Noga Bloga: a crônica cotidiana de Noga Sklar

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Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.
Frase do dia:
‎"Não há mesmo por que banir a subjetividade da escrita, já que a terceira pessoa e sua pretensão à neutralidade e à acuidade não são, em si, garantia de absolutamente nada."
Paulo Roberto Pires, para a Folha de São Paulo





Ano novo, site novo

Caríssimos,

Há 6 anos, em agosto, quando voltei com Alan dos Estados Unidos, recém-amarrada, com um notebook na mão e um desejo na cabeça, um amigo me sugeriu que eu começasse um blog.

— Blog? O que é isso?

O resto é história. Foram até hoje 2050 posts e 5 livros de crônicas, primeiro só aqui, depois dividindo o aluguel com o Porque a gente é assim e o Crônicas da KBR, ah, pois é, agora tem a KBR também.

O caso é que ralando, ralando, virei gente grande: serão 8 livros em março.

Noga agora já não Bloga: escreve de verdade.

E por isso os convido pra compartilhar comigo minha nova aventura, de site novo e tudo.

O Noga Bloga fica, aqui, para sempre, um testemunho e uma memória dos passos que trilhei em direção à maturidade literária.

Agora tô lá, ó: www.nogasklar.com.br

Espero vocês e tudo de bom!

O máximo bem

Abraão, meu pai, faria hoje 86 anos
“Deus às vezes tem muito de Blanche DuBois: é dependente da bondade de estranhos…”
Declaração do rabino no velho filme "Tenha fé", que muito a propósito assisti na TV

Meu irmão mais novo é uma pessoa boníssima, um bônus, se considerarmos sua inteligência, dedicação, capacidade de trabalho, tudo o que o torna um sujeito bem-sucedido e pai de família excelente. Teve e tem seus perrengues como todo mundo, alguns que ele conta e outros que não, nem pra mim, que sou sua única irmã. Meu irmão merece tudo. E tem.

Zila, uma das enfermeiras de mamãe, é uma pessoa boníssima. Sempre digo que as pessoas que se dedicam a esse tipo de trabalho são especiais, têm um algo a mais; embora sejam razoavelmente bem remuneradas, nada justifica o amor àquele paciente por vezes endemoninhado, intratável e agressivo, substituindo, e com vantagem, os familiares incapazes de tal tratamento, digo, de amar assim, doar-se assim, assim eclipsar-se de qualquer julgamento junto à pessoa querida que já não reconhecem mais, porque, cá entre nós, não a encontram mais. Zila e Fátima merecem tudo. Nem sempre têm.

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Meu reino por um peru

“Mas Thanksgiving é uma festa religiosa, Alan?”, pergunto ao meu marido americano de sete anos, que me encomendou para este novembro um jantar especial. Tá certo. Mútuas ameaças de morte à parte, ele merece. Em algumas ocasiões, como o Dia de Ação de Graças e o 4 de julho, por exemplo, ele fica tristinho, coitado, acabrunhado, com saudade dos filhos — é o que ele diz, mas tenho pra mim que é mais por causa da comida, mesmo: o indefectível churrasco público da Independência, que não dá pra substituir pela feijoada de sábado nem por decreto… e o peru de Thanksgiving, com purê de batatas e cenouras carameladas, tá bom, não custa nada, vai. Tudo pra me redimir do meu endêmico esquecimento, nunca me lembro nem de Valentine’s, imaginem do Dia de Ação de Graças, para mim como um outro qualquer, é a tal idiossincrasia cultural, sabem como é.

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Está escrito

Ok. Sete anos esta semana que Alan e eu nos encontramos pela internet, jogadas de Hierosgamos e tudo o mais, muitas crônicas, livros e depoimentos compartilhados, ah, quase enjoei: sete é conta de mentiroso, ou é ano de crise emocional, digam aí vocês. Mas a coisa interessante disso tudo, vamos combinar, é ver como ao longo dos anos os fatos não mudam, mas minha visão sobre eles, sim. Radicalmente. E hoje, particularmente, o mundo anda tão perturbado e demente que não sobra tempo para nossos comezinhos relatos de encontro e conflitos deprimentes, que espaço seria dedicado às circunvoluções de nossos umbiguinhos num mundo em constante ebulição como o nosso? Nem Proust, honestamente.


Para ler na íntegra: aqui, e aqui.

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Sem essa, aranha.

Não sei se foi por todo o gênero aracnídeo ter se ofendido com meu comentário paulista, digo, na Paulista, onde a uns meses atrás, sem grandes sensibilidades de artista, enfiei tudo que é ultrapassado e derrotista na mesma teia fatalista… Terei comido alguma mosca, eu? Francamente.

