temos que reencontrar nossa capacidade de viver bem, sem tanta ansiedade, procurando ver o lado bom das coisas. está difícil, mas prometo continuar tentando! e dane-se o politicamente correto...