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Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
"A verdadeira sorte dos autores é que não há fracasso que não vire uma grande história. O que não aconteceu na vida pode virar arte." Fabrício Carpinejar para a Revista da Cultura





Minha alma é brasileira*

(confissões de uma apátrida inconformada)

Não nasci no Brasil. Verdade. Abraão e Eva deram um pulo em Israel e eu, ansiosa desde criancinha, nasci lá mesmo. Mas foi por causa do Brasil que antes de falar "mamãe" eu já enfrentava medo de avião, pendurada na cestinha de um DC-3. Eu era tão pequena, nem lembro. Tinha apenas um ano e três meses, foi assim que me contaram. Por falar em falar, minha primeira palavra foi mamãe. Em português.
Foi no Brasil que aprendi a andar. Na terra de mamãe, em Belo Horizonte, Minas. Foi lá mesmo, na Escola Israelita Brasileira, que os problemas começaram. No primário duas línguas se enfrentaram, mas oradora da turma foi em bom português que eu convenci. Depois disso, me entreguei. O ginásio foi no Colégio Estadual de Minas Gerais, brasileiro até na gravatinha. Foi lá que comecei a botar as manguinhas de fora, conseguindo um segundo lugar no exame de admissão. Minha especialidade? Português, claro. Vai ver é porque foi nessa língua que aprendi a escrever e a ler. A primeira redação a gente nunca esquece.
Daí pra frente só fiquei pior, cada vez mais caxias (não fosse Caxias um herói brasileiro). No vestibular eu já não aceitava ser segunda, fui primeira mesmo. Passei um ano tentando ser israelense, mas não deu muito certo: fui dispensada do exército por falar só português. Voltei à pátria amada, que até hoje não me quis. Amarguei um castigo longo porque aos vinte e um perdi a hora, não jurei bandeira como era praxe. Mas se alguém pedir agora eu juro. Juro. Juro qualquer coisa pra botar um verde no meu passaporte amarelo.
Quando papai morreu me mudei pra terra dele. Virei carioca. Estudei arquitetura na Santa Úrsula do Rio de Janeiro. Ué, e esta santa existe? A santa eu não sei, mas a Faculdade sim, em Botafogo, na Farani. Me graduei cum laude. Pois é, aprendi latim também, pra me virar melhor no português. E logo que me deixaram votar, votei. Nunca perdi eleição, sou fã de uma democracia.
Nunca tive emprego - não tenho carteira de trabalho - porque recém-formada eu já era empresária, dava emprego pra outros brasileiros. Botei meu palitinho na construção do Brasil. Fui comerciante, paguei imposto. Contribui um bocado para a formação de um design tipicamente brasileiro. Antes de mim mal se sabia o que era isso, o Jornal do Brasil que o diga. Fiz sucesso lá.
Hoje em dia não pago mais imposto. Ops! não é que eu sonegue, não, não, nada disso. É que resolvi ser escritora, e no Brasil tal profissão só põe comida na mesa de uns poucos. Não sobra muito pro estado, mas vocês não perdem por esperar. Me declarem brasileira que inda pago com o Nobel, meu amor por este país.

*um ataque de porquê me ufano pra ver se convenço o juiz. brasileiro remediado nunca perde a oportunidade de um bom texto.

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