Pois hoje a mosca sou eu, e sendo comida, imaginem. E não se trata daquela mosquinha curiosa que qualquer expoente do ramo daria tudo pra ter sido nesta madrugada de domingo, vamos combinar, voejando para especular o que acontece de fato por trás das telas sensacionalistas, enquanto a nossa polícia, bota aspas, pacifica, fecha aspas, a mais importante das favelas cariocas — aquela, que no início de minha carreira de cronista eu via de todas as janelas do apartamento em guerra constante sendo combatida, sem excluir a bala perdida, claro.

A coisa é tão importante que pela primeira vez neste blog, ops, livro, deixei para escrever a crônica no calor dos acontecimentos do próprio domingo, nada da já enjoada ficção mofada das sextas-feiras.

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O consciente coletivo

Se tem uma coisa que me interessou, e está me interessando, nessa biografia autorizada de Steve Jobs que estou lendo, não é, certamente, a bipolaridade mais amplamente festejada das várias últimas gerações — pois é, imaginem, com toda a propagada prepotência, o guru da era conectada permitiu a uma terceira parte interessada mostrar ao mundo quem realmente era a mente por trás da pecaminosa mordida do conhecimento, isto é, da maçã, já sem a carga do pecado —, um merda ou um gênio? E a que preço?

A gente descobre, depois de algumas poucas páginas tediosas recheadas de detalhes para geeks que parecem não terminar nunca — merda, mais um travessão: Jobs não era exatamente um versado em tecnologia, mas um gênio da mercadologia, marketing, para os íntimos, ao contrário de Bill Gates, um nerd típico cujo maior defeito é nunca ter se drogado realmente, digo, nunca ter deixado a consciência esvair-se num patamar mais elevado do que normalmente (é o que eles dizem) —, que se trata na verdade da história empolgante de como uma mente delirante, ao decidir apagar do entorno de si qualquer detalhe prejudicial ao seu projeto mirabolante, por mais concreto que este impasse seja, consegue mesmo materializar o que antes existia somente em seu mundo imaginário, é isso aí.

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O ganhapão e sua paga

O coelho capota em seus pesadelos. O coelho capota em seus pesadelos. O coelho capota.
Marcelo Mirisola, Charque

Taí. Alguma vantagem tinha que ter esta vida de editora, dura, porém, muitas vezes compensadora, gente, eu rimo, sim, mas não é por mal. É pro bem, bem de quem não tem (aptidão pra rimar, sabem como é).

Eu rimo, e conto pra vocês por que: primeiro, claro, porque assim me ocorre, flui, e quem segue o fluxo não morre (ui); segundo, porque, vocês sabem, embora eu renegue o fato, e o seguirei renegando até o último suspiro, sou bruxa, e todo encanto cravado, para alguns, feitiço armado, baseia-se numa premissa muito simples: a rima. Podem conferir.

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Kadafalso, o falso poder que nos comove

Dilminha reclamou. Obama aprovou. Hillary adorou. E eu… Bem. Entre os três meu coração balança. Não cai por nenhum.

Nossa Dilma, todo mundo sabe, tem que honrar, custe o que custar, a espúria tradição de poder petista, afinal de contas Lula já tinha afagado em público o facínora agora morto lhe apertando a mão, a mão suja, suja de sangue, digo. Do sangue sabe-se lá de quantos milhares de inocentes, alguns deles reconhecidos devidamente, e com o maior orgulho demente. Francamente. Nunca pude engolir, mal consigo pronunciar seu nome: falo daquele atentado absurdo em Lockerbie, Escócia, que inaugurou na década de 1980 a nova maldição a bordo de um avião — uma guerra suja também, imunda, sentença de morte contra cidadãos americanos sem culpa nenhuma que conheceria seu auge poucos anos depois pra todo mundo ver. Ao vivo. E pela tevê.

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Os idos de outubro

Alan chega para o café vestido de moleton da cabeça aos pés: malha de manga comprida, calça também comprida e meias, sei lá por que, nem no auge do inverno ele gosta de se vestir. Vou logo criticando o figurino incomum, eu critico tudo, certo, mas estamos em meados de outubro e o horário de verão acaba de começar, é o Hemisfério Sul, sabia, querido? Ele não quer saber, não é o calendário que lhe diz como viver, sentiu frio e pronto, eu que sou menopausada que me entenda com as minhas camisetas molhadas, e tome de aquecimento em nosso quarto, pô, peraí.

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Clubinho do silício

A pergunta está em todo lugar, basta se ligar: “Como o incrível Steve Jobs marcou sua vida?”

Pois é. Steve Jobs faleceu recentemente e eu também gostaria de comentar, de ter uma homenagem sincera para prestar, mas estou perdida, desesperada com dois ou três vídeos gravados ao vivo no meu tablet espetacular, que não consigo de jeito nenhum tirar de lá, burra, eu, enquanto procuro frenética na web um santo driver para baixar… Meu Deus, não consigo fazer essa coisa funcionar!

É, vamos combinar, coisa demais pra me preocupar; chego à conclusão de que, se é pra marcar, Jeff Bezos, com a complexa simplicidade em tudo que ele nos traz, me marcou muito mais. Steve Jobs mudou o mundo, mas foi a invenção do Kindle que mudou o meu mundo. O resto ficou complicado demais, e se complica cada vez mais.

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Recordar é trair

Alan sentado à mesa de jantar discorre longamente sobre a morte do homem condenado por seu apego ao chip de computador, segundo ele fim inevitável, pra dizer o mínimo, de nossa vã civilização conectada, a toques de vírus que a custo sobrevivem dentro do cérebro de alguma lagarta da qual se alimentam até que a matam, simbiose perfeita, enquanto a minha mente rarefeita se solta e vagueia à revelia do timbre de voz — impositivo e titubeante em um só movimento — que me condena, permeia, é, já amei este homem, amo ainda, quem sabe, mas ando exigente, intrépida, em ponto de fuga.

Pois é. Essa mania de pública vivência nos engessa a vida, cá entre nós. Como confessar um delírio que por si já nos intimida, e ainda por cima confessá-lo assim, cândida e globalmente?

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Yom Kipur à la carte

Acabo de receber um convite para o jantar anual de Rosh Hashaná (ano novo judaico) em família na próxima quarta-feira. Não pretendo comparecer.

Estou muito ocupada para ir ao Rio, uma premissa, claro, já de antemão equivocada, pois o objetivo primário de qualquer ato litúrgico, ou data tradicionalmente festejada — da mais singela, como o domingo (no caso judaico, já que estamos falando nele, o sábado), à mais sagrada, como o Yom Kipur aí do título —, é justamente este: nos tirar da rotina massacrante, do hábito prejudicial e impactante de fugir dos problemas, dos prazeres, dos questionamentos, do que for que nos mergulhe num cotidiano mais desafiante, nos entupindo de coisas para ter e fazer, ufa. Já cansei só de escrever.

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Meu vício, desde o início

Pois é. Toda crise tem multifacetados lados, todos borrados, como um falso brilhante nublado em cujo bojo quebrado já não se reflete nenhuma luz, que bela oportunidade para um colapso tenebroso, hein?

Vai daí que percebi, um pouco tardiamente como sempre costuma acontecer, que tinha entrado num redemoinho ascendente daqueles que carregam a gente sem que haja defesa contra tantos possíveis destinos deprimentes, um país das maravilhas bem ao contrário de todos os sonhos de Alice, sabem como é. A gente se vê demente, sob o jugo de paradoxos doentes.

Reconheço. Nem todas as drogas em uso no mercado estão catalogadas como produto de cuidadosas reações químicas quantificadas, pois é: algumas delas se reproduzem vorazmente como descontroladas combinações, lucubrações detrimentais contra as quais mal se defende a consciência esperta, pobres de nós, banais.

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Androcrises, ou... ando em crise

Mal amanhece o domingo de sol (se estiver chovendo, por favor, não liguem: todo mundo sabe que escrevo esta crônica às sextas-feiras) e já vou recebendo a primeira chapuletada do dia, antes mesmo de sair da cama e com os olhos ainda semicerrados, sonolentos: “Ah, é domingo, dia de perder tempo com o seu ego inútil escrevendo aquele monte de besteiras que ninguém quer ler.”

Pois é. Fala-se muito na mídia das crises hormonais de toda mulher, coitadas de nós, fala sério: entra conquista e sai conquista, continuamos sendo vistas como mera gangorra emocional — TPM, menopausa e algum outro bicho-papão de que se possa ter notícia futuramente —, para além de nosso (im)possível e falho controle mental, fazer o quê. Sábias, caladas e contritas por hábito e educação, fazemos de nossos problemas o tema de nossa tediosa expressão primordial — para os íntimos, a mais que vilipendiada “literatura mulherzinha”, vida mulherzinha, é isso aí.

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Meu livro de minutas

Estamos subindo a serra de volta do Rio. Já é noite, a estrada coalhada de caminhões gigantescos. Um deles leva na carroceria dois outros caminhões gigantescos, dando à longa sequência de luzes uma atmosfera pesada, opressiva. De pesadelo. Estou tensa, devo confessar. Passando em revista os últimos e intensos dois dias fora do nosso paraíso habitual, do banco do carona Alan sugere que eu comece ali mesmo a escrever o meu “livro de minutos”, mas como? Que livro? E ainda por cima dirigindo, sem computador, papel ou caneta?
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